Tralhas do Porão: Philamore Lincoln
Por Marco Gaspari
Quando entrou na sala de parto de um hospital da cidade de Sherwood, região de Nottingham, interior da Inglaterra, no hoje longínquo dia 20 de outubro de 1940, a senhora Anson mal sabia que daria à luz a quádruplos. E nem poderia imaginar, porque o que saiu de seu ventre foi apenas um garotinho pesando algumas libras e medindo não mais que cinquenta centímetros. Robert Cromwell Anson foi o nome escolhido para o garoto (o único não escolhido por ele), que não precisou esperar nem 15 anos para revelar seus talentos na bateria.
Foi quando entrou para a RAF (Royal Air Force), e passou a tocar numa banda de jazz com outros recrutas, que Robert Cromwell Anson deixou assumir a persona jazzista do segundo gêmeo dos quádruplos e decidiu se chamar Phil Kinorra, uma homenagem aos seus três ídolos bateristas: Phil Seamen (Phil), Tony Kinsey (Kin) e Bobby Orr (Orra). Como Phil Kinorra ele saiu da RAF, mudou-se para Londres no início de 1960 e marcou presença no circuito de clubes da cidade, tocando bateria em vários grupos de jazz e rhythm& blues e tendo como companheiros de bandas Tony Archer, Graham Bond e Brian Auger.
Depois de passar dois anos como baterista do Brian Auger Trio, Kinorra deu adeus ao jazz e saiu de cena, incorporando o terceiro gêmeo dos quádruplos, um mod encharcado de soul music chamado Julien (às vezes Julian) Covey. Como líder, cantor e baterista do Julien Coveyand The Machine, ele barbarizou a noite da incipiente Swinging London e pelo seu grupo passaram músicos como John Moorshead (ex Johnny Kiddand The Pirates e futuro Aynsley Dumbar), Pete Bardens e Dave Mason, só para citar os mais famosos. Entre suas façanhas, substituiu um acidentado Keith Moon em um show do The Who em 1967 e fez sua banda apoiar John Lee Hooker em suas apresentações em Londres. Queridinhos do movimento Northern Soul, Julien Coveyand The Machine gravaram um single de sucesso, cuja música “A Little Bit Hurt” foi até mesmo emulada por Kevin Ayers no disco de estreia do Soft Machine.
Quando 1968 chegou, Julien Covey já havia trocado de pele e assumiu seu lugar o último gêmeo dos quádruplos, um trovador psico-folk a la Donovan chamado Philamore Lincoln, com contrato assinado com o selo NEMS (fundado por Brian Epstein) e um single viajante na praça. Com a falência da NEMS no ano seguinte, Philamore e vários outros artistas foram transferidos para a CBS. E foi na nova casa que ele teve a oportunidade de gravar seu primeiro e único LP, um dos artefatos mais misteriosos do final da década de 60.
Começa que o disco, de nome The North Wind Blew South, apesar de ter sido gravado num estúdio de Londres por um artista inglês, só foi lançado nos Estados Unidos pela EPIC (braço da CBS). Olhar a ficha técnica é um exercício de frustração, pois não indica nenhum músico de apoio e sabemos que Anson/Kinorra/Covey/Lincoln era apenas cantor e baterista. A curiosidade fica por conta da foto da contracapa, feita por Chris Dreja, baixista e guitarrista dos Yardbirds, que também faziam parte do elenco da EPIC americana. Isso bastou para que, nos anos seguintes, os especuladores de plantão levantassem a lebre, infundada, de que os músicos da banda inglesa apoiaram Philamore na gravação. Na realidade, o único pássaro que piou no disco foi Jimmy Page, cujo trinado de guitarra na segunda faixa do lado A é um dos pontos altos do disco.
The North Wind Blew South é um verdadeiro sistema self-service de psicodelia soft. São 10 pratos finos à sua escolha e você pode se servir da sonhadora faixa título, dos cogumelos orquestrados de “You’re the One” (salpicados pelo tal trinado de guitarra de Page), dos ovos roqueiros de “County Jail Band”, do espaguete a Donovanesca de “Early Sherwood” ou dos metais na brasa ao molho de piano blues de “Blew Through”. Quem ficou com gostinho de quero mais foi Mary Hopkin que acrescentou seu toque pessoal à receita bossa nova da faixa “Temma Harbour” e emplacou seu terceiro single no sexto lugar da parada inglesa.
Nem é preciso dizer que pouca gente provou dessas iguarias na época e Philamore Lincoln foi obrigado a cozinhar sua carreira em banho-maria. Sua próxima experiência foi como produtor do álbum de estreia da banda Paladin, formada por dois ex-companheiros dos tempos de Julien Coveyand The Machine.The North Wind Blew South só foi relançado oficialmente em CD em 2010, o que garantiu a festa das edições piratas desta maravilha por quatro décadas. Nada mais se soube de Anson/Kinorra/Covey/Lincoln, mas de uma coisa ele não pode se queixar: viveu mais vidas do que a maioria dos mortais.

Conheci o trabalho de Anson/Kinorra/Covey/Lincoln numa época em que procurava descobrir coisas fora do mainstream, raridades dos anos 60/70. De cara, gostei do som do Philamore Lincoln. “The County Jail Band” é a minha favorita.