Por Micael Machado

Quando eu me mudei do interior do Rio Grande do Sul para a região metropolitana de Porto Alegre, a rádio Ipanema FM (na época, a “rádio rock” mais importante da capital gaúcha) foi essencial para me apresentar bandas e sonoridades que, até então, eu só conhecia através de revistas e jornais (lembrando que, na época, a internet ainda não era tão popularizada quanto hoje). E foi através das ondas sonoras desta emissora que descobri as músicas do álbum Disturbed Mind, do grupo gaúcho Leviæthan, e fui surpreendido e conquistado por suas qualidades!

Formado em 1983, o Leviæthan chegou a participar da lendária coletânea Rock Garagem no ano seguinte, ainda como um trio e compondo em português. Após uma troca de bateristas, registraram a demo Thrash Your Brain, a qual lhes rendeu um contrato com a gravadora Rock Brigade Records, por onde lançariam, em 1990, seu álbum de estreia, intitulado Smile, já com a formação estabilizada no quarteto Carlos “Lots” Henrique e Alexandre Colletti (guitarras), Danilo Pizzato (bateria) e Flávio Soares (vocal e baixo), este uma verdadeira “lenda viva” do metal gaúcho, já tendo sido apresentador da própria Ipanema FM, produtor de shows e um dos proprietários da saudosa Madhouse, loja ligada ao rock pesado que marcou época em Porto Alegre. A excelente recepção do disco os levou a registrar Disturbed Mind em 1992, mostrando uma evolução absurda em um álbum espetacular, bem mais trabalhado e melhor gravado (e produzido) que o trabalho de estreia.

Leviæthan em 1992: Alexandre Colletti, Flávio Soares, Carlos “Lots” Henrique e Danilo Pizzato

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção no som do grupo, quando o ouvi pela primeira vez há muito tempo atrás na citada rádio, foi a presença do violão no meio da porradaria, não como um instrumento de “introdução” às músicas (como eu já havia escutado em álbuns do Metallica ou do Sepultura), mas com frases e até solos encaixados em meio ao trabalhado thrash metal executado pelos gaúchos. Esta característica aparece com ênfase na faixa de abertura “Seeds of Violence”, e, em menor escala, em “In Search Of Life” e na faixa título, mostrando que o quarteto não tinha medo de ousar para atingir seus objetivos musicais. Isto para não citar “Facing Reality”, onde se pode perceber o uso de um instrumento que, a menos que muito me engane, soa perfeitamente igual a um cavaquinho (!).

É difícil apontar destaques em um track list tão regular, mas acredito que os fãs do estilo encontrarão muitas qualidades durante a audição de faixas como “Drinkin’ Death” (que possui algo de Megadeth em seu arranjo), “Visions of a Distorted Path” (cuja introlembra muito o Sepultura da época de Schizophrenia), “The Evil Within” (que, por ser um pouco mais cadenciada que as demais, curiosamente lembra algumas coisas que o Slayer viria a registrar na década de 1990) ou “Time For Lies”. Apesar das bandas “para referência” que citei acima, não seria errado dizer que o thrash metal dos gaúchos, movido a riffs poderosos, se baseia muito na escola germânica do estilo, principalmente nos registros antigos dos grupos Destruction e Kreator (confira o estilo dos solos, principalmente os executados por Colletti, talentoso guitarrista que, infelizmente, viria a falecer em 1994, vítima de um acidente de trânsito). Ou seja, como o leitor mais atento já percebeu, a bolachinha é “coisa fina” para quem curte este tipo de som!

Outra característica que chama a atenção neste disco do Leviæthan são as letras de suas composições.  Em sua maioria a cargo do baterista Danilo Pizzato (assim como no registro anterior), elas fogem um pouco dos “clichês” líricos da época, abordando temas como preocupações ecológicas e com o futuro da humanidade (“In Search Of Life”, “Visions of a Distorted Path”), loucura (“Disturbed Mind”), os perigos e danos de se entregar ao álcool (“Drinkin’ Death”) e até um raivoso lamento pelo assassinato do gato de estimação do narrador de “My Cat” (sendo que “Philip VII”, curta composição que quase pode ser taxada como vinheta, não chega a ter uma letra propriamente dita, apenas sons ininteligíveis balbuciados por Fábio, além de, erroneamente, estar grafada como “Philip IIV” na contracapa). Tudo isto acentuado pela excelente pronúncia e vocalização de Soares, que lembra bastante um Schmier, do Destruction, ou, mais evidentemente, os registros do jovem Tom Araya (confira a parte mais cadenciada no meio de “Facing Reality” e perceba se não tenho razão).
 
 Flávio Soares, um dos maiores batalhadores do heavy metal gaúcho

Talvez seja devido à memória afetiva que eu tenho com o disco, mas Disturbed Mind é, em minha opinião, o melhor álbum de thrash metal já registrado no Rio Grande do Sul (ao lado de Best Before End, da Panic, curiosamente lançado no mesmo ano de 1992). Graças à iniciativa pessoal de Flávio Soares, a bolachinha foi relançada em CD no ano de 2014 (apresentando uma arte um pouco diferente, em tons mais escuros), com o apoio da gravadora e distribuidora True Metal Records & Distro e da Thrash S/A, trazendo como bônus três faixas da demo Thrash Your Brain, que depois seriam retrabalhadas e regravadas para aparecer no disco de estreia, dentre elas a vinheta “Pimponetta”, uma das favoritas dos fãs nas apresentações ao vivo do conjunto, que, com uma formação renovada (mas estabilizada desde 2010), continua se apresentando pelo país, além de trabalhar intensamente nas gravações de seu terceiro registro (previamente intitulado D-Evil in Me, mas sem data prevista para o lançamento), sempre tendo à frente seu marcante baixista e vocalista, uma das figuras mais importantes do heavy metal do Rio Grande do Sul. Longa vida ao “monstruoso” Leviæthan gaúcho!

Track List:

1. Seeds of Violence

2. Facing Reality

3. Drinkin’ Death

4. In Search Of Life

5. My Cat

6. Visions of a Distorted Path

7. The Evil Within

8. Philip VII

9. Time For Lies

10. Disturbed Mind

Faixas bônus da reedição em CD:

11. Bred To Die

12. The Last Supper

13. Pimponetta

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