Vamos Falar de Compactos? (Parte 1)
Por Micael Machado
A matéria do Daniel sobre os EPs me fez pensar em outro formato tradicional de lançamento de canções em formato físico, os famosos “compactos”, também conhecidos como 7″ (sete polegadas, devido ao seu tamanho reduzido, em comparação aos “long plays” de doze polegadas), “disquinhos” ou “bolachinhas” (em oposição às “bolachonas” maiores). Nas décadas anteriores a 1970, este era o meio mais comum de lançamento de novidades por parte dos artistas, e muito mais “valorizados” que os seus “irmãos” de 12″. Dizem que coube aos Beatles o pioneirismo de dar “prioridade” aos álbuns “completos” do que aos “singles” (como, muitas vezes, os “disquinhos” também são chamados), mas o certo é que, ao longo da década de 1970 (e mesmo durante os anos oitenta do século passado), muitas composições que hoje são consideradas “clássicos” da música mundial (em diversos estilos) só podiam ser encontradas em formato físico em suas respectivas “bolachinhas” originais (quase toda banda “grande” das décadas de 1960 ou 1970 tem pelo menos um hit que saiu apenas neste formato, pode pesquisar), ainda que, anos depois, elas acabassem sendo incluídas em coletâneas destes artistas ou, com a popularização dos CDs e os relançamentos “expandidos” ou “comemorativos” de álbuns “clássicos” neste formato, principalmente no século XXI, como atrativas “faixas bônus” de edições “caprichadas” (ou nem tanto”) deste tipo de mídia.
A chegada do CD viu cair drasticamente o lançamento de compactos com músicas inéditas por parte das bandas, especialmente a partir da década de 1990 e na primeira década deste século. É bem difícil encontrarmos uma “bolachinha” deste período, de algum artista “consagrado”, que contenha faixas que não fazem parte dos discos “oficiais” destes músicos. Vários CDs promocionais são fáceis de encontrar nos “mercados livres” da vida, alguns até com faixas inéditas, mas compactos desta época com faixas exclusivas, já são outra história. Mesmo assim, o formato ainda resiste, e, a meu ver, principalmente nos últimos dez anos, parece ter tido uma espécie de “retomada”, com vários lançamentos no formato surgindo por ano tanto no Brasil quanto lá fora, alguns trazendo faixas exclusivas, outros trazendo um “single” de sucesso de algum álbum, e outros contendo versões “diferentes” para músicas já lançadas pelo artista em algum momento de sua carreira.
Para a primeira parte deste texto, quero indicar cinco compactos de grupos “gringos” que contém faixas exclusivas, e que foram lançados nos últimos quinze anos, para reforçar esta ideia de que o formato continua vivo, e, apesar de não tão relevante quanto há 60 ou 70 anos, ainda importante (as indicações estão por ordem de lançamento)! Na segunda parte deste texto, a ser publicada em breve, tratarei de cinco artistas nacionais que também lançaram músicas exclusivas neste formato no mesmo período de tempo, o que mostra que as “bolachinhas” “vinílicas” também não foram esquecidas no nosso Brasil varonil! Vamos lá!

Therion – Les Sucettes [2013]
A versão do Therion para a canção “Les Sucettes” (originalmente composta e gravada pelo cantor francês Serge Gainsbourg em 1966) foi registrada para o álbum de covers Les Fleurs du Mal, de 2012, mas acabou ficando de fora do “track list” oficial do disco, apesar de incluída na versão digital do mesmo. Em 2013, a faixa recebeu um lançamento físico, no curioso formato 5″ (cinco polegadas), ainda menor que um sete polegadas, e pouco maior que um CD comum (porém, perfeitamente executável em toca discos “comuns”, especialmente os que não possuem retorno automático do braço – nestes, já passei por alguns onde o formato era muito pequeno para o ajuste do retorno, e o aparelho não conseguia reproduzir a “bolachinha”), tendo no seu lado B uma inédita versão “demo” de “Lilith” (“cover” para a faixa gravada originalmente por Léonie Lousseau em 1972), cuja versão “final” acabou incluída no track list “oficial” do álbum de 2012. Inicialmente vendida apenas no site do Therion, a “mini bolachinha” saiu em diversas cores (como mostrado na foto – só para constar, a minha é na cor verde), e todas as edições desta primeira “fornada” eram autografadas pelo líder e “dono” do Therion, o guitarrista Christofer Johnsson.

Alice In Chains – What The Hell Have I / Get Born Again [2017]
Lançamento exclusivo do Record Store Day de 2017, esta é uma edição em “compacto duplo”, mas não no sentido ao que o termo é muitas vezes referido (um “disquinho” com duas faixas de cada lado), e sim no sentido de que são duas “bolachinhas” de sete polegadas na mesma embalagem (como se fosse um álbum duplo de 12″, só que no formato 7″). Ele contém, nos lados A e B, versões remixadas para “What The Hell Have I” e “A Little Bitter”, originalmente encontradas na trilha sonora do filme Last Action Hero (no Brasil, O Último Grande Herói), de 1993, e que foram as primeiras gravações do baixista Mike Inez com o grupo. Nos lados C e D, versões para “Get Born Again” e “Died”, duas faixas lançadas originalmente no box set Music Bank, de 1999, e que viriam, infelizmente, a ser as últimas faixas gravadas pelo vocalista Layne Staley junto ao grupo, antes de seu falecimento. Estas faixas acabaram aparecendo também em outras coletâneas do grupo, mas, até onde sei, a única forma de ter em vinil as duas faixas do segundo compacto é neste lançamento exclusivo do RSD. Quem, como eu, possui uma das quatro mil cópias da edição limitada desta “bolachinha dupla”, pode curtir à vontade estas versões!

Ghost – Seven Inches Of Satanic Panic [2019]
A história “oficial” deste registro conta que as duas faixas dessa “bolachinha” teriam sido gravadas e lançadas em 1969 por uma encarnação “anterior” do Ghost, liderada pelo Papa Emeritus Nihil (também conhecido como “Papa Emeritus Zero”) junto aos tradicionais “Nameless Ghouls”, aparecendo neste compacto em versões remasterizadas especialmente para a comemoração do aniversário de cinquenta anos da versão original. No lado A, temos “Kiss the Go-Goat”, que ganhou um vídeo de divulgação também “supostamente” gravado em 1969, e que apresenta Nihil tanto em sua versão “jovem” da época quanto em sua versão “idosa” de 2019, relembrando seu passado junto à Sister Imperator. No lado B, temos “Mary On A Cross”, que acabou se tornando uma das músicas mais conhecidas do Ghost, especialmente depois de vários usuários do Tik Tok a usaram como “tema” de seus vídeos na plataforma. As duas faixas acabaram incluídas no álbum ao vivo Rite Here Rite Now, de 2024, e “Mary On A Cross” acabou recebendo um lançamento exclusivo em vinil em 2022 (em um compacto com uma versão diferente da faixa em cada lado), mas, até onde sei, a única forma de encontrar em vinil as versões originais dessas músicas é neste lançamento. Vale citar que, no citado ao vivo de 2024, foi incluída uma faixa chamada “The Future Is A Foreign Land”, também “supostamente” composta e gravada por esta encarnação da banda ativa em 1969 (com Papa Nihil nos vocais), sendo esta gravação incluída posteriormente na versão digital do single Seven Inches Of Satanic Panic.

Eddie Vedder – Matter Of Time [2020]
No mesmo ano em que o Pearl Jam lançou Gigaton, seu vocalista, Eddie Vedder, lançou este compacto com duas faixas que ele já vinha executando em seus shows solo, a linda balada (que fica um pouco mais “animada” perto do final) “Matter Of Time” (apenas com Vedder no piano e voz, além de algumas melodias vocais por parte do músico irlandês Glen Hansard, amigo de longa data do vocalista do Pearl Jam) no lado A, e a bela “Say Hi” (levada por Vedder ao violão) no lado B. O compacto serviu para arrecadar fundos para a pesquisa de uma cura para a Epidermólise Bolhosa (EB), um grupo raro de doenças genéticas hereditárias que causam pele extremamente frágil, formando bolhas e feridas ao menor atrito ou trauma, com sintomas variando de leves a fatais e sem cura atual (segundo o Google) – “Say Hi”, inclusive, é dedicada a (e inspirada por) um menino que sofre desta doença, Eli Meyer, cujos irmãos iniciaram um movimento chamado #ComeSayHi para divulgar a doença e sua necessidade de tratamento. Foram produzidos vídeos de divulgação para as duas faixas, mas, até onde eu sei, este é o único formato físico em que estas duas músicas foram lançadas, visto que ambas acabaram de fora do álbum de inéditas Earthling, lançado pelo cantor em 2022.

Guns N’ Roses – Hard Skool [2022]
Depois de muito tempo separados, os músicos Axl Rose, Slash e Duff McKagan voltaram a tocar juntos sob o nome Guns N’ Roses em 2016, com o anúncio da excursão Not in This Lifetime Tour. Contrariando todas as expectativas, os três continuam juntos ainda hoje, e o primeiro “lançamento” desta “reunião” foi um EP lançado em 2022, o qual, na versão em CD, continha duas músicas inéditas (a faixa título “Hard Skool” e “Absuяd”) e duas faixas ao vivo (“Don’t Cry” e “You’re Crazy”) gravadas durante a citada turnê de reunião. Uma edição em vinil de 7″ foi lançada no mesmo ano, contendo no lado A a mesma versão de “Hard Skool” presente no CD, e, no lado B, uma versão ao vivo para “Absuяd”, também gravada na “Not in This Lifetime Tour” (até onde eu sei, disponibilizada de forma “física” apenas neste registro). Ambas as faixas foram compostas e gravadas durante as sessões que resultaram no álbum Chinese Democracy, de 2008, mas não foram incluídas naquele registro, tendo sido retrabalhadas e regravadas depois que Slash e Duff voltaram à banda. Na época, fiz um texto para o site especificamente sobre este EP, e quem quiser mais detalhes sobre o mesmo pode conferir nele minha análise mais “aprofundada” do disquinho. Há ainda uma versão “especial” do compacto (até onde eu sei, disponibilizada apenas para os inscritos no “clube de membros” oficial da banda) que contém, além das duas faixas da “bolachinha” citada acima, uma versão ao vivo de “Shadow Of Your Love” gravada na mesma turnê de reunião citada antes. Em 2023, o Guns voltaria a lançar músicas inédita no formato 7″, na forma de um compacto com “Perhaps” no lado A, e “The General” no lado B, sendo que este single também foi lançado na versão em CD no mesmo ano (embora, a princípio, apenas no Japão, segundo o Discogs), mas o impacto não foi tão grande quanto o lançamento do ano anterior.
Grupos como Pearl Jam e R.E.M. lançaram periodicamente compactos exclusivos para seus fã-clubes ao longo dos anos 1990 e 2000, muitos com faixas totalmente inéditas e exclusivas. Eu poderia citar aqui, também, outros artistas internacionais que também lançaram músicas inéditas em “bolachinhas” exclusivas de 2010 para cá, como o quarteto espanhol Belgrado (cujo segundo registro, de 2012, é um compacto com duas faixas que não fazem parte de nenhum de seus discos “completos”, as ótimas “Panopticon” e Vicious Circle”) ou o coletivo norte-americano Chris Robinson Brotherhood (do qual algumas versões em vinil de seu terceiro registro, Phosphorescent Harvest, de 2014, trazem como “bônus” um compacto com duas faixas inéditas, “Humboldt Windchimes” e “Star Crossed Lonely Sailor” – infelizmente, a minha edição não é uma destas versões), ou ainda o bardo canadense Neil Young, cuja versão em vinil de seu quadragésimo primeiro álbum solo, chamado Colorado (de 2019), também vem acompanhando de um compacto “bônus” com duas faixas exclusivas, sendo elas uma versão acústica de “Rainbow Of Colors” (cuja versão “elétrica” está presente no álbum oficial) e a inédita “Truth Kills”, gravada junto ao Crazy Horse (o caso de Young é bastante interessante, porque a edição em vinil de Colorado, apesar de dupla, tem o quarto lado sem gravações, “vazio”, e estas músicas poderiam muito bem ter sido colocadas ali. Só que Neil preferiu lançá-las “separadas” do disco oficial, por motivos que só ele conhece, tornando este lançamento bastante curioso, ao menos para mim).
Como coloquei acima, vários artistas brasileiros também fizeram uso deste formato para divulgar novas composições, conforme vamos tratar em breve na segunda parte deste texto. Aguardem!

Excelente matéria, Micael. Legal saber que meu texto te inspirou.
Como minha coleção é de CDs, tenho poucos compactos.
Abraço!
Obrigado, Daniel! Acho que esta é uma das maiores qualidades do site, a gente lê um texto, associa com outra coisa, e, no final, acaba gerando um novo ponto (ou, no caso, um novo texto) que gera um novo debate, que cria um outro ponto diferente, e a “roda” segue girando… Mas o papo e a conversa nunca param!
Eu tive alguns compactos quando comecei a colecionar discos nos anos 80; mas CD-Singles nunca rolaram na minha coleção, até porque muitas vezes a gente acabava pagando caro (especialmente pelos importados) por 2-3 músicas. Mas acho que bandas como o Marillion, o Iron Maiden e o U2 sempre foram muito legais em termos de compactos, trazendo muita coisa nos disquinhos que não apareciam nos álbuns completos. Resta a opção de esperar que as músicas sejam lançadas nas edições de aniversário ou antologias…
Agora, uma coisa é certa: melhor um compacto bom do que um LP com duas músicas legais e o resto servindo só de filler… James Brown nos anos 60 era craque nessa estratégia: lançava um compacto arrasador, colocava mais 6 ou 8 músicas (às vezes só com a banda de apoio tocando e ele na produção) e pronto, tinha um LP nas prateleiras. Imagina tentar colecionar…