Por Mairon Machado

Em julho de 1972, temos o lançamento do terceiro álbum de estúdio de Keith Emerson (teclados, órgão, mini-moog, sintetizadores), Greg Lake (baixo, vocais, guitarras, violões) e Carl Palmer (bateria, percussão), ou simplesmente EmersonLake & Palmer: o álbum Trilogy. Após o estrondoso sucesso de Tarkus e Pictures at an Exhibition, era chegada a hora do trio mostrar que podiam funcionar como um grupo em si.

Se no álbum de estreia Emerson dominava as composições, e em Tarkus Lake quase abandonou o barco por falta de espaço, além que Pictures at an Exhibition era uma adaptação para a obra de Mussorgsky, Trilogy deveria mostrar que o grupo estava unido musicalmente, e poderia brilhar de forma espontânea e ao mesmo tempo. E foi isso que aconteceu.

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Emerson, Lake e Palmer

 Com uma divisão quase igual para composições de Emerson e de Lake, e com Palmer em uma fase estupenda, nasce mais um grande álbum, que catapultou ainda mais a fama do grupo graças a adaptação de outra obra clássica, dessa feita, “Hoedown”, de Aaron Copland. Porém, das nove canções registradas no álbum, a que mais se destaca é a Maravilhosa suíte de abertura, “The Endless Enigma”, um trabalho mezzo coletivo, mezzo Emerson solo, enaltecendo o talento individual de cada um dos integrantes do grupo como poucas canções conseguiram fazer.

Dividida em três partes, “The Endless Enigma” apresentam uma história de uma pessoa desiludida, cansada de um mundo de mentiras, cinismo e falsidades. Ela começa assustadoramente com “The Endless Enigma (Part One)”, e sua introdução fantasmagórica. A maior das três partes da suíte aparece com o “assovio” do moog, quase inaudível, enquanto o ritmo da batida de um coração, também quase impercetível, acompanha o assovio. Esse ritmo seria adaptado no ano seguinte pelo Jethro Tull (“A Passion Play”) e Pink Floyd (“Speak to Me”) Repentinamente, um dedilhado do piano surge, como caixas caindo em uma escada, tendo intervenções de percussão, repetindo o número de batidas nas teclas do piano, e mais assovios. Essa espécie de duelo repete-se por cinco vezes, levando para uma maluca sessão instrumental, na qual moog e piano executam as mesmas notas em uma velocidade absurda, acompanhados por batidas e escalas do baixo.

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Greg Lake

O órgão então apresenta a canção com um interessante solo, tendo o tradicional acompanhamento de baixo e bateria ao fundo, chegando em uma sequência com baixo, órgão e bateria executando as mesmas batidas em seus instrumentos, trazendo uma marcação que nos leva para a suave voz de Lake, acompanhado apenas por singelas notas do órgão. Palmer marca o ritmo na caixa, e temos a letra de “The Endless Enigma (Part One)” cantada em uma melodia imitada por baixo e órgão.

Após duas estrofes construídas de maneira similar, chegamos no refrão, no qual, após uma passagem apenas com voz, baixo e órgão, Lake clama: “Please! Please! Open Your Eyes! Please! Please! Don’t Give Me Lies!“, voltando então para a melodia das estrofes iniciais da letra e retornando ao refrão e encerrando a letra dessa primeira parte, a qual é concluída musicalmente com um retorno às percussões, e o órgão sendo debulhado pelos dedos de Emerson.

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Keith Emerson

A segunda parte, intitulada “Fugue”, é um momento primeiramente solo de Emerson ao piano, aproveitando-se de variadas técnicas do estilo clássico, e posteriormente, acompanhado por notas do baixo. “Fugue” encerra-se com piano e baixo fazendo uma sobreposição de notas que daria orgulho para Liszt, tamanha a intrincação da mesma, e assim, a marcação no chimbal nos leva para a última parte de “The Endless Enigma”, a qual é batizada de “The Endless Engima (Part Two)”.

Esta começa com uma marcação de baixo e bateria, enquanto o piano faz seu solo. Sinos tubulares e o órgão trazem uma escala de baixo, deixando o moog executar um tema marcial, e então, Lake dá sequência à letra com a mesma melodia da primeira parte, porém agora com Palmer socando a bateria e sem o acompanhamento exclusivo de órgão e baixo. Duas estrofes são o suficiente para chegarmos no poderoso encerramento da suíte, com Lake, Palmer e Emerson batendo forte em seus instrumentos, enquanto o moog executa seus últimos uivos.

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Carl Palmer

Apesar de não ser uma canção complicada, e muito menos virtuosa, é justamente sua simplicidade que a torna uma Maravilha. Trilogy ainda segue rodando na agulha do vinil com “From the Beginning”, uma bela passagem solo de Lake apenas com voz e violão, acompanhado por uma leve percussão e escalas de baixo, e um tímido solo de guitarra, seguido de um clássico solo de moog, a animada “The Sheriff”, com suas pitadas de country em seu encerramento, a recriação para “Hoedown”, com o moog comendo solto, a suíte-título, dividida em três partes distintas (voz/piano; a viajante sessão instrumental central, com o moog precisando urgentemente ser internado no hospício, tamanho a quantidade de delírios e “uivos”; e o trecho final, destacando o solo de sintetizador), a estranha “Living Sin”, tendo efeitos na voz de Lake, e “Abbadon’s Bolero”, inspirada em “Bolero”, de Maurice Ravel.

O álbum atingiu a segunda colocação em vendas no Reino Unido, e era a primeira vez que um grupo de rock progressivo conseguia colocar três álbuns consecutivos entre os cinco mais naquele país. Nos Estados Unidos, chegou na quinta posição, maior posição do grupo naquele país até então.

O grupo saiu em uma extensa turnê mundial, passando por Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Dinamarca, França, Suíça, Itália, Áustria, Japão e Reino Unido, tudo isso ainda em 1972. No ano seguinte, excursionam  mais uma vez pela Europa (Alemanha, Itália, Bélgica, França, Suíça, Dinamarca, Holanda e Áustria, e, depois de mais de um ano apenas excursionando, entram nos estúdios para sairem de lá, em novembro de 1973, com o seu melhor disco, e com mais uma Maravilha Prog, talvez a última feita pelo grupo, “Karn Evil 9″.

4 comentários

  1. Marcello

    Realmente uma maravilha! Trilogy é possivelmente o meu disco favorito do ELP, tive em vinil e agora em CD, e é um dos que normalmente acabo voltando com frequência para ouvir novamente. E Endless Enigma é uma daquelas músicas que, quando acabam, você fica um pouco triste, porque queria que durasse mais. Sempre me perguntei se não existem tapes com ensaios ou takes alternativos do ELP, mas a gravadora – ou Palmer e os herdeiros de Emerson e Lake – parecem não gostar da ideia de lançá-los.

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    • Mairon

      Pois é Marcello, de cabeça aqui não lembro de nenhum relançamento com extras do ELP. Enquanto isso, Mr. Fripp fatura bastante lançando tudo o que tem no acerto. Meu top 5 do ELP é

      1. Brain Salad Surgery
      2. Trilogy
      3. Pictures at an Exhibition
      4. Tarkus
      5. Love Beach

      E o seu?

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      • Marcello

        As minhas listas normalmente são areia movediça e vivem mudando…
        Mas, atualmente, seria:
        1) Trilogy
        2) Brain Salad Surgery
        3) Tarkus
        4) Works (vol. 1)
        5) Emerson Lake & Palmer
        Pictures at an Exhibition é um disco que já me chamou mais a atenção, mas pode entrar no Top 5 a qualquer momento (basta ouvir de novo, hehehehe), e do Love Beach eu gosto da suíte Memories of an Officer and a Gentleman, Canario e For You – as outras ficam não chamam tanto minha atenção. Mas faz tempo que não ouço o disco, preciso botar na pilha de “a ouvir”!

  2. marcio "osbourne" silva de almeida

    Muito ‘entupido’ de LSD cultuava o som desses caras (hippies pra lá de freaks,que não seguiam exatamente a “crista da onda”, mais tinham atitude!!). Aqui no Brasil, bandas como Mutantes…entre outros “loucos de pedra”. – marcio “osbourne” silva de almeida – jlle/sc

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