Maravilhas do Mundo Prog: Poços & Nuvens – Poços E Nuvens [2001]

Maravilhas do Mundo Prog: Poços & Nuvens – Poços E Nuvens [2001]

Por Micael Machado

Conheci o grupo gaúcho Poços & Nuvens quando eles fizeram o show de abertura para a banda holandesa Focus no tradicional Bar Opinião, em Porto Alegre, no ano de 2003. Dois anos antes, o sexteto da cidade de Santa Maria (formado, à época, por Edgar Sleifer nas guitarras, flautas, viola e vocais, Gerson Werlang nos vocais, guitarras e teclados, Sávio Werlang nos teclados e gaita, Iva Giracca nos violinos, Irvin Faller no baixo e Rafael Bisogno na bateria) havia lançado seu segundo registro de estúdio, intitulado Província Universo, o qual saiu pelo selo brasileiro Rock Symphony em 2001. O álbum possui várias faixas recomendáveis, como a variada “Copla”, a “tecladeira” de “Vega”, a “crimsoniana” “Incenso E Chuva”, as mais calmas “Vindima E Ventania” e “Noites Nas Ruas”, e até toques da música tradicional gaúcha em “Milonguita” e “No Inverno”.

Mas, para mim, um dos maiores destaques não só deste disco, como da carreira do grupo, é a faixa que dá nome à banda, e que, em pouco mais de sete minutos, é capaz de contar uma estória completa através apenas do instrumental (embora tenha letras ao longo de sua duração), usando o arranjo da composição e os diferentes instrumentos que o sexteto utiliza para descrever uma típica tempestade de verão que surge, desaba de forma avassaladora, cessa – deixando no ar aquela sensação agradável de um clima ameno e o cheiro de terra úmida – e logo volta a cair, em um “ciclo” eterno que “não cessa jamais”, como diz a letra da canção.

A faixa em questão inicia apenas com a guitarra de Edgar, em um riff “nervoso” e “agitado”, que, na analogia que faço com a tempestade, significa o surgimento das primeiras nuvens de chuva no céu. Ainda nos primeiros segundos da canção, os teclados surgem em um clima “ameaçador”, representando a aproximação das nuvens, cada vez mais perto de onde o ouvinte se encontra. Baixo e bateria se juntam então ao arranjo, representando os trovões que anunciam a enxurrada, e, aos trinta segundos, após um “crescendo” que vai causando uma certa angústia (e até um desconforto) no ouvinte, a música parece que vai parar, apenas para ver surgir uma melodia veloz e intrincada por parte do violino, representando a chuva que cai de forma intensa. Edgar canta que “Hoje o sol espera / Sobre as nuvens negras”, nos mostrando que estamos no meio da tempestade, que continua a cair impiedosamente, com Edgar proclamando “Tempestades… Nuvens negras… Temporal”, antes dos teclados assumirem o centro da música, como se a chuva fosse acalmar naquele momento.

A banda Poços & Nuvens retratada no encarte do CD: Sávio Werlang, Gerson Werlang e Iva Giracca (acima), Rafael Bisogno, Edgar Sleifer e Irvin Faller (abaixo)

Mas esta “calmaria” logo passa, e a guitarra toma o centro das atenções, com linhas ainda mais velozes que às que o violino havia feito, indicando que a chuva intensificou de intensidade. Como a provar isto, o violino retorna, representando o ponto mais intenso da tempestade, com a banda também mantendo o andamento em um ritmo acelerado. Após pouco mais de três minutos da composição, temos a repetição da melodia onde antes Edgar cantou o “Tempestades… Nuvens negras… Temporal” que parecia anunciar uma calmaria, e o violino fica então sozinho no áudio, com Iva tocando o instrumento com os dedos, corda a corda, lentamente, representando os últimos pingos de chuva que caem, com a flauta de Edgar surgindo então pela primeira vez na música, indicando o final da enxurrada.

É a flauta quem guiará a melodia da composição pelos próximos minutos, em um clima leve, alegre e quase pastoril. Em certo momento, a guitarra surge dedilhada lentamente, como a indicar que alguns pingos ainda caem do céu, e Edgar canta que a “Luz se refrata / Na chuva que cai”, ou seja, ainda que restem alguns resquícios da chuva, o tempo “abriu”, e um arco íris surgiu no horizonte. Com a volta do sol, retorna também a alegria no “céu que se abre / Na espera de chegar / A volta das águas“, como diz a música.

Mas esta alegria não durará para sempre, e, aos seis minutos e trinta segundos de duração, a guitarra reaparece fazendo o mesmo riff “nervoso” e “agitado” da introdução, com Edgar cantando que “entre poços e nuvens / o ciclo das águas não cessa jamais…”, ou seja, a sina das águas é estar no solo (ou nos “poços”, como indica a banda), evaporar, esfriar, liquefazer e voltar a cair ao chão, para de novo evaporar e reiniciar um ciclo que “não cessa jamais” enquanto o mundo for mundo (ou enquanto a humanidade não acabar com ele…). Baixo e bateria repetem o mesmo andamento da introdução (representando a volta dos trovões, e o retorno da chuva), e a música termina no mesmo “crescendo” “incômodo” de seu início, no momento exatamente anterior à volta da tempestade (que ocorreu no início da faixa, e que voltará a acontecer de novo e de novo até o final dos tempos).

Contracapa do CD Província Universo

A turnê de divulgação do álbum Província Universo, além de ter o grupo tocando naquele show de Porto Alegre que citei no início, também levou o Poços & Nuvens a uma excursão pelo país e pela América Latina, resultando no disco ao vivo Live In Mexico, gravado no conceituado Festival Baja Prog em 2004, mas só lançado em 2012, mesmo ano que viu o lançamento do CD e DVD Clouds On The Road, gravado ao vivo na cidade fluminense de Niterói em 2005. Logo depois, a banda passaria por muitas mudanças de formação, com Gerson Werlang permanecendo como último membro constante neste período, chegando a lançar, em 2020, o disco ao vivo O Sol De Cada Um, registrado na cidade natal da banda, mas já com músicos totalmente diferentes daqueles que participaram dos discos citados acima, em um álbum que conta tanto com faixas da discografia do Poços & Nuvens quanto de outras presentes nos dois discos (até aqui) da carreira solo de Gerson. Depois de sair da banda, Iva Giracca viria a integrar a orquestra Camerata Florianópolis de Santa Catarina, além de fazer parte do sexteto catarinense de metal sinfônico No One Spoke, e de ter participado do primeiro álbum solo de Gerson Werlang, assim como o tecladista Sávio Werlang, que, depois do Poços & Nuvens, também passou a integrar o grupo gaúcho Transneptunia. O baterista Rafael Bisogno passaria, a partir da segunda década deste século, a integrar a banda solo de Humberto Gessinger, o ex-líder dos Engenheiros Do Hawaii, enquanto Edgar Sleifer seguiu uma carreira mais voltada à música clássica, atuando principalmente como compositor. Não consegui mais informações sobre a continuidade da carreira do baixista Irvin Faller, infelizmente.

A discografia do Poços & Nuvens pode ser curta, mas deixou algumas pérolas musicais aos fãs de rock progressivo, boa parte delas registrada neste Província Universo, álbum que completa um quarto de século neste ano de 2026, e que possui uma “maravilha prog” que mostra que, mesmo sem palavras, a música é capaz de contar uma estória e emocionar quem a ouve, através apenas da sensibilidade e talento dos músicos envolvidos.

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