Por Mairon Machado

Como é bom quando recebemos um material de uma banda que já conhecemos, e melhor ainda quando esse material te surpreende positivamente. Há alguns anos, o Maestrick figurou nas nossas páginas através do EP The Trick Side Of Some Sons, na qual o trio paulista homenageia diversos baluartes do rock clássico, e que, como muito bem resenhado pelo Micael em tal oportunidade, tornava-se difícil de ouvir sem uma comparação a sério com os homenageados, com o Maestrick ficando muuuuuuuuuuuito aquém em todas as canções.

Pois eis que o tempo passa, e o grupo formado por Fabio Caldeira (vocais, piano, teclados), Renato “Montanha” Somera (baixo, vocais guturais), Heitor Matos (bateria, percussão), faz uma série de nove apresentações na Europa no ano passado, quando visitou Suíça, Itália, Polônia e República Tcheca, e lança Espresso Della Vita • Solare, que causou um alvoroço muito grande aqui e lá fora. Honestamente, consigo facilmente entender o alvoroço que muitos canais da imprensa especializada fizeram para o trio, já que o disco ocupou a primeira posição como Melhor Disco de 2018 nos sites O Subsolo e Gaveta de Bagunças, e a segunda posição de Melhor Disco de 2018 pela rádio Cangaço Rock e nos sites Road To Metal, Terreiro do Heavy Metal e Metal na Lata. Até a japonesa BURRN! avaliou o disco com a nota 86/100, a frente de gigantes como Anthrax e Spock’s Beard.

Espresso Della Vita • Solare é a primeira parte de um disco duplo conceitual e traz uma observação da vida humana pela perspectiva de uma viagem de trem. Ele conta com a participação do guitarrista e produtor Adair Daufembach, além de uma série de convidados, destacando a Solare Choral (um coral formado por 3 sopranos, 5 altos, 5 tenores e 3 baixos), e a Solare Orchestra (4 violinos, 1 viola, 1 violoncelo, flauta e tímpano).

O álbum começa com a vinheta “Origami”, uma espécie de “Overture” para a jornada musical que irá ser apresentada por pouco mais de uma hora e dez minutos, com destaque para a bateria de Matos. “I A. M. Living” traz o baixo de Somera em evidência, e a parte instrumental chama a atenção novamente pelo belo trabalho de bateria, além da guitarra fazer seu serviço com perfeição. Aqui há a participação do coral e da orquestra, mostrando ao ouvinte que os brasileiros vieram com grandiosidade. Boa faixa para apagar de vez qualquer má-vontade que possa ter ficado anteriormente.

“Rooster Race” começa com um lindo dedilhado de viola caipira feito por Caldeira, e até a participação de um berrante (Neemias Teixeira), em uma faixa veloz, que mistura heavy metal com elementos da música caipira, também muito boa de se ouvir. O piano e o ritmo dançante de “Daily View” mudam totalmente a sonoridade do álbum. Com vocalizações muito bem encaixadas e a suavidade sonora, parece que estamos ouvindo aquelas canções que o Queen usava para preencher seus discos no início da carreira, como “Seaside Randezvous”, “Good Old-Fashioned Lover Boy”, entre outras. A orquestra aparece com força em “Water Birds”, que lembra bastante Sagrado Coração da Terra, divergindo apenas durante o belo solo de Daufembach.

“Keep Trying” é um som mais acessível, não tão pesado, lembrando bastante o grupo Apocalypse, e que traz criatividade ao citar, na letra, discos e canções do Rush. O coral introduz a suíte “The Seed”. Dividida em doze partes, é uma faixa de quinze minutos, daquelas que você deve parar tudo que está fazendo para apreciar suas variações, e principalmente, o exímio trabalho de guitarra, baixo e bateria. Sensacional!! O baixo galopante de “Far West” mostra influências country junto ao peso metálico, em mais uma canção bastante criativa.

O lado acústico da Maestrick aparece na balada gospel “Across The River”, mudando novamente o direcionamento musical do álbum e mostrando mais diversidade na música dos paulistas. “Penitência”, única canção em português, traz um complicado repente feito por Moacir Laurentino e Sebastião da Silva, e em nada se assemelha ao que já tínhamos ouvido anteriormente nesse disco. Parece outra banda em outro mundo musical, misturando peso com o ritmo nordestino. Genial! Voltamos às lembranças do Apocalypse em “Hijos de La Tierra”, trazendo parte da letra em espanhol e elementos latinos. O álbum encerra-se com a mini-suíte “Trainsition”, uma faixa suave levada pelo riff do piano (martelando na cabeça por algumas horas) em uma longa e envolvente introdução, que nos apresenta mais uma canção bastante trabalhada, para fechar tranquilamente um álbum que nos dá muito o que pensar.

Primeiro, como é bom ver que o Maestrick é outra banda quando compõe suas próprias canções. Bom gosto e muita técnica são os destaques. O bom gosto, principalmente, aparece não só na qualidade das harmonias e composições, mas também no luxuoso encarte de mais de 20 páginas que acompanha o CD, lançado no formato DIGIPACK. O guitarrista Adair Daufembach bem que poderia manter-se fixo. Seu trabalho é impressionante, e eleva a qualidade do álbum em muitos pontos. Por fim, resta aguardar Espresso Della Vita: Lunare, e esperar que o trio continue com o bom gosto musical, investindo nas suas composições e desistindo de coverizar clássicos.

Track list

1. Origami

2 I A. M. Living

3 Rooster Race

4 Daily View

5 Water Birds

6 Keep Trying

7 The Seed

8 Far West

9 Across The River

10 Penitência

11 Hijos De La Tierra

12 Trainsition

4 comentários

  1. José Carlos Araujo de Paula Souza

    Disco fantástico, banda sensacional!!! Esse vale demais a pena!!!

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    • Mairon

      Com certeza. Um disco surpreendente, ainda mais para os padrões nacionais!!

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  2. Ronaldo

    Essa banda merece minha atenção…já sei que eles tem qualidade e o texto do Mairon reforça isso! em breve ouvirei…abraço!

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