Por Micael Machado

Em 2019, Neil Young voltou a se reunir com sua melhor banda de apoio, o Crazy Horse, depois de sete anos separados, para a gravação e subsequente lançamento do álbum Colorado, do mesmo ano. Com o baixo e a bateria, respectivamente, a cargo de Billy Talbot e Ralph Molina, como sempre, o “Cavalo Doido” se viu desfalcado do guitarrista Frank “Poncho” Sampedro, que se aposentou do mundo da música, sendo substituído por um velho conhecido tanto do grupo como de Neil, o guitarrista/tecladista Nils Lofgren, que já havia tocado com o Crazy Horse antes do grupo se unir a Neil Young, e que participou como músico de apoio de diversos registros do canadense desde a década de 1970, não sendo, portanto, nenhum “estranho no ninho” em uma turma que toca junto, com esporádicas separações, desde o início dos anos setenta. Após poucos shows de divulgação ainda em 2019, a turnê conjunta de Neil e o Cavalo Doido foi suspensa, com planos de ser retomada em 2020, algo que se tornou impossível devido à pandemia do novo coronavírus.

Desta forma, Neil acabou, ao longo de esporádicas sessões ao longo de 2020 e 2021, colocando o cavalo doido dentro de um dos celeiros de uma de suas propriedades nos Estados Unidos, e registrando um novo álbum de estúdio, adequadamente chamado Barn (que significa “celeiro”, em inglês, imóvel que, aliás, aparece na capa do disco), seu quadragésimo primeiro álbum de estúdio, e décimo quarto ao lado da Crazy Horse (segundo informações da wikipedia), lançado em dezembro de 2021 em diversos formatos, como vinil (nas edições “simples” e “limited”, a qual vem com seis fotos tiradas durante as sessões de gravação), CD, cassete, além de uma edição “deluxe” com o vinil, o CD e um blu-ray (que apresenta um filme registrado ao longo das gravações, dirigido pela esposa de Young, a atriz Daryl Hannah), como pode ser visto na foto que abre esta matéria, além, claro, de estar disponível em todas as hoje obrigatórias plataformas digitais.

Billy Talbot, Ralph Molina e Nils Lofgren (ou o Crazy Horse atual) ao lado de Neil Young

Da união do bardo canadense com o Cavalo Doido, os fãs mais atentos logo esperam sons conduzidos por guitarras distorcidas e rascantes, além de solos e mais solos de guitarra longos e empolgantes por parte de Neil. Surpreendentemente, para mim, Barn oferece pouco desta “receita tradicional” da união destas duas forças. “Human Race” talvez seja a mais próxima desta expectativa que eu tinha para o disco, bem como a autobiográfica “Canerican”, cujo solo final foi abruptamente “encerrado” por um fade out indevido, no maior pecado musical de todo o disco. A longa (mais de oito minutos) e tristonha “Welcome Back” me lembrou, por algum motivo, a clássica “Change Your Mind”, de Sleeps with Angels, disco de 1994 de Young e do Crazy Horse (e sendo, também por isto, um dos destaques do track list para mim), sendo a também autobiográfica “Heading West” outra faixa que se encaixa nesta “receita”, embora seja curta demais para se destacar no meio das demais.

No restante do disco, parece que temos um “passeio” ao longo de alguns momentos da discografia de Neil separado do Crazy Horse. Desta forma, poderíamos dizer que a balada acústica “Song of the Seasons”, música de abertura e primeiro single do disco, não soaria deslocada no track list de Harvest Moon, de 1992, assim como outra balada balada tristonha, “They Might Be Lost”, desta vez conduzida pelo piano e a harmônica, se encaixaria perfeitamente em um disco como Silver & Gold, de 2000. O blues de “Change Ain’t Never Gonna” poderia muito bem estar em This Note’s for You, de 1988, assim como a agitada “Shape of You”, com seu piano rocker e a harmônica de Neil, precisaria de poucas mudanças para se ajustar às faixas de Everybody’s Rockin’, de 1983, enquanto tanto “Don’t Forget Love” quanto “Tumblin’ Thru the Years” (esta, conduzida por Neil ao piano) não soariam deslocadas em Are You Passionate?, de 2002.

Contracapa da edição em CD de Barn

Pelas citações a tantos discos do passado, parece claro que Barn não soará estranho ao fã mais atento à discografia do bardo canadense. Porém, este mesmo fã, dependendo do seu grau de devoção à obra de Young, há de perceber que nenhum dos álbuns citados na matéria se encontra na categoria de “clássico” na extensa discografia do canadense. Por razões como esta, posso afirmar que, na minha opinião, apesar de ser um dos melhores registros de Neil neste século (e olha que a concorrência é grande), os pouco menos de quarenta e três minutos de Barn formam um disco apenas “OK”, e um dos mais fracos registrados pelo canadense ao lado do Cavalo Doido (excetuando-se, é claro, alguns “desvios de rota” cometidos ao longo da década de 1980). Mesmo assim, se você curte a obra desta verdadeira instituição do rock mundial que é o “canericano” Neil Young (como ele se refere a si mesmo em “Canerican”), é um disco que vale conferir, pois, certamente, não irá lhe decepcionar.

Track List:

1. Song of the Seasons
2. Heading West
3. Change Ain’t Never Gonna
4. Canerican
5. Shape of You
6. They Might Be Lost
7. Human Race
8. Tumblin’ Thru the Years
9. Welcome Back
10.Don’t Forget Love

7 comentários

  1. Marcello

    Eu o ouvi poucas vezes, e sempre pelas plataformas digitais. Gostei do que ouvi, mas não achei o disco marcante – de cabeça eu simplesmente não consigo me lembrar de nenhuma das músicas no momento. Acho que preciso ouvir novamente. Ótima resenha!!

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    • Micael

      Obrigado pelo comentário, Marcello. Realmente, não achei um dos discos mais marcantes de Young nestes últimos 22 anos. Mas, sejamos honestos, talvez o último disco realmente impactante do canadense tenha sido o Psychedelic Pill, porque, desde então, apesar de lançar discos em quantidade industrial, pouquíssimos merecem menção dentre os destaques em sua longa discografia… ao menos, ele vem lançando alguns registros inéditos dos anos 70, o que acaba elevando um pouco o nível dos lançamentos mais recentes, porque, os criados no século XXI… tem decepcionado bastante…

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      • Marcello

        Concordo, Psychedelic Pill é o melhor disco do Neil Young no século XXI. Depois dele, até gostei do Peace Trail (apesar de malhado pela crítica) e do Colorado, mas não consigo lembrar de cabeça das músicas – e este é um teste importante para um disco, na minha opinião.

  2. Roger

    Galera,sou da seguinte opinião.Uncle Neil,como a galera do Pearl Jam carinhosamente se refere a está FORÇA DA NATUREZA,não tem mais nada para provar.Temos e que agradecer que Neil Young ainda continua gravando e dando shows,ainda mais nesses tempos de Trevas que estamos passando. Long Live Neil

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    • Orlando Blues

      Roger te agradeço essa dica… Old Neil é parte da minha vida desde as fogueiras nas montanhas de Miguel Pereira… Tanto seu lado acústico como o elétrico são fascinantes, ver esses caras fazerem um som num lugar como esse é impagável… Vibe incrível… Obrigado irmão e obrigado a esta consultoria do rock… Keep on rocking .. ✌️

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      • Micael

        Valeu, Roger e Orlando! Realmente, só de ainda termos Uncle Neil presente entre nós já seria motivo de agradecimentos diários aos deuses da música! Espero que um dia ele retorne aos palcos brasileiros (de preferência com a Crazy Horse), e que eu tenha a oportunidade de assisti-lo ao vivo onde ele faz sua música da melhor forma, ou seja, no palco! Long, Long Live Neil!

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