Discografias Comentadas: Raimundos

Discografias Comentadas: Raimundos
Formação clássica: Rodolfo, Canisso, Digão e Fred (da esquerda para a direita)

Por Anderson Godinho

É com muita satisfação que abordarei a carreira dos Raimundos nas próximas linhas, particularmente foi umas das minhas primeiras influências no rock e, com certeza, a primeira dentre as bandas com sonoridade mais pesada e suja. O acesso que tinha a música era limitado a rádios, ao meu pai (que definitivamente não curtia punk rock, HC e derivações) e alguns amigos e parentes. No meu imaginário foi juntamente uma prima mais velha que me apresentou os Raimundos, banda que tem “início” justamente no ano em que nasci, 1987. A historiografia da banda aponta que Rodolfo e Digão (na bateria) fundam a banda como um cover de Ramones e sob influência destes e de outras bandas, como o Suicidal Tendencies, viriam a se consolidar no cenário nacional. Canisso e Fred cruzariam com os futuros parceiros ainda em 1988, mas em 1990 os membros da banda seguem seus rumos de modo independente.

Ao se reunirem em 1992, Rodolfo, Digão (já nas guitarras) e Canisso recrutam, o então fã da banda, Fred para a bateria oficialmente, mas só em 1994 começa a saga de uma das maiores bandas do rock nacional dos anos 1990/2000, e por que não, como uma das maiores de todos os tempos. Nesse momento, antes de adentrar à produção musical da banda, é importante lembrar que os Raimundos tinham algo que os diferenciava de tantas outras bandas que pipocavam em uma Brasília repleta de bandas de rock. O Raimundos apresentou ao Brasil uma mistura inusitada de punk rock com o lado mais sacana do forró. Segundo a lenda, essa influência deriva da família, principalmente de Rodolfo, que costumara ouvir o gênero durantes as festas. Dentre a inusitada influência, destaca-se o cantor Zenílton (José Nilton Veras), que trazia em suas letras o típico duplo sentido adotado fielmente pelos rockeiros de Brasília.

Dito isso, no início dos anos 90 o Raimundos roda pelos grandes centros São Paulo e Rio de Janeiro com sua fita demo, abrindo shows de consagradas bandas, dentre as quais os Titãs. Em 1994, pelo selo Banguela, lançam o autointitulado Raimundos e abrem portas para uma mudança no mainstream do rock nacional. A ascensão da banda ocorre em um contexto de mudanças na indústria da música brasileira, como a criação da MTV Brasil, a consolidação e expansão da, ainda jovem, 89 Rádio Rock de São Paulo, do avanço nacional de redes importantes como as rádios Jovem Pan e Transamérica que, apesar de não serem exclusivamente rock, incorporaram os Raimundos em sua programação ou, ainda, do fortalecimento de rádios pop/rock ou apenas rock em contextos regionais.


Raimundos [1994]

Este nasce um clássico! São várias músicas que nunca mais saíram do set list da banda, mas é com a balada quase erótica “Selim” que explodem pelo país todo. O material traz meia hora de alternância entre um punk rock que transita para o HC e o com alguma coisa de forró. São apresentados momentos mais leves e sacanas como em “Puteiro em João Pessoa”, “Palhas do Coqueiro”, “Selim” ou “Minha Cunhada”, e momentos de um som mais agressivo e chulo, como em “MM’S”, “Rapante” ou “Bê a Bá”. Ao final das 14 músicas fica uma sensação de “O que será que vem agora??”, fico imaginando como foi a recepção dos rockeiros brasileiros que encararam essa “coisa” diferente chegando com tudo. Creio que já nesse primeiro material a essência da banda é colocada à mesa. Tudo que foi apresentado aqui viria a ser encontrado em maior ou menos grau nos próximos materiais, pelo menos até a saída de Rodolfo. Por mais que grande parte dos fãs não coloque o debut no topo de sua lista, a título de exemplo, a revista Rolling Stone Brasil o colocou na 45ª posição dentre os 100 maiores discos da música brasileira, sendo o único da banda na listagem feita no ano de 2007. Dentre os consultores deste site, o material aparece na lista de “Melhores de todos os tempos: Brasil – Década de 90” .


Lavô Tá Novo [1995]

Após vender cerca de 180 mil unidades por um selo independente (por mais que houvesse vínculo com o povo dos Titãs), o que lhes rendeu um Disco de Ouro, criou-se uma expectativa forte para o segundo álbum dos Raimundos. A banda assina com a multinacional Warner (WEA) e, sem respirar, lança em 1995 o consagrado álbum Lavô tá Novo. A própria banda sugere que se trata de mais do mesmo, e sua capa também sugere isso. Porém o que presenciamos é uma influência gringa no som e na produção. A banda soa mais pesada, suja e os elementos de música brasileira, por mais que apareçam aqui e acolá, não possuem o mesmo protagonismo de outrora. As coisas ganharam uma proporção gigantesca com a presença de uma grande gravadora. Os Raimundos são agora uma das grandes bandas nacionais e aparecem em festivais como Monsters of Rock (1996) e Hollywood Rock (1996) ao lado de bandas consagradas internacionalmente como Motörhead, Robert Plant/Jimmy Page ou Iron Maiden. Agora, para quem viveu sua infância e/ou adolescência nos anos de 1990 em um grande centro urbano brasileiro, onde as rádios propagavam “a palavra” mais comumente, é meramente impossível não conhecer ao menos “Eu Quero Ver O Oco”, “O Pão da Minha Prima”, “Esporrei na Manivela” e “I Saw You Say”. Do mesmo modo, se você curtia a banda minimamente, sabe cantarolar simplesmente todas as músicas. Enfim, é uma pedrada atrás da outra. A sonoridade de fato muda substancialmente entre os dois álbuns, mas não podemos negar que a safadeza e as sacanagens de duplo sentido, trazidas de um forró dos anos 1960, seguem firmes nas boas “Opa! Peraí, Caceta” ou” Tá Querendo Desquitar”. Essas que inclusive trazem a referência da banda no tema, o forrozeiro Zenílton, nas gravações de estúdio. Dentre as minhas preferidas é preciso colocar a ótima “Bestinha”, junto à “Sereia da Pedreira” e “Herbocinética”. Muitos tratam Lavô tá Novo como o maior de todos os álbuns da banda. Com ele o Raimundos chega ao disco de platina, explode de vez nas rádios, vai parar no topo das paradas da MTV, nos programas de plateia (toca até no Domingo Legal!), em festivais grandes e assume o posto de grande banda brasileira nos anos seguintes.

Fazendo uma analogia, essa fase dos Raimundos soa como aquele jogador humilde que surgia nos campinhos de terra das periferias e do interior do Brasil, e que de um ano para o outro passa por uma ascensão meteórica. Em muitos desses casos a conta chega pela falta de estrutura e culmina com ruínas. Entre frases doidas sobre sexo, drogas, e as sem sentido das músicas dos Raimundos, essa fábula do jogador sem estrutura mental aparece, na minha cabeça, na letra de “Herbocinética”. Principalmente no que diz respeito ao então vocalista Rodolfo (autor dessa letra, inclusive).


Cesta Básica [1996]

Em 1996, durante o boom de Lavô ta Novo, a banda lança Cesta Básica que traz três músicas novas (“Infeliz Natal”, “A Sua” e “Papeau Nuky Doe”) além de covers de Ramones e Sex Pistols, um remix de “Puteiro em João Pessoa” e algumas músicas gravadas no Hollywood Rock. O lançamento, que é acompanhado por uma revista em quadrinhos desenhada pelo cartunista Angeli e conta a história da letra de “Puteiro em João Pessoa”, é feito em tiragem limitada e esgota rapidamente. O destaque fica pela ótima “Papeau Nuky Doe”, engraçada, leve e cheia de zoeiras.


Lapadas Do Povo [1997]

Só no ano seguinte, 1997, que a banda surge com um novo material de inéditas completo. É lançado o álbum Lapadas do Povo, com sua icônica capa da van da banda refletindo em um caminhão tanque! Como fã, considero o melhor material lançado por eles. Definitivamente é o mais pesado, o que mostra uma evolução no som apresentado em Lavô ta Novo no sentido de aprimorar o peso em detrimento, por outro lado, às influências que os lançaram ao grande público. O disco apresenta duas das composições (dentre as mais sérias) mais interessantes da banda em todos os tempos: “Andar na Pedra” e “Baile Funky”; além de duas das melhores baladas com “Poquito Más” e “Bonita”. Agora o que são as letras desse álbum? É uma vomitância de assuntos misturados e jogados em frases icônicas como em “Wipe Out”, “Véio, Manco e Gordo”, “CC Com Força” ou “Ui, Ui, Ui Há”. Ainda, uma instrumental e experimental “Bass Hell” que é interessantíssima! Infelizmente, dessas, apenas “Andar na Pedra” é lançada como single. Apesar de não emplacar como os antecessores, Lapadas do Povo vende mais de 200 mil cópias e mantém a banda como uma das principais do cenário Rock dos anos 1990.

Particularmente, creio ter sido um show dessa turnê o primeiro que fui por vontade própria na vida, reforçando a ideia do quanto gosto de Raimundos. Tratava-se de um verão qualquer no litoral do Paraná, mas como eu era muito pequeno não lembro o ano, imaginando ter sido final de 1997 ou começo de 1998. A turnê desse álbum merece destaque, pois, infelizmente logo no lançamento uma falha na organização (ou ganância dos envolvidos) termina em uma tragédia. No dia sete de novembro de 1997 oito jovens morrem e mais de 60 pessoas ficam feridas em função de uma superlotação no Clube de Regatas Santista, em Santos . O local que poderia receber em torno de 2500 pessoas, vendeu ingressos para mais de 5000. Acertadamente, a banda cancela mais de dez shows que faria na sequência, o que de modo algum limpa a mancha que marca sua história até os dias atuais.


Só No Forevis [1999]

Passam-se dois anos e eis que, surfando no auge do pagode dos anos 1990, surgem os Raimundos vestidos de pagodeiros com pandeiro e tudo na capa de um CD de cores vivas e com os dizeres Só no Forévis à frente dos quatro rapazes. É o ressurgimento da banda após o momento conturbado dos anos anteriores. A pegada clássica com aquele triângulo, aquela malícia e piadas de duplo sentido associados a velocidade e simplicidade do punk rock (principalmente na bateria quadradinha do Fred) voltam com toda força. Muitos, no entanto, julgam o disco como o mais pop da banda em função dos hits “Mulher de Fases”, “A Mais Pedida”, “Me Lambe” e “Aquela” (que chegou até a novela UgaUga, da Globo). Entretanto, quem ouve o material por completo logo de cara percebe a assinatura dos Raimundos. Aquela assinatura clássica lá do primeiro álbum está evidente em “Mato Véio”, “Carrão de Dois” e “Fome do Cão”. As sátiras e humor sacana estão por quase todas as músicas de modo explícito. “Alegria”, “Boca de Lata” e a ótima “Pompem” demonstram isso. Ainda sobra tempo para as pesadas com a boa crítica, talvez a única que se salve na discografia da banda, “Deixa Eu Falar”, e a rabugenta “Língua Presa”. Se havia qualquer dúvida sobre a posição da banda no cenário e, porque não, na história do rock brasileiro, não há mais. Só no Forévis se torna um clássico nacional, com suas músicas sendo cantadas até os dias atuais pela geração dos millenials pelo país a fora. O CD foi tripla platina, vendendo em torno de 1 milhão e 800 mil cópias, e colocou os Raimundos em um patamar nunca alcançado.

No hype do álbum, a banda lança seu MTV Ao Vivo, em 27 de outubro de 2000, no formato CD/DVD duplo. Gravado em São Paulo (no finado Via Funchal) e Curitiba (antiga Fórum, hoje Live), se torna icônico e apresenta a banda como ela era ao vivo! Lembro de como a empolgação tomou conta da piazada pela cidade (Curitiba) toda no dia após o show em que foi anunciada a gravação. O assunto entre os jovens da época era só esse. Infelizmente eu não tinha idade e nem dinheiro pra ir. O show em si mostra acertos e erros de uma banda que não tinha vergonha de ser o que era. Foi o material mais vendido da série MTV Ao Vivo (pertencente à MTV Brasil) que teve Planet Hemp, Skank, Barão Vermelho dentre outros importantes artistas nacionais. O MTV Ao Vivo, lançado em 2000, é o apogeu e o perigeu do Raimundos. Sem saber eles produziram um registro que os mostrava no auge, algo que nunca mais viria a acontecer. Lançaram nesse material o famoso “Reggae do Maneiro”, que virou uma febre dentre os jovens da época, e um cover de “20 e Poucos Anos”, de Fábio Jr.

Porém em meio ao sucesso estrondoso, o vocalista Rodolfo Abrantes resolve deixar a banda. Não cabe julgar o que passou, o fato é que diferentes relatos de diferentes pessoas próximas, fãs, e do próprio Rodolfo, indicam que o cara estava afundado em vícios que não davam muita perspectiva de futuro ao, então, rapaz. Ele escolhe um caminho de ruptura total e busca a religião, bem como, família para se reencontrar. Sua saída pega os colegas da banda de surpresa. Surge uma das maiores rusgas da década de 2000. Rodolfo lança sua própria banda, o Rodox, que emplaca alguns hits, “rouba” Canisso por um tempo e depois some.


Éramos Quatro [2001]

Nesse momento, o Raimundos chega a declarar o fim da banda e, juntando os cacos, em meio a um contrato vigente com a Warner, lança Éramos Quatro. Covers de Ramones, algumas besteiras como “Desculpe, Mas Eu Vou Chorar” e “Nana Neném”, e uma raridade da época da primeira fita demo, curiosamente: “Sanidade”, formam o set list do disco.


Kavookavala [2002]

Em 2002, após um intenso apoio dos fãs que davam suporte, inclusive, a um site super ativo com os espólios da banda (tudo isso em uma internet que engatinhava – site que venceu a categoria website no então badalado VMB, da MTV), os caras incorporam o guitarrista Marquim (Marcos Mesquita) ao time e lançam o álbum Kavookavala. Na época, algumas músicas chegaram a figurar nas rádios e na MTV, mas havia um clima de “não é a mesma coisa” por uma parte do grande público. O grande destaque do álbum fica com a balada punk rock “Joey”, que repercute bem na mídia. Já as pesadas “Fique Fique” e “Mas Vó…” também rodaram, mas sem muito apelo popular. O disco apresenta uma banda mais séria, sem tanta besteira e putaria. Agora, em um exercício de imaginação, Rodolfo cantando as boas “Vento Certo (Água da mina)” ou “Mas Vó…” as tornariam clássicas sem dúvidas. Reouvindo hoje, além das já citadas, outras como “El Mariachi”, “Uebarrêba”, “Kavookavala” e “Pegamutukalá” são músicas bem interessantes que valem aquela atenção na ouvida.

Em 2003, posteriormente alegando falta de profissionalismo e comprometimento da banda (leia-se Digão), Canisso deixa a banda e vai tocar com seu ex-colega Rodolfo no Rodox (até 2004). Curiosamente é nesse ano que Canisso deixa a sociedade em uma das duas empresas que fazem a gestão das “coisas” do Raimundos, essa decisão veio a repercutir em 2025, após a sua morte, em uma discussão sobre direitos envolvendo a viúva de Canisso e a banda. Em substituição a Canisso, Alf (então vocalista da banda Rumbora) assume o baixo. Esse conturbado 2003 traria mais uma tragédia na história da banda: três mortos pisoteados e mais de 40 feridos, sendo 12 em estado grave, no mini festival chamado Unidos pela Paz, que atraiu mais de 30 mil pessoas para o Jockey Club do Paraná (Curitiba). Justamente quando o Raimundos começava seu show, que abria a noite para Natiruts, Tihuana e Charlie Brown Jr, um tumulto na entrada do evento, novamente superlotado, causou tamanho incidente .

Já em 2004 o Raimundos finaliza seu contrato com a Warner e, no ano seguinte, lança de modo totalmente independente um esquecido EP intitulado Pt qQ cOizAh (2005). Curiosamente esse EP, composto por cinco músicas e lançado apenas no site da MTV Brasil, é muito bom. A trinca de baladas “Sol e Lua”, “Oversize” e “Folha de Zinco” poderiam estar em qualquer álbum da banda, e em outros tempos, seriam lembradas em um ao vivo da vida. As mais pesadas, “Pemba Talk” e “Macaxeira”, não ficam para trás, são mais pesadas e com a cara dos Raimundos.

Entre 2005 e 2008 a banda praticamente cessa suas atividades, entrando em um hiato caracterizado por projetos paralelos de seus membros. Ressurgem apenas com a turnê A volta do Canisso, mas sem apresentar coisas novas. Já em 2010, Tico Santa Cruz do Detonautas assume os vocais em uma série de shows que viraria uma turnê pelo país. Na vibe do retorno, a banda lança a boa e pesada música intitulada “Jaws”, que conta com um clipe e confirma Digão nos vocais, em meio a boatos da incorporação de Tico Santa Cruz. Em 2011 lançam, no clássico Bar Opinião em Porto Alegre, o DVD Roda Viva, gravado ao vivo em São Paulo (no finado Kazebre Rock Bar).

Raimundos em 2014: Canisso, Marquim, Caio e Digão

Após esse hiato criativo, em 2012 a banda reaparece com um inusitado álbum em conjunto com o Ultraje a Rigor, em que cada banda tocava músicas uma da outra (O Embate do Século: Ultraje a Rigor vs. Raimundos). Essa sequência iniciada em 2010, com shows, turnês, programas de TV, DVD ao vivo, entre outras coisas que fizeram (como um Luau MTV), a banda se firmava na ativa, e nessa pegada surge um Crowdfunding que arrecada mais de 120 mil reais com objetivo de fomentar o novo disco dos caras. A essas alturas a banda era formada por Digão e Canisso, além do já habituado Marquim e do novo baterista, Caio, que havia entrado no lugar de Fred em 2007. Com a grana na mão, contratam o Billy Graziadei do Biohazard para a produção. E então 12 anos depois do último álbum de inéditas começa a saga do Cantigas de Roda.


Cantigas de Roda [2014]

Aqui preciso ser sincero em afirmar que não esperava mais nada dos caras. Creio que eu e muitos achavam que a banda estava morta, mesmo com as tentativas de continuar após a saída do Rodolfo. Por isso, fiquei impressionado com o ótimo álbum lançado em 2014! Cantigas de Roda apresenta o verdadeiro Raimundos de volta! Se eles tivessem conseguido, como conseguiram nesse álbum, ter a criatividade, eficiência no processo de produção e competência para olhar sua própria história e juntar tudo que deu certo no passado logo que o Rodolfo saiu, teriam se mantido no auge por mais uns bons anos. Esse álbum é a continuação do Só no Forévis. Nesse sentido, concordo com a resenha  do Micael Machado aqui para a Consultoria quando ele afirma que: “a comprovação de que o quarteto de Brasília possui uma relevância e importância além dos anos 90 no cenário do rock nacional”. Em suma, Cantigas de Roda traz momentos de HC, punk rock, ska punk, reggae no estilo Raimundos “forrócore”. Até o famoso triângulo e alguma melodia de forró com presença de metais estão de volta. Os caras conseguiram resgatar as zueiras, a sacanagem e o humor de outrora. Por outro lado, há a inclusão de alguma conotação política como em “BOP”, “Politics” ou “Dubmundos”, essa que conta com a participação de Sen Dog do Cypress Hill. Poderia falar de cada música, mas como não é o intuito, deixo as minhas duas preferidas “Nó Suíno”, no campo das pesadas, “Gato da Rosinha”, como a cota de besteirol do álbum, e a música que embalou um dos meus relacionamentos da época “Baculejo”. O álbum, que foi um sucesso de crítica e muito bem recebido pelo público que ainda acompanhava a banda, recebeu um CD e DVD chamado Cantigas de Garagem, apresentando uma banda rápida, pesada e sem medo de errar, tocando o Cantigas de Roda na íntegra ao vivo em estúdio.

Na sequência de uma extensa turnê de divulgação, em 2017, a banda grava seu álbum Acústico, pela Som Livre, em duas noites de Sold Out no Teatro Positivo em Curitiba. São dois dias de gravação e versões acústicas para 27 músicas, com direito a participações de Dinho Ouro Preto em “Mulher de Fases”, Ivete Sangalo em “A Mais Pedida” e “Baculejo”, Alexandre (ex Natiruts) em “Deixa eu Falar”, e outros. Destaque ainda para a participação do Fred em “Selim” e “Cintura Fina”, e deu tempo, ainda, para o cover de “Lugar ao Sol”, do Charlie Brown Jr. que conta com o guitarrista Marcão da formação original do CBJ.

Nesse meio tempo de 2014 até 2025 a banda se manteve ativa com uma média de shows anuais girando em torno de 50 a 60, participando de diferentes festivais regionais pelo Brasil afora, como o João Rock, Planeta Atlântida, Porão Rock (Brasília), um show surpresa no Rock in Rio de 2017, entre muitos outros. Em 2014 apareceu no Lollalooza com um aclamado show mesclando músicas novas e antigas, já em 2019 foi ao Palco Mundo do Rock in Rio dividindo o espaço com o CPM22 e cantando músicas clássicas das duas bandas.

Em 2025, foram banda de abertura em parte dos shows do Guns N Roses pelo país. O período (2014-2025) também é marcado por posicionamento político, principalmente de Digão, gerando alguma repercussão. Porém, o verdadeiro baque veio em 2023 com o precoce falecimento do baixista Canisso, membro da formação original e que de alguma forma dava equilíbrio e identidade aos Raimundos. Nesse triste contexto, Jean Moura, que já ensaiava com o próprio Canisso para eventuais substituições e roadie da banda, é convocado e oficializado com aval da família de Canisso


XXX [2025]

Em maio de 2025 chega até o público o nono álbum de estúdio da banda: XXX. Se por um lado o nome é curioso e tem relação com os 30 anos da banda fazendo alusão a palavra “sex” em inglês, a capa é a mais sem graça da todas. O álbum se propõe a ser algo mais pesado, o que de fato acontece. A voz de Digão, por outro lado, soa um tanto estranha aparentando algum elemento externo, alguma espécie de distorção. Se fosse comparar com algo da discografia da banda, colocaria ali perto do Lapadas do Povo ou do Kavookavala, mas sinceramente não consegui achar a sonoridade “Raimundos” tão forte aqui nesse material. Há ainda uma versão Deluxe com duas músicas a mais, “RAICYCO”, que conta com a participação de Mike Muir do Suicidal Tendencies, e “Eu Ando no Meu Ka”, com participação do clássico Zenilton. Se o Cantigas de Roda acerta em tudo que faz, XXX passa longe. Foi só lá pela quinta ou sexta vez em que ouvia o álbum que consegui colocar o material junto com os demais da banda. Dentre as pesadas, “Os Calo “é a mais interessante, apesar de “Cuidado Com Esses Cara Aí” trazer uma vaga lembrança de “Wipe Out” lá do Lapadas …. Já “Pela Saco” se esforça, mas se torna cansativa em seus 5:44 longos minutos de rupturas e mudanças no caminho e com a tal distorção na voz do Digão. O primeiro single, “Maria Bonita”, traz um punk rock que ganha peso no começo e cai em um refrão bonitinho, mas soa um pouco forçado como se estivesse cumprindo tabela. O álbum possui uma presença mais constante de solos e melodias mais obscuras, mas tem umas coisas bem dispensáveis, como a rima ditada pelo Digão antes da baladinha “Dia Bonito”. Outra coisa um pouco estranha é a presença de corais feitos pela banda em várias músicas (“Dia Bonito”, “Nas Nuvens”, “Pela Saco” ou “Teu Passo”). Ao menos o álbum termina em esperança de dias melhores com a boa “Que Sorte”, que apesar de ter uma carinha de CPM22 e suas sofrências, é um bom punk rock.

O Raimundos inaugurou, com XXX, uma nova fase na história da banda em que aparentemente se desprende de sua fórmula original buscando caminhos novos. Ao mesmo tempo deixam elementos estruturantes de sua sonoridade como uma espécie de lembrança ou marca, aqui e ali. É nesse cenário de “mais pra lá, do que pra cá”, talvez sentindo falta de um equilibrado Canisso, de um limitado Fred (como ele mesmo diz aos quatro ventos) e de um “finado” Rodolfo, mas com a presença de uma dupla criativa e técnica como Caio e Marquim, além de um cansado Digão, que a banda continua sua caminhada por meio da turnê “30 Anos Sem Sair de Cima” com mais de 20 shows confirmados até julho de 2026. Apesar de tantos percalços Digão e sua nova trupe seguem, é como diz o clássico: “Anda na pedra que cê seca o pé”(sic). Vida longa aos Raimundos.

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