Por André Kaminski

Aqui temos mais alguns discos oitentistas, a saída de Udo, o retorno do próprio alguns anos depois e boa parte também da discografia noventista dos alemães. Confiram a primeira parte escrita por mim há algumas semanas e a terceira parte publicada aqui.

Com a saída de Herman Frank, Jörg Fischer volta a assumir a segunda guitarra do Accept. Porém, dessa vez, com menos espaço dado por Hoffmann e Fischer fica concentrado apenas na guitarra rítmica.


Metal Heart [1985]

Um pouco inferior ao antecessor, mas ainda mantendo um grande nível, Metal Heart foi lançado cheio de expectativas mas que, infelizmente, não se concretizaram devido a um certo desinteresse americano para com o disco, apesar de este ter sido feito com o mercado deles em mente. Uma pena porque se formos analisar suas qualidades, considero este o segundo melhor disco deles mesmo sendo um tanto mais leve que os anteriores. Composições afiadas e faixas muito boas podem ser extraídas daqui. As minhas favoritas são a abertura com a faixa-título “Metal Heart” de lindos solos de guitarra (aquele da parte final então é de arrepiar) e de um belo riff principal, “Midnight Mover” um tanto mais hard rock e que remete aos dois primeiros discos lembrando das influências do Scorpions. Mas diferente daquelas, em geral inferiores, aqui a banda pariu uma composição no mesmo nível das dos conterrâneos famosos. Também sobrelevo “Up to the Limit” dando notoriedade ao baixo de Baltes e nos vocais de Udo que soam mais sacanas do que nunca (lembrando até mesmo o estilo de Bon Scott) e “Too High to Get it Right” que com essa levada midtempo estilosa da bateria de Kaufmann e aqueles insanos agudos de Udo que tanto adoramos. A única que não curti muito é “Screaming for a Love-Bite” que é aquele hard rock americano comum com refrãos em coro mas com os vocais do Udo que, a meu ver, não encaixam nesse tipo de composição. Na época, o disco foi criticado negativamente pela mídia como um lançamento fraco da banda, mas começou a ser mais valorizado pelos fãs cerca de uma década depois. Como o mercado americano era marcado por vocalistas bonitões vestindo calças de oncinha tocando hards mais leves e também o fato de que o Udo estava longe de ser uma visão agradável para estampar posters de groupies com seu um metro e meio de altura e cara de buldogue, o Accept acabou ignorado. A questão do disco ser pesado demais para agradar a esse público e leve demais para agradar aos fãs mais fiéis também contribuiu para prejudicar o seu desempenho. Ainda assim, o álbum até acabou entrando na 94º posição dos charts americanos (menos do que eles esperavam) e em melhores posições no mercado europeu.


Russian Roulette [1986]

Último disco antes da primeira partida de Udo Dirkschneider, a banda optou por voltar a uma produção mais cru como nos álbuns do começo da década e meio que desistir da ideia de agradar os americanos. Mesmo as temáticas das letras (sempre escritas por Gaby Hoffmann) são um tanto mais maduras e menos “empolgantes”. Daqui gosto de “It’s Hard to Find a Way” que meio que se encaixa no conceito de balada e que Udo usa as diferentes tonalidades de sua voz que a conferem um aspecto diferenciado. “Aiming High” é mais uma grande canção speed metal do Accept com grandes refrões e a qualidade dos alemães costumeira de sempre. Gosto mais do lado B do que do A. “Heaven is Hell” tem até um surpreendente órgão de tubos que deixou a canção bem assustadora. “Another Second to Be” já me lembrou uma mistura de Iron Maiden (nos versos) com o próprio Accept (nos refrãos). Finalizo ainda comentando sobre “Man Enough to Cry” bem melódica e com uma letra até que um tanto emocional, algo que o Accept raramente explorou em suas faixas até então. É um ótimo disco, menos focado apenas em “hinos” e um tanto mais diversificado na carreira deles que não me decepciona e mantém a banda em alto patamar.


Chega 1987 e bem… Udo foi “convidado” a se retirar da banda. Segundo o que o próprio disse em uma entrevista, a banda queria muito embarcar de vez na onda americana e, pela influência dos empresários e gravadora, queriam que a banda soasse farofa. Algo é claro que Udo estava bem longe de aparentar tanto com sua voz quanto com seu visual. Mas para digamos “ajudá-lo” em seu futuro, a banda toda grava o seu primeiro solo com a banda U.D.O. que o vocalista fundaria em sua partida. O guitarrista Jörg Fischer deixa novamente a banda e é substituído por Jim Stacey. Este não chega a tocar no disco embora apareça no encarte e nas fotos promocionais.


Eat the Heat [1989]

Aqui tenho que me juntar ao coro dos que dizem que este é o pior álbum da banda. E nem é tanto pelo na época desconhecido americano David Reece não ser lá o vocalista mais adequado para a banda, mas porque as composições eram bem fracas mesmo. E aqui a banda tenta, novamente, agradar ao público americano misturando um tanto do heavy metal de sempre mas com aquelas pinceladas farofeiras características da época. Eles parecem outra banda aqui, uma de hard/heavy comum. Reece até tenta dar uns agudos ao estilo de Udo, mas não são a mesma coisa. Sem contar que o disco de mais de 1 hora de duração era considerado bem longo para a época. Posso dizer que daqui, aproveito “Turn the Wheel” com um ótimo refrão e em que no coro de vozes aparece justamente… o Udo. A turnê (primeiramente como banda principal, depois abrindo para o W.A.S.P.) foi um fracasso, com públicos bem abaixo do que a banda esperava e, dizem os boatos, que Reece e Baltes até trocaram uns tapas nos camarins. Apesar de tudo, o disco ainda conseguiu emplacar bem em alguns charts europeus devido aos seus muitos fãs fiéis do velho continente.


Uma das poucas imagens com Dave Reece (de óculos escuros) e Jim Stacey (o primeiro da esquerda).

No meio da tour americana, o baterista Stefan Kaufmann sofreu uma séria lesão nas costas que o impediu de continuar tocando. Ken Mary, baterista do House of Lords, finalizou a turnê. Com Kaufmann sem condições de tocar e o restante da banda incomodado com David Reece, que acabou demitido ao final dos compromissos, o Accept entrou em um hiato que até então, seria indefinido até decidirem se iriam continuar ou não.

Mas deu o final de 1992 e os caras resolveram se reunir com Udo para o retorno do Accept. Todavia, somente os quatro principais (Udo, Hoffmann, Baltes e Kaufman). Jim Stacey só tocou ao vivo na tour anterior e não foi mais chamado.


Objection Overruled [1993]

Olha, eu gosto do disco, muita gente tem este trabalho a par dos discos clássicos da banda, porém, há alguns defeitos nele. Repetindo antes de querer me detonar nos comentários: é um bom disco, mas está num patamar abaixo de Restless and Wild [1982] e Balls to the Wall [1983].  Mas é claro, foi ótimo ver a banda retornando às suas origens e ao estilo de sua melhor fase com um disco bem competente. As faixas mais legais aqui são “I Don’t Wanna Be Like You” e suas melodias sacanas daquele típico hard rock mais pesado, “Amamos La Vida” que é uma bela balada de refrão em espanhol, e a primeira instrumental da banda “Just by my Own” com um show de solos de guitarra de Hoffmann.. Um dos defeitos do álbum é “Protectors of Terror” e aquelas falas esquisitas no meio da canção. Outra coisa que critico é a estrutura de várias composições soando muito parecidas. Junta tudo isso e o disco dá uma cansada após a audição. Entretanto, ele possui mais qualidades do que defeitos e não faz feio dentro da discografia dos alemães.


Death Row [1994]

Alguns podem considerá-lo muito longo, mas eu gosto mais de Death Row do que o anterior. A banda aqui põe a agressividade da época de Restless Wild no talo! Udo usa mais do que nunca seus drives. E as composições aqui soam mais empolgantes e com mais gana de impressionar desde uma década atrás. As guitarras tem uma afinação diferente, soando agora mais cruas e aumentaram o volume do baixo fazendo a banda quase ali adentrando nas configurações do thrash. O baterista Kaufmann não pôde gravar duas canções do disco (“Bad Habits Die Hard” e “Prejudice”) devido a novamente suas costas o incomodarem e Stefan Schwarzmann (que já havia tocado no Running Wild) foi convidado para gravar as duas canções e sair em tour. Adoro “Sodom & Gomorra” no top 3 das minhas músicas favoritas dos alemães. Fizeram até uma brincadeirinha e colocaram algumas melodias da conhecida folclórica “Sabre Dance” em meio a composição. Pelo jeito os caras andaram escutando alguma coisa dos Titãs (claro que não) mas”What Else” me lembra bem o estilo dos Titãs do Cabeça Dinossauro [1986], além de um solo final de guitarra e bateria muito insano. “Generation Clash II” , a sequência de “Generation Clash” do Eat the Heat inicia excelentemente com o baixo de Baltes levando a composição num ritmo bem AC/DC. Levada por uma guitarra sem distorção, “Writting on the Wall” se caracteriza por uma balada com uma letra mais triste e com uma mensagem bem melancólica em suas letras. É um disco com uma pegada muito diferente, usando outras afinações de guitarra e limando totalmente a influência do Scorpions e podando bastante o hard rock, e por isso acaba se destacando aos meus ouvidos por nos apresentar outra faceta da banda. Para mim, é tão bom quanto os grandes discos do Accept. Lamentavelmente, não são muitos os fãs que o apreciam.


Encerro por aqui a segunda parte. Em 15 dias teremos a terceira e última parte da discografia do Accept.

Na tour pela Rússia (1993)

6 comentários

  1. Igor Maxwel

    Segunda parte da discografia dos alemães Accept, vamos lá:

    Metal Heart é o álbum que mais me agrada da fase clássica com Udo nos vocais. Foi durante muito tempo o meu favorito do Accept (hoje em dia ouço-o de vez em quando, mas não tanto quanto os da fase recente deles), apesar de alguns críticos não terem gostando dessa mudança em sua abordagem musical, em mais uma tentativa em agradar de vez o mercado americano. Além das faixas “Midnight Mover”, “Up to the Limit”, “Living for Tonight” (minha predileta) e a conhecida faixa-título, o disco tem (assim como o sucessor e os dois anteriores) algumas músicas que a banda precisa resgatar em seus shows atuais com o vocalista substituto de Udo (cuja fase será abordada no próximo e último capítulo da série), que são “Too High to Get it Right” e “Wrong is Right” (duvido que Mark Tornillo não consiga canta-las ao vivo). Enfim, Metal Heart é para se ouvir, curtir, apreciar e (porque não?) “berrar” seus refrões com Udo e sua hoje ex-banda.

    E quanto ao Russian Roulette, devo afirmar que para mim foi o último disco realmente relevante da banda (24 anos antes de seu triunfante regresso com Blood of the Nations em 2010) por conta da história que envolvia mais os seus bastidores: as relações entre o baixinho Dirkschneider e o resto da banda não estavam bem das pernas após terem alcançado seu “primeiro auge” entre 1982 e 1985 (aquelas coisas que sempre ocorrem com a maioria das bandas hoje em dia), mas mesmo assim eles conseguiram fazer mais um ótimo disco. Destaques para a música homônima, “It’s Hard to Find a Way” (melhor do disco para mim), “Monsterman”, “Aiming High”, “Another Second to Be” e “TV War”.

    Depois disso, Udo dá o fora do Accept e monta sua própria banda no ano seguinte, já lançando Animal House (do qual ainda não ouvi) logo de largada; na década seguinte ele voltaria para o Accept para mais alguns discos e sairia de novo (desta vez para sempre). O curioso é que os três discos que o grupo lançou nos anos 90 após a volta de Udo não me soam como o típico/clássico Accept da década de 80, soam mais como discos da carreira solo do baixinho mesmo. Parecia que a magia havia acabado… mas que seria finalmente ressuscitada em 2010. Vamos então aguardar a parte final dessa história, que realmente promete aqui na Consultoria!

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  2. Líbia

    Dessa segunda parte da saga Accept, meu favorito é o Russian Roulette… Esse disco é certeiro.
    Accept tem umas das discografias mais impecáveis do Metal.

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  3. Renan Oliveira

    Sem o mesmo brilho dos clássicos anteriores, Russian Rollette apresenta algumas músicas boas como “TV War” e “Heaven is Hell”, essa inclusive uma das faixas mais épicas da carreira da banda na minha opinião. “Stand Tight” é outra boa faixa e o seu solo lembra algo de Guns N’ Roses em “Mr. Brownstone”. Eat the Heat e Objection Overruled apesar de terem alguns bons momentos, são mais fracos. Death Row é um disco incomum e outro grande destaque na carreira dos alemães. O disco apresenta um som mais sujo com algo de metal mais moderno. Uma ótima opção para quem quer ouvir algo diferente. Um disco bem divertido, inovador e concordo com o autor do texto, um dos melhores do Accept! Predator tenta seguir a proposta inovadora de Death Row mas sem o mesmo brilho.

    Aqui vai meu top five do AccepT (Com Udo):

    5)Russian Roulette
    4)Metal Heart
    3)Death Row
    4)Restless and Wild
    5)Balls to the Wall

    Curiosidade de brinde: David Reece fez papel de um dos punks no começo do filme Exterminador do Futuro (1984)

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    • Renan Oliveira

      Digitei errado os números do meu top 5 ops…rsrs

      Aqui vai meu top five do AccepT (Com Udo):

      5)Russian Roulette
      4)Metal Heart
      3)Death Row
      2)Restless and Wild
      1)Balls to the Wall

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  4. L

    “Udo foi “convidado” a se retirar da banda. Segundo o que o próprio disse em uma entrevista, a banda queria muito embarcar de vez na onda americana e, pela influência dos empresários e gravadora, queriam que a banda soasse farofa. Algo é claro que Udo estava bem longe de aparentar tanto com sua voz quanto com seu visual.”

    Eu achava que o Udo era egocêntrico, mas agora entendi porque o baixinho parece dar um foda-se pra banda. O período do David Reece seria uma comédia , se.não fosse trágica e eles nao tivessem feito O PIOR ÁLBUM DELES (me perdoem quem nao acha, mas acho que isso é unanimidade). E que só tem UMA UNICA MÚSICA BOA que é a Generation Clash, deve ser por isso que a banda a regravou quando o Udo retornou.

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    • André Kaminski

      Cara, você pegou um ponto interessante. Nunca tinha associado mesmo essa atitude dele de muitas vezes ignorar a banda. Mas pensando bem… acho que ele nunca de fato perdoou o Hoffmann por ele não ter sido “tankado” na banda.

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