Bruce Springsteen – Only the Strong Survive: Covers Vol.1 [2022]

Bruce Springsteen – Only the Strong Survive: Covers Vol.1 [2022]

Por Fernando Bueno

Nas primeiras vezes que ouvi o álbum de covers do Bruce Springsteen, Only the Strong Survive, lançado em 2022, eu pouco me ative aos artistas que ele estava homenageando. Ouvi pelo Spotify, e essa é uma das características negativas sobre música digital. Se não procurarmos, as informações nem sempre estão à mão. Recentemente comecei a tampar alguns buracos da coleção e esse foi um disco que adquiri. A primeira coisa que fiz foi ouvir com o encarte em mãos.

Porém, mesmo nas audições por streaming, eu já tinha a noção de que não conhecia nada do que estava sendo tocado ali. Imaginei que, mesmo se aquelas músicas fossem de artistas conhecidos, ele tinha escolhido música mais obscuras. Não tinha ali nenhum hit que eu, porventura, teria ouvido ocasionalmente. Com o encarte em mãos praticamente não mudou muita coisa. Os nomes que eu li ali nos créditos das faixas não me diziam nada. Ou seja, tive que fazer aquilo que todo colecionador e amante de músicas adora fazer: pesquisar e fuçar.

Esse é o segundo álbum de covers que Bruce Springsteen lança e, pelo jeito, sabemos que não será o último. Pois o nome completo do disco é: Only the Strong Survive: Covers Vol. 1. Ou seja, pelo menos podemos esperar um segundo volume. Conhecendo a profusão de lançamentos de Springsteen até mesmo um terceiro volume não seria de se estranhar. Para não ficar sem a informação, o primeiro disco foi We Shall Overcome: The Seeger Sessions, em que ele interpreta sucessos de Pete Seeger, um artista que começou sua carreira no final da década de 1930 e alcançou a fama como membro do grupo The Weavers, e ajudou a popularizar a música folclórica tradicional no início da década de 1950. Um disco bastante diferente do que Bruce Springsteen costumava fazer.

Antes mesmo do lançamento do disco, Bruce afirmou em um comunicado que “queria fazer um álbum onde apenas cantasse” e que gostaria de “fazer justiça ao cancioneiro americano dos anos 60 e 70”. No fim, além dos vocais, ele também tocou guitarra e piano em algumas faixas, enquanto o restante dos instrumentos ficou sob a responsabilidade do produtor Ron Aniello — com exceção dos metais, gravados por músicos da E Street Band. Em duas canções, Bruce divide os vocais com Sam Moore, falecido em janeiro de 2025, cantor que formou, ao lado de Dave Prater, o influente duo Sam & Dave, um dos nomes fundamentais do soul dos anos 1960 e integrante do Rock and Roll Hall of Fame.

Os nomes dos compositores originais das músicas não me chamaram atenção, mas quando vi o nome dos artistas e bandas que gravaram essas músicas pelo menos três nomes ficaram mais reconhecíveis para mim: Commodores, responsáveis pela música “Nightshift” (uma das melhores do disco e clara influência para o estilo de letras de Bruce), The Temptations de “I Wish It Would Rain” e Diana Ross & The Supremes que gravaram a versão conhecida de “Someday We’ll Be Together”. Porém, essas músicas fazem parte de momentos menos óbvios de suas discografias, longe dos grandes hits que os tornaram mundialmente conhecidos.

Ao todo são 15 músicas escolhidas a dedo por Bruce. Nesse disco, ele não é apenas um artista de renome homenageando alguns de seus ídolos, tocando músicas que ele cresceu ouvindo. Ele é uma espécie de curador apaixonado que tenta fazer com que seus fãs se conectem também aos nomes apresentados.

A primeira faixa, que é a faixa título do álbum é de Jerry Butler, também conhecido como Iceman. Foi um dos fundadores dos The Impressions junto de Curtis Mayfield e Bruce carrega na teatralidade, no drama em uma faixa que é um dos destaques do disco. São duas faixas, compostas por artistas diferentes, do The Four Tops, um dos principais quartetos vocais da Motown, principalmente de Levi Stubbs, que tem uma voz rouca e intensa, que certamente influenciou muito o jovem Bruce Springsteen.  

Bruce cava fundo no soul dos anos 60 e 70, mas prefere focar naquele soul mais romântico, de amores vulneráveis, cheio de orquestrações de artistas da Motown, Philly Soul e outros selos do estilo. Não apresenta praticamente nada de soul mais engajado politicamente de Marvin Gaye ou Curtis Mayfield. Bruce aqui não está interessado em mostrar que é capaz de cantar soul, ele quer mais é mostrar suas raízes. E que venha o próximo volume.    

 

4 comentários sobre “Bruce Springsteen – Only the Strong Survive: Covers Vol.1 [2022]

  1. É difícil um artista do tamanho do Springsteen se propor a ser ‘apenas’ um intérprete e soar tão autêntico, e sua resenha faz justiça a esse esforço. Texto obrigatório para quem quer entender a importância do Soul na formação do Bruce. Parabéns pelo conteúdo!

  2. Excelente abertura dos trabalhos de 2026, Fernando!

    Como eu não conhecia esse disco de nosso The Boss, li primeiro a sua resenha e, ao chegar nas músicas, percebo que seu texto capta bem o que devemos esperar e entender dessas gravações!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.