Por Davi Pascale

Em 12 de Novembro de 1991, chegava às lojas Dangerous Curves, quinto álbum da carreira-solo de Lita Ford. Embora fosse seu trabalho mais forte, o disco não conseguiu o destaque desejado por conta das mudanças que ocorriam na indústria, mas vamos voltar um pouquinho no tempo…

Lita Rossanna Ford atingiu a fama, pela primeira vez, quando esteve no Runaways, um grupo de rock formado somente por mulheres. Influenciada por Ritchie Blackmore e Tony Iommi, a loira se destacava por possuir uma habilidade técnica superior à de outras garotas que vinham tentando se arriscar no instrumento… Aliás, foi com uma música de um de seus heróis que conseguiu sua vaga na banda.

“A audição foi no coração da West Hollywood. Ficava no andar de cima de uma farmácia que estava sem funcionar por bastante tempo. Era um lugarzinho de merda com uma cortina toda empoeirada, colocada para abafar o som, um carpete e nenhum palco. Tinha apenas um kit de bateria e um amplificador”, relembra a cantora em sua autobiografia. “Eu queria impressionar, então toquei “Highway Star” do Deep Purple, que tinha um solo de guitarra incrível”.

A trajetória do Runaways, grupo criado pelo maluco Kim Fowley, foi curta. Durante sua tour no Japão, que acabou gerando um (bom) LP ao vivo, a banda começou a se esfacelar. As garotas tentaram levar o projeto adiante, gravando mais dois álbuns (bacanas), mas o fim era inevitável. Kim havia perdido interesse na banda e o clima entre elas não era dos melhores.

“Eu senti que a banda havia chegado ao fim, logo após nossa última apresentação, que aconteceu no Cow Palace, em São Francisco. Simplesmente admitimos que havia terminado. Ninguém disse adeus. A Runaways simplesmente se separou. Desse jeito, simples e triste”.

 

Lita Ford (à esquerda) nos tempos de Runaways

 

Após o fim da banda, a garota se sentiu perdida. Ficou sem saber o que fazer. O insight veio em um papo com Eddie Van Halen, quando o músico disse à ela: “Bem, você sabe tocar guitarra, então faça isso, vai tocar”… Entusiasmada com o conselho do colega decidiu criar uma nova banda. Inicialmente, queria se manter apenas como guitarrista e começou a correr atrás de um cantor, mas acabou desistindo.

“Comecei a testar alguns cantores. Não imaginava o quão difícil seria. Primeiro, aparecia alguém que tinha o visual certo, mas não sabia cantar. Depois, aparecia alguém que cantava direitinho, mas não tinha o visual adequado. Comecei a acreditar em um velho ditado que diz: ‘se quer fazer algo certo, faça você mesmo’. Então, decidi que seria a pessoa de frente”.

Lita Ford se demonstrou uma boa cantora. Dona de um timbre bacana e com um bom alcance, a garota sempre entregou um trabalho vocal bem resolvido. Seus dois primeiros álbuns, Out For Blood e Dancin´ On The Edge fizeram um sucesso moderado, foi apenas com seu terceiro álbum Lita, que a moça realmente voltou aos holofotes. Parte, por sua sonoridade um pouco mais comercial, parte por ter colocado Sharon Osbourne no comando. Embora muitos critiquem Sharon, não tem como negar que ela tem contatos pesados no meio artístico. Contudo, meu álbum preferido da Lita Ford sempre foi o Dangerous Curves e é nele que irei focar hoje.

“O título Dangerous Curves veio de uma das pessoas que mais gosto nesse planeta, Sammy Hagar”, explica a cantora em sua autobiografia Living Like a Runaway. “Ele havia começado a escrever uma música com esse nome, nós íamos terminá-la juntos, mas nunca encontrávamos tempo, então ele permitiu que usasse o nome no disco”.

 

Foto promocional dos tempos de Dangerous Curves

 

A sonoridade do álbum seguia a risca seus dois álbuns anteriores, Lita e Stilleto. Ou seja, um trabalho pendendo mais para o hard rock, com alta influencia da cena hair metal. Em outras palavras: músicas bem construídas, com bons riffs de guitarra e refrão marcante, dando um ar mais comercial às canções.

“Larger Than Life”, “What Do Ya Know About Love?” e “Shot of Poison” começam o álbum em grande estilo. As duas primeiras são um pouco mais pesadas, enquanto “Shot Of Poison” retrata bem o som que rolava nas FMS da época, com bastante teclado e distorção bem dosada. O clipe de “Shot of Poison” ficou marcado não apenas pela superprodução (para os padrões da época) como também por trazer Lita no auge de sua forma física.

“Naquela época, estava escrevendo as músicas para meu novo álbum e correndo todos os dias para me ajudar a esquecer da dor de ter perdido meus pais. Depois de um ano, eu estava com um corpo bem definido e tinha o álbum pronto. Eu havia me tornado uma pessoa bem diferente daquela que havia se iniciado no mundo da música dezessete anos antes”.

Embora estivesse passando por uma dor profunda pela perda de seus familiares, o novo trabalho não contava com um ar depressivo. Pelo contrário, as músicas eram bem para cima, bem alegres. Um ponto a seu favor, certamente, foi a escolha acertada do produtor. A produção ficou a cargo do experiente Tom Werman. O rapaz chegou a trabalhar com nomes como Cheap Trick, Ted Nugent e estava em alta, naquela época, pelo trabalho que vinha realizando ao lado do Motley Crue e do Poison. Tinha a ver com o espírito do projeto.

 

Lita Ford: musa dos anos 80

 

Esse álbum só tem 2 músicas que acho sem sal. A primeira delas é a balada “Bad Love”. Não tenho nada contra baladas, mas essa nunca me emocionou. A outra é “Little Black Spider”. Não sei nem se dá para considerar uma faixa , por conta da curta duração, mas achei meio sonso. A música em si, não é ruim, pelo contrário. O começo é bem bacana com um som de trovão, um bonito dedilhado na guitarra, um solo super bonito. Só que existem 2 problemas, para mim: um é que acho que destoa do resto do disco e outro é que ela acaba justamente quando começa a te causar impacto. O CD mereceria um final mais bacana…

Outro ponto a ser destacado é o time que a acompanha. Lita sempre soube escolher músicos e contou com vários nomes de primeiro escalão ao seu lado.  Já estiveram em sua banda nomes como Dave Spitz, Randy Castillo, Eric Singer… Nessa época, estava acompanhada de David Ezrin (filho do lendário produtor Bob Ezrin) nos teclados, Joe Taylor (Doro) nas guitarras, Myron Grombacher (Rick Derringer, Bob Dylan) na bateria, Matt Bissonette (David Lee Roth, Peter Frampton) no baixo, além da própria Lita Ford nas guitarras e vocais.

“Playin´ With Fire” é uma música bem hard com um ótimo refrão, que poderia ter se tornado um grande hit, caso o seu clip tivesse sido enviado para a MTV. Outra canção que poderia ter feito bastante barulho é “Little Too Early”, presente de Ritchie Blackmore, Al Pitrelli e Joe Lynn Turner. Embora seja conhecido pelo trabalho de guitarra soberbo que fez ao lado do Deep Purple, Blackmore tinha um certo dom para fazer músicas radiofônicas, como fica comprovado em seu trabalho com o Rainbow. Especialmente, os realizados ao lado de Joe Lynn Turner.

Quem leu com atenção, notou que, por algumas vezes, citei que o disco não foi trabalhado corretamente. No inicio do texto citei que foi prejudicado por uma mudança na indústria. E foi isso mesmo. Contudo, a razão não foi exatamente o que a galera imagina. Se você for ler sobre esse disco na internet, você irá se deparar com vários textos que citam a chegada do grunge como o responsável por afundar esse trabalho. Em seu livro, Lita Ford, acusa outro setor…

“Estava muito feliz com Dangerous Curves: tanto o álbum, quanto os clipes são ótimos. Mas minha felicidade durou pouco. Bob Buziak, presidente do meu selo, BMG/RCA Records, foi substituído por Joe Galante, um grande fã de música country. Minha primeira impressão foi de que ele não tinha ideia do que fazer com uma cantora de rock ganhadora de disco de platina”, afirma a cantora.

 

Lita Ford e sua BC Rich

 

Sim, a cena de rock alternativo começava a ganhar força, mas outra cena começava a crescer e a ameaçar os roqueiros sem que soubessem… “Sabia que estava com problemas, mas não sabia o quão grave era até que recebi uma carta da BMG/RCA Records. Eu abri esperando algo bacana, mas ao invés disso, estava escrito à mão, pelo novo presidente: ‘Lita, você é demais. Lamento ter que manda-la embora’. Eu estava limpa, fisicamente em ótima forma, cantando melhor do que nunca e tocando guitarra como uma campeã. Não conseguia entender”. Tudo isso, obviamente tinha uma razão. “Era o sinal dos tempos. Em 1991, rock estava em baixa e o country estava em alta, com artistas como Garth Brooks vendendo milhões e adentrando as paradas de música pop. Isso não era bom para mim”.

O disco ainda contava com outros momentos de destaque,  como as faixas “Hellbound Train” e “Black Widow”, certamente as mais pesadas do álbum ao lado da faixa de abertura, e “Holy Man”, outro hard rock festivo hiper bem construído.

Embora o hard rock não fosse mais a bola da vez, o gênero ainda tinha um bom numero de devotos, o disco poderia ter rendido bons frutos, mas do dia para noite, tudo mudou: seu novo álbum deixou de ser distribuído, o clipe de “Playin´ With Fire” foi engavetado, toda a equipe que trabalhava com ela, e por consequência, com os demais artistas de rock do selo, foram demitidos.

Lita ainda conseguiu uma indicação ao Grammy, concorrendo como melhor cantora de rock com “Shot of Poison”, mas não teve o apoio da gravadora no evento. Ela foi à premiação por sua conta e risco. A cantora ainda tentou lançar o álbum Black, por um selo menor, mas a interferência do produtor na sonoridade do álbum e a baixa divulgação do selo fez com que ela se afastasse do mundo da música por alguns anos. Demoraria 14 anos até que ela tomasse coragem para lançar um novo trabalho, o controverso e polêmico Wicked Wonderland, mas isso fica para outro post.

Faixas:

  • Larger Than Life
  • What Do Ya Know About Love?
  • Shot of Poison
  • Bad Love
  • Playin´ With Fire
  • Hellbound Train
  • Black Widow
  • Little Too Early
  • Holy Man
  • Tambourine Dream
  • Little Black Spider

8 comentários

    • Davi Pascale

      Fernando, a carreira solo dela é bem superior ao Runaways. Tem bastante coisa dela que, se você escutasse, iria curtir… Só foge do Black e do Wicked Wonderland. Os outros são muito bacanas…

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  1. André Kaminski

    A Lita Ford é um caso de uma artista que teve uma carreira desperdiçada. Mesmo após o fim do selo, a Lita tinha cancha e habilidade suficiente na guitarra para entrar em outras bandas de hard e heavy mesmo com o estilo não estando em alta.

    Outro problema foi ela ter aceitado usar a sensualidade para promover a imagem. Funciona no curto prazo, mas aí as os donos de gravadoras que não entendem nada de música achavam que era só uma mulher gostosa que canta, ignorando que ela também tocava muito bem a guitarra. Nesse ponto, Suzi Quatro se deu melhor porque todo mundo sabia que ela era uma ótima baixista e nunca aceitou explorar sua imagem dessa forma.

    Daí ela casou com Jim Gilette (ex-vocal do Nitro) e ficou anos como uma simples dona de casa. Quando resolveu voltar à música, foi com o Wicked Wonderland cuja produção do próprio Gilette fez o álbum naufragar.

    Hoje ela sobrevive na base de shows menores. Tinha tudo para estar em um patamar mais alto tal como a Joan Jett. Uma pena.

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    • Davi Pascale

      O que eu acho que prejudicou ela foi o tempo que ficou afastada da cena, ela acabou caindo no esquecimento, mas é foda… Porque teve o lance com a decepção da indústria, mas tb teve o Jim Gillette que era altamente controlador e exigiu que ela se afastasse da música… Ela sofreu na mão desse cara. Já não bastava o lance com o Tony Iommi, aí cai na mão de um louco desse… Mas ela é bem talentosa mesmo.

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  2. Renan Daré

    Esse disco teria sido grande se fosse lançado uns dois anos antes. Melhor álbum dela, na minha opinião. Aliás, a Lita tem uma discografia muito boa (tirando o tenebroso Wicked Wonderland), que vale a pena ser explorada. Uma pena ela ter ficado tanto tempo afastada.

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  3. Tiago Bittencourt França

    Baita álbum! Pena ter saído no início da decadência do hard rock. Mas pra quem curte o estilo, vale muito a conferida. Recomendo!!

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