Discos que Parece que Só Eu Gosto: Metallica – Load [1996]
Durante nossas férias, ao longo de janeiro e fevereiro de 2026, iremos trazer aqui matérias relacionadas com álbuns/eventos ocorridos em anos terminados com o número 6 (1966, 76, 86, 96, 2006 e 2016). Ao mesmo tempo que rememora essas matérias, aproveite para ouvir nossa Playlist com os Melhores de 2025, escolhidos por nossos consultores. Desejamos à todos um excelente 2026, e após re-calibrarmos nossas energias, voltaremos com novas matérias a partir de março. Forte abraço e obrigado pela leitura e participação de sempre.
Por Bruno Marise (Publicado originalmente em 02 de maio de 2012)
É compreensível o choque que os fãs do Metallica levaram em 1996, quando, depois de cinco anos sem lançar material novo, chegou às lojas Load. A primeira torcida de nariz foi com as fotos da contracapa, nas quais a banda aparecia de cabelos curtos, e por isso já foram taxados de traidores pela ala mais conservadora. O disco foi massacrado sem dó pela grande maioria, dizendo que seus ídolos haviam se vendido. Sim, tudo isso é aceitável vindo dos fãs mais xiitas de metal e da própria banda, o que não se pode admitir é a opinião de certas pessoas que só vão na onda, sem nem sequer ter escutado a bolacha. Mas vamos por partes.
Um dos principais argumentos usados para sabatinar o disco é o de que o Metallica não fazia mais thrash metal. Sim, é verdade. Load não é um disco thrash. A banda já havia deixado a vertente de lado no trabalho anterior, o bem sucedido Black Album (1991), dando mais ênfase nos grooves das guitarras e diminuindo a velocidade já conhecida nos trabalhos anteriores. A aposta deu certo e o álbum tornou-se um dos mais vendidos da história.
Portanto, é natural que o Metallica seguisse o caminho e continuasse a buscar novos horizontes para o seu som. Apesar de ser mais acessível, o Black Album estava longe de ser “pop”. O peso e a agressividade continuavam, e a qualidade também era altíssima. Load segue a verve mais cadenciada de seu predecessor, porém um pouco menos “heavy”. Nem por isso o disco deixa de ser pesado. Os riffs continuam ali e a cozinha permanece afiada. Ainda é uma obra de heavy metal, mas com pitadas de hard e até stoner rock, que exploram um lado diferente de Hetfield, Hammet, Ulrich e Newsted. Entende-se o estranhamento da parcela mais conservadora, que talvez esperasse algo na linha de Ride the Lightning (1984) ou Master of Puppets (1986), mas não ser thrash não torna o disco pior.

Existem vários pontos positivos a destacar em Load. James Hetfield mostra que, além de seus berros roucos, também sabe cantar, e tem uma ótima voz. Os solos também marcam presença, e Kirk entrega uma grande performance em várias músicas, evidenciando ainda mais sua vertente melódica e criatividade, como veremos mais adiante. A produção assinada por Bob Rock é impecável, deixando o som bastante polido, sem perder o peso. Para tentar explicar melhor o porquê de Load não ser a porcaria que muitos acreditam, vamos destrinchar algumas das melhores faixas do disco:

“Ain’t My Bitch” abre a bolacha com uma intro bastante pesada, refrão grudento e Kirk fazendo o solo com timbre de música country. Na sequência temos “2 x 4” com seu riff digno de Black Sabbath, em uma levada mais cadenciada. Depois vem “The House that Jack Built”, com mais um refrão pegajoso e o solo feito com talkbox. A faixa mais “pop” do disco é a melancólica “Until It Sleeps”, ao lado da balada acústica “Mama Said” e de “Hero of the Day”, que começa lenta (com James mostrando sua versatilidade como vocalista) e vai ganhando mais e mais peso. Temos ainda a minha faixa preferida do disco, “King Nothing”, com um refrão poderoso e o melhor solo de Load, com bastante uso de wah-wah. É possível destacar ainda “Torn Within” e seu riff brutal, que poderia facilmente ter saído do Black Album, e a excelente “The Outlaw Torn” com uma melodia pegajosa e um solo impecável, que começa devagar, com slides e efeito delay, e vai ganhando corpo.
É claro que Load não é um disco perfeito e nem se equipara aos grandes clássicos do Metallica, mas está longe de ser ruim. Deve-se ter mais paciência e ouvi-lo sem preconceito e com mais boa vontade ao invés de simplesmente execrá-lo sem dar á devida atenção, só por comentários de terceiros. Com certeza seria um destaque na discografia de qualquer banda menor.
O grupo todo com cabelos curtos, fato que causou revolta entre os fãs radicais
Não se deve condenar um artista por buscar novos caminhos. É lamentável quando algum grupo muda ou “amacia” sua sonoridade para vender mais ou agradar executivos de gravadora. O Metallica buscou sim um caminho mais acessível, mas nunca deixou o peso e a qualidade de lado (exceto em St. Anger (2003), esse sim um grande equívoco da banda), portanto, é louvável que tenham tentado expandir sua criatividade e experimentar novos sons. Se você é daqueles que torce o nariz só de ouvir falar em Load, dê mais uma chance e ouça o álbum com carinho, e vai perceber que não é assim tão ruim como pensa.
Track list
- Ain’t My Bitch
- 2 x 4
- The House that Jack Built
- Until It Sleeps
- King Nothing
- Hero of the Day
- Bleeding Me
- Cure
- Poor Twisted Me
- Wasting My Hate
- Mama Said
- Thorn Within
- Ronnie
- The Outlaw Torn
