Pink Floyd – At Pompeii MCMLXXII [2025]

Por Mairon Machado
Depois de 43 anos, eis que finalmente o famoso show do Pink Floyd em Pompeia foi lançado oficialmente em formatos de áudio (LP e CD). Gravado entre 3 e 7 de outubro de 1971 (exatamente há 55 anos), no famoso anfiteatro romano da cidade Italiana soterrada pelas cinzas do vulcão Vesúvio, no ano 90 d. C., a apresentação de David Gilmour (guitarra, vocais), Roger Waters (baixo, vocais, percussão), Rick Wright (teclados, vocais) e Nick Mason (bateria, percussão) ficou eternizada nas telas mundiais através do filme Pink Floyd At Pompeii, de 1972, e que saiu ao longo dos anos nos formatos VHS, DVD, Laserdisc e Blu-Ray.
Porém, para quem queria apenas ouvir o show, existiam somente vinis e CDs bootlegs, em uma quantidade infinita, mas o Floyd recusava-se a lançar algo oficial. Até que ano passado, At Pompeii MCMLXXII veio definitivamente para agradar os fãs, e preencher um grande vazio na discografia dos britânicos. O álbum foi lançado em CD e LP duplos, e possui exatamente o mesmo track list do famoso filme de 1972.

“Pompeii Intro” no filme serve para apresentar os participantes do espetáculo (no caso os nomes dos músicos e demais envolvidos no projeto), e aqui, são apenas batidas e barulhos de sintetizadores, que levam à “Echoes (Part One)”, uma performance fantástica do Pink Floyd para a linda suíte de Meddle (que havia acabado de ser lançado). A versão apresentada pelo quarteto nas ruínas de Pompeia é muito fiel ao que foi registrado em estúdio, sem tirar nem pôr, mas uma coisa que fica clara já na audição é que ver as imagens da apresentação impacta bem mais do que apenas ouvir. De qualquer forma, é uma bela versão, onde a harmonia vocal entre Wright e Gilmour é encantadora, assim como Gilmour também brilha em seu solo, com uma poderosa camada sonora comandada pelas viradas de Mason e a marcação do órgão e do baixo.
Mas, como no filme, “Echoes” é encerrada abruptamente após o “reggae” que conduz o segundo solo de Gilmour, começando então “Careful With That Axe, Eugene”, a qual está próxima do registrado em Ummagumma (1969). Uma faixa soturna, onde os berros de Waters emulando Eugene são apavorantes, e também merece destaque Mason, que particularmente faz uma de suas melhores performances da carreira em Pompeia, como também podemos comprovar em “A Saucerful Of Secrets”. Outra faixa bem próxima ao que foi registrado em Ummagumma, tem em suas duas partes uma distinção muito clara musicalmente.

Enquanto a primeira é uma viagem ácida por solos improvisados de Gilmour sobre as batidas violentas de Mason, a segunda é uma bela balada onde os vocais angelicais de Gilmour se sobressaem e emocionam, diferenciando da versão de Ummagumma exatamente nessa segunda parte, já que os vocais apresentam-se apenas em uma única estrofe, e não em duas como no disco de 1969. Novamente, ver a apresentação é bem mais impactante do que apenas ouvir, seja por entender como Gilmour arranca tanto barulho de sua guitarra (esfregando o slide impiedosamente sobre as cordas e apertando tudo que é botão de seus pedais), seja por Wright espancando seu piano, seja pela performance inesquecível de Waters espancando o gongo sob a luz do Sol de Pompeia. Porém, ouvir a segunda parte, com o órgão de Wright brilhando, e a já citada voz de Gilmour, é arrepiante, numa das melhores versões já registrada dessa canção.
Seguimos por “One Of These Days”, bem fiel à versão de Meddle, e com mais um show por parte de Mason, ao mesmo tempo de como é bom ouvir o Floyd capaz de experimentar sem medo, o que também ocorre na sensacional “Set The Controls For The Heart Of The Sun”, também similar ao que ouvimos em Ummagumma, destacando os fantasmagóricos teclados de Wright, o vocal sussurrado e soturno de Waters, que também espanca o gongo sem dó. Musicaço! Passamos então por “Mademoiselle Nobs”, uma versão inicial para o que viria a ser “Seamus”, ou seja, um blues comandado pela cachorrinha Nobs (isso mesmo, é uma cadelinha que ‘canta’ a música, mostrando mais uma vez a liberdade criativa do Floyd) enquanto é acariciada por Wright e incentivada pela gaitinha de Gilmour, e o CD 1 encerra-se com “Echoes (Part Two)”, pegando então a suíte a partir do fim do reggae de “Echoes (Part One)”, com os ‘baulhos de baleia” advindas da guitarra de Gilmour, e todo o trecho final.


No CD 2, temos uma versão não editada de “A Saucerful of Secrets”, onde a introdução da primeira parte é bem mais longa, tendo a faixa no total quase 13 minutos (em comparação aos 10 minutos do CD 1) e uma tomada alternativa para “Careful With that Axe, Eugene”, sem tantos berros por parte de Waters, que não acrescentam muito no conjunto final da obra. Acompanha a mesma um pequeno livreto de 12 páginas com imagens da banda, das gravações e informações técnicas. Penso que At Pompeii MCMLXXII poderia ter corrigido o erro de separação de “Echoes”, tornando-a uma única peça, que ficaria ainda melhor de ser apreciada do que as peças dividas lançadas originalmente. Mas esse errinho é pequeno, e cabe agora apreciar essa que é uma das melhores apresentações da história do Floyd, com uma excelente qualidade de mixagem e masterização. E se puder conseguir a versão em vídeo, melhor ainda.

Track list
CD 1
1. Pompeii Intro
2. Echoes (Part 1)
3. Careful With That Axe, Eugene
4. A Saucerful Of Secrets
5. One Of These Days
6. Set The Controls For The Heart Of The Sun
7. Mademoiselle Nobs
8. Echoes (Part 2)
CD 2
1. Careful With That Axe, Eugene (Alternate Take)
2. A Saucerful Of Secrets (Unedited)

Uma “Echoes” ininterrupta poderia ser colocada como bônus no CD 2, tinha espaço de sobra… O filme eu tive em VHS e agora em DVD, assisti até quase gastar. A performance de Nick Mason é fora do comum, considerando que ele era um baterista normalmente muito discreto, e eu e um amigo que tocava bateria gostávamos de assistir “A Saucerful of Secrets” diversas vezes em sequência por causa do escândalo que ele faz na música, acompanhado de vinho baratinho (tempos de universidade e VHS, hehehe). Nunca entendi porque a banda demorou tanto para lançar o áudio, mas antes tarde do que nunca…