Por Micael Machado

Formado em 1976 na cidade de Dublin, na Irlanda, o U2 (nome de um avião da segunda guerra, mas que também pode ser lido como “you too”, ou “você também” na língua inglesa) surgiu a partir de um anúncio colocado no quadro de anúncios da escola Mount Temple Comprehensive School pelo baterista Larry Mullen, Jr. Paul Hewson (que adotaria o nome Bono Vox, vocais), David Evans (“The Edge”, guitarras), seu irmão Dik Evans (guitarra),  Adam Clayton (baixo) e dois outros sujeitos responderam ao anúncio, formando inicialmente o Feedback, depois (já como quinteto) o The Hype, e, com a saída de Dik, assumindo o nome que carregariam até hoje, mantendo sempre a mesma formação.

De um grupo pertencente ao então nascente movimento pós-punk, o U2 evoluiu tanto como banda como em sonoridade para se tornar um dos maiores nomes da música mundial, sendo, a partir da década de 1990, um dos campeões de faturamento em turnês, com shows cada vez maiores e mais tecnológicos, que levaram o quarteto ao topo do mundo em todos os quesitos que se queira considerar.

Confira a partir de agora a primeira parte da discografia comentada deste orgulho irlandês!


U2-boyBoy (1980)

Após estrear com o EP Three em 1979, o U2 assinou com o selo Island e lançou seu primeiro álbum no ano seguinte, marcando o início da colaboração do grupo com o produtor Steve Lillywhite, que se estenderia por um bom tempo. Fortemente baseado na estética do pós punk (baixo destacado à frente, ditando o ritmo das canções, bateria marcada e seca, e a quase minimalista guitarra fazendo linhas mais climáticas, sem muitos riffs), como demonstram as faixas ”A Day Without Me” (primeiro single do play), “Stories for Boys” e “Another Time, Another Place”, o disco tem como destaque as faixas ”I Will Follow” (primeiro vídeo oficial do grupo), ”Out of Control” e ”The Electric Co.“, que se tornaram favoritas dos fãs ao longo dos anos. ”An Cat Dubh” e ”Into the Heart” podem ser consideradas uma única canção, chegando a ser colocadas em uma mesma marcação nas primeiras edições em CD, sendo que, nas versões inglesa e americana, o tempo de duração de cada uma é diferente, embora a duração total seja a mesma. A edição americana ainda teve uma capa diferente, devido ao medo da gravadora de que a original pudesse levantar alguma associação à pedofilia quando aliada ao conteúdo de algumas letras, como a citada “An Cat Dubh” ou a marcada “Twilight”. A curta e melancólica ”The Ocean” e a calma ”Shadows and Tall Trees” completam o track list, que, em algumas das primeiras edições, ainda possuía uma pequena faixa instrumental de trinta segundos não listada após a última música. Em 2008, uma edição remasterizada foi lançada, agregando um segundo CD com faixas retiradas de singles, a íntegra do primeiro EP e algumas canções inéditas. Fica difícil imaginar que a banda presente aqui atingiria o status que teria poucos anos depois, mas o pontapé inicial da conquista do mundo estava dado!


U2-OctoberOctober (1981) 

O U2 mudou de direcionamento para seu segundo full lenght. Se no primeiro disco a temática eram as angústias adolescentes, neste as letras giram em torno da espiritualidade, em canções como “Gloria” (segundo single e maior destaque do play, chegando a ganhar um vídeo clipe), “With a Shout (Jerusalem)” e “Tomorrow” (que apresenta linhas de uilleann pipes, espécie de gaita de foles tradicional da Irlanda, aqui tocadas pelo convidado Vinnie Kildruff), por vezes reafirmando a fé cristã do grupo, em um país marcado por desavenças religiosas. Grande parte das músicas estão mais calmas, como mostram “I Fall Down” (com muito uso de violões e piano – tocado por The Edge), “Fire” (que foi o primeiro single) e a linda faixa título (outro destaque, com um arranjo conduzido pelo piano de Edge). “I Threw a Brick Through a Window” e “Rejoice” (com um mini solo de Larry lá no meio, e que é de certa forma completada pela calma “Scarlet”) são algumas das poucas que lembram o álbum anterior, assim como “Stranger in a Strange Land” e “Is That All?”, que fecha um disco de certa forma incompreendido, e que é o que menos prefiro nesta trilogia inicial. October também ganhou uma edição remasterizada em 2008, com faixas retiradas de singles e outras gravadas ao vivo para a BBC.


u2 - war

War (1983)

Este foi o disco que viu surgir a face messiânica de Bono, se tornando um pacifista preocupado com a situação do mundo, uma espécie de caractere que ele mantém vivo até hoje. A temática abertamente política de canções como “Sunday Bloody Sunday” e “New Year’s Day” (dois dos singles lançados, e inegavelmente os maiores destaques do play, além de hinos da discografia do U2, sendo que o segundo ganhou um vídeo clipe), bem como o próprio título do álbum, servem para apresentar ao mundo esta nova persona do cantor, que também aparece na letra de “The Refugee”. “Like a Song…”, “Surrender” e “Two Hearts Beat as One” (que também saiu em single e ganhou  um vídeo) parecem saídas do primeiro disco, enquanto “Drowning Man” é mais calma e melancólica, assim como “Seconds” (que apresenta The Edge fazendo os vocais principais no início). “Red Light” apresenta sopros e corais até então inéditos na discografia do quarteto irlandês, além de um ritmo dançante e uma letra tratando sobre prostituição. A linda “40” (com Edge se revezando entre a guitarra e o baixo) encerra um álbum mais forte que seu antecessor, e cuja capa apresenta uma foto do mesmo garoto presente em Boy, Peter Rowen, que também apareceria em outros lançamentos do grupo. War chegou ao número 1 nas paradas inglesas e número 2 nos EUA, sendo o primeiro disco de ouro do grupo por lá, e foi mais um a ganhar uma edição remasterizada em 2008, com diversas faixas retiradas de singles e a presença da inédita “Angels Too Tied to the Ground”, uma sobra das sessões de gravação originais. Uma apresentação no anfiteatro Red Rocks, no Colorado, foi gravada e lançada em VHS sob o título U2 Live at Red Rocks (consagrando o vídeo para “Sunday Bloody Sunday” como a “versão definitiva” deste clássico), além de oito faixas deste show comporem o EP ao vivo Under a Blood Red Sky, ambos de 1983. Em 2008, uma reedição do vídeo em DVD trouxe o concerto daquele 05 de junho de 1983 praticamente na íntegra pela primeira vez (apenas “I Fall Down”, por problemas técnicos, e trechos de “Two Hearts Beat as One” e “The Electric Co.”, por questões de direitos autorais com inserções de outras composições, ficaram de fora), para alegria dos muitos fãs do conjunto.

U2 Live at Red Rocks

O U2 ao vivo no anfiteatro Red Rocks


U2-The Unforgettable FireThe Unforgettable Fire (1984) 

Marcando a separação do grupo com o produtor Steve Lillywhite (que havia participado dos três lançamentos anteriores), The Unforgettable Fire é o início da colaboração do U2 com os produtores Brian Eno e Daniel Lanois, que se estenderia por mais alguns discos e seria retomada em um ponto futuro da trajetória da banda. Mais melódico que seus antecessores, com o quarteto experimentando mais com ambientações e sons diferentes das guitarras, além do baixo estar mais “escondido” na mixagem e das linhas de bateria serem mais versáteis do que nos lançamentos anteriores, este disco pode ser considerado um ponto de virada na carreira do conjunto, e o lançamento que catapultou os irlandeses ao topo do mercado mundial, graças a canções como “Bad“, que logo se tornou uma das favoritas dos fãs durante as apresentações ao vivo, “Pride (In the Name of Love)” e a faixa título, duas faixas cujos singles obtiveram enorme sucesso. Ecos da sonoridade mais calma de October podem ser ouvidos em “Promenade” ou “4th of July”, e “Indian Summer Sky” até poderia estar presente no disco anterior, mas faixas como a agitada “Wire”, a percussiva “Elvis Presley and America” ou a dançante “A Sort of Homecoming” não encontram paralelo na discografia anterior do grupo. A climática “MLK” encerra o track list, sendo uma homenagem ao ativista norte americano pelos direitos humanos Martin Luther King Jr., assim como “Pride (In the Name of Love)”.

Um EP chamado Wide Awake in America foi lançado em 1985, contendo duas faixas ao vivo e outras duas que já podiam ser encontradas em algumas edições do single para a faixa “The Unforgettable Fire”, e o período de gravações do álbum também deram origem ao documentário The Making of The Unforgettable Fire, lançado em VHS em 1985, contendo também vídeos para cinco das canções do disco. Uma edição de 25 anos foi lançada em 2009, contendo um CD bônus com faixas retiradas de singles e a presença das inéditas “Disappearing Act” e “Yoshino Blossom”, além de versões diferentes para algumas canções do álbum. Há também uma versão contendo um DVD, com o conteúdo do VHS citado acima e alguns bônus. O sucesso de The Unforgettable Fire levou o U2 a se apresentar no Live Aid em 1985, o que catapultou a imagem da banda no mundo inteiro, fazendo com que tivessem um sucesso desconhecido até então para eles, mas, particularmente, considero este belo lançamento como um mero rascunho da obra prima que viria logo a seguir.


u2-the-joshua-treeThe Joshua Tree (1987)

Meu álbum favorito da banda, um dos discos mais vendidos da história (mais de 25 milhões de cópias), possivelmente o lançamento mais conhecido do U2 e, sem sombra de dúvidas, uma verdadeira obra prima, The Joshua Tree é um gigantesco passo adiante na estrada iniciada com o lançamento anterior. Abrindo com uma trinca de singles conhecida de qualquer um que tenha escutado rádio na segunda metade dos anos 1980 (ou mesmo depois) – as clássicas “Where the Streets Have No Name“, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e “With or Without You”, que ganhou um clipe que também fez bastante sucesso -, o play mantém o tom político em suas letras, como pode ser percebido na pesada “Bullet the Blue Sky” (da qual o Sepultura faria um cover anos depois), “Red Hill Mining Town” ou “Mothers of the Disappeared” (uma tocante homenagem às mães da Praça de Maio, na Argentina, e à associação COMADRES, de El Salvador, ambos grupos de mães e parentes de desaparecidos durante os regimes políticos ditatoriais de ambos os países), mas também retoma alguns dos temas espirituais presentes no segundo disco, como na bela “In God’s Country” (cuja letra também é uma crítica aos Estados Unidos, país que serviu de inspiração para muitos dos temas aqui, devido às constantes turnês do grupo por lá em suporte a The Unforgettable Fire), ou mesmo em “I Still…”. “Running to Stand Still” é uma das mais belas baladas que o grupo já registrou, e “Exit” tem um ritmo circular e angustiante que me faz ter a sensação de estar despencando em um poço sem fundo durante um assustador pesadelo. “Trip Through Your Wires” tem um delicioso ritmo malemolente, meio preguiçoso, regido pela guitarra de The Edge e pela harmônica de Bono, e a calma e feliz “One Tree Hill” completa o track list de um álbum quase perfeito. Uma edição de 20 anos foi lançada em 2007, contendo um CD bônus com faixas retiradas de singles e a presença de algumas canções inéditas registradas durante as sessões de gravação originais, mas que acabaram ficando de fora do álbum. Há também uma versão contendo um DVD, com uma apresentação ao vivo em Paris no ano de 1987, um documentário produzido pela MTV sobre a turnê de promoção que se seguiu ao lançamento de The Joshua Tree, e os vídeos para “With or Without You” e “Red Hill Mining Town” (até então inédito), além de alguns bônus. Um dos melhores lançamentos da década de 1980, este é um álbum clássico em todos os sentidos, tanto que mereceu uma edição da série de DVDs “Classic Albums” dedicada ao seu belíssimo conteúdo musical. Se for para você conhecer apenas um disco de estúdio do U2, que seja este!


u2-rattle and humRattle and Hum (1988) 

Misto de álbum ao vivo com canções inéditas de estúdio, este disco (originalmente em vinil duplo) é a trilha sonora do documentário de mesmo nome, que acompanha o U2 durante a turnê de promoção para The Joshua Tree. A busca pelas “raízes americanas” da sonoridade dos irlandeses, iniciada no álbum anterior, se acentua aqui, seja nos rockões ”Desire” (uma tentativa de emular o estilo de Bo Diddley, que ganhou um interessante vídeo clipe) ou “God Part II” (cujo título vem da canção “God”, de John Lennon), no blues When Love Comes to Town” (escrita e gravada ao lado de B. B. King), na folk ”Love Rescue Me” (escrita por Bono ao lado de Bob Dylan), na jazzística “Angel of Harlem” (uma homenagem à cantora Billie Holiday), na versão gospel para “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” (gravada ao lado do coral de igreja The New Voices of Freedom), na cover para “All Along the Watchtower” (também de Bob Dylan, aqui registrada ao vivo) ou no hino norte americano “The Star Spangled Banner” em sua versão interpretada por Jimi Hendrix no festival de Woodstock, e que aqui serve como introdução para a versão ao vivo de “Bullet the Blue Sky”. Das demais faixas de estúdio, a bela “Heartland” teve sua gênese ainda durante as sessões para The Unforgettable Fire, “Van Diemen’s Land” é uma angustiante balada triste cantada por The Edge, e “Hawkmoon 269″ tem um clima opressivo de desesperança, o qual só é superado pela faixa que encerra o segundo vinil, “All I Want Is You”, uma das canções mais angustiantes, tristes e belas que o U2 já registrou, e que ganhou um clipe tão lúgubre quanto sua melodia. A parte ao vivo conta, além das já citadas, com um cover para “Helter Skelter”, dos Beatles, além de “Silver and Gold” (cuja versão de estúdio está presente no lado B do single de “Where the Streets Have No Name”), aqui precedida pela vinheta “Freedom for My People”, executada por artistas de rua em uma das andanças do grupo pelos EUA, e uma bela versão para “Pride (In the Name of Love)”. A versão do filme (um dos melhores documentários já registrados no mundo do rock, tendo sido dirigido por Phil Joanou), ainda conta com outros clássicos da banda executados ao vivo (como “Sunday Bloody Sunday”, “Where The Streets Have No Name”, “With or Without You” ou “Bad”), os quais ficaram de fora da edição em áudio.

u2 live 1987

Ao vivo em 1987: Larry Mullen, Jr., The Edge, Bono Vox e Adam Clayton

Esta primeira fase do grupo está muito bem representada na coletânea The Best of 1980–1990, lançada em 1998, e cuja edição limitada conta com várias versões retiradas de singles lançados ao longo da década pelo grupo. Já a recepção morna por parte da crítica para o filme e o álbum do projeto Rattle and Hum desagradaram ao grupo, que decidiu se mudar para a Europa (mais precisamente para a Alemanha) e reinventar a sua sonoridade. Esta decisão traria enormes mudanças para a música do grupo e para seus próprios membros, como você confere em algumas semanas na segunda parte da Discografia Comentada do U2.

5 comentários

  1. Felipe Lemos

    Belo texto como sempre Micael! Meu preferido também desta fase é o The Joshua Tree, sendo também que para mim todos os albuns desta fase tem uma qualidade imensa, com destaque para o debut Boy e War.

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    • Micael Machado

      Valeu, Felipe! Eu confesso que prefiro mais os álbuns da “segunda” trilogia do que aqueles da inicial…

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  2. Marco

    Três obras-primas em sequência aí,war,unforgatable fire e Joshua tree.

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