Neil Young – Archives Vol. III – Takes [2024]

Por Micael Machado
Em setembro de 2024, o músico canadense Neil Young lançou a terceira parte de seus “arquivos”, uma série de box sets compreendendo, como o nome sugere, faixas “arquivadas” da carreira do músico, muitas delas inéditas e desconhecidas do grande público, ao lado de outras já lançadas anteriormente na longa discografia do cantor e compositor. Este terceiro volume consiste em um total de 198 faixas ao longo de 17 CDs (121 delas não lançadas previamente), além de 5 Blu-rays, trazendo raridades da carreira de Young entre 1976 e 1987. Para quem comprasse o box na pré-venda, foi disponibilizada uma espécie de “aperitivo” do conteúdo da caixa na forma de um CD extra com 16 faixas (sendo uma representante de cada CD do box set, à exceção do décimo sexto, que não forneceu nenhuma gravação para a compilação) intitulado Takes, o qual, após o box completo ficar disponível para venda geral, foi lançado também em uma versão em vinil duplo, que é aquela sobre a qual trato neste texto.
Apesar da grande quantidade de músicas inéditas constantes do box completo, dentre as dezesseis escolhidas para esta compilação apenas três podem ser consideradas realmente “novidades” para os fãs do bardo canadense: “Lady Wingshot”, faixa de pegada mais country gravada em 1977, e que poderia muito bem se encaixar no álbum American Stars ‘n Bars, lançado naquele ano (apesar de, aqui, ainda soar como uma demo inacabada); a roqueira “Bright Sunny Day”, gravada ao lado do Crazy Horse em 1978, e que poderia fazer parte do lado B de Rust Never Sleeps, de 1979, apesar de também soar como uma demo ainda inacabada; e outra composição ao estilo country na forma de “Winter Winds”, datada de 1980. As faixas restantes trazem diversos estilos pelos quais Young “perambulou” ao longo de sua carreira, como: faixas acústicas apenas com voz e violão (e uma ocasional harmônica aqui e ali), como uma versão diferente da clássica “Comes a Time” (que depois apareceria na versão em vinil de Oceanside Countryside, lançada em 2025); a mesma versão de “Hitchhiker” que daria título ao “álbum perdido” lançado em 2017; uma gravação ao vivo de “Thrasher” registrada em 1978, e outra de “Let It Shine” gravada no famoso Budokan de Tóquio em 1976 (e que não faz parte do track list do álbum Odeon Budokan, de 2023, o qual traz gravações no mesmo local e do mesmo período); e uma versão alternativa para “Hey Babe” (cuja original aparece no já citado American Stars ‘n Bars), que, aqui, conta com os vocais das cantoras Nicolette Larson e Linda Ronstadt; faixas mais “roqueiras”, com destaque para as guitarras, como uma versão inédita de “If You Got Love” (diferente daquela que ficou de fora da seleção final incluída no álbum Trans, apesar de incluída na lista de músicas da contracapa) e as versões ao vivo de “Drive Back” e “Barstool Blues” registradas ao lado do Crazy Horse em 1976 e 1984, respectivamente; faixas ao estilo “country music”, como a versão de “Sail Away”, que aparece aqui em um raro registro de estúdio do projeto The Ducks, grupo de curta duração que Young integrou em 1977, ou a versão ao vivo de “This Old House” gravada em 1985, composição que seria depois gravada pelo supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young em seu álbum American Dream, de 1988; e faixas com um toque mais “eletrônico”, com Young dando mais atenção ao sintetizador Synclavier do que às guitarras, como na versão original de “Razor Love” (gravada em 1984, faixa que reapareceria completamente retrabalhada, em uma versão acústica ao violão, no álbum Silver & Gold, lançado no ano 2000) ou a balada com jeitão de “hino” “Last of His Kind”, de 1987, faixa que fecha o box original, se desconsiderarmos uma faixa falada de quatorze segundos intitulada “Rap (Outro)” (não incluída nesta compilação), e que já havia sido disponibilizada anteriormente na seção de “arquivos” do site oficial do canadense.

Ainda temos uma surpreendente versão de quase dez minutos para “Hey Hey, My My (Into the Black)” gravada por Young ao lado da banda Devo em 1978, inclusive com os vocais a cargo de Mark Mothersbaugh (vocalista do Devo), ao invés de Neil, e que soa bem diferente da clássica versão elétrica registrada ao lado do Crazy Horse no citado álbum Rust Never Sleeps (a história seria que esta faixa foi gravada para o filme Human Highway, dirigido por Young, o qual foi gravado ao longo de quatro anos, com o lançamento ocorrendo apenas em 1982, e que conta com os membros do Devo participando como atores. A frase “rust never sleeps“, cantada por Mothersbaugh nesta canção, teria servido como inspiração para o título do álbum do canadense, lançado no ano seguinte). Esta faixa, para mim, acaba sendo o maior atrativo desta compilação (mesmo com as três músicas inéditas incluídas), a qual apresenta um track list em ordem “quase” cronológica ao longo dos quatro lados do vinil, e que eu considero recomendável apenas para os fãs mais “die hard” do bardo canadense, pois, para o ouvinte ocasional, vai acabar não agregando tanto assim, nem representando uma era mais atraente da longa carreira do músico (afinal, é bem sabido e divulgado que, no período entre 1980 e 1988, estão alguns dos piores registros da discografia de Young, tanto que ele chegou a ser processado pela sua gravadora à época, a Geffen Records, por “gravar discos que não soam como Neil Young”).
Para quem curte a música de Neil Young, mas não tem condições de adquirir o box completo (com o maior motivo, acredito eu, sendo o alto custo financeiro do mesmo, que, além de tudo, não teve lançamento em versão nacional), esta coletânea acaba não sendo tão atraente, também, pois acaba trazendo poucas faixas realmente “novas”, sendo a maioria versões diferentes de músicas já lançadas em outros momentos da discografia do canadense (chegando ao ponto de incluir faixas que se encontram em lançamentos regulares, como as citadas “Hitchhiker” e “Comes a Time”). Com a quantidade de faixas interessantes presentes no box completo, Takes poderia ter um track list bem mais atraente, mas, infelizmente, não foi o que aconteceu. Uma pena!

Track List (versão em vinil):
Lado A
1. “Hey Babe”
2. “Drive Back”
3. “Hitchhiker”
4. “Let It Shine”
Lado B
5. “Sail Away”
6. “Comes a Time”
7. “Lady Wingshot”
8. “Thrasher”
Lado C
9. “Hey Hey, My My (Into the Black)”
10. “Bright Sunny Day”
11. “Winter Winds”
12. “If You Got Love”
Lado D
13. “Razor Love”
14. “This Old House”
15. “Barstool Blues”
16. “Last of His Kind”

Não sabia desse álbum com versão “diet” do Archives. Além do preço das boxes ser muito alto, outro problema é que elas não são nada confortáveis em termos de estocagem! Não tenho nenhum lugar em que eu possa guardar uma delas na minha casa… Neil ainda disponibiliza as músicas no seu website?
Marcello, ao que sei, alguns arquivos são disponibilizados, sim, mas é preciso ser assinante do site dele! Acredito que, de forma gratuita, só o que ele libera no Youtube!
Esses caras com carreiras muito longas já é difícil de acompanhar a discografia oficial. Aí eles me veem com esse tipo de coisa. Eu não sei se conseguiria absorver o conteúdo completo de um lançamento desses. Por coincidência daqui umas semanas tem um texto sobre outro artista com esse tipo de lançamento…:P
Rapaz, eu nunca consegui ouvir sequer tudo oficial do Neil Young, imagine as sobras de arquivo.
Acompanhar a carreira do NY é teste de resistência, até porque o cara vem lançando 4 ou 5 discos por ano… é disco novo, disco “recuperado” dos arquivos, disco ao vivo da turnê atual, disco ao vivo de turnê antiga… os arquivos do velhinho parecem sem fim! Haja paciência e vontade para se manter atualizado… Mas “nóis tenta”…
Esse é o tipo de lançamento/produto realmente para fãs e, em termos mercadológicos, o verdadeiro negócio da China: você é um profissional que preza por comercializar aquilo que entende ser o seu melhor produto. Aí, o tempo passa, o mundo muda e você descobre que as pessoas agora pagam PELAS SUAS SOBRAS, que estão lá guardadas juntando poeira! Contrate a turma do marketing, do design e o setor de vendas, mas sem você precisar trabalhar e botar a mão na massa, pois basta mexer nos seus arquivos e lançar tudo.
Se eu fosse fã do Neil Young nesse nível, óbvio que eu compraria, então nunca julgo quem o faz – minha estante com essas coisas dos Beatles que o diga.
Pior que a gente meio que sabe o motivo desse material ter sido arquivado né? Raramente se salva algo realmente bom.
A gente e o próprio artista, né? hauehahahahaha
Certamente, o melhor da carreira não iria ficar estocado em um arquivo por décadas a fio, né? Mas o Neil (cada vez menos) Young até lançou alguns trabalhos “recuperados” bem interessantes, tipo o Homegrown ou o Toast! Mas tem muita coisa que poderia ter permanecido arquivada e não faria falta alguma, mesmo!