Por André Kaminski

Sempre achei complicado falar de minha banda favorita sem soar como um fã babão. Ainda mais em um site como a Consultoria do Rock que sempre exigiu um nível alto de textos e argumentos. Mas acho que é justo botar a minha opinião por aqui analisando este novo disco que tem gerado críticas diversas pelas resenhas que acabei lendo nestes dias desde seu lançamento.

Eu, como hábito, compro primeiro a versão mais completa da discografia deles antes de ouvir qualquer faixa divulgada anteriormente. Mas aí fui pesquisar e está 650 reais o preço do earbook triplo que eu queria. Tive que me contentar com a versão normalzinha mesmo.

Várias das coisas que escreverei aqui outras pessoas também já apontaram, sejam defeitos ou qualidades. Mas como profundo conhecedor da discografia e da história da banda que sei que sou, tentei deixar a minha mente aberta ao quê de novo a banda apresentaria tentando me afastar daquilo que eu já tenho pré-concebido a respeito desses finlandeses cuja música eu amo tanto.

Primeiramente, vou assumir algo. Lá na minha lista de Melhores de 2015 eu botei o disco anterior, Endless Forms Most Beautiful, em primeiro lugar pelo hype que tive. Todavia, com o passar dos anos, o disco me envelheceu mal. Muito auto-plágio. Muitos elementos sub-utilizados. Comentarei mais sobre isso daqui uns anos, quando o Nightwish lançar mais um álbum e eu fazer a parte 2 da discografia comentada deles. Até lá, daremos um jeito da minha DC (que foi jantada pelo UOL Host na época) voltar ao ar (por sinal, foi o meu texto de estreia aqui no site, lá no longínquo ano de 2014).

Chega de blábláblá, hora de começar a falar deste disco. Dando o play, me incomodei um bocado com a fraca “Music” e seus mais de 3 minutos de introdução que deu no saco. O Nightwish sempre começou seus discos com uma música mais bombástica e eles botam uma que no máximo serviria de filler. Começar com a pior faixa do álbum me deu calafrios. Seguindo com a segunda canção “Noise”, a primeira divulgada das redes sociais, tive nova sensação de auto-plágio porque me parece uma sequência de Endless Forms Most Beautiful. O que me surpreende porque esta é a canção que mais me lembrou o velho Nightwish. Todavia, do solo de guitarra de Emppu em seu meio (o único no disco todo) para a ponte e o encerramento a faixa muda completamente e me empolga. Talvez um andamento assim desde seu início e teríamos mais um futuro candidato a clássico.

Após duas canções de decepcionante para razoável, vem “Shoemaker” e aí finalmente uma música excelente, daquelas que impressionam. Uma coisa que comecei a reparar é que a canção tem um ritmo quebrado, lembrando canções típicas do progressive metal. Floor Jansen dá show e Marco e Troy fazem o contraponto calmo e limpo. Nepotista como sempre, Tuomas botou sua esposa Johanna Kurkela em uma curta narração. Floor mandando líricos fodas que não se ouviam desde Tarja. O coral e a orquestra ao final dão show. Melhor música disparada do disco.

Em uma canção agora mais folk, coisa que a banda vem incorporando cada vez mais, “Harvest” apresenta Troy Donockley liderando os vocais e Floor fazendo pequenas intervenções. Lembra levemente o clima de “The Islander” do Dark Passion Play [2007]. O que achei bastante positivo porque Troy é um ótimo cantor e a banda precisa explorar melhor este lado dele do que dar apenas meia música como no disco anterior. “Pan” inicia com uma forte orquestra mas com Floor cantando tão agudo que, por um momento, pensei que Anette Olzon havia retornado à banda. Mais uma nova impressão que tive: além de lembrar de prog metal, percebi que Tuomas quis aparecer mais com os seus teclados do que nos últimos 4 álbuns da banda. Eu gostei bastante desta música: é mais uma que foge daquela fórmula comum de orquestra e coros femininos que a banda vinha adotando nos últimos quatro discos.

Tuomas Holopainen (teclado) e Floor Jansen (vocais)

Em “How’s the Heart” notei algo que eu senti muita falta no disco anterior: vocais marcantes de Floor Jansen. Finalmente ela voltou a brilhar, algo que não vinha fazendo desde o After Forever, há mais de 10 anos. Mas para ela se destacar, não precisava Marco Hietala ficar tão apagado nos seus vocais até agora. Até o momento, apenas alguns pequenos backings. Sinto falta daquela voz rasgada e agressiva que ele dava à várias canções do Nightwish. “Procession” é uma balada bonitinha, a banda já fez melhores mas OK, mantém um bom nível.

“Tribal” seria a faixa mais pesada do disco. E seria a chance de Marco Hietala se destacar mas acaba dividindo as vozes com Floor. Eles que já soltaram “Master Passion Greed” há alguns discos atrás com peso e tal, achei que esta faltou um pouco mais de sustância. O primeiro disco finaliza com “Endlessness” e seria novamente a música de Hietala liderando as vozes. O vocal é um pouco mais arrastado, que não é o forte dele, mas não achei que comprometeu.

O segundo disco não irei falar sobre cada uma porque é basicamente todo instrumental e como se fosse uma música só dividida em várias faixas. A sonoridade é totalmente baseada no instrumental de The Life and Times of Scrooge McDuck de 2014, o disco do Tio Patinhas. Uma mescla de ambient com world music mas cuja sonoridade se remete apenas à orquestrações, música celta e folk europeu com algumas poucas narrações. Absolutamente nada de guitarra e baixo. Um pouquinho de bateria aqui ou acolá. Para quem só é fã da fase Tarja, isso aqui seria um sacrilégio. Eu gosto bastante deste tipo de música embora não esperava que viria ao Nightwish como um disco inteiro.

Fim de disco, conclusões: eu não o louvarei como já fiz em lançamentos anteriores da banda, mas também não consigo desgostar dele. É daqueles casos em que você vai precisar ouvir várias vezes para decidir se gostou ou não. Este disco é um ponto de virada da banda: eles estão partindo para outra sonoridade. Estão mudando bastante e se afastando cada vez mais do que eram.

Jukka Nevalainen (antigo baterista) e Kai Hahto (novo baterista)

Uma coisa ficou claro: Tuomas não quer mais saber de metal. Só não parou de incluir guitarras porque isso acarretaria na demissão do seu companheiro desde a fundação, Emppu Vuorinen, e que precisa dele para os shows ao vivo. Mas está cada vez mais claro que Tuomas seguirá para esse lado folk/celta/orquestral do que heavy metal de fato. Emppu é bem pouco demandado aqui. O que é uma tristeza.

Em relação as letras, novamente temos uma pegada meio humanista/filosófica/ecologista tal como o disco anterior. Nesse ponto, confesso que sinto falta daqueles temas mais pessoais ou fantasiosos de antes. Digamos que “cultuar o planeta Terra” é bacana e otimista, mas espero que no próximo disco esta temática mude.

Destaque positivo do disco sem dúvida nenhuma é Floor Jansen. Brilhou como há muito tempo eu não via.

Destaque negativo foi para a apagada participação de Marco Hietala. A pingaiada e os cigarros mutilaram suas cordas vocais. Definitivamente, sua voz foi mesmo para o saco. Nenhum grito, nenhum vocal rasgado, cantando ali no vocal suave e no médio. Uma pena mesmo.

Enfim, é uma banda bem diferente do que ela foi. Talvez esse seja o disco mais fácil para se agradar a quem nunca gostou da banda. Para quem só gostava da fase Tarja, passe muito longe. Para quem gosta da fase Anette, tem coisas que podem agradar bastante aqui. Eu estou indeciso em relação a este disco. Eu posso assegurar que ele se garante pelos próprios méritos se ignorarmos toda a discografia anterior. Mas não sei dizer se o quanto eu gostei é pouco para uma nota 7 ou bastante para uma nota 8. Prevejo os críticos do futuro falando muito sobre este álbum, tanto de maneira boa quanto ruim.

Tracklist

Disco 1

  1. Music
  2. Noise
  3. Shoemaker
  4. Harvest
  5. Pan
  6. How’s the Heart
  7. Procession
  8. Tribal
  9. Endlessness

Disco 2

  1. Vista
  2. The Blue
  3. The Green
  4. Moors
  5. Aurorae
  6. Quiet as the Snow
  7. Anthropocene
  8. Ad Astra

Kai Hahto (bateria), Emppu Vuorinen (guitarra), Troy Donockley (gaita irlandesa, bouzouki, aerofone, vocais), Floor Jansen (vocais), Tuomas Holopainen (teclados) e Marco Hietala (baixo, violão, vocais)

2 comentários

  1. MIcael Machado

    Ainda não ouvi o disco, pois também prefiro ter a versão física em mãos e curtir a “obra completa” do que fazer streamings pela internet… mas praticamente todas as resenhas que tenho visto são na direção que você aponta, de que é o disco mais diferente da banda e aquele capaz de desagradar os fãs dos antigos tempos do grupo… uma pena, pois gostava muito de sua sonoridade pelo menos até o Century Child… Depois ela foi se suavizando cada vez mais com o passar do tempo (mesmo que tenha um ou outro momento mais pesado aqui e ali), e parece que esta tendência é definitiva e deve se ampliar para a frente… Uma pena, pois o estilo que eu curto era o antigo mesmo… Valeu pelo texto, André, mais uma orientação a seguir antes de me decidir a investir minha grana na mídia física (que, mesmo com as quedas nas vendas, ou por causa delas, está cada vez mais cara…)

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    • André Kaminski

      Aliás Micael, mais um detalhe que percebi e que senti falta no disco foram refrãos marcantes. Praticamente nenhum com a mesma força de antes. Como eu havia dito, lembra um pouco as bandas de prog metal.

      É uma sonoridade diferente. Não foi ago abrupto, a banda já havia indicado que seguiria este caminho desde o Imaginaerum. Mas aqui se percebeu bem que é outra banda, mesmo outro gênero musical bem diferente da fase Tarja. Não vou dizer que é ruim visto que eu mesmo gosto muito desse tipo de sonoridade, mas não posso negar que demora para digerir. Este disco é o ponto de ruptura completo com o passado.

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