Nesse ano caótico em que pais fizeram as lições pelos filhos, ao vivo, escondidos atrás da webcam, em que metade da face do mundo ficou perdida atrás de máscaras a música foi um escape ainda mais importante perante o caos. Da minha parte foram bons 40mil minutos de músicas ouvidas e muita banda que não conhecia. Acabei focando no metal, em detrimento de outros gêneros, pois esse gênero musical me deixa pra cima o que realmente foi necessário. Faziam anos que não ouvia tanta coisa diferente e nova, e ainda recuperei grande parte do tempo perdido. Então segue meu despretensioso top 10:


1° – Unleash the Archers – Abyss

Dentre tudo que ouvi esse foi o álbum que mais me empolgou. No meu app preferido é a banda mais ouvida com duas músicas no top cinco anual. Como pode ser visto com detalhes na resenha que fiz aqui, esse play trata de um álbum conceitual que termina a história começada no antecessor Apex (muito bom aliás, ambos com clipes muito legais). Você encontrará o melhor do Heavy Metal e Power Metal com toques generosos de Hard Rock oitentista. Destaco muito a vocalista Brittney Slayes que em Abyss está mais versátil e menos power metal o que engrandeceu seus trabalhos. A dupla de guitarristas também é para destaque com Andrew Kingsley em toda sua virtuosidade frente a espontaneidade de Grant Truesdell. Não espere nada de novo além de um bom e velho Power/Heavy Metal, porém é muito empolgante e gostoso de ouvir.


2° – Lucifer – Lucifer III

Essa banda me conquistou nesse pandêmico ano. Johanna Sadonis comanda o vapor em um disco que segue a linha já estabelecida nos outros álbuns: um doom com uma pegada totalmente datada dos anos 1970. O play começa detonando e as quatro músicas iniciais são poderosas e não saem da cabeça. A segunda metade do disco não é tão intensa mas ainda é muito boa. O disco possui aquele ambiente de ocultismo com backvocals muito bem estruturados, passagens de teclados bem colocadas. Os guitarristas Nordin e Björklund fazem um trabalho muito bom trazendo elementos clássicos que remetem obviamente ao Black Sabbath e Blue Öyster Cult. Passei alguns sábados de quarentena tomando uma cerveja e viajando nesse som, depois que toca “Cemetary Eyes” e o play termina e a sensação é de que o tempo voou.


3° – Sepultura – Quadra

Não querendo ser bairrista e tendo ouvindo muito metal em 2020 não tive como não colocar esse álbum aqui: o Sepultura transcendeu para um patamar muito alto. Quadra é, digamos assim, a continuação e aprimoramento dos conceitos musicais do ótimo Machine Messiah, mas, ao mesmo tempo, apresenta momentos de thrash puro e ainda melodias muito bem montadas em algumas músicas. Além disso, esse disco mostra um Derek apresentando mais variações, o que sempre foi uma critica ao vocalista. Tecnicamente o material é irrepreensível com Eloy Casagrande destruindo tudo e consagrando-se como um dos maiores do mundo em seu instrumento, e de quebra fazendo o glorioso Paulo ‘Xisto’ correr atrás do prejuízo! Sobre Andreas não tem o que dizer, apenas: Ouça!


4° – The Ocean Collective – Phanerozoic II: Mesozoic|Cenozoic

Os alemães do The Ocean Collective nesse álbum, lançado em setembro pelo selo Metal Blade, dão continuidade à ideia de explorar o tempo geológico, partindo da segunda metade do Éon Fanerozoico, por meio da música (como feito no álbum anterior Phanerozoic I: Paleozoic). As letras abordam a ideia de quão pequeno é o ser humano perante o planeta, como nossa existência é recente. Em relação ao que realmente interessa aqui temos um disco em que é criada um baita atmosfera utilizando elementos eletrônicos e algumas passagens de teclado. Com este pano de fundo as músicas vão se encaixando. Já na primeira (“Triassic”) uma voz robotizada começa a criar o ambiente para então o baixo de Mattias Hägerstrand entrar cabulosamente, na sequência a bateria bem quebrada de Paul Seidel também demonstra a cara do play. É uma das melhores músicas que com seus mais de 8 minutos traz muitas variações no ritmo e na vocalização de Loïc Rosseti e Robin Staps. Na sequência “Jurassic|Cretaceous” com seus 13 minutos continua a ideia anterior, mas no final traz uma pegada muito agressiva, da gosto de ouvir! Ainda vale mencionar elementos de percussão e a letra muito interessante sobre a relação ‘humanos X clima’. As demais não são tão grandes e voltam para a casa dos 5 minutos, mas não ficam atrás, é uma melhor que a outra. De quebra lançaram tudo na versão instrumental!


5° – Blues Pills – Holy Moly!

Em uma das noites destoantes do ano resolvi não ouvir nada referente a metal e seguir a dica do Micael Machado que resenhou este álbum, como pode ser visto aqui, e por isso não vou me alongar. Apesar de uma sonoridade bem anos 1970, o disco soa moderno e atual, em minha opinião. O material vai direto ao ponto e pega na veia, temos momentos muito agitados que dão a tônica do play, enquanto uma o outra balada dão aquele momento de ganhar fôlego. É o melhor do Hard Rock / Rock and Roll com cerveja! Vale cada segundo.


6° – Annihilator – Ballistic Sadistic

A banda do guitarrista canadense Jeff Waters retornando aos primórdios? Queremos! Esse play chegou como quem não queria nada, mas tornou-se um dos melhores desse ano para mim. Muito objetivo, sem muito invencionismo. O Annihilator passou anos com Jeff recriando a roda e trazendo muita coisa que descaracterizou a banda. Neste material, vai direto ao ponto e o que temos é um thrash metal de qualidade. Exímio guitarrista, dá o toque que coloca o Annihilator em um degrau acima de grande parte das bandas de thrash. Brevemente destaco quatro músicas iniciando com “Armed to the Teeth”, primeira do disco, que com um riff simples remonta ao início da carreira da banda, as rápidas “Out with the Garbage” e “The End of the Line” que trazem aquele crossover HC-Thrash que faz a alegria dos moshpits e a ótima “Lip Service” com sua pegada sinistra lembra o Megadeth na hora. Esse play acerta em quase tudo e posiciona o Annihilator novamente no caminho do Thrash Metal.


7° – Ignea – The Realms of Fire and Death

No geral essa banda ucraniana traz um metal que cruza elementos históricos, folclóricos e fictícios vinculados a realidade local em suas letras o que já é bem bacana, mas a sonoridade dos caras foi o que me ganhou. Se posicionam como uma banda de metal melódico mas trazem muitos elementos progressivos, sinfônicos e alguma coisa de música local, é o Angra da Ucrânia pra simplificar a ideia. O disco é conceitual e apresenta contos curtos, são três histórias independentes com três músicas cada e nelas temos metáforas repletas de simbolismo sobre a humanidade (e suas atitudes) frente ao mundo e à si mesmo. Conferir o clipe da ótima “Disenchantment” ajuda a ter uma ideia do que estou comentando.


8° – Kiko Loureiro – Open Source

Nesse intervalo entre os problemas de saúde de Mustaine e COVID-19, Kiko aproveitou para organizar e lançar seu quinto trabalho solo. Para compor a banda Kiko recorreu aos seus ex companheiros de Angra, Bruno Valverde e Felipe Andreoli que fazem um trabalho excepcional (EXCEPCIONAL), além de dois convidados Marty Friedman em “Imminent Threat” e o brasileiro Mateus Asato em “Liquid Times” para participações especiais. Já a produção fica a caráter de Adam Nolly (ex Periphery) e fica evidente sua influência nas passagens progressivas/djent e na riqueza de detalhes das músicas. Em relação a sonoridade é interessante ouvir a versatilidade do material, encontramos muita melodia e virtuosismo, um tanto de Baião, Fusion, Djent, trechos mais pesados, elementos eletrônicos, enfim muita coisa, apesar disso o disco é muito coerente.


9° – Blue Öyster Cult – The Symbol Remains

Quase 20 anos sem um álbum novo foram despejados de uma só vez em 14 músicas que resumem bem a história da banda, inclusos altos e baixos. Temos folk, country, metal, psicodelia até uma levada reggae pontual aparece. De modo geral a banda mais acerta do que erra, mas possuem algumas músicas que poderiam ter sido deixadas de lado como “Train True (Lennie’s song)”, “There’s a Crime” ou mesmo a oscilante “That Was Me”. Com um line-up contendo Buck Dharma e Eric Bloom dos originais, agregando Richie Castellano que contribuiu muito para letras e músicas, ainda, Danny Miranda no baixo e Jules Radino na bateria a banda conseguiu uma sonoridade moderna para o álbum. Ouvi algumas boas vezes o disco e destaco três momentos começando pela ótima “Tainted Blood” que apresenta uma estrutura muito bem organizada apesar do riff simples, é uma ‘balada’ com a cara da banda e que apresenta solos bem melódicos e bonitos. Já em “Edge of the World” ouvimos uma aula de hard rock com suas viradas, refrão marcante, destreza dos riffs. Muito boa. Na parte final do disco “The Alchimist” é talvez o grande momento, não a toa virou música de trabalho, é pesada mostrando a faceta metal da banda.


10° – Cult Of Lilith – Mara

Macabro, rápido e denso. Cult of Lilith apareceu como sugestão do youtube e no apagar das luzes me trouxe o gás final para terminar esse ano de M… De uma agressividade vibrante o play é pedreira do começo ao fim! Esses Islandeses apresentam um material muito técnico trazendo muitos elementos do death, mas não exclusivamente pois encontramos um ‘que’ de progressivo, linhas melódicas e sinfônicas aqui e ali. O álbum em questão é a estreia da banda e chama a atenção. Veremos se mantém essa qualidade e se firmam como uma banda do gênero Tech Metal, mais um pra coleção diversa do metal.


Deixo ainda, em ordem, 10 discos que ficaram no quase…

1. Havok – V
2. AC/DC – Power Up
3. Vulcano – Eye of Hell
4. Warbinger – Waepons of Tomorrow
5. Testament – Titans of Creation
6. Napalm Death – Throes of Joy in the Jaws of Defeatism
7. Ozzy Osbourne – Ordinary Man
8. Driver-by Truckers – Unraveling
9. Lamb Of God – Lamb of God
10. Dua Lipa – Future Nostalgia

2 comentários

  1. André Kaminski

    Da sua lista, escutei Sepultura, Blues Pills, Kiko Loureiro e Blue Öyster Cult, mas só um deles entrou na minha lista final, com os outros três me soando razoáveis.

    Do que não ouvi, me interessei pelo Ignea. Tem jeitão de ser diferenciada e gosto quando bandas assim tenham ousadia de experimentar.

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    • Anderson Godinho

      Então André, da uma ouvida lá. O álbum anterior é muito bom tbm. Eu curti, pelo menos haha. Agora, a grande surpresa pra mim, até pq ouvi agora no gim do ano, foi o The Ocean, virei fã.

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