Por Ronaldo Rodrigues

Poucos dias atrás completou-se 50 anos do lendário Festival de Woodstock, ocorrido na cidade de Bethel, NY, em agosto de 1969. Mais do que uma grande celebração musical, Woodstock foi o marco de uma geração, reputação essa que foi em grande parte cristalizada pelo lançamento do filme sobre o festival, no ano seguinte. Parágrafos e parágrafos já foram escritos ao longo dos anos a respeito tanto da parte musical do festival quanto de seu simbolismo. Metáforas e conceituações à parte, vale destacar que na época vivia-se uma “febre” de festivais ao ar livre – vários inclusive superaram Woodstock em números (seja de público, dimensões, quantia ou importância de artistas que subiram ao palco, etc.) mas nenhum deles atingiu tamanha aura de magnitude e influência.

Atendo-se ao aspecto musical do festival, Woodstock praticou o “business as usual” da época – uma programação eclética dos estilos que rondavam o público jovem da época, nucleada pelo rock e todas as suas vertentes, incluindo artistas famosos, em ascenção e aspirantes. Seria muito preguiçoso de nossa parte escrever isso, mas o disco triplo lançado oficialmente com a parte da programação do festival dá uma boa ideia dessa variedade. Podemos, contudo, fracionar a programação do festival de Woodstock em alguns segmentos de estilos:

Folk/folk-rock: dominante no primeiro dia do festival, com Joan Baez, Tim Hardin, Arlo Guthrie, Richie Havens, The Band, Incredible Strings Band, Bert Sommers, John Sebastian

Blues/blues-rock/rock n’ roll: Paul Butterfield Blues Band, Canned Heat, Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, Joe Cocker, Sha-na-na

Groove/Brass-rock/Funk: Sly and Family Stone, Blood Sweat and Tears, Santana, Keef Hartley Band

Rock/Heavy Rock: Mountain, Ten Years After, Jimi Hendrix, The Who

Rock Psicodélico: Jefferson Airplane, Grateful Dead, Quill, Sweetwater, Country Joe & The Fish

Partindo dessa premissa, pinçamos alguns bons discos que estavam sendo promovidos na ocasião do festival por bandas de cada uma dessas vertentes, para aqueles que querem ir além do filme e do disco oficial do festival. A lista está apresentada na sequência em que as bandas escolhidas se apresentaram no festival.


Santana – Santana [1969]

O Santana ainda era um nome de pequena reputação quando subiu no palco de Woodstock e foi um dos artistas que mais se beneficiou da maciça exposição propiciada pelo festival. Contudo, isso não se deu por mera sorte – a performance da banda lá foi simplesmente explosiva. A banda era baseada na Califórnia, na costa oeste dos EUA, e Woodstock era o extremo oposto geográfico. Apesar de já terem figurado na programação do Filmore East em Nova York, a aparição em Woodstock fez a banda ser conhecida em todo os EUA, e no mundo inteiro por extensão. O disco de estréia do grupo já havia sido gravado em maio daquele ano, mas só foi lançado poucos dias após o festival. Boa parte do repertório do álbum foi executado naquela tarde de sábado, o segundo dia do festival. Uma fusão irresistível da música latina com a linguagem do blues e do rock psicodélico é o que temos nesse álbum, que já nasceu clássico. Músicos de altíssimo calibre e canções absurdamente empolgantes se ouvem ao longo de todos os segundos deste álbum. Também é necessário destacar o quanto o disco conseguiu captar a energia que a banda emanava em suas performances ao vivo, a despeito do solo de bateria de “Soul Sacrifice” soar melhor na versão que aparece no filme do festival do que no álbum de estúdio.

1. Waiting
2. Evil Ways
3. Shades of Time
4. Savor
5. Jingo
6. Persuasion
7. Treat
8. You Just Don’t Care
9. Soul Sacrifice


Leslie West – Mountain [1969]

Apesar de ter nomes relativamente conhecidos na cena rock dos arredores de Nova York, o show em Woodstock foi apenas a 4ª apresentação do Mountain ao vivo. Como Leslie West, guitarrista e vocalista da banda, tinha um contrato assinado quando formou a banda, o primeiro do álbum do grupo foi creditado como um trabalho solo seu. O lançamento ocorreu no mesmo agosto de 1969 em que o festival aconteceu. O baixista Felix Pappalardi já tinha renome como produtor e havia trabalhado com o Cream. A banda foi bastante valorizada pela programação, já que tocou no sábado a noite, momento de pico de público do festival, e fizeram um set relativamente longo (o que não aconteceu com a maioria dos artistas iniciantes que tocaram no festival). O disco em questão tem importância histórica, pois foi uma das pedras fundamentais do hard rock, junto com Led Zeppelin, Jeff Beck Group e vários outros. O disco é tão divertido quanto denso, atinado na garganta quente de Leslie West. O som tem um quê de hippie rock e, não à toa, fez a banda adquirir grande reputação com aquele público. Um álbum que merece ser cada vez mais resgatado e ouvido. “Blood of the Sun” e “Dreams of Milk and Honey” deveriam alçar o patamar de clássicos do rock para o grande público.

1. Blood of the Sun
2. Long Red
3. Better Watch Out
4. Blind Man
5. Baby, I’m Down
6. Dreams of Milk & Honey
7. Storyteller Man
8. This Wheel’s on Fire
9. Look to the Wind
10. Southbound Train
11. Because You Are My Friend


Jefferson Airplane – Volunteer [1969]

O Jefferson Airplane chegou a Woodstock trazendo consigo a reputação de ser uma das principais do rock psicodélico da Califórnia e, obviamente, não fez feio em Woodstock. Devido as chuvas e ao enorme atraso da programação do festival decorrente dessas, iniciaram sua apresentação já no domingo pela manhã. Na programação original, eles encerrariam a noite de sábado. Em seu set, a banda se concentrou em músicas já clássicas de seu repertório incluindo apenas duas faixas de seu novo álbum, Volunteers, um dos discos mais celebrados de sua discografia. O álbum já havia sido gravado quando tocaram em Woodstock, mas seu lançamento ocorreu apenas em novembro daquele ano. Mostrando uma banda mais madura e musical, o disco mantém a brasa lisérgica dos trabalhos anteriores embalando-a em uma refinada envoltura melódica. Fica evidente até mesmo o direcionamento que os membros dissidentes (Jorma Kaukonen e Jack Cassidy) adotariam no Hot Tuna. O grupo também esbanja musicalidade com poderosos solos de guitarra, acompanhamentos pesados e belos jogos vocais de Grace Slick e Martin Balin. A linda composição da banda “Wooden Ships”, presente em Volunteers foi também gravado pelo trio Crosby, Stills & Nash, cuja versão foi trilha sonora do filme e ilustra uma passagem icônica deste.

1. We Can Be Together
2. Good Shepherd
3. The Farm
4. Hey Fredrick
5. Turn My Life Down
6. Wooden Ships
7. Eskimo Blue Day
8. A Song for All Seasons
9. Meadowlands
10. Volunteers


Johnny Winter – Progressive Blues Experiment [1969]

Johnny Winter era um prodígio na guitarra e estava em franca ascenção quando subiu ao palco de Woodstock na calada da noite de domingo para segunda, no fim da programação do festival. Johnny estava envolvido com diferentes contratos de gravação, o que fez com que em 1969 três discos seus fossem lançados. O primeiro deles, aqui citado, saiu em março de 69, apesar de ter sido gravado no ano anterior. Já de cara, Johnny Winter dá suas credenciais – versões apimentadas de mestres do blues, exploradas com o seu aparente infindável estoque de frases e licks estoantes na guitarra. Sua voz também transpirava uma interpretação absolutamente sintonizada com os grandes mestres do blues. Tudo que está presente em seu disco de estréia o guitarrista apresentou em seu show em Woodstock; contudo, o guitarrista nunca valorizou em demasia sua participação no festival. Sua agenda era lotada e ele tocara em diversos outros festivais enormes ao redor dos EUA naquela mesma época. Woodstock pra ele foi mais um show e para boa parte da platéia, já extenuada, aparentemente o mesmo ocorreu. Os shows de Woodstock que aconteceram de noite sofreram pela precariedade da iluminação e não puderam ser bem aproveitados no filme do festival.

1. Rollin’ and Tumblin’
2. Tribute to Muddy
3. I Got Love If You Want It
4. Bad Luck and Trouble
5. Help Me
6. Mean Town Blues
7. Broke Down Engine
8. Black Cat Bone
9. It’s My Own Fault
10. Forty-Four


Crosby, Stills & Nash – Crosby, Stills & Nash [1969]

Outro grupo estreante em Woodstock mas que contava com músicos veteranos e ex-membros de bandas seminais nos anos anteriores. O trio, acrescido de Neil Young, fez uma apresentação arrebatadora e que aqueceu o coração dos ainda resistentes expectadores que ouviam e se divertiam com música depois de tantas intempéries. O show foi o segundo realizado pelo trio (a estréia ocorrera em Chicago no dia anterior) e o set executado na madrugada de domingo para segunda alternou um início acústico e um final elétrico, como viria a ser marca registrada desse super grupo. O álbum de estréia do trio, lançado em maio, tem essa mesma dualidade entre acústico e elétrico, conduzido por composições irremediavelmente brilhantes. A já citada “Wooden Ships” de Jefferson Airplane foi rearranjada e supera (na humilde opinião desse escriba) com folgas a versão dos compositores. O álbum é simplesmente irretocável na linhagem do folk-rock e fez escola para dezenas de grupos vocais e de soft-rock que surgiriam nos anos seguintes.

1. Suite: Judy Blue Eyes
2. Marrakesh Express
3. Guinnevere
4. You Don’t Have to Cry
5. Pre-Road Downs
6. Wooden Ships
7. Lady of the Island
8. Helplessly Hoping
9. Long Time Gone
10. 49 Bye-Byes

6 comentários

  1. Mairon

    Minha lista não teria Leslie West e Crosby Stills. No lugar, colocaria Stand! (Sly and Family Stone) e Tommy (The Who). Mas com tantos nomes bons, como criticar o Ronaldo?

    Em tempo, a imagem que ilustra esse post é simplesmente arrepiante!!!

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    • Mairon

      E eu tb acho que a “Wooden Ships” do Airplane é muuuuuuuuuuito melhor que a do CSN. Aliás, a dramaticidade que a guitarra do Kaukonen coloca nessa faixa é para fazer qualquer teledramaturgista da globo repensar suas tramas novelísticas!

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      • Ronaldo

        eu sabia que esse comentário sobre a Wooden Ships viria! hahaha…me lembro daquela cerveja lá na Urca enquanto falávamos sobre o Volunteers! ehehehehe…abração, valeu!

      • Mairon Melo Machado

        Aquela???? AQUELAS, AHUAHUAHUAHU!! Bons tempos!! Abração

  2. Rilmar R Moreira

    Excelente resenha. Vale citar que complementando o album triplo com a TS do filme, foi lançado um segundo album, duplo, bem interessante, embora sem o impacto causado pelo primeiro. Ambos foram lançados no Brasil. Claro que os cinco albuns citados são maravilhosos e à sua lista outros poderiam ser acrescentados: Stand (Sly & The Family Stone), Tommy (The Who), do Hendrix (Electric Lady Land era recente) etc. Aliás, 1969 foi um ano de grandes discos (se não me engano, tema de um numero especial da Rolling Stones) e merece uma resenha muito especial. Mãos a obra, Ronaldo!

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    • Ronaldo

      Grande dica, Rilmar! valeu pelo comentário! o “Stand” ficou muito cotado pra entrar nessa relação tb.
      Abraço!

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