Por André Kaminski

Tema escolhido por Ronaldo Rodrigues

Com Davi Pascale, Diogo Bizotto, Fernando Bueno, Mairon Machado, Marco Gaspari e Ulisses Macedo

Depois de algum tempo, o “Consultoria Recomenda” volta ao ar. Lembrando ao nosso leitor, objetivo é buscar temas diferentes dentro do universo rock e apresentar discos dos quais gostamos, sempre revolvendo ao redor de uma temática pré-definida, diferente do Ouve Isso Aqui, onde apenas um único consultor escolhe os discos. Aqui, um colaborador escolhe um assunto e recomenda um álbum que se encaixe nesse tópico. O restante dos participantes elabora suas impressões a respeito dele, além de recomendar outros discos que julgam obedecer ao critério estabelecido.

Hoje o tema é o brass rock, que une o estilo a instrumentos de sopro como trompete, trombone, saxofone e similares. Muitos artistas de diversas épocas foram recomendados. Convido o leitor a publicar seus comentários e citar outros ótimos discos que se encaixam no tema. Gostou da lista? Não? Discorra sobre nossas escolhas!


Luz-Y-Fuerza-Front

Luz y Fuerza – We Can Fly (1971)

Por André Kaminski

Uma pérola mexicana perdida no tempo, mas resgatada com a nova era da internet. Tudo que se sabe sobre o Luz Y Fuerza é que foi um grupo de sete integrantes liderado pelo vocalista Johnnatan Zarzosa, que participou da composição de todas as canções. Nem mesmo a data de lançamento do LP é confirmada. Rock psicodélico misturado a ritmos negros como soul e funk unido a trompetes em todas as canções, We Can Flytraz uma mistura tão grande de influências que o torna único.

Davi: Esta banda mexicana foi uma ótima surpresa. Grupo extremamente competente e ótimas canções. Misturavam, com o rock ‘n’ roll, soul, funk e psicodelia, contando com um elemento jazzístico por trás. Só não gostei de “Midnight”. As faixas são todas em inglês. O LP é curto. Meia hora apenas, mas bem agradável. Nunca tinha ouvido falar…

Diogo: Interessante a indicação deste grupo mexicano. Mesmo com alguns anos de atraso, a banda demonstra que estava antenada com o que acontecia no vizinho do Norte e pratica uma mescla de rhythm ‘n’ blues, soul e funk com uma pegada psicodélica que remete à Califórnia. Boa audição.

Fernando: Não encontrei quase nada sobre a banda. Gostei do clima psicodélico que já começa pela capa e que se mostrou bastante evidente em “When I Ever Get Home”. O naipe de metais está bem na cara, mas a mixagem em geral é um pouco irregular.

Mairon: Isso é o que eu espero de um naipe de metais com o rock. Disco recheado de sonzeiras, com destaque para o estéreo muito bem feito, com os metais de um lado, guitarra e órgão do outro, e, fazendo a assombrosa união sonora, vocalizações encantadoras, baixo e bateria. Excelente banda mexicana que faz uma união de soul, rock anos 1960, flower-power, funk motowniano, tudo com “el tempero caliente” mexicano. Deste álbum, ouçam “You”, “Just How I Feel”, “We Can Fly” e “Kiss Me Once More (Like You Did Before)”. São exemplos de como contagiar o cérebro com um belo naipe de metais. Sensacional escolha.

Marco: Como 90% do rock que foi produzido no México na primeira metade dos anos 1970, uma pérola. Peca por essa mania de se por a cantar em inglês. O instrumental, para compensar, tem o efeito de uma boa tequila: é alucinógeno de tão bom. Grande lembrança.

Ronaldo: O grupo mexicano Luz Y Fuerza só teve esse disco, que a sina taxonômica atual poderia batizar como latin rock, por suas bases funkeadas combinadas com melodias beatlenescas e guitarras ardidas. Os arranjos para os metais seguem a linha de coisas da Stax e das clássicas trilhas blaxpoitation. A combinação é deveras interessante!

Ulisses: Delícia de rock mexicano distribuído em dez faixas maravilhosamente bem tocadas por todos os instrumentistas; o vocalista Zarzosa, em especial, traz a cereja do bolo com sua voz que ora é forte e provocante, ora suave e intimista. Todas as faixas são ótimas e não dá vontade de pular nenhuma, mas destaco “Everybody Needs a Brother” e “Just How I Feel”. Melhor recomendação para esse tema.


Electric Flag 1

The Electric Flag – A Long Time Comin’ (1968)

Por Davi Pascale

O Electric Flag confundiu a cabeça de muita gente no pouco que duraram. Muitos os consideram uma banda de soul. Porém, muitos críticos os consideram um dos pioneiros daquilo que ficou conhecido como brass rock. E foi por esse motivo que optei por este álbum. Quis sair um pouco de artistas óbvios como Blood, Sweat & Tears e Chicago. Certamente eles vão além do soul. Embora o estilo seja uma forte referência, a influência do blues também se faz bastante presente. Perceptível, principalmente, nas guitarras de Mike Bloomfield. Além dele, músicos como Richie Havens e Buddy Miles fazem parte do line-up. No disco, percebemos os músicos transitando entre diferentes gêneros, trazendo elementos do rock, do jazz e até mesmo do country para dentro de sua música. Trabalho inspiradíssimo.

André: Nunca havia escutado nada do The Electric Flag. Aí fui ouvir. Horn section de cair o queixo? Confere. Guitarras apaixonantes? Confere. Baixo pulsante? Confere. Resultado: um discaço.

Diogo: Não conhecia a banda, muito menos sabia que Mike Bloomfield era grande força por trás dela. A Long Time Comin’ tem a cara dos Estados Unidos na segunda metade dos anos 1960, quando jovens brancos estavam descobrindo a força da música negra de seu país e colocando em prática toda essa influência. Creio que as canções funcionariam bem mesmo sem o naipe de metais, especialmente aquelas mais puxadas para o blues, como a ótima “Killing Floor”, mas o disco, no geral, é bom, destacando a guitarra de Bloomfield.

Fernando: O naipe de metais realmente mostra a que veio, já que os instrumentos participam quase que da melodia total das músicas e não apenas com alguns “comentários”. Soul, blues e rock se misturando para ajudar a criar o funk setentista. Destaque para a faixa “Texas”, por conta das guitarras, mas em “Sittin’ in Circles” os metais voltam a dar espetáculo.

Mairon: Nem todas as canções deste excelente álbum possuem naipe de metais, mas quando ele aparece, como na clássica “Killing Floor”, o agito toma conta, fazendo a base dançante para a guitarra solar com maestria, ou ainda relembrando a grande Kosmic Blues em canções mais amenas, como “She Should Have Just”. Belo disco.

Marco: Mike Bloomfield, Buddy Miles, soul, blues, rock e aquelas duas palavrinhas mágicas: horn section. Uma aula de como fazer música ambiciosa sem soar pretensioso. De uma a cinco estrelas, dou seis.

Ronaldo: Aqui os metais te acompanham do tapete da sala até a cama. A banda que revelou Mike Bloomfield e Buddy Miles é porreta de boa! Rock pra chacoalhar o esqueleto, que mantém vivo aquele espírito sacana e divertido do rock dos anos 1950. Os naipes de metais aqui são 80% da riqueza dos arranjos das canções.

Ulisses: Uma junção única de rock, soul e blues, liderada pela guitarra maravilhosa de Mike Bloomfield e sua trupe. Não tem como falar mal de canções como “Another Country” e “Sunny”. Curti o disco!


Bruce Springsteen

Bruce Springsteen – We Shall Overcome: The Seeger Sessions (2006)

Por Diogo Bizotto

Longe da E Street Band e unido a músicos menos conhecidos de New Jersey e Nova York, Bruce registrou seu único disco sem material próprio. Em um clima de muita descontração, Bruce e mais uma dúzia de músicos – incluindo saxofone, trompete, trombone e tuba – registraram versões de obras do cancioneiro popular que se tornaram conhecidas pelo ativista e cantor folk Pete Seeger, criando um de seus melhores trabalhos nos últimos 30 anos. Gravado ao vivo em apenas duas sessões e sem ensaios, o disco exala energia de ponta a ponta, sendo palpável a alegria de fazê-lo. Destaque para “Old Dan Tucker” e “John Henry”.

André: Em termos de qualidade, não há o que reclamar do disco. É muito bom. Porém, os metais são muito ofuscados por banjo, piano e violino. A horn section aparece bem em canções como “Jacob’s Ladder” e “Eyes on the Prize” e com uma participação mais discreta nas bases de outras músicas.

Davi: The Boss criou esse álbum em 2006 para homenagear a música de Pete Seeger. Adoro Bruce Springsteen e o álbum é fantástico, mas não consigo encará-lo como um disco de brass rock. O banjo e o acordeão me falaram muito mais alto do que a parte de metais. De todo modo, é um belo disco.

Fernando: Não sei o motivo, mas me chamou atenção que quase todas as músicas possuem nomes próprios ou algum tipo de apelido em seus nomes. Há explicação pra isso? No mais é o Bruce tocando músicas de raiz americana. Por mais que seja agradável e fácil de ouvir, prefiro ele com suas músicas características que possuem também influências desses estilos mais antigos, mas com o rock predominando.

Mairon: Country rock não é um gênero que eu aprecie com paixão, e este álbum traz muito disso. Os metais são meros figurantes que não colaboram significativamente para o resultado final, predominando nas canções banjo, violino e a voz rouca de Bruce. Disco fraquinho, que para rock com naipe de metais não tem representatividade alguma. Até o acordeão brilha mais que os metais. “Erie Canal”, “Jesse James” e “Jacob’s Ladder” são as únicas canções nas quais uma pequena base “metálica” aparece, mas sem nenhum impacto. Escolha sem sentido.

Marco: Disco maravilhoso, emocionante e uma homenagem à altura da importância de Pete Seeger. No entanto, Bruce Springsteen não é brass band: ele está brass band neste disco. Assim como a presença de banjo e violino não o torna um músico country. Não morro de amores por The Boss, mas Deus o abençoe por este disco.

Ronaldo: Uma interessante combinação do que se poderia chamar de “brass country”. A forma como os naipes de metais se colocam é bastante distinta do que o ouvido habituou-se a ouvir em discos de rock, soul, funk e jazz. Nele, os metais ocupam uma posição parecida das cordas (violinos e violoncelos), fazendo uma espécie de base sustentada para as canções. Um disco para quem se interessa pela origem irlandesa da música norte-americana.

Ulisses: Interessante este disco do Bruce. Uma homenagem ao cantor folk Pete Seeger no formato de covers grandiosos com uma banda completa, criando um registro animado e variado. Destaque para a sensacional “O Mary Don’t You Weep”!


Manfred Mann

Manfred Mann Chapter Three – Volume One (1969)

Por Fernando Bueno

Muito inspirados no que Miles Davis andava apresentando em alguns shows na Inglaterra, e que resultou no material de Bitches Brew (1970), os músicos Manfred Mann e Mike Hugg, que faziam parte de um grupo mod de R&B e que também faziam jingles, resolveram partir para um tipo de som mais sofisticado. O rock progressivo que estava começando a dar bons frutos foi a liga para uma fusão de jazz e funk. Os instrumentos de sopro são os destaques do álbum e faixas como “Travelling Lady” e “Konekuf” representam muito bem essa ideia de juntar o rock com naipe de metais.

André: Curioso como os metais causam uma espécie de “agonia” sentida a cada intervenção nas faixas. Para um disco carregado de uma atmosfera pesada, com uma riqueza instrumental não menos do que brilhante, a forma como se utilizaram os instrumentos de bronze me soou deveras surpreendente. Aquela introdução na genial “Konekuf” me arrepiou.

Davi: Ainda não tinha parado para ouvir essa fase do Manfred Mann. Conheço a fase mais pop do conjunto (que acho bem legal) e também a fase do Manfred Mann’s Earth Band. E, de boa, prefiro eles mais pop mesmo. Um dos melhores momentos do disco, para mim, foi a balada “Sometimes”. Quando eles vão para o som mais experimental me soam cansativos e, por vezes, embolados. Achei interessante. Apenas isso.

Diogo: Rapaz, que surpresa boa! Havia escutado apenas os primeiríssimos discos do Manfred Mann e mais alguns hits posteriores, mas esse capítulo três de sua trajetória é bem interessante. O destaque é o próprio Manfred e seus teclados, mas os arranjos de metais adicionam uma cor interessante às canções. Considerando que o disco é de 1969, o jazz rock praticado pelo grupo não estava nem um pouco atrasado em relação àquilo de melhor que se fazia na época. Certamente é a melhor indicação desta lista entre os álbuns que eu não conhecia.

Mairon: Voltei a ouvir esse disco depois do belo texto do Fernando Bueno e gostei do que ouvi. Em um disco com um clima bastante viajante, os metais aparecem com destaque em diversas canções, das quais destaco “Time”, “Travelling Lady”, “A Study in Inaccuracy” e a melhor de todas, “Konekuf”. Um grande resgate de uma banda esquecida pelo tempo.

Marco: Um disco com tantos pontos altos que mais parece uma cordilheira. O difícil é saber por onde começar os elogios e quando dar um ponto final neles. Ah, tá… Precisa falar do naipe de metais. Só pode ser ouro.

Ronaldo: Geralmente, naipes de metais trazem um tom vibrante para as músicas. Aqui, eles ajudam a criar um clima denso e soturno e se o analisarmos, isoladamente, a abordagem é bem parecida com a do jazz modal da metade dos anos 1960. Somados com o timbre cinzento e distorcido dos teclados de Manfred Mann e linhas de baixo poderosas, o resultado é positivo.

Ulisses: Volume One traz uma viagem com doses consideráveis de progressivo, experimentalismo e ambientação, sustentados por um baixo insistente e um naipe jazzístico. Uma viagem.


Los_Hermanos_1999_Los_Hermanos

Los Hermanos – Los Hermanos (1999)

Por Mairon Machado

Quando o Los Hermanos surgiu ao mundo com “Anna Júlia” e “Primavera”, em 1999, muitos torceram o nariz para o som dos cariocas. Porém, seu álbum de estreia é um marco musical para o brass rock no País. As linhas dos metais surgiram como uma grande novidade entre o hardcore pesado misturado ao ska de pérolas como “Tenha Dó”, “Descoberta”, “Pierrot”, “Quem Sabe”, “Azedume” e “Vai Embora”. Depois disso, o grupo investiu ainda mais nos naipes de metais, e o rock nacional nunca mais foi o mesmo.

André: Meu problema com o Los Hermanos vem de muito tempo. O que me incomoda é esta tonalidade excessivamente dor de corno nas letras da banda, exemplos de “Tenha Dó” e a famosa “Anna Júlia”. Se fizessem algo mais na linha do Skank, a banda provavelmente cairia no meu gosto pessoal. Com relação ao naipe de metais, o Los Hermanos faz ótimo uso tal como muitas bandas de ska, sendo “Quem Sabe” a melhor do disco. É um bom instrumental, mas essas letras…

Davi: Mais lembrado pelo hit “Anna Júlia”, o álbum de estreia do Los Hermanos é um trabalho razoável. A seção de metais dava uma diferenciada entre os grupos de rock da época (embora fosse comum em conjuntos pop como Paralamas e Skank), mas há poucas composições realmente marcantes. A inusitada mistura entre hardcore e ska faria com que os músicos ganhassem respeito da mídia. Os destaques ficam por conta dos hits “Anna Júlia” e “Primavera”. Das que apresentam seções de metais mais presentes, já que o tema é brass rock, fico com “Tenha Dó” e “Sem Ter Você”.

Diogo: Comparado ao som para universitário de humanas metido a intelectual que a banda praticaria logo adiante, até que este primeiro disco dos Los Hermanos não é tão ruim, mas mesmo assim essa pegada punk unida aos metais não me agrada. Tanto é assim, que a melhor música é mesmo “Anna Júlia”, com um acento pop (e sem metais) muito bem vindo. Pra piorar, as letras ginasianas não ajudam nem um pouco. “Sem Ter Você” começa bem e parece combinar bem os metais com o restante dos instrumentos, mas a mesma pegada punk de sempre estraga tudo.

Fernando: Não gosto da banda e não é só por conta do seu som, ao meu ver, totalmente sem sal. Não gosto pelo ar pseudointelectual que foi criado sobre seus componentes que fizeram a cabeça de milhares de integrantes de centro acadêmicos de faculdades por aí.

Marco: O Los Hermanos tem suas virtudes, claro. Neste caso, a maior delas é ser o único grupo brasileiro nesta lista de estrangeiros. Se bem que tivemos exemplos melhores de brass bands: Banda Metalurgia, Banda Black Rio, até mesmo o maestro Erlon Chaves e sua Banda Veneno. Mas quem nasceu pra “Anna Júlia”… Bom, deixa pra lá.

Ronaldo: A banda que é um fenômeno social entre jovens hipsters da classe média brasileira figura aqui, usando os naipes de metais tal como a maioria das bandas que possuem o ska como referência. Em alguns momentos, os tons graves dos trombones ajudam a completar a distorção das guitarras. O resultado, apesar de até ser bom do ponto de vista do uso dos instrumentos de sopros, não vai além de um rock adolescente pretensioso.

Ulisses: Cara, “Losermanos” não é ruim, mas é o tipo de coisa que eu só escuto quando sou obrigado mesmo. Apesar da combinação estranha (mas certeira) de indie rock, hardcore e ska com samba e MPB, o que jogou o debut dos Hermanos ao estrelato foi a manjadíssima “Anna Júlia”. Fico com “Azedume”, “Sem Ter Você” e similares.


Magma
Magma – Kobaïa (1970)

Por Marco Gaspari

Naipe de metais costuma levar bandas de rock a trilharem os caminhos do jazz. Nesta estreia, independente de ser cantada toda em kobaian, coisa que praticamente ninguém sabia qual a intenção na época, os metais levaram o Magma para as harmonias do desconhecido, para os timbres do espaço (caso houvesse som), muito além do lado escuro da lua, audaciosamente indo aonde nenhuma banda (o Sun Ra talvez) jamais esteve.

André: Quando se fala em experimentalismo, muitos pensam que é só uma colagem de harmonias desconexas e desafinadas que algumas bandas fazem para soarem “diferenciadas”. Ouvindo este disco, percebe-se que essas abruptas mudanças, quando bem feitas, geram um resultado muito agradável. Este é Kobaïa, um disco experimental até o osso. Diferente de outras bandas, porém, o Magma sabe bem o que faz. Nem preciso dizer que o naipe de metais recheia muito bem este álbum.

Davi: Lançado originalmente como LP duplo, o disco traz uma sonoridade bem experimental. As faixas são longas, o trabalho de metais é bem presente, os músicos são bons. Entretanto, o disco não me cativou. Achei a audição cansativa. Embora bem trabalhado, achei as composições chatinhas.

Diogo: O uso de instrumentos de sopro em meio a uma sonoridade progressiva não é uma novidade para mim, tendo especialmente em vista o que o King Crimson já fez, especialmente no magnífico Lizard (1970). O Magma, porém, vai um passo adiante, e sua peculiar musicalidade comporta muito bem esse tipo de adição. Às vezes soa um pouco cansativo, mas preciso ouvi-lo mais para emitir uma opinião mais terminativa.

Fernando: Já perdi as contas das vezes que tentei dar uma chance ao Magma. Aqui mesmo no site já saiu uma matéria que descreve muito bem sua história, a saga e o mundo criado pelos caras, comentando a destreza musical dos componentes da banda. Mas quando chega na música ela não me agrada. Tentei desta vez prestar atenção aos instrumentos de sopro por conta do tema de nossa matéria e nada mudou. Logo na primeira faixa o solo desconexo me fez lembrar um dos motivos por nunca ter apreciado a banda.

Mairon: No fim da década de 1960, a música mundial estava contaminada pelo nicho do heavy metal, que nascia com força no Reino Unido. Enquanto os Estados Unidos tentavam recuperar-se da onda flower power, coube ao país que mudou o mundo em 1789 novamente dar nova vida para a população da Terra, ou melhor, para o mundo de Kobaïa. O melhor disco desta lista, com os metais insanos de uma música que você só irá parar de ouvir depois já ter viajado muitos anos-luz entre a Terra e Kobaïa. Difícil destacar os grandes momentos desse disco, pois todo ele é EXCELENTE, mas as escalas vanguardistas de “Auraë”, o frenesi do saxofone na faixa-título, as linhas velozes de “Sckxyss” e todo o esplendoroso segundo vinil, são de audições únicas para quem quer fugir do rock progressivo britânico e conhecer novos sons. Um álbum digno de como usar o naipe de metais de forma inédita e muito bom, e digo mais, um álbum ESSENCIAL!!

Ronaldo: Desta lista, o Magma talvez seja o grupo mais distinto e a forma de usar os naipes de metais na música, idem. A mistura de free jazz, música latina e erudito forçou o grupo a mesclar o piano como instrumento essencialmente rítmico e deixar os naipes de metais com a função que outros grupos estariam preenchendo com órgãos ou outros tipos de teclados. Recomendado, mas depende de um pouco insistência e boa vontade do ouvinte com a mistura incomum. Vencida essa barreira, o prazer auditivo é garantido.

Ulisses: Banda ultrabizarra que canta em uma língua própria e toca um jazz fusion estranho e acessível ao mesmo tempo, que transita com facilidade entre o calmo e o explosivo. Muito viajado, e muito bom.


Chicago1971

Chicago – Chicago III (1971)

Por Ronaldo Rodrigues

Instrumentos como trompete, trombone e saxofone são controversos no rock. O Chicago neste disco ensina com soberba como combinar esses elementos dentro de um excelente disco de rock, sem abrir mão de um instrumental de respeito, com muito groove e uma puxada pop bem assanhada.

André: Curiosamente, só ouvi coisas mais novas do Chicago tais como Chicago XIV(1980), Chicago 19 (1988) e Twenty 1 (1991), quando a banda já havia enveredado para os lados do soft rock (principalmente nos dois últimos). Então, quando ouvi este álbum, senti uma estranheza enorme pelo que eu esperava. E para melhor! Trabalho longo e com muitas influências diferentes, sendo algumas o progressivo, o jazz, o country, o funk e o velho folk rock americano. Destaco “I Don’t Want Your Money”, “Free” e “The Approaching Storm” com o melhor do que o brass rock pode oferecer.

Davi: Um dos primeiros nomes que vêm à mente quando o termo brass rock é citado. Acredito que Chicago e Blood, Sweat & Tears sejam os mais populares dessa onda. Dentre as recomendações, este foi o que mais curti. Disco bem variado, ótimos músicos, ótimas músicas. O trabalho de metais é bem bacana. Extremamente bem dosado e bem usado. Já conhecia o trabalho do Chicago (tenho Chicago X em casa), mas não este disco em especifico. Vou correr atrás deste LP.

Diogo: Desconheço outro grupo de rock que tenha trabalhado tão bem com um naipe de metais quanto o Chicago. Sua música azeitada de rhythm ‘n’ blues e temperada de jazz fez de seus primeiros álbuns audição obrigatória. Caso a escolha já não tivesse sido feita por outro colega, eu mesmo teria selecionado o primeiro ou o segundo disco da banda, com os quais estou mais habituado, para ilustrar minha participação na série. O longo tracklist de Chicago III apresenta uma variedade surpreendente, destacando as performances do tecladista Robert Lamm e do guitarrista Terry Kath, um dos melhores de sua época.

Fernando: Talvez o Chicago tenha sido a primeira banda que todos pensaram quando receberam o tema. Sei que ao longo da carreira eles viraram uma baba difícil até de acompanhar, mas esses seus primeiros discos são muito bons e devem ser ouvidos por todos que gostam de música e têm um pouco de cabeça aberta.

Mairon: O Chicago passando por sua primeira transição. Metais furiosos, solando freneticamente e com bases agitadas, de uma banda que ainda tem muito que ser redescoberta, principalmente pelos preconceituosos de plantão. A primeira trinca de discos dessa banda é obrigatória em qualquer discoteca que se preze. “Loneliness is a Just a Word”, “I Don’t Want Your Money”, “Mother” e “The Approaching Storm” são alguns dos incríveis exemplos de como um naipe de metais pode ferver sua cabeça. Belíssima escolha.

Marco: Música faz as pessoas ficarem tão deslumbradas que é sempre bom desconfiar dos adjetivos usados por elas para qualificar um disco. Porém, não há exagero algum em dizer que o Chicago nessa época era a banda mais inventiva do mundo. Este, por exemplo, é o terceiro álbum duplo seguido e suas 23 músicas passeiam pelos mais diferentes estilos. É também a primeira banda que vem à mente quando o assunto é brass band. Chicago está acima do deslumbre: é uma instituição.

Ulisses: Aí sim é um disco do cacete! Das guitarradas de “Sing a Mean Tune Kid” à suíte “Elegy”, III é um álbum sensacional. Eu já tinha ouvido algo aqui e acolá do Chicago, mas só agora um registro inteiro. Valeu muito a pena.


Earth, Wind & Fire

Earth, Wind & Fire – Head to the Sky (1973)

Por Ulisses Macedo

Head to the Sky é um disco relativamente curto, fácil de assimilar e que, apesar de não conter hits mais conhecidos da banda, é bastante coeso. Tá certo que o rock, no Earth, Wind & Fire, é diluído em meio aos elementos de funk, soul e rhythm ‘n’ blues mais proeminentes, mas bah, mantenho minha escolha. Uma jóia.

André: É o tipo de sonoridade que me agrada fácil. Coisa simples, bacana e com um ótimo jogo de vozes. Porém, o naipe de metais aparece tímido com uma pequena passagem de saxofone em “Keep Your Head to the Sky” e mais proeminente em “Zanzibar”.

Davi: Excelente banda, disco bacaninha, mas não consegui entender a recomendação para uma lista de brass rock. Quase não há metais nesse disco. Se não me engano, só aparece nas duas últimas faixas. Minhas preferidas no disco são “Build Your Nest” e a latina “Evil”. Das duas que possuem uma relação mais próxima com o tema fico com “Clover”.

Diogo: Com todo o respeito, mas não creio que este disco encaixe-se na proposta desta edição da série. É um belo e sofisticado álbum de rhythm ‘n’ blues com a cara daquilo que os anos 1970 entregaram de melhor, mas o uso dos metais no decorrer das canções varia entre o limitado e o imperceptível, não formando parte tão integral da sonoridade. Os teclados, porém, dão um tempero muito especial à música presente em Head to the Sky.

Fernando: Até agora tinha tido muito pouco contato com a música do Earth, Wind & Fire, e vejo que perdi um pouco de tempo. Não gostei de algumas passagens de vozes femininas, ficaram parecendo um pouco afetadas demais. Mas o destaque, a meu ver, é a prog “Zanzibar”.

Mairon: Confesso que esperava mais deste álbum. Conheço canções espalhadas do Earth, Wind & Fire, que é uma banda bem interessante, mas em Head to the Sky não consegui encontrar força no naipe de metais, que aparece muito timidamente em “Evil”, ou uma flauta singela em “Clover”. Somente na deliciosa “Zanzibar” os metais (na verdade o trompete e o saxofone) aparecem com destaque, lembrando Sir Miles Davis. As vocalizações são a maior atração de um disco ótimo, mas para a ideia citada de inclusão de metais, nada representativo.

Marco: Concordo que é uma obra clássica na discografia do Earth, Wind & Fire. Também concordo que ela esbanja metais em arranjos primorosos. Mas é um disco muito papai e mamãe para um monte de negão formado em funk. Cadê aquela coisa bandida, aquele som malvado? Se é para ser mocinho, vou ouvir Paul McCartney.

Ronaldo: Recomendo este ótimo disco de soul/funk, mas não para quem esteja interessado em naipes de metais. As intervenções desses instrumentos basicamente se concentram apenas na longa faixa “Zanzibar”.

9 comentários

  1. Mairon

    Outros grandes discos a serem recomendados

    Blood Sweat & Tears – 3
    Henry Cow – Leg End
    Frank Zappa – The Grand Wazoo
    Frank Zappa – Chunga’s Revenge
    Frank Zappa – One Sizes Fits All
    Janis Joplin – I Got dem ‘ol Kosmic Blues, Again Mama
    Heaven – Brass Rock I
    Paralamas do Sucesso – Selvagem

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  2. Francisney

    Adoro umas ótimas criticas … Parabéns pelos trabalhos .. Parabéns pelos conteúdos publicados …
    Esses estudos não podem de forma alguma parar…

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  3. Valmir

    Mairon, creio que você já conheça, mas o Chicago tem uma Maravilha do Mundo Prog chamada “A Hit by Varese” presente no Chicago V. Contem toda aquela sonzeira marca registrada do grupo com pitadas de ELP.

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  4. Francisco

    Além de Chicago e Blood Sweat and Tears, que são talvez os mais populares no gênero brass rock, cito a banda If, que, entre 1969 e 1975, lançou oito discos. Cito ainda a banda do guitarrista Jim Peterik, The Ides of March, responsável pelo hit “Vehicle”. Há ainda Ten Wheel Drive, Trifle (“New religion” e “Devil’s comin'” são grandes!), The Greatest Show On Heart, Heaven (cujo único Lp se chama “Brass rock 1”), Tower of Power, Buddy Miles Express, Keef Hartley Band, Ginger Baker’s Air Force, Jam Factory, Chase…

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    • Ronaldo

      If – muito bem citada! tem excelentes discos no começo dos anos 70!

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