A Young Persons’ Guide to Irish Guitar Heroes
Por Marcello Zapelini
Desde a década de 60 a Irlanda tem contribuído para a cena rock internacional com ótimos grupos ou artistas individuais. Começando com os pioneiros Them, de Belfast, Irlanda do Norte, que revelaram Van Morrison, passando pelo Skid Row (o original), Thin Lizzy (ambas bandas por onde passou o mestre Gary Moore), Taste (que revelou Rory Gallagher), passando pelo punk do The Undertones, do Stiff Little Fingers e The Pogues, e chegando a bandas pop bem-sucedidas nos últimos trinta anos como Cranberries e The Corrs, o rock irlandês tem uma história ampla e variada, e serviu de plataforma para algumas figuras que, por décadas, dominaram a cena rocker: os guitar heroes. Os mestres das seis cordas, que se destacaram numa cena bastante competitiva, também brotaram nas verdes paisagens da antiga Hibernia (como os romanos batizaram a ilha).
Este artigo da seção A Young Persons’ Guide nos leva à ilha Esmeralda para conhecer cinco guitar heroes (e um anti-herói) irlandeses. Antes de começar a falar deles, uma ressalva: não distingui entre irlandeses e norte-irlandeses. Sim, eu sei que a República da Irlanda (ou Eire) é uma nação independente, enquanto os seis condados de população majoritariamente protestante que formam a Irlanda do Norte fazem parte do Reino Unido com a Inglaterra, Escócia e País de Gales (ainda que não tenha o mesmo status administrativo dos outros três). A razão para não os distinguir veio do grande Rory Gallagher, que sempre disse que independentemente da região em que vivem os irlandeses são a mesma coisa.
O critério de escolha foi simplesmente a preferência do autor, e a apresentação é ordenada pela data de lançamento do primeiro disco a trazer os nossos heróis. Então, depois dessa introdução, pegue sua medalhinha de St. Patrick e seu pint de Guinness (ou então um Irish coffee), e venha conhecer um pouco mais sobre cinco guitar heroes irlandeses!
Rory Gallagher
William Rory Gallagher nasceu em Ballyshannon, Donegal (República da Irlanda) em 2/3/1948. Seu pai tocava acordeon e tinha inclusive um grupo que tocava em bailes. Ele começou a se interessar por música ouvindo o cowboy Roy Rogers cantar, e depois foi fisgado pelo skiffle de Lonnie Donnegan, que o levou a buscar conhecer mais sobre o blues e o folk americanos. Aos 9 anos, Rory ganhou um ukelele de brinquedo e começou a aprender acordes nele, impressionando sua mãe a ponto de ela lhe comprar um violão. Aos 15 anos, juntou-se a um grupo que tocava nos bailes em Cork, onde sua família se estabeleceu, e logo depois comprou uma Stratocaster 1961 que o acompanharia pelo resto da vida.
Em 1966, Rory formou o Taste, ganhando fama local. A Polydor decidiu contratá-los, e em 1968 o grupo foi convidado para abrir o show de despedida do Cream no Royal Albert Hall; o empresário Robert Stigwood ofereceu a Gallagher a oportunidade de se tornar membro do Cream no lugar de Clapton, mas ele recusou! Com o fim do Taste em outubro de 1970, ele saiu em carreira solo, lançando seu primeiro disco em 1971, e até sua morte Gallagher teria vários álbuns de estúdio e ao vivo, ainda que a partir de 1980 o tempo entre os lançamentos aumentasse muito. Em 1995 ele teve um transplante de fígado, mas, com a saúde fragilizada, não resistiu a uma infecção bacteriana e faleceu com apenas 47 anos.
Procure por fotos e vídeos de Rory ao vivo e você provavelmente o verá tocando uma Stratocaster toda ferrada; além dela, ele também usava uma Telecaster e um violão Martin, além de um bandolim Gibson. Gallagher passou a usar pedais de efeito mais intensamente nos anos 80, e seu amplificador mais comum era um Vox AC30. Por fim, é preciso destacar que ele tocava harmônica e saxofone muito bem, embora esse último instrumento tenha sido aposentado após os tempos do Taste. Mas as músicas que farão parte da mix tape Irish Guitars darão destaque à guitarra do grande Rory!
TASTE – “Sinner Boy” (1971 – Live at the Isle of Wight, 1971)
O Taste foi responsável por um show memorável no festival da Ilha de Wight em 1970, que rendeu um LP póstumo lançado no ano seguinte (e relançado recentemente com bonus tracks). O andamento marcial da música contrasta vivamente com o slide de Gallagher, que mostra o quanto o jovem irlandês dominava a guitarra blues; a música incendiou a plateia, mas o Taste acabaria pouco depois por causa de tretas com o empresário. Essa versão ao vivo é muito superior à de estúdio registrada no primeiro álbum solo de Rory, e embora ele tenha registrado algumas versões em shows solo, nenhuma bate a do Taste, que inclusive tem a honra de ser a primeira música que ouvi deles, quando comprei o CD duplo Message to Love.
RORY GALLAGHER – “Hands Up” (1971 – Rory Gallagher)
O primeiro disco-solo de Rory não é tão bom quanto alguns que viriam depois, mas rendeu algumas músicas de alto nível, e a meio rocker, meio jazzy “Hands Up” é um exemplo. A música não se distingue por ter um riff marcante, mas tem um solo sensacional – e se você tiver a box set lançada para comemorar os 50 anos de lançamento do álbum, verá que cada versão tem um solo diferente, mostrando que ele testou várias configurações para até ficar satisfeito. Admito que até hoje não consegui escolher meu favorito…
RORY GALLAGHER – “I Could’ve Had Religion” (1972 – Live! In Europe)
Gravada ao vivo com o trio original (Gerry McAvoy, baixo; Wilgar Campbell, bateria), “I Could’ve Had Religion” traz o mestre na slide guitar e harmônica num blues lento, como convém. A letra fala que ele poderia ser religioso, poderia ser até um pregador, mas sua gata não deixa – e essa mulher diabólica fez o capeta baixar nele. Ele termina pedindo por misericórdia a Deus – e quem pede misericórdia no final da música é você, que fica se perguntando como pode uma guitarra chorar tanto. Na época, Rory lançou apenas essa versão ao vivo, mas após sua morte, outras gravações em diferentes shows foram disponibilizadas, tornando-se difícil definir qual é a melhor – na dúvida, optei pela do álbum ao vivo de 1972.
RORY GALLAGHER – “Walk on Hot Coals” (1974 – Irish Tour ‘74)
Também gravada ao vivo, dessa vez na apoteótica turnê irlandesa de janeiro de 1974, essa música traz todo o poder de Rory com seu fiel escudeiro McAvoy, Rod De’Ath na bateria e Lou Martin no piano elétrico; a versão deixa no chinelo a (excelente) gravação de Blueprint. O primeiro solo de Rory é daqueles para você ouvir ajoelhado; o segundo é para você se perguntar por que ele tinha que morrer tão jovem! Rory explora o máximo de sonoridades possíveis em sua Strato ferrada, e ainda tem uma velocidade impressionante. Se você conseguir a box set do 40º aniversário do álbum, terá versões alternativas (e verá que Rory nunca repetia o solo nota por nota), mas a “oficial” é o bastante para você sair pulando pelo quarto tocando uma Stratocaster imaginária.
RORY GALLAGHER – “Moonchild” (1976 – Calling Card)
Essa música tem várias versões ao vivo, mas acho que o trabalho de Rory está perfeito já na versão de estúdio. O riff de guitarra me lembra um pouco os Stones – e isso permite entender por que ele foi convidado para uma jam com a banda quando Jagger & Cia. procuravam o substituto de Mick Taylor. Embora nosso herói já dê umas voadas antes, o solo dele começa aos 1’57” e dura exatos trinta segundos que mostram que o irlandês, embora bluesy até a alma, sabia fazer um solo de rock como poucos. Na box set dedicada às BBC Sessions, há versões em que o solo final é estendido – mas o original já é bom demais, e por isso escolhi a original, do subestimado álbum Calling Card.
Eric Bell
Eric Robin Bell nasceu em 3/9/1947, em Belfast, capital da Irlanda do Norte, e seus pais adotivos tinham um rádio que despertou o interesse do garoto pela música clássica. Ele ganhou um violão de plástico dos pais aos 14 anos, e aprendeu a tocá-lo assistindo um músico chamado Bert Weedon na TV, que ensinava os acordes. Logo depois, Eric descobriu que um amigo tocava bateria num grupo que fazia covers do The Shadows, banda de apoio de Cliff Richard, que contava com Hank Marvin, provavelmente o primeiro guitar hero britânico. Bell se tornou o guitarrista-solo nesse grupo amador, e tocaria em várias bandas posteriormente, indo para a Escócia e a Inglaterra antes de retornar a Belfast, onde foi convidado para substituir Gary Moore (aquele mesmo) no grupo Shades of Blue. Passou também pelo Them de Van Morrison e, em 1969, juntou-se a Phil Lynott, Brian Downey e Eric Wrixham para formar o Thin Lizzy.
Bell ficou com o Thin Lizzy até 31/12/1973, saindo frustrado da banda devido à falta de sucesso (apenas “Whiskey in the Jar” figurou nas paradas), depois de apenas três LPs. Ele deixou o grupo ao final de um show, após ter jogado a guitarra no chão. Seu substituto, ironicamente, seria Gary Moore. Eric participaria da Noel Redding Band, com o ex-baixista de Hendrix, e do Mainsqueeze, um grupo de blues liderado pelo ex-Colosseum Dick Heckstall-Smith. Eventualmente, ele formaria a Eric Bell Band e posteriormente gravaria discos-solo; seu novo álbum, Authenticity, foi lançado em maio de 2025. Boa parte da produção de Bell com sua banda e solo se encontra na box Remembering, lançada em 2024.
Eric, como Rory Gallagher, sempre preferiu as Fender Stratocaster; raras vezes se vê outra guitarra em suas mãos. Bell, nos tempos do Thin Lizzy, usava um pedal de efeitos Colorsound (e não encontrei menção a mais nenhum equipamento desses). E seu amplificador favorito também é um Fender, um modelo Hot Deville. Esse equipamento simples faz a mágica acontecer pelas mãos de Eric Bell. Para compor a nossa mix tape, separei cinco músicas que trazem Bell em destaque.
THIN LIZZY – “Whiskey in the Jar” (1972 – single)
A banda estava se divertindo com essa música no intervalo de uma sessão de gravação quando o manager pediu que a gravassem a sério para lançar em single. Apesar da resistência dos três, a música ficou pronta com Lynott no violão e um riff de guitarra marcante que imita a gaita irlandesa (uillean pipe). Bell queria uma gaita dessa no arranjo, mas os outros dois o obrigaram a tocar o riff em sua Strato. A banda não queria lançá-la de jeito nenhum para não ser confundida com um grupo de música folk, mas “Whiskey in the Jar” se tornou o grande hit do Thin Lizzy até o maciço sucesso de Jailbreak, e no DVD que homenageia Phil Lynott, Gary Moore introduz a música chamando Eric para o palco dizendo que ele é o único que sabe tocar aquela música direito.
THIN LIZZY – “The Rocker” (1973 – Vagabonds in the Western World)
A obra-prima de Bell no Thin Lizzy começa com um dos seus melhores riffs (sem deixar de reconhecer o baixo magistral de Lynott e a bateria imprevisível do grande Downey) e traz uma verdadeira profissão de fé dos músicos, rockers até o fundo do coração. Eric confessou que o solo (excelente, por sinal) foi gravado no improviso, e por isso ele nunca o reproduziu da mesma maneira ao vivo – e de fato, como mostram as versões para a BBC, ele sempre mudava alguma coisa. Aliás, o solo dura 2’30”, praticamente metade da música. Quando o grupo encerrou a carreira, o duplo ao vivo Life/Live trouxe uma versão matadora da música, com Eric, Gary Moore, Brian Robertson, Scott Gorham e John Sykes juntos.
NOEL REDDING BAND – “Eight Nights a Week” (1975 – Clonakilty Cowboys)
Impulsionada por um riff insistente de Eric, essa composição parece uma resposta a “Eight Days a Week”, dos Beatles, e é um ponto alto de um disco que pouco se destacou no meio rocker britânico da metade dos anos 70. O solo de Bell no final da música segue o padrão estabelecido com “Rocker”, mas infelizmente ela acaba antes dele realmente decolar, deixando um gostinho de “quero mais”; vale o registro aqui por abordar uma fase pouco conhecida de sua carreira. A Noel Redding Band, apesar de ter bons músicos, não fez sucesso e acabou depois do segundo LP, simplesmente porque o empresário não os pagava! Nos anos 90, o terceiro disco, que tinha sido engavetado, acabou sendo lançado em CD.
ERIC BELL – “Ballad by the Irish Sea” (2008 – Irish Boy)
Essa bela canção tem forte influência do folk irlandês e traz uma guitarra limpa, sem distorção, repetindo um riff que soa um pouco com o de “Whiskey in the Jar”. A voz suave de Eric, se não chama muito a atenção, não compromete; em torno dos 3’30”, a música muda completamente, com Bell tocando riffs que parecem ter saído de um pub irlandês do século XIX, mostrando o quanto a música do seu país lhe é importante, transformando a balada numa autêntica jig irlandesa. Daí até o final, o que se tem é um belo desempenho instrumental da banda, mas se você não gostar da música celta, provavelmente não vai se impressionar muito. De minha parte, é bom demais, lembrando o que o Thin Lizzy fez em “Róisin Dubh (Black Rose)”.
ERIC BELL – “I Wasn’t Born in the Delta” (2025 – Authenticity)
O amor de Bell pelo blues fica bem nítido nesta música de seu último disco de estúdio, em que ele toca guitarras e violão como um autêntico bluesman do Delta, embora afirme que não nasceu lá. Afinal de contas, blues é um estado de espírito, não a cor da pele ou o lugar de nascimento. O tom direto das guitarras, sem distorção, os solos fortemente enraizados na tradição blues, e a voz pequena, mas agradável, do irlandês dão a tônica dessa música, que pode não ser uma obra-prima, mas é gostosa de ouvir, e é sempre bom ver um guitarrista veterano abrindo seu coração nos solos como se ainda tivesse alguma coisa a provar.
Gary Moore
Robert William Gary Moore nasceu em Belfast em 4/4/1952, e seu pai, que era um promotor de shows e bailes na cidade, encorajou-o a cantar e lhe deu um violão quando ele tinha dez anos. Um detalhe: embora Gary fosse canhoto, o violão era para destros e ele teve que aprender a tocar assim! Ainda bem jovem, Moore começou a tocar com bandas locais, e em 1969 ele se juntou a Phil Lynott, então apenas vocalista, Brush Shiels (baixo) e Noel Bridgeman (bateria) no grupo Skid Row. Com Shiels acumulando o vocal solo, o Skid Row gravou dois discos em 1970-71, com um terceiro álbum lançado no começo dos anos 90 contendo material engavetado.
Após sair do Skid Row, ele formou a Gary Moore Band e lançou o álbum Grinding Stone. Em seguida, substituiu brevemente Eric Bell no Thin Lizzy, mas saiu antes que Night Life fosse lançado em 1974. Gary então se juntou a Jon Hiseman no Colosseum II, que rendeu mais três discos e em 1978 retomou a carreira solo, mas logo voltou ao Thin Lizzy, com quem registraria o ótimo Black Rose – A Rock Legend (1979). Outras bandas (Scars, G-Force, BBM – com Jack Bruce e Ginger Baker) se seguiriam, e Moore ainda arrumou tempo para gravar com Greg Lake entre 1981 e 83. Ao enveredar pelo blues, conseguiu mais sucesso comercial do que nunca nos anos 90, mas, em seus últimos anos, o alcoolismo se tornou um problema grave e ele morreu em 2011 de um ataque cardíaco precipitado pelo excesso de marvada.
Gary se notabilizou pelo uso de uma Les Paul 1959 que ele comprou de Peter Green, e eventualmente vendeu em leilão poucos anos antes de morrer; a guitarra hoje pertence a Kirk Hammett, do Metallica. Ele também usou uma Gibson ES335 semiacústica, bem como uma Fender Telecaster, e a Gibson fez uma série de Les Paul em sua homenagem. E embora tenha usado diferentes pedais de efeito (tantos que é difícil mencionar), quase sempre adotou amplificadores Marshall. À parte duas músicas do Thin Lizzy, as minhas escolhas para a mix tape vêm da carreira solo de Gary.
THIN LIZZY – “Still in Love With You” (1974 – Nightlife)
Primeiro grande momento de Gary na guitarra, registrado quando ele substitui temporariamente Eric Bell. Quando o Lizzy foi gravar a música, já com Brian Robertson e Scott Gorham, Phil Lynott concluiu que nenhum dos novos recrutas conseguia reproduzir o solo original de Gary e optou por mantê-lo na versão final. Gary faz dois solos nessa bela e triste balada, o primeiro mostrando todo o seu lirismo, o segundo já com um pouco mais de swing (até por causa da percussão que o acompanha). É verdade que eventualmente Scott Gorham aprenderia a brilhar nela durante os shows posteriores do Lizzy, mas ainda fico com a original. Moore futuramente tocaria “Still in Love With You” em seus shows solo, mas a voz meio sensual, meio dolorida de Lynott casa melhor com a música.
THIN LIZZY – “Roisin Dubh (Black Rose)” (1979 – Black Rose)
O único álbum inteiro que Moore gravou com o Thin Lizzy é, na minha opinião, uma obra-prima que termina com esse medley de músicas irlandesas tradicionais, maravilhosamente interpretadas por Phil Lynott, Scott Gorham, Brian Downey e o nosso herói. As guitarras de Gorham e Moore se entrelaçam à perfeição no longo interlúdio instrumental que marca “Black Rose”. A música irlandesa ainda influenciaria o trabalho de Gary nos anos subsequentes, mas esta é provavelmente o exemplo mais perfeito de como as raízes eram importantes para nosso guitar hero. Pena que depois que ele saiu o Lizzy nunca mais teve um guitarrista irlandês – é preciso ter Guinness no sangue para tocar músicas como esta.
GARY MOORE – “Over the Hills and Far Away” (1987 – Wild Frontier)
Essa música inicia um dos meus discos favoritos de Moore, iniciando com a artilheria baterística (programada, mas de muito bom gosto) de Roland Kerridge, e ainda traz Paddy Moloney, do The Chieftains, em outra música que remete à tradição irlandesa. O solo de guitarra no meio da música é curtinho, mas intenso, e o final traz mais guitarras impressionantes. Gary não desperdiçava notas, mesmo quando fazia solos em canções mais hard rock, e embora ele exagere um pouco na distorção, o final de “Over the Hills and Far Away” é um dos momentos que me fazem colocar o irlandês de Belfast num patamar elevado entre os meus guitarristas favoritos.
GARY MOORE – “Still Got the Blues” (1990 – Still Got the Blues)
A balada com a guitarra chorosa na introdução marcou a guinada na carreira de Gary, que renascia como bluesman. O sucesso dessa música acabou fazendo com que ele fizesse vários álbuns de blues (um deles dedicado a seu ídolo Peter Green) e o levou ao festival de Montreux, bem como a gravar com bluesmen de respeito como Albert Collins e Albert King. Moore consegue, com “Still Got the Blues”, aliar a tristeza do blues com seu background no hard rock, o que resulta numa faixa mágica, atraente, talvez um pouco batida hoje em dia porque muito repetida em playlists por aí. O solo inicialmente suave ganha vigor ao longo da música, fazendo com que Gary dê uma aula de bom gosto musical. Já ouvi puristas dizerem que é um monte de clichês; minha opinião é simplesmente “e daí?”
GARY MOORE – “Business as Usual” (1997 – Dark Days in Paradise)
O álbum Dark Days in Paradise me decepcionou um bocado quando do lançamento: ele abandonou o blues que o motivara nos quatro discos anteriores e o hard rock dos anos 80, e enveredou por um disco meio pop, com alguns efeitos eletrônicos meio deslocados, mas que terminava com uma balada autobiográfica de mais de 13 minutos, “Business as Usual”, que se encerra com um longo solo (cerca de cinco minutos), repleto de sentimento e com uma bela demonstração de sua habilidade em refletir o clima da música. Destaque-se também o violão que a pontua, pois substitui perfeitamente uma guitarra rítmica. Depois de um trecho de silêncio entrava a faixa-título como hidden track – mas teria sido melhor deixar o álbum terminar com as últimas notas da Les Paul de Moore.
Bernie Tormé
Bernard Joseph Tormey nasceu em Dublin em 18/3/1952 e começou a se aventurar no violão com 8 anos de idade, formando sua primeira banda na escola com 12 – e ganhando seu primeiro contracheque como músico aos 17. Morando em Londres desde 1974, ele se aventurou pela cena punk (algo que ele sempre curtiu) e depois juntou à banda The Scrapyards, onde conheceu um baixista chamado John McCoy, para depois formar a Bernie Tormé Band. Eventualmente, ele reencontraria McCoy na Gillan, com o ex-vocalista do Deep Purple, com a qual gravaria três álbuns em pouco mais de dois anos. Após ser expulso do grupo por se recusar a viajar para a Inglaterra para participar do Top of the Pops, ele participou de alguns shows com Ozzy Osbourne (após a morte de Randy Rhoads), e depois criou o Electric Gypsies, gravou discos solo, participou da banda Desperado com Dee Snyder (do Twisted Sister) e do Atomic Rooster (no disco de 1983, Headline News), e finalmente formou com o velho amigo John McCoy e o baterista Robin Guy o grupo GMT. Infelizmente, nosso guitar hero faleceu em 2019, na véspera de completar 67 anos, de pneumonia.
Bernie sempre preferiu as Stratocaster, sendo uma 1962 seu modelo mais usado, ainda que em 1982 ele tenha ganhado uma 1964 de Ozzy Osbourne que passou a dividir as preferências do guitarrista. Embora ele seja reconhecível pelo som fortemente distorcido de sua guitarra, encontrei poucas informações sobre o seu uso de pedais, e todas destacavam um Big Muff (que Mel Schacher usava no seu baixo nos tempos do Grand Funk Railroad) – que ele candidamente revelou adorar, embora fosse detestado pela maioria das pessoas. E seus amplificadores, na maior parte de sua carreira, eram os velhos e confiáveis Marshall. A nossa mix tape é basicamente composta por músicas da Gillan, mas há espaço para material da carreira solo do mestre.
GILLAN – “Mr. Universe” (1979 – Mr. Universe)
Após um disco lançado apenas no Japão e na Oceania, Gillan descolou um contrato com o selo Acrobat, regravou algumas músicas daquele LP, acrescentou umas novas, e acabou fazendo um sucesso inesperado. A faixa-título é um daqueles mini-épicos que tornariam a banda famosa no começo dos anos 80, e embora os teclados de Colin Towns sejam bem proeminentes, o interlúdio instrumental bota a guitarra de Tormé em destaque. Acredito que muita gente tenha tido o primeiro contato com nosso guitar hero por meio desse primeiro disco de Gillan, e o cartão de visita não poderia ser melhor. A Fender saturada de distorção e a velocidade nas escalas mostram que, embora Gillan tivesse contado com uma fera no primeiro álbum (o subestimado Steve Byrd), Tormé era o que faltava para a banda do velho Silver Voice.
GILLAN – “If You Believe Me” (1980 – Glory Road)
Ao longo da carreira, Ian Gillan cantou poucos blues – e este é sua obra-prima na área. Com sua voz a capella, Gillan dá o tom da música, e Bernie, quando entra, adota um som mais limpo, bem diferente do que o notabilizara na banda – o estilo tipicamente “tormeano” entra na hora do solo. É visível que ele não é um guitarrista de blues, mas ainda assim mostra talento e habilidade (especialmente quando ele estrangula a guitarra), evitando clichês do gênero e armando para Towns fazer um daqueles solos malucos ao piano que o caracterizavam nessa época. “If You Believe Me” é uma das minhas músicas favoritas da Gillan, e embora o desempenho de Ian e Colin seja magistral, boa parte desse favoritismo se deve ao belo trabalho de Bernie Tormé. No LP ao vivo de Double Trouble, há uma boa versão ao vivo (a única música com a guitarra de Bernie nesse que é o primeiro disco com Janick Gers), mas ainda prefiro a original.
GILLAN – “New Orleans” (1981 – Future Shock)
Diferentemente das outras músicas escolhidas, esta não traz um solo de guitarra (a não ser um trecho curtinho, a partir de 1’40”, em que Bernie abusa das alavancadas e da distorção que podia na sua guitarra). Cover do rocker Gary U. S. Bonds, “New Orleans” é um rock’n’roll simpaticamente cinquentista que me faz lembrar de Little Richard. Mas, se não há um solo, o que ela está fazendo aqui? A resposta é simples: tente imaginar a música sem a guitarra de Bernie se contrapondo ao vocal de Ian. É impossível! “New Orleans” é um lembrete de que você não precisa fazer um solo mirabolante para tornar a guitarra um destaque numa música. O álbum Future Shock foi o último que Bernie gravou com Gillan, e ele fechou sua participação na banda com chave de ouro, pois há muitas músicas no disco em que seu desempenho é um destaque absoluto.
BERNIE TORMÉ – “Lightning Strikes” (1983 – Electric Gypsies)
“Lightning Strikes” foi uma das primeiras músicas que ouvi com Bernie na guitarra (e incidentalmente no vocal), numa fita que um amigo gravou. Gravada para o segundo disco dele após a saída da Gillan, a música traz uma introdução com violão (instrumento que Bernie pouco tocava nessa época, embora ele viesse a gravar um disco acústico) e um riff de guitarra insistente que a percorre do início ao fim. O solo no meio da música é bom, mas o que vem depois é melhor ainda, com uma longa coda em que nosso amigo mostra todo seu talento, mesclando trechos mais líricos e suaves com outros em que seus dedos torturam a guitarra. Há uma boa versão dessa música em Live!, do ano seguinte, mas fico com a de estúdio.
BERNIE TORMÉ – “Follow the Leader” (1997 – Wild Irish)
Bernie ficara anos sem lançar um novo disco de estúdio quando Wild Irish saiu em 1997. O álbum traz a sonoridade que o consagrou nos anos 80, com uma voz um pouco envelhecida, mas sem perder nada do fogo na guitarra. “Follow the Leader”, a música mais longa do disco, traz um solo que começa com riffs de guitarra e se desenvolve ao longo do tempo numa música que, com o vocal de Ian Gillan e teclados mais proeminentes, não ficaria deslocada num álbum da Gillan. Embora o disco tenha sido gravado com a seção rítmica do grupo punk Anti-Nowhere League, “Follow the Leader” tem uma sonoridade meio psicodélica, meio heavy, que mostra a versatilidade de Tormé.
Vivian Campbell
Vivian Patrick Campbell nasceu em Lisburn, Irlanda do Norte, em 25/8/1962, e, diferentemente dos outros guitar heroes mencionados aqui, já começou direto na guitarra elétrica, tendo ganhado uma Telecaster aos 12 anos. Em algum momento ele conseguiu uma Les Paul, que se tornaria sua guitarra principal. E no começo dos anos 80 ele participou da banda Sweet Savage, que não chegou a gravar nenhum LP, mas serviu para chamar a atenção de Ronnie James Dio, tornando-se o guitarrista da banda do baixinho aos 21 anos. Esse período se encerraria em 1986, após três discos de estúdio e um EP ao vivo; a rigor, os primeiros discos da Dio são normalmente considerados os melhores e, na minha opinião, são aqueles em que Vivian mais brilha, na minha opinião.
Campbell passaria pelo Whitesnake (com quem não gravou nenhum disco), formou duas bandas (The Riverdogs e Shadow King – esta com o ex-vocalista do Foreigner, Lou Gramm) e se juntou ao Def Leppard em 1992. Posteriormente, ele gravaria um disco solo e participaria da banda-tributo a Dio, The Last in Line. Pessoalmente, considero que o Def Leppard não dá muita oportunidade para Vivian brilhar, mas sem dúvida nenhuma o rapaz ganha bem lá e parece se divertir tocando com o grupo. E como assisti a banda abrindo para The Who, deu para perceber que ele gosta do emprego.
Campbell é um membro do clube da Gibson Les Paul, tendo uma Custom 1978 como seu instrumento favorito, além de vários outros modelos da família Les Paul – alguns fabricados pela subsidiária Epiphone; mas ele também usou Fenders e outros modelos baseados sobretudo na Stratocaster. Comparado com outros guitarristas de hard/heavy, Vivian usa relativamente poucos pedais de efeito, e seus amplificadores preferidos são sobretudo da marca Randall. As músicas que selecionei se concentram sobretudo na fase Dio, mas há algumas curiosidades…
DIO – “Don’t Talk to Strangers” (1983 – Holy Diver)
Primeira música que ouvi do Dio, e por extensão a primeira em que ouvi a guitarra de Campbell. A introdução suave me pegou de cara, e quando a banda entra de vez, depois do primeiro minuto, o riff de guitarra foi suficiente para começar a bater cabeça. O solo de Vivian é bem mais longo do que se poderia imaginar para uma música de menos de cinco minutos, gravada por uma banda nomeada a partir do vocalista, e quando Ronnie volta a cantar, a gente quase pede para ele calar a boca, pois a guitarra continua soberana no fundo. Melhor cartão de visita para o talento de Vivian Campbell eu não poderia ter imaginado…
DIO – “Gypsy” (1983 – Holy Diver)
Não poderia faltar a primeira faixa a trazer a coautoria de Vivian no primeiro álbum de Dio. O riff de guitarra mostra que o guitarrista não seria meramente um emulador de Tony Iommi, diferentemente de algumas músicas de Holy Diver (aliás, a música seguinte, “Caught in the Middle”, reforçaria essa impressão de que ele não estava ali para imitar o mestre do Sabbath). O solo é típico do guitarrista irlandês, aliando técnica e velocidade, e um bom exemplo de seu talento precoce. Não posso deixar de registrar o belo desempenho de Vinnie Appice na bateria naquela que é uma das músicas mais curtas do LP, mas que não precisava de mais nada para se destacar.
DIO – “Egypt (The Chains Are On)” (1984 – Last in Line)
Esse disco não podia faltar, afinal, foi o primeiro LP do Dio que consegui comprar. Quase coloquei a faixa-título em destaque, mas em termos de desempenho guitarrístico, “Egypt (The Chains Are On)” é minha favorita. Depois da introdução que lembra um pouco “Gates of Babylon”, do Rainbow, a música se desenvolve num ritmo pesado e lento, alternando climas até chegar no (curto) solo de Vivian, que diz mais em 35 segundos do que muita gente por aí em dez minutos. Eu tinha optado por comprar este disco em vez de Holy Diver porque adorava “Mystery”, mas ao longo dos anos “Egypt…” se tornou minha favorita. Teria sido interessante ver Dio, Vivian e Jimmy Bain walking like egyptians, se me permitem o trocadilho…
RIVERDOGS – “Toy Soldier” (1990 – The Riverdogs)
Um dos projetos em que Vivian se envolveu após deixar a banda do Pequeno Grande Homem Dio, The Riverdogs gravou um bom LP homônimo em 1990. Bem mais comercial que o Dio original, o grupo tinha um bom vocalista (Rob Lamothe) e merecia mais sucesso do que fez – talvez por conta da ascensão do grunge, que ocorreu mais ou menos na mesma época. Lembro que, quando peguei o CD emprestado para ouvir, pensei que essa música seria uma versão do Small Faces, mas é uma música totalmente diferente, mais pop do que Campbell fazia com o Dio. Escolhi-a porque o solo é bem mais melodioso do que a maioria do que Vivian fizera até então (e, inclusive, do que faz no álbum) – e porque tanto a banda quanto o disco são relativamente pouco conhecidos. Injustiça, é claro!
DEF LEPPARD – “Cruise Control” (2008 – Songs from the Sparkle Lounge)
Convenhamos: o Def Leppard não é exatamente uma banda que se destaque pelos solos de guitarra, e Songs from the Sparkle Lounge não é um de seus discos mais lembrados. Mas em “Cruise Control” (composição dele, aliás), Vivian se mostra perfeitamente integrado com Phil Collen e faz um solo curto, mas cheio de feeling – que ele mesmo apontou como um de seus favoritos em uma entrevista. Ao final da música, ele tem mais uma pequena chance de brilhar, tornando-a uma raridade no Def Leppard, que sempre investiu mais em uma sonoridade mais coletiva, com pouco espaço para grandes desempenhos individuais. Vivian valoriza esse solo porque foi gravado num só take, em pouco mais de um minuto de estúdio. A música seguinte nesse disco, “Hallucinate”, tem guitarras com mais cara de Campbell, mas ainda acho que “Cruise Control” reflete mais o trabalho dele com o Leppard.
Bonus track: o anti-herói da guitarra
The Edge
David Howell Evans nasceu em 8/8/1961 em Barking, Condado de Wessex (Inglaterra), filho de pais galeses que se mudaram para Dublin em 1962. Seu irmão mais velho Richard (conhecido como Dik) ensinou-lhe piano e violão ainda na infância, e o jovem David ganhou seu primeiro violão aos sete anos, ganhando outro aos 9, que ele e o irmão trocaram as cordas originais de aço pelas de nylon. Ele e Dik decidiram responder ao anúncio do baterista Larry Mullen Jr. no mural da escola procurando por músicos em 1976, mas logo depois Dik decidiu servir o exército. Em algum momento Dave ganhou o apelido The Edge, que acabou lhe acompanhando por toda a vida. The Edge e o U2 nunca se separaram, e ele e Bono se tornaram a cabeça e o coração do grupo – a ponto de o guitarrista ter feito relativamente pouca coisa sem os colegas. Seu estilo econômico, empregando poucas notas, tornou-se peculiar e facilmente reconhecível, e o fato de ele pouco se aventurar nos solos torna-o um anti-herói da guitarra, mais interessado na sonoridade que ele consegue extrair de sua guitarra do que em demonstrações de habilidade.
Embora The Edge use muitas guitarras diferentes, a Gibson Explorer 1976 que comprou em 1978 era provavelmente seu instrumento favorito, empregado em todos os discos de estúdio do U2. As Fender Stratocaster (outra de suas favoritas: o modelo 1973 preto é o mais usado e a base para a linha The Edge Signature) e Telecaster, as Gibson Les Paul e a Gretsch Chet Atkins também passam pelas mãos do guitarrista, que costuma usar diversos pedais de efeitos para tirar seu som – tantos e de tantas marcas diferentes que se costuma dizer que é fácil tocar uma música do U2, mas difícil soar como The Edge. Por fim, em termos de amplificadores, o VOX AC30 (modelo 1964) é seu preferido, embora ele tenha vários Fender. Para a nossa mix tape, alguns momentos memoráveis de Dave “The Edge” Evans com o U2 – afinal, não tem tanta coisa assim fora dele…
U2 – “I Will Follow” (1980 – Boy)
A primeira música do primeiro LP foi o cartão de visita de mr. David Evans para o mundo. O riff de guitarra seco e meio repetitivo estabelece bem a sonoridade de The Edge e deu uma cara toda própria ao U2, nessa que é a música mais tocada pela banda em seus shows de acordo com o Setlist.fm. Não há solos, mas durante a ponte The Edge coloca vários efeitos na guitarra, fazendo com que “I Will Follow” seja um bom exemplo de como o U2 já tinha um som bem próprio no começo de sua carreira. Particularmente, gosto mais da versão ao vivo em Under a Blood Red Sky, mas a importância simbólica da original é insuperável.
U2 – “New Year’s Day” (1983 – War)
Claro, a primeira coisa que chama a atenção no começo da música é o piano, mas se você o deixar de lado, vai ouvir as palhetadas de The Edge costurando a melodia logo abaixo, e ele continua em um planeta próprio enquanto Bono canta. Após o refrão, o trecho instrumental traz de volta o piano, e perto dos 3’30” Edge se arrisca num solo tecnicamente simples, mas eficaz (os irlandeses que apareceram anteriormente nessa seção tê-lo-iam recheado de notas, mas o nosso guitarrista-bônus é bastante econômico nesse quesito…). Novamente, a versão ao vivo de Under a Blood Red Sky ganha em termos de energia, mas acho que a guitarra rítmica soa bem mais interessante na de estúdio, por isso optei por ela.
U2 – “Bullet the Blue Sky” (1987 – The Joshua Tree)
Quando The Joshua Tree saiu em 1987, tomei um susto ao ouvir essa música. Bono soando raivoso, destaque para o baixo de Adam Clayton, Larry Mullen Jr. colocando peso na bateria e The Edge usando mais distorção do que nunca – além de usar acintosamente slide. O U2 tinha mergulhado na música americana e repentinamente botara a cara para fora d‘água com algo diferente de tudo o que tinham feito até então. Edge faz um solo bem mais longo do que acostumara os fãs, mais uma vez abusando dos efeitos na guitarra. Futuramente, ele incorporaria de vez os pedais de efeitos que usou nessa música, bem como o slide, mas é em “Bullet the Blue Sky” que ele vira a chave. Há várias versões ao vivo, mas quis destacar a de estúdio por causa da surpresa que me causou.
U2 – “The Fly” (1991 – Achtung Baby)
Quando Achtung Baby saiu, muitos fãs do U2 reagiram com um “que p***a é essa?” ao terminar o lado A. Pobrezinhos, nem imaginavam o que viria já de cara no lado B. O riff de guitarra era bem mais pesado do que o que viera até então, os vocais tratados de Bono estavam mais abafados do que nunca, a bateria parecia um loop permanente, e The Edge novamente se arrisca num dos seus solos cheios de efeitos que me fazem pensar que ele toca a guitarra mais com os pés do que com as mãos. Essa é uma música que eu gostaria de ouvir em versão puramente instrumental, e, embora Achtung Baby tenha outras que dão bastante destaque à guitarra de nosso anti-herói, acho que “The Fly” representa bem o disco que marca outra virada de chave na carreira do grupo.
U2 – “All Because of You” (2004 – How to Dismantle an Atomic Bomb)
Eu tinha selecionado inicialmente “Vertigo”, mas após trocar figurinhas com minha irmã (provavelmente a maior maníaca por U2 que conheço), “All Because of You” acabou ocupando seu lugar na lista. Imagine ouvir essas duas músicas sem a guitarra: “Vertigo” se sustenta, mas “All Because of You”, não. Os riffs de The Edge são o que a define, e o desempenho do guitarrista é meio prejudicado pelo fato de que Bono não fecha a boca, desviando a atenção do trabalho do carequinha. Mas se você passar por cima do cantor, percebe que The Edge estava bem inspirado aqui. Diferentemente das outras desta lista, “All Because of You” foi pouco executada ao vivo pela banda – uma pena, podia entrar no lugar de alguns “cavalos de batalha” que já renderam o que podiam.
