Dream Theater – Live in Tokyo, 2010

Dream Theater – Live in Tokyo, 2010

Por Micael Machado

De maneira bastante resumida e genérica, pode-se dizer que a série de discos “Lost Not Forgotten Archives”, do Dream Theater, foi criada para disponibilizar mundialmente, através do selo Inside Out Music, a “Official Bootleg Series”, uma série de 25 lançamentos (segundo o Discogs, entre CDs e DVDs) liberados pela banda entre 2003 e 2009 pelo seu próprio selo, o Ytsejam Records, reunindo apresentações ao vivo, demos e sessões de gravações de praticamente toda a história da banda desde quando ainda se chamava Majesty, em 1985, até as demos do disco Train Of Thought, de 2003. Com uma apresentação gráfica bem mais simples (geralmente os CDs são no formato digipak, sem encartes ou muitas informações técnicas) do que os da série anterior, os títulos da “Lost Not Forgotten Archives” acabam se tornando atraentes por disponibilizar estes discos também em vinil, muitos pela primeira vez, fazendo a festa dos colecionadores da banda. Desde que foi lançada, esta nova leva de discos também agregou novos tesouros retirados dos arquivos do grupo, muitos deles já com Mike Mangini na bateria, músico que passou a integrar o Dream Theater no final de 2010, portanto, depois de todos os registros da série original já terem sido lançados.

Com a volta de Mike Portnoy ao posto de baterista do grupo em 2023 (sendo a formação do quinteto completa, para quem ainda não sabe, por John Petrucci nas guitarras, John Myung no baixo, James LaBrie nos vocais e Jordan Rudess nos teclados), era natural que novos registros da época da primeira passagem do baterista pela banda viessem a ser lançados oficialmente. O primeiro deles foi Live At Madison Square Garden 2010, disponibilizado no mercado já em 2023, o qual traz a íntegra de um show gravado em julho de 2010 na famosa casa de espetáculos de Nova Iorque, onde o Dream Theater atuou como banda de abertura para o Iron Maiden. Um outro show deste mesmo ano, gravado em 8 de agosto no Summer Sonic Festival, na capital japonesa, foi lançado agora em março deste 2026, sob o título meio genérico de Live In Tokyo, 2010, nos formatos CD e vinil (em várias cores diferentes, como podem ver na imagem que abre esta matéria – isto lá fora, claro, pois, aqui no Brasil, o álbum foi lançado apenas em CD, no formato digisleeve, pelo selo Shinigami Records, sendo, salvo engano, o primeiro disco desta série – a “Lost Not Forgotten Archives” – a ganhar uma edição nacional – e que outros venham na sequência, peço eu!), compreendendo a apresentação completa do grupo naquela data, em pouco mais de 75 minutos de um disco que, a primeira vista, pode não ser tão interessante assim para o fã mais “ocasional” da banda (e existe alguém assim, ou somos todos fanáticos pelo grupo?).

Detalhe do “encarte” da versão importada de Live In Tokyo, 2010

Afinal, ao olharmos o track list, vemos que o mesmo compreende apenas seis faixas, e apenas uma delas pode ser considerada um “clássico” da banda, o qual apresenta parte de uma das músicas favoritas dos fãs interpretada, ainda por cima, de forma incompleta, “misturada” a outra das principais faixas da discografia do Dream Theater (me refiro ao medley “Pull Me Under / Metropolis”, que fecha o show, já no bis). Mas, analisando melhor a listagem das músicas, vemos que quatro delas fazem parte do disco que estava sendo divulgado então pelo grupo (o excelente Black Clouds & Silver Linings, de 2009, e um dos meus favoritos na carreira do quinteto), sendo que, das quatro, apenas uma possui uma versão ao vivo “oficial” com Portnoy na bateria disponibilizada em um outro disco ao vivo da turma (“A Rite Of Passage”, também presente no citado Live At Madison Square Garden 2010, sendo a única a aparecer nos dois registros, junto com “Pull Me Under”, que, naquele disco, aparece em sua versão completa). Duas outras faixas (“A Nightmare To Remember”, que abre os trabalhos, e os mais de vinte minutos da excepcional “The Count Of Tuscany”, para mim, o ponto alto deste show, e uma das melhores da carreira dos americanos, que encerra a apresentação antes do citado medley presente no bis) já haviam tido versões “ao vivo” lançadas oficialmente nesta mesma série de discos, porém, ambas contavam com o sucessor Mike Mangini na bateria (e fazem diferença a presença dos vocais “guturais” de Portnoy perto do final da execução da primeira, como na versão de estúdio, os quais nunca mais foram reproduzidos nas versões ao vivo com Mangini na bateria), e não com o músico que as gravou em estúdio. A quarta faixa do disco divulgado presente neste CD, a baladaça “Wither”, aparece oficialmente pela primeira vez em um disco ao vivo da banda, assim como “Prophets Of War”, faixa do disco Systematic Chaos, de 2007, que foi executada pelo grupo em alguns poucos shows entre 2009 e 2010, sendo esta a sua mais recente aparição ao vivo, segundo o site setlist.fm.

Como já é de conhecimento dos fãs da banda, pelo menos desde a entrada de Jordan Rudess o espaço para improvisos no meio das músicas não é tão extenso como em outras encarnações do Dream Theater. O que não significa que eles estejam ausentes por completo, e, aqui, estas “fugas do roteiro” ocorrem em um curto solo de teclados do próprio Rudess antes do início de “Prophets Of War”, em algumas passagens instrumentais de Petrucci na parte mais lenta de “The Count Of Tuscany”, e em uma espécie de “duelo” entre estes dois instrumentistas na parte instrumental de “Metropolis”, em algo que me lembrou a versão disponibilizada em outro registro da série “Official Bootleg Series”, o álbum When Dream And Day Reunite, de 2005, que apresenta um show gravado em Los Angeles no ano anterior. Mas esta falta de “novidades” na execução das músicas não serve, a meu ver, como um fator de desabono à qualidade da apresentação, afinal, a complexidade musical da maioria das faixas e a capacidade dos músicos de as reproduzirem fielmente sobre o palco é o que atrai muitos dos fãs para os shows do quinteto, assim como acontece (ou acontecia) com muitos “gigantes” do rock progressivo que já andaram sobre a terra, especialmente na década de 1970.

Contracapa da versão nacional de Live In Tokyo, 2010

Um outro fator que torna Live In Tokyo, 2010 um disco “especial” dentro desta série (além de, particularmente, a bolachinha servir como uma lembrança da primeira vez que vi o quinteto ao vivo, justamente naquele ano de 2010, em uma apresentação em Porto Alegre, felizmente, bem mais longa que a presente neste CD) é que ele registra a data final desta turnê de divulgação do disco Black Clouds & Silver Linings (como LaBrie anuncia antes do início de “Wither”), marcando também aquela que seria a última apresentação de Portnoy ao lado do Dream Theater até o seu já citado retorno ao grupo, em 2023. Foram, para os fãs, treze longos anos de espera, até a volta do baterista ao seu lugar “de pertencimento”, o lançamento do álbum Parasomnia, em 2025, e a turnê de quarenta anos do grupo, realizada entre o final de 2024 e o começo deste 2026. Daqui a alguns dias, em oito de abril, o grupo inicia no México uma turnê de divulgação do citado Parasomnia (que também celebrará o 30º aniversário do EP A Change Of Seasons), passando depois pela América Central e por alguns países da América do Sul, antes de chegar ao Brasil para uma série de seis shows, começando por Porto Alegre, no dia 03 de maio (meu ingresso para esta data já está garantido há meses), e terminando em Belo Horizonte, no dia 12 do mesmo mês. Dificilmente, alguma das músicas presentes em Live In Tokyo, 2010 fará parte do repertório de uma destas noites, mas, certamente, será uma apresentação inesquecível. Como o povo diz, “quem viver, verá”! Até lá, temos mais um belo disco ao vivo para ir “esquentando os trabalhos” antes de reencontrarmos o grupo sob as luzes dos holofotes em um palco, novamente!

Track List:

1. A Nightmare To Remember

2. A Rite Of Passage

3. Prophets Of War

4. Wither

5. The Count Of Tuscany

6. Pull Me Under / Metropolis

Um comentário em “Dream Theater – Live in Tokyo, 2010

  1. Dream Theater e Joe Bonamassa são dois que, se você tentar acompanhar todos os lançamentos de discos ao vivo, tem que trocar de casa primeiro para ter espaço (especialmente para quem pega as edições em vinil)! Piadas (infames) à parte, esse aí parece ser especial mesmo, preciso ir atrás! Valeu a indicação, Micael!!

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