Por Micael Machado

“O Kraftwerk é mais influente, mais importante e mais incrível que os Beatles”!

Sempre achei curioso a parca presença do grupo alemão Kraftwerk nas postagens deste site. Tudo bem que eles estão a anos luz do tradicional estereótipo “guitarra-baixo-bateria e um vocalista virtuoso” de noventa e tantos por cento das bandas que passam por aqui, mas vários de seus melhores momentos se aproximam (e bastante) do rock progressivo tão apreciado por muitos dos redatores desta equipe. Outros pontos de sua discografia se aproximam claramente (sendo até mesmo influência importantíssima em certos casos) de boa parte do pop e do rock feito na década de 1980, período exaltado aos quatro ventos por outros colaboradores dentre os escribas deste site. Se uma banda que merece, não sem toda a razão, o comentário que abre este texto (e aquele presente na contracapa de sua biografia, Kraftwerk Publikation, escrita pelo jornalista David Buckley e publicada lá fora em 2012, mas que só saiu no Brasil em 2015, pela editora Seoman, com tradução – excelente, diga-se de passagem – de Martha Angel e Humberto Moura Neto) não figura mais frequentemente por aqui, certamente não é por falta de méritos. Afinal, uma boa quantidade do que foi produzido musicalmente a partir da segunda metade da década de 1970 deve muito de sua origem e inspiração à esta banda, seja na Disco Music, no pop oitentista (especialmente nos gêneros new romantic e pós punk), no hip hop, no rap e em todos os gêneros da chamada “música eletrônica” utilizada largamente em raves hoje em dia (sejam eles house, trip hop, trance, ambient ou seja lá qual nome for dado a este tipo de música elaborada quase que exclusivamente por máquinas, baseada mais em ritmos muita vezes repetitivos e envolventes do que em melodias e emoções), muitos dos quais sequer existiriam se dois rapazes de Düsseldorf não tivessem unido sonhos e aspirações no começo dos anos 1970 para se dedicar inteiramente às suas paixões: música e eletrônica em geral, especialmente aquela ligada aos instrumentos musicais.

Pois é a historia do grupo liderado por Ralf Hütter e Florian Schneider (ambos tecladistas, programadores e ocasionais vocalistas) que é contada no livro tratado neste texto, desde sua formação, com outros músicos acompanhando Florian e ainda sem a presença de Ralf, que entraria pouco tempo depois, ainda a tempo de participar do primeiro disco, passando pelo período onde apenas a dupla compunha o line up do Kraftwerk (e iniciava o processo de dedicação pura aos instrumentos eletrônicos, em muitos casos fabricados por eles mesmos, e em detrimento daqueles mais “tradicionais” do mundo do rock and roll), a chegada do sucesso mundial com o acréscimo dos percussionistas Wolfgang Flür e Karl Bartos a partir da segunda metade da década de 1970, o período de quase afastamento do cenário musical na década seguinte (onde os problemas com a gravação do álbum Techno Pop, lançado apenas em 1986 sob o nome de Electric Café, e a dedicação de Ralf e Florian ao ciclismo por pouco não acabaram com o grupo, culminando na saída de Wolfgang e Karl), o período de “renascimento” a partir do lançamento de The Mix, em 1991, e a volta triunfal aos palcos e holofotes no século XXI, curiosamente expandida após a saída de Florian em 2009.

Detalhe de uma das (poucas) páginas com fotos de Kraftwerk Publikation

Através de depoimentos colhidos das parcas entrevistas dadas pelos membros ao longo dos anos (a aversão do quarteto à exposição na imprensa e na mídia em geral é destacada várias vezes ao longo do livro), de conversas com jornalistas e músicos influenciados ou interessados pelas composições do Kraftwerk, de artigos retirados de jornais e revistas da época, e até mesmo de entrevistas pessoais com antigos membros e colaboradores da banda (com destaque evidente para Wolfgang Flür e Karl Bartos, que inclusive fez o prefácio da obra, e para Eberhard Kranemann, músico importante para o começo do grupo, e que deixaria a banda em 1971 para concluir seus estudos na escola de artes, o qual colabora na obra para esclarecer muito sobre a historia dos primeiros anos do conjunto), David Buckley conta a história dos rapazes em um texto fluido, informativo e de fácil leitura, atrapalhada aqui e ali pelas muitas expressões em alemão que nos fazem recorrer frequentemente (pelo menos àqueles não familiarizados com a língua) às notas de rodapé com as traduções para o português. Sabiamente, o autor escapa do clichê de dedicar páginas e mais páginas à infância e adolescência dos membros do grupo, passando rapidamente por esta fase e dando mais ênfase à parte musical e histórica do conjunto, abordando os discos, algumas músicas específicas, os shows e (as poucas) turnês feitas pelo quarteto, sua dedicação quase que exclusiva à criação e pesquisa musical feitas pelos músicos em seu estúdio particular em Düsseldorf, o mundialmente famoso Kling Klang, e um pouco à vida pessoal dos membros da banda, sempre avessos aos holofotes e a mídia em geral, preferindo fazer sua música em seus próprios termos e condições a se deixar levar pelas trivialidades proporcionadas pelo sucesso e pela fama que obtiveram (ainda hoje, pouco se sabe sobre a rotina dos membros do grupo fora dos palcos, e as entrevistas com eles – ou, mais especificamente, com Ralf, que assumiu a função de “porta voz não oficial” do Kraftwerk após a partida de Florian – são cada vez mais raras, assim como a produção de novidades na área musical pelo conjunto).

O desinteresse nas grandes turnês, a dedicação do grupo em ser quase impassível e robótico quando no palco, dando ênfase à música tocada pelos quatro, e não ao espetáculo visual em si, pelo menos durante o século XX (já no século XXI, o livro cita como uma das prováveis causas da demissão de um dos primeiros substitutos de Florian na formação ao vivo o fato de que ele “se empolgava demais durante o concerto”, chegando “até mesmo a dançar em algumas músicas”, algo totalmente contrário à postura concentrada e estática perpetrada pelo conjunto desde o início de sua fase “eletrônica” ainda nos anos 70), a dedicação cada vez maior aos experimentos com instrumentos eletrônicos no campo da música (ampliados com o aumento e melhoria da tecnologia com o passar dos anos), a influência do Kraftwerk sobre uma imensa legião de músicos que vieram a gravar depois de seu sucesso, alguns utilizando claramente suas ideias como fonte de inspiração, como David Bowie em sua fase “Berlim”, ou seu colaborador nesta época, o músico e arranjador Brian Eno (chegando até mesmo à rainha do pop, Madonna, que chegou a assistir aos alemães nos anos 70, sentindo-se “pirada” com sua música, como declara na obra), outros simplesmente copiando ou expandindo os conceitos criados pelo grupo, como muitas formações do gênero chamado de new romantic da década de 1980 (inclua-se aí o OMD, o Cabaret Voltaire, o Duran Duran e o New Order, bandas cujos membros colaboraram com declarações para o livro, ou diretamente ao autor, ou através de entrevistas coletadas por ele) ou da música eletrônica dos anos 1990, que utilizaram o caminho aberto pelos alemães para explorar as possibilidades do uso de instrumentos eletrônicos e computadores para a produção de música para as massas.

Contracapa de Kraftwerk Publikation

Kraftwerk Publikation é informativo, agradável de ler e capaz de cativar até mesmo alguém não tão familiarizado assim com a música do quarteto de Düsseldorf, com este que vos escreve. Seu maior problema, a meu ver, não está na obra em si, mas na edição brasileira do livro, que conta, além do prefácio original citado antes, com um segundo prefácio e uma introdução feitas pelo autor, além de um texto de apresentação escrito pelo repórter musical e DJ Camilo Rocha, além de um prefácio à edição brasileira feito pelo músico Paulo Beto. Todos estes “textos introdutórios” se estendem por quase cinquenta das 350 páginas do livro, e, embora sirvam para contextualizar a importância e o papel que o Kraftwerk teve para o mundo da música (especialmente a eletrônica) nas últimas décadas do século XX, também são arrastados e repetitivos quando comparados ao estilo utilizado no restante do texto dedicado especificamente à história da banda. Mas, caso você, como eu, tenha dificuldade para atravessar este terreno “pantanoso” inicial, lhe sugiro que persista, pois a “autobahn” literária que se abrirá à sua frente após ele com certeza compensará o esforço. Confira!

2 comentários

  1. Mairon

    Bandaça em sua fase inicial. Depois da segunda metade da década de 70, não sou tão fã assim. Só por ter sido uma das influências do Bowie na fase Berlim, já merece ser conhecida!

    O grupo figurou em duas listas de Melhores De Todos os Tempos (com “Autobahn” e “Trans Europa Express”), ou seja, os consultores gostam dos alemães, só tem vergonhinha de demonstrar …

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  2. André Kaminski

    É uma ótima banda, gosto de ambas as fases mas apenas me faltou oportunidade dentre tantas coisas que ainda desejo escrever de dedicar mais espaço a eles (ao menos de minha parte).

    Infelizmente, o pouco reconhecimento que a banda têm se dá principalmente pela sua aversão à mídia. Não tem jeito, para ser reconhecido, é necessário “se mostrar a todos”. É uma regra antiga e imutável do marketing.

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