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Por Diego Camargo (administrador do site  Progshine)

Ah, o BRock! Para muitos um movimento de salvação e inclusão. Para outros o começo do fim …

A minha ligação com o Rock feito no Brasil vem de muito tempo atrás, na verdade cerca de 30 anos atrás quando eu tinha apenas 4 ou 5 anos. Muitas pessoas da minha idade, nascidas mais ou menos na mesma época (1985), não ‘pegaram’ o movimento realmente, mas sim, suas crias. No meu caso eu tenho uma ligação forte com a música gravada no Brasil nos anos 80 por culpa do meu irmão. Se bem que nesse caso eu nunca realmente o culpei de nada.

Minha memória musical mais antiga é de mais ou menos 1989. Meu irmão era um cara que adorava música, naquele tempo era complicado ter um aparelho toca discos no quarto (bom, pelo menos pra minha família que não era rica, era sim complicado), mas meu irmão tinha uma caixa de som/rádio da Frahm, o que era uma certa luxúria, e ele deixava ela ligada a noite antes de ir dormir (similar a essa abaixo).

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Numa dessas noites, eu que dormia no beliche de cima, ouvi pela primeira vez “Faroeste Caboclo” da Legião Urbana. Aquela história que terminava tristemente deixara uma criança de 4/5 anos de idade com nó na garganta e quase chorando por causa do que acontecera com o tal João De Santo Cristo. Talvez por essa memória ser tão forte ou talvez porque meu irmão também costumava tocar uma série de fitas K-7 o tempo todo, que tinham Engenheiros Do Hawaii, Legião Urbana, Garotos Da Rua, TNT, Cascavalettes e muitos outros, eu acabei muito interessado na música feita no Brasil nos anos 80. E mesmo depois de anos ter enveredado pelos caminhos do Rock Progressivo, o som gravado naquela época ainda me interessa!

O Rock Brasileiro não era nenhuma novidade. Na verdade desde o final dos anos 50 o Brasil já gravava Rock. O país esteve ativo na psicodelia dos anos 60, também com a Jovem Guarda e seu Iê Iê Iê. Nos anos 70 o Rock Progressivo e o Hard Rock (por aqui chamado de Rock Pesado) também estavam no país.

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Mas que o leitor entenda que por uma série de motivos, nos anos 70 o Rock no Brasil era visto como coisa de drogado, vagabundo e maloqueiro. Como o pessoal das antigas costuma dizer: “Coisa de cabeludo”. O visual das bandas e suas letras não ajudavam muito, e o Rock feito no Brasil apesar de presente, era uma coisa completamente underground.

Com o advento do Punk no final dos anos 70, e a chegada do mesmo ao Brasil no início dos anos 80, surgiu também uma nova geração de bandas. Nesse novo movimento as bandas eram mais “reais”, e tinham uma nova mentalidade. Lá fora as bandas mais inteligentes viram que o Punk não passava de uma moda passageira e logo trataram de fundir seu som com outros elementos. Surgia a New Wave e o Pós Punk. Esses dois últimos deixariam uma marca absurda no Rock feito no Brasil durante toda a década de 80, que ficou conhecido como BRock. Não apenas isso, vivendo em um regime militar na época, as novas bandas viam no novo som duas possibilidades completamente diferentes. Uma parcela das bandas se baseava no humor e elas podiam tocar Rock sem ter que encarar tantos problemas com a Ditadura. A outra parcela era extremamente política e berrava em suas músicas que não aceitava toda a situação. Esses dois fatores fizeram que a música dessa época fosse ainda mais peculiar.

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Nessa série de artigos vou falar sobre discos que na minha opinião são grandes obras dentro do cenário brasileiro. Vou focar apenas os anos 80 (leia 1980-1989), já que considero o anos 90 completamente diferentes, com novas influências de bandas que surgiriam depois do movimento BRock. Mas também caro leitor, não pense que você verá aqui nessas páginas digitais discos clássicos como Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985) do Ultraje A Rigor, As Quatro Estações (1989) da Legião Urbana, Cabeça Dinossauro (1986) dos Titãs ou Selvagem? (1986) d’Os Paralamas Do Sucesso, pois eles não estarão presentes. Não porque eu não os considere clássicos, mas por serem discos multi-platinados, eles já foram alvos de zilhões de matérias em revistas, jornais, tv e internet. Vou focar em discos que por um motivo ou outro não obtiveram o sucesso de seus colegas, mas que eu acredito terem um ‘Q’ a mais e que merecem ser mencionados.

Mais uma coisa caro leitor, não pense que o tal de BRock seja um gênero musical, pois não o é. O BRock foi um MOVIMENTO musical e portanto as bandas que irão aparecer em minhas matérias são completamente diferentes (em termos sonoros e visuais) entre si. Como título de curiosidade e pesquisa deixo para vocês links de sites, vídeos e matérias que ajudam a entender um pouco da música dessa época.

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LINKS:

Documentário sobre os 50 anos de rock no Brasil –https://www.youtube.com/channel/UC_VSZNXa24ODoCGpMTJgIPQ/videos

Site sobre o Rock Brasileiro com muitos vídeos e informações –http://www.rockbrasileiro.net/

Site com download de discografias pra conhecer as bandas –http://discografiabrasil.wordpress.com/

Sites onde é possível ouvir muitos discos online – http://navedosdeuses.com.br &http://arquivodorockbr.blogspot.com/

Livro Sobre o BRock – http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/349526/brock-o-rock-brasileiro-dos-anos-80

Espero que gostem e vamos ao primeiro capítulo! O primeiro a ser debulhado será um dos meus favoritos do segundo escalão (em termos de popularidade) do BRock: Hojerizah e o seu segundo disco Pele (1988). Histórico! A Hojerizah foi formada na cidade do Rio De Janeiro no final do ano de 1983. A formação da banda sempre foi a mesma nos 5 anos em que esteve em atividade: o guitarrista e compositor Flávio Murrah, o vocalista Toni Platão, o baixista Marcelo Larrosa e o baterista Álvaro Albuquerque.

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Álvaro Albuquerque, Toni Platão,Flavio Murrah e Marcelo Larrosa

Primeiro single do Hojerizah

Primeiro single do Hojerizah

Contrário do que aconteceu com as bandas mais conhecidas dos anos 80 a Hojerizah demorou pra conseguir gravar seu primeiro disco. Nessa época toda gravadora buscava um novo RPM pra vender 1 milhão de unidades. No caso da Hojerizah isso era difícil…O nome caia como uma luva para o som da banda. Vinda na segunda metade dos anos 80 a banda tinha um estilo que não se assemelhava a nada e nem ninguém no Rock Brasileiro de então.

O grupo gravou em 1985 um compacto simples pela BB Records/PolyGram com as músicas “Que Horror” e o único hit do grupo, “Pros Que Estão Em Casa“. A segunda tocava relativamente bem nas rádios locais e o público crescia, mas a verdade é que o grupo levou um bom tempo até o primeiro e tão sonhado primeiro disco.

LP de estreia do Hojerizah

LP de estreia do Hojerizah

O selo Plug, lendário selo subsidiário da RCA no Brasil, que fez história lançando muitos medalhões do Rock Brasileiro de hoje, foi o responsável por dar o pontapé inicial na carreira discográfica da banda, em 1987

Primeiro disco

Impulsionados pelo hit “Pros Que Estão Em Casa” a banda tinha tudo pra ser um nome popular do cast da gravadora. No álbum, algumas participações especiais, destacando o mestre da sanfona, Dominguinhos, que exibe-se na bela “Tempo Que Passa”. Era o primeiro grande passo da banda. O Hojerizah não deixou que o sucesso do single anterior mudasse seu som pra um direcionamento mais pop (como a grande maioria de seus contemporâneos) e em 1988 lançou seu segundo disco, o auto-produzido Pele.

Pele, segundo álbum do grupo

Pele, segundo álbum do grupo

Pele (1988)

“Gritos” que inicia o disco mostra uma banda que diferia de tudo que andava sendo feito no Brasil até então. Instrumental apurado, excelentes músicos e letras que saiam do lugar-comum e nos davam pequenas pérolas poéticas. Em “Setembro” o Hojerizah nos mostra a veia jazzística da banda, e em “A Lei” o vocal de Toni Platão brilha, mesmo que envolto em diversos efeitos.

A verdade é que o gênio guitarrístico Flávio Murrah era o maior diferencial do grupo. Suas guitarras estão por todo lugar em absurdas linhas inteligentes que são seguidas lado a lado por um dos baixistas mais inventivos dos anos 80, Marcelo Larrosa, vide “Avenidas”. Já em “A Verdade Simples” o grupo aposta em algo mais direto, um pop torto!

Encarte de Pele

Encarte de Pele

“Em Torno Da Mesma Volta” é uma das minhas favoritas: “Criar paixões e destruí-las/Cavar um poço e nasce um oceano/Onde eu possa nadar na cor e no movimento/Que ondas venham e me afoguem/Mas ainda tenho fôlego/Para encontrar uma ilha”, apenas um gostinho das excelentes letras do disco.

“Fogo” mostra o lado mais balado da banda e poderia muito bem ter sido um hit se a gravadora tivesse trabalhado o disco de forma correta. “A Pele é outra das minhas favoritas, juntamente com a faixa seguinte, a sombria “Belos E Malditos”. ‘Enquanto “Pecados” poderia ter sido mais um hit do disco, “Canção Da Torre Mais Alta” vê Murrah musicar um poema do poeta francês Jean Arthur Rimbaud. “Inocente Flor” fecha o disco em tom de melancolia acústica.

 

Hojerizah em 1987

Hojerizah em 1987

Sumário

A Hojerizah acabou em 1989. Apesar do fim nunca ter sido realmente explicado, os principais fatores teriam sido o descado da gravadora (RCA) em promover o segundo disco de forma decente e os sérios problemas psicológicos de Flávio Murrah que teriam se agravado pelo álcool no ano anterior.

Rara imagem do grupo fluminense

Rara imagem do grupo fluminense

Pele (1988) tinha tudo pra fazer com que a banda alcançasse um patamar mais alto no pateão do BRock pois tinha tudo que uma banda poderia querer: Excelentes composições, letras soberbas, músicos extremamente inteligentes e ‘fora-do-lugar-comum’ e um vocalista fantástico com interpretações únicas. Talvez esse tenha sido exatamente o problema com o Hojerizah, ser muito melhor e tão diferente de seus colegas…

Herança

Os dois discos do grupo podem ser encontrados em sebos pelo Brasil, ou no Mercado Livre, mas não são figurinhas tão fáceis. Os discos nunca foram relançados em CD, no entanto há duas coletâneas (já fora de catálogo) lançadas,Hojerizah + Picassos Falsos (1994) (da série Raridades Plug) e a melhor de todas chamadaHot 20 (1999) onde 20 das 23 composições gravadas pela banda foram remasterizadas e lançadas. É possível ouvir essas duas coletâneas via Spotify.

Entrevistas com três membros da banda

Site não oficial

1 comentário

  1. Mairon Melo Machado

    Clássico dos anos 80. Hojerizah marcou época. Que venham mais matérias dessa série Diego!!

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