Minhas 10 favoritas do Black Sabbath: as Eras dos outros vocalistas + 2 bônus track

Minhas 10 favoritas do Black Sabbath: as Eras dos outros vocalistas + 2 bônus track

Por Marcelo Freire

Na coluna Minhas 10 Favoritas do Black Sabbath aqui na casa, listei minhas favoritas da era clássica com o Ozzy Osbourne. Mas, como todo fã de Black Sabbath sabe, a história dessa instituição não termina com a saída do nosso saudoso Madman – na verdade, ela se expande para territórios em que o quarteto original jamais imaginaria pisar, ou melhor, que o britânico Anthony Frank Iommi Jr. jamais imaginaria, pois se tem alguém responsável por estarmos aqui, em pleno 2026, falando de uma banda que viu o fundo do poço no final da década de 70, esse homem é o rei dos riffs perfeitos ou, para nós, meros mortais, Mr. Tony Iommi.

A primeira coisa em que pensei foi no título – embora dê na mesma, dizer “sem o Ozzy”, que pareceria a escolha óbvia, diminui absurdamente a qualidade dos vários vocalistas que também estiveram nessa super banda; optei, portanto, pela expressão “com outros vocalistas”, em respeito ao excelente trabalho que temos com outras vozes neste que é, sem dúvidas, como afirma Mateus Ribeiro, do site www.whiplash.net, o grupo “criador do estilo musical que alegra nossas vidas, (…) responsável por discos que influenciaram basicamente todas as bandas que resolveram se aventurar no mundo mágico da música pesada”.

Se por um lado a 1ª fase com o Ozzy é fundadora, por outro a história do Black Sabbath não se encerra em um vocalista, mesmo que seja o mais icônico. Considerei para esta lista faixas com absolutamente todos os vocalistas que já passaram pelo Sabbath, e a lista do RH do Tony Iommi é, no mínimo, invejável. Ao escrever sobre cada um deles, a introdução ficou tão grande que desmembrei o texto e ele servirá de base para uma outra postagem exclusiva sobre os vocalistas do Sabbath. No entanto, obviamente, nem todos apareceram aqui (Tony Martin comparece com 4 músicas, bem como Ronnie James Dio – que detém, simplesmente, o pódio completo –; já Ray Gillen e Glenn Hughes dão as caras com 2 cada um). Ao término, gostaria de saber, roqueiro leitor, qual seria a sua própria lista.

A propósito, escolhi, além das minhas 10 favoritas da banda, 2 bonus track (sei que irão reclamar desse meu subterfúgio safado para poder escolher 12 músicas, mas como deixar de lado as baladas que só os outros vocalistas puderam implementar no Sabbath?). Reclamações, encaminhem ao nosso Ombudsman.


12. (Bonus track) “Feels Good To Me” – Tyr (1990), com Tony Martin 

“Feels Good To Me” sempre me pareceu uma música deslocada dentro do subestimado Tyr (talvez a palavra subestimado apareça com uma certa frequência nesta postagem), e isso não é um problema, pelo contrário. Tyr é um disco marcado por uma atmosfera mais épica e sombria, com referências mitológicas nórdicas explícitas, e essa faixa surge quase como um respiro inesperado no meio do caminho. Não é uma canção que tenta sustentar o clima geral do álbum, ela segue outra lógica e é isso que me faz gostar tanto dela. Não é o Sabbath tentando “soar moderno”; é o Sabbath admitindo que, sem o Ozzy, abriu-se espaço para outro tipo de composição. Musicalmente, estamos diante de uma belíssima balada em sentido amplo, mas sem o sentimentalismo óbvio que muitas vezes se associa ao termo. O destaque, para mim, está no trabalho de guitarra de Tony Iommi, especialmente no solo, que é, sem exagero, um dos mais bonitos de sua produção dos anos 80 em diante, bem construído e extremamente melódico – daqueles que ficam na memória sem precisar de pirotecnia. É um Iommi mais contido, mais preocupado em servir à música do que em reafirmar seu costumeiro peso, que também aparece na canção. Tony Martin também é peça central aqui. Além de contribuir com a letra, sua interpretação é direta, segura e muito afinada com o tipo de canção que o Black Sabbath passou a experimentar nessa fase. É uma música que dificilmente existiria com Ozzy, não por demérito, mas por natureza: a banda, sem ele, abriu espaço para outro tipo de abordagem vocal e melódica, e “Feels Good To Me” é um bom exemplo disso. Colocá-la como bônus nesta lista faz sentido justamente por isso. Não é uma faixa que represente o “Sabbath típico” no imaginário popular, mas ajuda a entender como a banda, em um momento complicado da carreira, ainda buscava caminhos diferentes sem abandonar parte de sua identidade. Goste-se ou não da canção, ela diz muito sobre o que o Black Sabbath era – e tentava ser – no início dos anos 90. Como curiosidade, assista ao videoclipe, no mínimo, peculiar, dessa faixa que também foi escolhida como single do álbum.


11. (Bonus track) “No Stranger to Love” – Seventh Star (1986), com Glenn Hughes 

Os anos 80 não foram gentis com os gigantes das décadas anteriores. Basta ver o videoclipe desta faixa: o nosso mestre dos riffs perfeitos parece tão deslocado quanto um peixe fora d’água tentando se arranjar com uma musa oitentista (a atriz Denise Crosby, de Star Trek – New Generation). Pois é a partir dele que quero construir a inclusão dessa lindíssima balada na minha lista. O videoclipe ajuda a entender o porquê dessa canção provocar tanta divisão: o vídeo abraça um romantismo meio exagerado, totalmente anos 80 se você também os viveu, mas que muito metaleiro de carteirinha não tolera quando o nome Black Sabbath é invocado. Mas, do ponto de vista desta lista, é exatamente aí que a música ganha valor: ela mostra o quanto o Sabbath pós-Ozzy não é uma linha reta, e sim um conjunto de tentativas, acertos e esquisitices que, vez ou outra, rendem coisas surpreendentemente boas – e que unem dois deuses dos bons sons: Tony Iommi e Glenn Hughes, outro que já passou por poucas e boas. “No Stranger to Love” é uma daquelas músicas que costumam ser tratadas como objetos não-identificados na discografia de um artista do heavy metal, mas sejamos honestos: Seventh Star é um disco que já nasce torto na origem… Era para ser um trabalho solo do Iommi, acabou saindo como Black Sabbath (com toda a pressão comercial e a crise institucional da banda naquele período), e isso, obviamente, se reflete no som. A questão é que, quando você aceita o Seventh Star pelo que ele é – talvez um Sabbath em modo hard rock, com outra temperatura e outra proposta, nunca soube definir esse álbum que parece que só eu gosto –, “No Stranger to Love” passa a fazer sentido. Ela é uma música mais direta, mais “single”, com um romantismo meio novelesco que muita gente rejeita por instinto, mas que, na prática, ajuda a explicar o que aquela formação conseguia entregar: canção, melodia e um tipo de dramaticidade que não depende do peso clássico do Sabbath. E aí, amigo, entra o Glenn Hughes. No papel, parece incompatível, mas na execução, ele segura a faixa com autoridade, porque o sujeito canta com um tipo de entrega que não é meio termo, é hard rock com alma, com fraseado e com uma teatralidade vocal que, aqui, funciona. Ninguém passa impune por bandas da estirpe de um Deep Purple, muito menos em sua fase áurea e com 2 obras-primas à tiracolo (Burn e Stormbringer). Assim como Iommi, foi mais um perdido pelos anos 80 tentando se encaminhar. E quer saber? Funciona justamente por isso, porque não é o “Sabbath típico” no imaginário popular, na verdade está muito distante disso, mas é um bom retrato do Seventh Star como documento de época: a banda tentando existir em meio ao caos, e o Iommi tentando salvar a marca (e a própria carreira) com as ferramentas que tinha naquele momento. E, de verdade, a música é linda! Só quem já curtiu aqueles anos 80 ouvindo-a nas boas FM’s do ramo depois de ter tomado um fora sabe por que ela merece estar nesta lista. Para quem não tem essa vivência no portfólio, sugiro que se enturme com o pessoal da Geração Z e sinta uma Anemoia (o que os alemães, desde o Romantismo surgido no século XVIII, chamam de Sehnsucht), termo hoje usado para definir um sentimento de saudade ou nostalgia por um período histórico, lugar ou experiência nos quais a pessoa nunca esteve ou nunca viveu. Tendo vivido ou não os anos (para alguns, nem tão) dourados dessa década, basta prestar atenção na expressão facial de Iommi no videoclipe após tomar o fora da bela garota, típica musa dos anos 80: a trilha sonora é essa.


10. “Evil Eye” – Cross Purposes (1994), com Tony Martin 

Pode falar o que quiser, mas Tony Martin possui um controle vocal de primeira linha e nessa faixa ele entrega uma performance contida, mas carregada de sensualidade. “Evil Eye” é uma pérola perdida em um álbum que, confesso, é um dos meus favoritos dessa fase tão subestimada. Essa canção tem um “groove” mais moderno, em sintonia inclusive com o grunge da época, e uma cadência arrastada que mostra um Sabbath antenado com o som mais pesado daquela década, sem perder a essência do riff clássico. Um detalhe que sempre me fascina nessa música é o toque de mestre nos bastidores: Tony Iommi e Eddie Van Halen mantinham uma relação de amizade desde quando o Van Halen abriu para o Black Sabbath na Never Say Die! Tour em 1978 (adiante, voltaremos a esse palco compartilhado pelas duas bandas). Nos anos seguintes, continuaram em contato, trocando mensagens até pouco tempo antes da morte de Eddie, em outubro de 2020.  Segundo Iommi, enquanto a banda trabalhava na faixa em estúdio, o integrante do Van Halen estava presente e, de maneira natural, teve a ideia para o solo – o qual até tentou replicar na gravação final. Por questões contratuais, Eddie não pôde ser creditado pela criação à época. E você sente essa energia quando ouve a faixa! O riff tem um balanço diferente, algo que convida o ouvinte a bater cabeça de um jeito hipnótico. Confira a história nesse vídeo. Além disso, sempre que ouço essa faixa, minha mente voa para um projeto hipotético: se eu tivesse o contato desses caras, sugeriria aos dois Tonys (Iommi e Martin) que saíssem em turnê com uma banda chamada Anno Mundi. O setlist seria focado exclusivamente na fase “esquecida”: The Eternal Idol, Headless Cross, Tyr, Cross Purposes e Forbidden. Para esse dream team dos sonhos, eu escalaria o Don Airey (Deep Purple, Rainbow, Ozzy Osbourne) para os teclados, Michael Anthony (Van Halen, Chickenfoot) para o baixo e o Tommy Aldridge (Black Oak Arkansas, Whitesnake) na bateria. Imagine o peso de “Evil Eye” nas mãos desse quinteto? Seria um massacre sonoro que faria justiça a esse capítulo – a Era Tony Martin – tão rico da história da banda.


9. “Glory Ride” – The Eternal Idol (1987), com Tony Martin 

Uma pancada deliciosa que carrega o DNA do metal épico dos anos 80! É fascinante comparar as versões: embora as gravações originais com Ray Gillen (que saíram oficialmente anos depois na Deluxe Edition) tragam uma levada mais crua, seca e pesada, a versão final com Tony Martin é a que realmente define a grandeza da faixa. Nessa versão oficial, os teclados de Geoff Nicholls criam uma atmosfera que permite à guitarra de Iommi brilhar com um tom mais melódico, em um riff que parece ter ficado guardado por cerca de uma década – se alguém me dissesse que é uma sobra de estúdio do Never Say Die! (1978), eu não duvidaria. O refrão é o ponto alto: os vocais de Martin alcançam um território melódico típico de “hino de arena”, com uma potência que faz justiça ao título da canção. Preste atenção no dedilhado de Iommi que sustenta o refrão; é um detalhe de arranjo emocionante que mostra como ele sabia ser sofisticado sem perder o peso. É, sem dúvida, um dos maiores tesouros da (já sabe, né? subestimada) fase Tony Martin, provando que o Sabbath ainda era capaz de entregar um material “arrasa-quarteirão”.


8. “Heart Like A Wheel” – Seventh Star (1986), com Glenn Hughes 

Se existe uma faixa que sintetiza a confusão e a subestimada genialidade da Era Glenn Hughes, é esta. Como sabemos, o Seventh Star deveria ser o primeiro trabalho solo de Iommi, mas a pressão da Warner/Vertigo forçou o selo “Black Sabbath” na capa. O resultado? Uma obra que muitos puristas rejeitam, mas que contém joias como este blues-metal visceral. “Heart Like A Wheel” é o que eu chamaria de o “Blues do Black Sabbath”. Embora o peso esteja lá, as raízes do gênero – que sempre estiveram na essência da banda desde os tempos de Earth – florescem aqui de forma explícita e madura. Assim como “Feels Good To Me” e “No Stranger to Love”, esta é um tipo de composição que somente existiria sem o Ozzy, pois exige uma elasticidade vocal que Glenn ‘The Voice of Rock’ Hughes entrega com uma autoridade absurda, flertando com o soul e o hard rock clássicos. E antes que o roqueiro leitor teça impropérios satânicos contra este que vos escreve, o que quero dizer é que certas músicas só foram possíveis graças à ausência do Ozzy, porém sem soar como uma crítica a ele, mas sim como uma celebração das novas possibilidades que a banda explorou (e olha que nem mencionei ainda a fase com o Dio…). Enquanto isso, um jovem Eric Singer já mostrava suas credenciais com uma bateria precisa e cortante. No centro de tudo, Iommi desfila solos e riffs matadores, carregados de feeling e técnica, reafirmando que, independentemente de qual nome constasse na capa, ele continuava sendo o mestre supremo das seis cordas.


7. “Headless Cross” – Headless Cross (1989), com Tony Martin 

Com o lendário e saudoso Cozy Powell (Jeff Beck, Rainbow) nas baquetas, o virtuoso Laurence Cottle (Eric Clapton, Alan Parsons) no baixo (Cotte nunca foi oficializado como membro da banda e foi substituído por Neil Murray na turnê) e o onipresente e igualmente saudoso Geoff Nicholls nos teclados (tecladista da banda por mais de duas décadas), o Black Sabbath entregou um álbum subestimado e sólido, que bebe na fonte do metal melódico sem abrir mão do clima sombrio que é a marca registrada do grupo. A faixa-título é o exemplo perfeito dessa fase: uma abordagem grandiosa que já se anuncia na introdução climática. “Headless Cross”, faixa que dá nome ao segundo álbum da era Tony Martin, é um hino pesado e atmosférico. A introdução épica leva ao riff potente de Iommi, enquanto Tony Martin entrega uma performance vocal que casa perfeitamente com a atmosfera da letra. É interessante notar como a sonoridade é “oitentista” no melhor sentido da palavra, com os teclados de Nicholls guiando a canção e conferindo uma profundidade que o Sabbath explorou pouco na Era clássica. É o tipo de música que prova que a banda sabia amadurecer sem envelhecer, adaptando-se ao som da época sem perder a sua alma oculta.


6. “Voodoo” – Mob Rules (1981), com Ronnie James Dio

Devo todo o meu amor por essa faixa à produção do saudoso e lendário Martin Birch, que já havia feito milagres no Heaven and Hell do ano anterior e que, no Mob Rules, conseguiu deixar a sonoridade ainda mais encorpada. Quando ouço pessoas argumentando sobre os altos valores que se cobram hoje nos vinis originais de época, eu costumo usar esse LP para justificar a necessidade de se ter um toca-discos. O som não é apenas alto, é pesado; não sei se “pesado” seria um adjetivo adequado, de tão surrado que é quando se trata de Black Sabbath… Talvez “denso” seja o ideal. Birch conseguiu capturar o que eu li certa vez em um comentário de YouTube dessa faixa: “o som do aço”, em que a guitarra de Iommi não apenas toca um riff cavalar, ela “corta o ar”, segundo a pessoa que definiu essa sonoridade (tenho essa anotação do que está escrito entre aspas aqui no meu caderninho, mas não registrei o nome do usuário, espero que ele me perdoe, mas sinta-se homenageado). O destaque para esse som que não consigo definir em palavras (e aceito sugestões nos comentários, roqueiro leitor) nesta faixa deve-se à dobradinha Butler/Appice. O baixo de Mr. Terence Geezer Butler é propositalmente sujo. Tony Iommi chegou a declarar em entrevista que, mesmo Martin Birch afirmando que não costumava trabalhar com baixistas do estilo de Geezer Butler, nenhum integrante do Sabbath precisou alterar suas formas de tocar: “Ele [Birch] não vinha do lado da composição, mas do lado da produção mesmo, o que foi bom. Foi um pouco de tentativa e erro entre nós dois, pois ele não estava familiarizado, em particular, com o som de baixo de Geezer. Martin trabalhou com baixistas de sonoridade mais limpa, enquanto Geezer tem sua forma particular de tocar, era uma grande parte do som do Sabbath.”. E complementa: “Tive que explicar a ele: ‘você precisa captar o som de Geezer da forma como ele está acostumado e não tentar limpar, precisa soar atrevido, como a guitarra, e os dois precisam se misturar’. Foi isso. E ele era muito bom em todas as outras coisas, adoro ouvir esses álbuns [Heaven and Hell e Mob Rules].”. Some-se a isso o ataque na bateria de Vinny Appice, que traz uma agressividade que o mestre Bill Ward, com sua pegada mais jazzística e suingada, raramente explorava. Appice não “toca” as músicas, ele parece as “golpear”, o que deu ao Sabbath uma potência necessária para o início dos anos 80. Gosto da origem da música também: enquanto muitos álbuns da época eram meticulosamente pré-produzidos, “Voodoo” nasceu de uma jam de estúdio. Iommi começou a tocar aquele riff monolítico, Butler e Appice colaram atrás com um peso absurdo, e o saudoso Dio, em um estalo de genialidade, improvisou as linhas vocais praticamente na hora. É o Sabbath em estado bruto, pois o clima nas gravações do Mob Rules não era dos melhores. Havia uma paranoia crescente sobre quem estaria mexendo nas mixagens durante a noite. Tony Iommi e Geezer Butler relataram, seja em entrevistas, seja em suas biografias, que sentiam que as mixagens “mudavam” de um dia para o outro, fazendo com que a banda acreditasse que o engenheiro de som (teria sido, se foi verdade, o próprio Birch?), fosse a mando ou não de Dio, estava favorecendo os seus vocais. Seja lá como for, é impressionante como essa tensão se traduziu em potência. Iommi entrega um solo cheio de veneno e muito mais rítmico do que o habitual. É o tipo de música que prova que o Sabbath com o Dio não era apenas sobre dragões e castelos, mas também sobre o peso do mundo real (a letra aborda o tema da manipulação psicológica, usando o vodu como metáfora, para o controle e a dominação sobre os outros), entregue com uma força que poucas bandas no planeta conseguiriam replicar.


5. “The Shining” – The Eternal Idol (1987), com Ray Gillen, presente na Deluxe Edition (2010)

Com todo o respeito a Tony Martin, que cantava muito (não à toa, empata com o Dio em quantidade de canções nesta lista), recebia críticas de todos os lados e segurou uma barra hercúlea para manter a banda viva, eu adoraria ter visto Ray Gillen em mais discos. A versão de “The Shining” na voz dele (disponível na Deluxe Edition) é a prova de que ele era um cantor diferenciado: Gillen tinha uma potência selvagem, uma identidade marcante e um controle absurdo das cordas vocais. Embora estejamos ouvindo um material que ainda receberia um polimento final de produção, a faixa soa pronta e visceral. A introdução de Iommi é simplesmente magnífica, um daqueles momentos em que o sujeito prova ter uma fonte inesgotável de ideias melódicas antes de descambar para o peso. Gosto da versão oficial com Tony Martin; no entanto, Gillen eleva a canção a outro patamar, com um alcance que faz justiça à grandiosidade que o Sabbath buscava no final dos anos 80 e que torna a canção fascinante de se ouvir. Para o ouvido atento, a diferença é interessante e qualifica ambas as versões: enquanto Martin entregava uma performance mais polida e quase operística, Gillen trazia a pegada típica do hard rock estradeiro dos anos 80 para dentro do som sombrio do Sabbath. É fascinante notar que o riff principal de “The Shining” é, na verdade, uma evolução de uma música chamada “Raised on Rock”, que Iommi escreveu para o projeto solo que não havia decolado com Ian Gillan, o que explica esse balanço mais rockeiro. O projeto “Who Cares”, que uniu ambos em torno das dificuldades do povo armênio, só aconteceria mais de duas décadas depois, em 2011 com um single e, em 2012, com um CD. Ou seja, é sensacional pensarmos nesse detalhe, pois mostra a economia criativa de Iommi: ele sabia que tinha algo bom em mãos desde a época do Ian Gillan (em 1983) e esperou o momento – e a voz certa – para lapidar esse diamante. À época, Gillen entendeu perfeitamente essa transição: ele canta de uma forma que não consigo explicar, mas me parece um jeito tão natural (para gênios como ele, claro) que faz a música soar menos como um esforço de estúdio e mais como uma jam session de luxo. É o retrato de um talento meteórico que, infelizmente, passou pelo Sabbath como um relâmpago, deixando apenas esse rastro de brilho, como fica evidente nesta verdadeira pérola de arquivo, que justifica a existência das edições de colecionador.


4. “Nightmare” – The Eternal Idol (1987), com Ray Gillen, presente na Deluxe Edition (2010)

Juro que não foi proposital deixar esses dois petardos da fugaz Era Gillen juntos – depois de peneirar entre 19 canções as 10 mais da lista, ao ranqueá-las, aqui chegamos. Musicalmente, esta é uma faixa que honra a tradição mais pura do Sabbath, com aquelas mudanças de andamento e ritmos que nos pegam de surpresa. Mas, além da música, existe o valor histórico e a saga de fã. Durante anos, nós, colecionadores, nos viramos com bootlegs de qualidade duvidosa, como o Ray Gillen Years, esperando por um lançamento oficial decente. Minha decepção com a Deluxe Edition de 2010 é que ela parece apenas uma masterização mediana de arquivos que muitos de nós já tínhamos. Ainda assim, há algo de magnético na crueza desses registros. Sem o polimento excessivo que viria a marcar as produções de estúdio do final dos anos 80, a performance de Gillen na faixa é matadora. Também sem desgostar da gravação posterior com Tony Martin, gosto mais desta, adoro a pancada da bateria mais seca e a guitarra de Iommi parece mais cortante do que na versão que foi para as lojas com Martin. É o retrato de uma banda em ebulição: enquanto gravavam, Gillen e Eric Singer já planejavam o Badlands com Jake E. Lee. Iommi, com a elegância de sempre, agradeceu por eles terem ao menos esperado o fim das sessões para anunciar a saída, ainda que, depois disso, tenha arranjado um novo cantor, o já não tão jovem e meio desconhecido Tony Martin, e mandado regravar tudo. Recomendado pelo produtor Jeff Glixman, Martin foi submetido a um teste rápido, impressionou Tony Iommi e finalizou o álbum em sete dias, garantindo sua posição e inaugurando a sua Era, que durou por quase uma década. É uma pena que a história de Gillen no Sabbath tenha sido tão conturbada, entre boatos de falta de pagamento, dificuldades com as letras e a formação secreta do Badlands. Independentemente do caos nos bastidores (que também envolveu outros músicos e os produtores), o que ficou registrado em “Nightmare” é o retrato de uma banda tentando se reinventar com um dos melhores vocalistas daquela década. É uma canção sombria, técnica e, acima de tudo, autêntica – só não chegou ao pódio porque, enquanto Gillen partia para buscar suas próprias ‘terras ruins’ (Badlands), o destino já havia reservado as três próximas posições para o homem que ensinou o Sabbath a conjurar trovões.


3. “Children of the Sea” – Heaven and Hell (1980), com Ronnie James Dio, presente na Dehumanizer: Deluxe Edition (2011)

A versão original de estúdio é um monumento técnico insuperável (que Deus o tenha, Martin Birch), mas confesso que curto absurdamente a energia dessas canções da Era Dio nos palcos. Entre as ótimas opções para esta faixa, destaco essa que veio na Deluxe Edition de 2011 do subestimado (preciso contar quantas vezes usei essa palavra nesta coluna) Dehumanizer. Para os colecionistas, ela também consta na versão Remaster (2023) do Live Evil (1982), identificada em ambas as reedições como gravada no Live in San Antonio (May 13th 1982), e que igualmente apresenta uma remasterização de altíssima qualidade, que supera a própria versão consagrada do álbum ao vivo de 1982. Também pudera: o dream team Dio-Iommi-Butler-Appice-Nicholls estava, como se diz no Nordeste, virado no cão. Ela me agrada pelo peso extra e por um andamento levemente mais arrastado, que confere uma aura ainda mais sombria à composição. Dio aqui está no pleno domínio de suas cordas vocais, cantando com um vigor e uma emoção que justificam por que ele é considerado por muitos (incluindo este que vos escreve) como um dos maiores da história. Dá para imaginar que estamos ouvindo a gênese de tudo?! Reza a lenda que essa foi a primeira composição da dupla Iommi/Dio, nascida em poucos minutos após o primeiro encontro deles em 1979. Que Dio e Iommi realmente se conheceram em um bar em Los Angeles (o Rainbow Bar & Grill) em 1979 e a química foi instantânea, isso é verdade. Talvez a história de que eles sentaram, pegaram um violão e terminaram a música ali mesmo, como se fosse um passe de mágica, é provavelmente exagero. Afinal, como sabemos, Iommi costumava ter riffs guardados… O mais provável é que ele tenha tocado um riff que já tinha na cabeça, Dio tenha encaixado uma melodia ali na hora, e eles tenham finalizado a estrutura básica no dia seguinte ou nos dias subsequentes. Mas quer saber? Ignore tudo o que eu disse para relativizar esse relato mitológico, pois quando a lenda supera a história, é melhor ficarmos com a lenda. Ouvir essa versão de 1982, especialmente com a remasterização que limpa o mofo das fitas originais, é perceber como o Sabbath havia se transformado. O que torna essa guinada tão impressionante é o contexto histórico (que de lendário não tem nada): no final de 1978, o Sabbath era uma banda em frangalhos na turnê do Never Say Die!, entregando shows erráticos nos quais mal conseguiam se olhar no palco. Também pudera, dentre outros problemas, Ozzy estava tão imerso em abusos de substâncias que, em vários shows dessa turnê, ele esquecia as letras de músicas que cantava há 10 anos! E, para piorar, os caras escolheram logo o Van Halen (com o primeiro disco na mão e sedentos por sangue) para abrir os shows. O resultado? O Van Halen “comia o Sabbath vivo” e os atropelava todas as noites. A crítica da época era impiedosa, dizendo que o Sabbath “parecia um dinossauro cansado sendo humilhado por uma banda jovem.” Tony Iommi relatou em sua biografia Iron Man: My Journey Through Heaven and Hell with Black Sabbath, lançada em 2011 (se você, roqueiro leitor, chegou até aqui em meu texto e ainda não a possui, compre-a, é obrigatória) que, no final da tour de 78, o som da banda estava “sem vida, sem foco e sem coração” e que eles “eram o retrato da decadência”. Ver a mesma base da banda entregando, em maio de 1982, ou seja, apenas três anos e meio depois, a precisão teatral e o peso cirúrgico que ouvimos nesta versão de San Antonio, é a prova de um milagre. O Sabbath não apenas voltou, ele se tornou uma entidade imbatível, e isso não é nenhum exagero: dá para acreditar que, em menos de 42 meses (se pegarmos o fim da tour do Never Say Die!, com o último show oficial da formação original antes da demissão do Ozzy que ocorreu em 11 de dezembro de 1978, no Albuquerque Civic Auditorium, no Novo México – ou seja, o último da 1ª Era Ozzy, e o show de San Antonio em  13 de maio de 1982, temos exatamente 3 anos e 5 meses), o Black Sabbath foi de uma banda que passava vergonha para a sua banda de abertura para o grupo que passou a ter um dos shows de metal mais potentes de todos os tempos, registrado no incrível álbum Live Evil (1982). Assim, ver e ouvir a mesma banda, com o mesmo guitarrista e o mesmo baixista em cima de um palco, entregando a pancada que ouvimos nesta versão de San Antonio, é a prova documental de que o Dio não apenas assumiu o microfone, ele salvou a instituição Black Sabbath e a guiou a um renascimento inacreditável – e que os demais presentes nessa celebração, Vinny Appice e Geoff Nicholls, eram mesmo as pessoas certas no lugar certo. Preste atenção, nessa gravação, no silêncio que precede o riff pesado após a introdução acústica e me diga se não é de uma tensão absurda. Dá para sentir a audiência na palma da mão de Dio. Para mim, esta é a versão definitiva.


2. “Lonely is the Word” – Heaven and Hell (1980), com Ronnie James Dio 

Eu insisto: acho que tem uma beleza nas baladas do Black Sabbath nas Eras dos Outros Vocalistas que o Ozzy não alcançaria – e olha que quem vos escreve é um devoto da seita dos ozzymaníacos. Se nas bonus tracks, com “No Stranger to Love” e “Feels Good To Me”, o Sabbath flertava com a balada FM e o AOR com certa elegância soturna, mas inegavelmente mais melódico e acessível, em “Lonely is the Word” o nível sai da órbita terrestre e se torna estratosférico. Existe uma distinção técnica fundamental aqui: esta não é uma “balada clássica” para acender isqueiros nos estádios (meu Deus, como estou ficando velho, hoje nem se entra mais com isqueiros em shows…), é um épico triste de tensão e melancolia pura. Enquanto o rock convencional entrega nas baladas canções lentas para descansar o ouvido, o Sabbath entrega uma peça é tensão pura. A distinção reside na estrutura. O riff de Iommi não é um acompanhamento, é um lamento que prepara o terreno para a performance mais técnica e emocionante de toda a carreira de Ronnie James Dio. Mesmo sendo um fã incondicional do Ozzy, preciso ser honesto: o que o Dio faz aqui está anos-luz à frente em termos de controle e alcance. Ele não canta sobre a solidão, ele personifica o isolamento. E o que dizer do solo final de Iommi? É, possivelmente, um dos momentos mais inspirados de sua vida. É um solo que não tem pressa de acabar, que vai crescendo em camadas e nos mostra que o rei dos riffs perfeitos também é o mestre do feeling absoluto. É o Sabbath provando que podia ser sofisticado, triste e brutalmente pesado ao mesmo tempo. Medalha de prata com honras de ouro.


1. “The Sign of the Southern Cross” – Mob Rules (1981), com Ronnie James Dio

Até meados dos anos 90, eu era daqueles típicos roqueiros “Não ouvi e não gostei” em relação ao Black Sabbath sem o Ozzy (ou com outros vocalistas, vá lá). Aí, certa feita, lá pelos idos de 96, 97, na casa de um amigo, estávamos curtindo um som quando a então namorada dele (hoje ex-esposa, como são as coisas…) veio me provocar dizendo “Vamos encher o saco do Marcelo, pessoal!” e surgiu lentamente com o LP Mob Rules pela sala. Lembro-me de ter praguejado algum impropério do tipo “Vocês são uns traidores, Ozzy sim é a voz do Black Sabbath” e levantei-me para ir à cozinha pegar uma cerveja nova. Graças a Deus ela fez questão de aumentar o volume para me atormentar ainda mais, pois ouvi em alto, límpido e bom som sair aquele dedilhado inicial das grandes caixas JBL L100 (originais importadas de 1970) com o vinil rolando no toca-discos Technics SL-1200 (que meu amigo, feliz por ter recentemente conseguido comprar um original também, praticamente novinho em folha, estreava naquela ocasião) e potencializados pelo amplificador Marantz 2230, sonho de consumo de 10 em cada 10 caras da nossa turma. Ele morava em uma casa com um belo quintal e era uma fria e agradável noite de lua cheia. A cozinha dava para esse quintal e fiquei ali, estático, ouvindo essa música. Depois de uns 30 segundos, dando o primeiro gole na cerveja, ouço o vocal de Mr. Ronnie James Dio com uma suavidade que mexe comigo até hoje: “If there isn’t light where no-one sees / Then how can I know what you might believe? / A story told that can’t be real / Somehow must reflect the truth we feel”. Eu permaneci imóvel e, sem nem saber porquê, comecei a olhar para a lua, bem na hora em que ele cantou “Fade away, fade away / Vanish into small / Fade away, fade away / Break the crystal ball”. Até hoje, tenho minhas dúvidas se ela aumentou ainda mais o som ou não, e se eles tiveram noção do que aconteceu ali, mas eu permaneci a música inteira numa viagem sonora naquele quintal, e com a certeza de que não estava preparado para aquilo. Eu tinha uns 22, 23 anos, e me perguntava como poderia ter passado batido por puro preconceito por… Aquilo. Quando a música acabou, voltei para a sala bem na hora em que ela, já com o disco na mão, começou a rir e me autorizou: “Tá bom, tá bom, pode colocar o disco do Sabbath com o Ozzy que quiser”. Pedi ao meu amigo uma fita-cassete e comentei com a turma se podia parar a sequência das músicas e gravar aquele disco. Ou se ouvia música ou se gravava fitas, o ritual da gravação era… Bem, um ritual. Como ele não tinha nenhuma fita virgem e viu que eu não ia deixá-lo em paz, meu querido amigo pegou uma BASF Cromo que tinha músicas do Ten Years After de um lado e Uriah Heep do outro e me deu, dizendo: “Pode gravar em cima, já tenho esses discos mesmo”. Fui para casa ouvindo o álbum e voltando a todo instante no reverse do meu toca-fitas a faixa “The Sign of the Southern Cross”. Ouço-a sempre como se fosse pela primeira vez. Ainda estou lá, depois de todos esses 30 anos, parado no quintal, olhando a lua e pensando “Meu Deus, que música linda!”, e sempre me vêm lágrimas nos olhos quando ouço o Dio cantar essa faixa, sentindo esse instrumental divino dessa que é, certamente, a canção mais bonita de todo o heavy metal.

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