Por Ronaldo Rodrigues

Como dissemos no primeiro texto dessa série (veja aqui), o gosto de cada um é predominante na escolha do que se ouvir. Porém, há um conjunto de elementos de bastidores por trás daquilo que se torna célebre na música e é comentado por gerações a fio. Como se constrói a “qualidade” de uma música? É um pouco o que essa série quer desbravar, tentando trazer para um linguajar mais palatável (e se apoiando em exemplos) de conceitos teóricos da música, como melodia, ritmo, harmonia, etc. Este texto especificamente tratará sobre arranjo.

Uma metáfora para o papel do arranjo na música, seria como comparar o papel do vestuário na aparência de uma pessoa. Se uma mulher naturalmente bonita se veste bem, o resultado de sua aparência é potencializado positivamente. Eventualmente, uma mulher bonita vestida desleixadamente pode não ser tão prejudicada em sua beleza; mas uma beleza mediana pode ser bem melhorada com uma vestimenta bonita, bem pensada e customizada, e por aí vai. É isso que ocorre na música – a composição é o corpo da música; o arranjo é sua vestimenta, são os acessórios, o que vem pra embelezar e deixar atrativa a composição. Na prática, um arranjo se constitui na velocidade com a que música é executada, na divisão dos compassos, na forma como cada instrumento executa sua parte na música, na escolha dos instrumentos e em qual momento eles tocam, dos timbres, da inclusão de solos instrumentais e de quais instrumentos, na repetição de determinadas frases ao longo da música, dentre outros elementos.

Os arranjos ficam mais claros de se notar quando comparamos dois arranjos diferentes para a mesma composição. É o que faremos abaixo com alguns exemplos. E o leitor é convidado a dar outros exemplos também nos comentários.


All Along the Watchtower (Bob Dylan x Jimi Hendrix)

Em 1967, Bob Dylan lançou a referida canção no álbum John Wesley Harding. Jimi Hendrix era um fã atento da obra de Dylan e não hesitou em incluir uma versão rearranjada da faixa para seu terceiro álbum de estúdio, Electric Ladyland. A versão de Bob Dylan (aqui) segue o esperado em toda a sua obra – violão rítmico, gaita fazendo o tema e sua voz guiando uma longa letra, com bateria e baixo como meros coadjuvantes. Já a versão de Jimi Hendrix (ouça aqui) também traz o violão (o que era uma inovação em seus álbuns, até então exclusivamente feitos com guitarra elétrica), mas com um vigor bem maior e a presença esperta de percussão misturada com a bateria inventiva de Mitch Mitchell. O tema é próximo da versão original, mas apresentado com uma guitarra pouco distorcida, o que já torna a introdução icônica. Após cada verso, novos (e fantásticos) solos de guitarra são postos em cena, até que a seção central da música traz Hendrix em uma espécie de lap-steel e depois um solo recheado de wah-wah, que é simplesmente um dos pontos altos de sua obra em estúdio. Nos vocais Hendrix canta também improvisando as linhas vocais compostas por Dylan (alterando levemente entre uma repetição e outra). A condução do baixo foi feita pelo próprio Hendrix e casa-se perfeitamente com as batidas ora precisas, ora unortodoxas de Mitchell. Os solos e as passagens instrumentais quase dobraram a extensão da canção, deixando para apreciação duas versões completamente distintas do mesmo clássico do rock/folk.


Black Magic Woman (Fleetwood Mac x Santana)

Muita gente ainda se surpreende quando descobre que essa música, uma das mais famosas do catálogo do guitarrista mexicano Carlos Santana, é na verdade uma versão de uma música de uma banda de blues, o Fleetwood Mac. Nos dias em que eram liderados pelo guitarrista Peter Green, o Fleetwood Mac era um dos baluartes do blues-rock britânico, fase que apesar do reconhecimento, não era laureada pelo amplo sucesso comercial que a banda viria a atingir na metade dos anos 70. Pois bem – “Black Magic Woman” em sua versão original (veja aqui) tenta abordar um pouco do lado mais swingado e sensual do blues norte-americano. Contudo, essa não era (é) uma tarefa tão fácil para os anglo-saxões, e o resultado de “Black Magic Woman” é um bocado retilíneo e previsível em termos rítmicos, com as guitarras recheando seu conteúdo com ótimas frases. Já a versão de Santana (ouça neste link) a fez praticamente renascer em uma roupagem latina. A marcante introdução com o Hammond de Greg Rollie e uma maresia completa de percussões abre espaço para a guitarra de Santana executar um tema simples mas extremamente eficaz, até que a voz traz o mesmo feeling da canção original em uma nova embalagem. A estrofe desembarca em uma levada contagiante que abre espaço para a guitarra de Santana aparecer em total destaque novamente, superando com folgas os horizontes dados pelos ingleses.


With a little Help from my Friends (Beatles x Joe Cocker)

Esse é um clássico exemplo, especialmente por envolver dois artistas muito famosos em discos e situações de muita visibilidade – Beatles, em seu divisor de águas Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band, e Joe Cocker em ascenção, especialmente após sua aparição no filme de Woodstock. A versão original dos Beatles é uma espécie de marchinha bem ao sabor do pop-rock sessentista, com uma melodia bem ajustada por sobre uma base comportada 4/4. Já a versão de Joe Cocker (ouça aqui) é chapada do início ao fim; primeiro por alterar a batida dos compassos da música, deixando-a mais lenta e cadenciada e depois acrescentando frases quentes de guitarra (gravadas por Jimmy Page antes do início do Led Zeppelin), com o órgão Hammond em destaque, backing vocals sólidos, e com pausas e intervenções maluconas de bateria (cortesia de B.J Wilson, do Procol Harum). A levada da versão de Joe Cocker impressiona por dar mais força a letra da música do que sua versão original, que é bem quadradinha. Mas tudo isso fica em segundo plano quando colocado aos pés da voz de Joe Cocker, que mesmo mantendo boa parte da essência vocal da música original, a interpreta com maestria, não economizando em esganiços e extraindo todo o sentimento de suas pregas.


Down by the River (Neil Young x Buddy Miles)

Também com pequena diferença entre o lançamento original e a versão, “Down by The River” é um rock melancólico de andamento mediano, que foi transformado em um soul com uma interpretação profunda (ouça aqui) pelo baterista/vocalista Buddy Miles em seu disco Them Changes, de 1970. Na versão original, o canadense usa batidas retas e longas (até tediosas, poderia dizer) seções de solo de guitarra que após alguns poucos segundos, parecem sem direção. Já a versão de Miles é mais curta e vai direto ao essencial. Com uma introdução sutil, vai trazendo toda a carga sentimental da canção em uma forte melodia de guitarra fuzz, apoiada por sobre bases vocais divididas. As batidas de Miles, mesmo em um andamento lento, são repletas de um swing próprio dos músicos negros. A melodia vocal vai sendo destilada por vozes dobradas, até chegar nos refrões também apoiada por deliciosos backing vocals. A versão de Miles tem uma riqueza de sonoridades que contrasta frontalmente com a crueza da versão de Young; isso fica evidente nos solos instrumentais, cruzados entre o clavinete e o órgão Hammond. As linhas vocais tem leves modificações, especialmente na parte que traz o refrão, onde Buddy Miles mostra seus dotes como vocalista.


I Just Want to Make Love to You (Muddy Waters x Foghat)

Dezenas de canções de blues norte-americanas foram relidas à exaustão por bandas inglesas (e de outros países europeus) ao longo dos anos 60 e 70. Um dos casos mais célebres foi com essa canção de Muddy Waters, que remonta o fim dos anos 1950. Em sua versão original (neste link) traz a voz de Waters em destaque por sobre uma base cadenciada e uma guitarra discreta, que depois explode em um violento solo de gaita. É safadeza pura. A versão retrabalhada dos ingleses do Foghat é o tour-de-force principal de seu álbum mais sucedido comercialmente, o álbum Live, de 1977. Os 2 minutos originais da canção se transformaram em mais de 8 minutos de gastação rockeira na versão do Foghat (ouça aqui). A transformação foi total – a velocidade da música, a interpretação vocal, a profusão de guitarras, o riff e a batida foram completamente customizadas. Introduzida pelas jogadas vocais de Dave Peverett, a banda embala a canção por um riff constante das guitarras, onde basicamente apenas a letra e um pouco de seu vocal foram aproveitados. Solos e mais solos de guitarra e uma parte vocal inteiramente nova foram enxertadas no meio da música, dando aquele ar auto-referenciado tão comum em lançamentos ao vivo da década de 70.


Eleanor Rigby (Beatles x Esperanto)

Uma das mais marcantes e surpreendentes faixas (ouça) do quarteto fantástico de Liverpool. A faixa também inovou por ter apenas as vozes dos garotos acompanhadas de um sofisticado arranjo de cordas (violinos, violoncelo e viola). Quase uma década depois de seu lançamento, o grupo multinacional progressivo Esperanto deu uma roupagem setentista a faixa, incluindo nela todo o sabor da época (veja aqui) – bateria frenética, baixo potente, teclados e também violinos (a banda possuía três solistas na ocasião), vocais abusando dos agudos, com grande destaque para solos instrumentais na música. Beirando a intensidade de um hard rock, a introdução instrumental da música gasta mais de 2 minutos de demonstração virtuosa que em nada remete a versão original, como se fosse uma música inteiramente nova antecendendo uma versão. A base entra de forma totalmente diferente da versão original, assim como a melodia vocal é cantada de forma bem diferenciada da versão dos Beatles, aproveitando apenas a letra. Uma profusão de convenções vão surgindo (para deleite dos apreciadores do rock progressivo) e tornam a versão quase desfigurada, numa direção impensada para os autores da faixa. O final da versão do Esperanto traz belíssimos jogos de frases de violino e vocais, relendo a melodia da música. 2 minutos de Beatles se transformaram em 7 minutos nas mãos do Esperanto.


Superstition (Stevie Wonder x Beck, Bogert & Appice)

Esse é um dos casos de “puxada de tapete” no meio musical. Jeff Beck, sabidamente, nunca foi um grande compositor, apesar de ser nota 10 em todos os outros quesitos musicais. Stevie Wonder ofereceu uma composição para ele enquanto ele se preparava para disputar terreno no meio dos supergrupos no formato power-trio que buscavam um lugar ao sol naquele início dos anos 70. Contudo, Wonder percebendo a preciosidade que tinha em mãos, decidiu ele mesmo gravar a música (aprecie neste link) oferecida e esta acabou tornando-se um de seus maiores sucessos. Wonder vinha numa fase de ascenção e nada parecia dar errado pra ele na ocasião. Já Jeff Beck engoliu a seco a situação e resolveu gravá-la a seu modo no álbum de lançamento do BBA. Obviamente, sua versão ficou ofuscada pela de Stevie Wonder em termos comerciais. Se a primeira (lançada em 72 como compacto) é um funk arrasa quarteirão, a segunda (lançada em 73, que pode ser ouvida aqui) é um rock da pesada, com um riff forte e grudento, acompanhado com maestria pela bateria de Carmine Appice e o baixo poderoso de Tim Bogert. Os dois americanos dividem os vocais na faixa com muito empenho e no meio da faixa Jeff Beck faz um daqueles solos pouco convencionais que construíram sua reputação; Bogert não deixa por menos no baixo, costurando uma base tortuosa, respondida na mesma altura por Appice. Já do lado de Stevie Wonder o clavinete Hohner dá as cartas e as backing vocals femininas são o grande tempero da música, que tem uma levada irresistível em ambas versões.


Changes (Black Sabbath x Charles Bradley)

Talvez o exemplo de maior distância temporal dentro dessa lista, já que mais de 40 anos separam essas duas versões. O cantor soul Charles Bradley (RIP) fez miséria em uma das faixas mais exóticas do repertório do Black Sabbath (veja aqui). “Changes” é a primeira música do Black Sabbath sem guitarra/violão e conduzida integralmente por teclados, tendo um lindo mellotron acompanhando o piano para a depressiva voz de Ozzy Osbourne clamar por novos rumos em meio ao hedonismo que rondava a banda (ouça neste link). A original também não tem bateria, o que reforça seu clima triste. Já Charles Bradley declama toda a bíblia do soul escrita por mestres como Otis Redding, Aretha Franklin, Wilson Pickett e outros usando esta faixa, com uma interpretação vocal vinda das profundezas de seu coração musical, temperada por órgão Hammond, uma solitária guitarra clean com tremolo, bateria seca, baixo pesado e naipe de metais. Um primor arrepiante de interpretação e arranjo.

9 comentários

  1. Marco Gaspari

    Já que este texto começou comparando arranjos a vestimentas, meu comentário é que a moda evolui (ou retrocede muitas vezes) de acordo com as gerações. É fácil perceber a psicodelia de Hendrix dando o acabamento hippie no modelito folk do Dylan, mas o que pouca gente viu (e ouviu) por aqui é que uma década depois o XTC alinhavou tudo com tonalidades ska new wave: https://www.youtube.com/watch?v=6qXxOSYZi7U
    Se a versão do Jimi é a definitiva, diria que a pós-graduação pertence ao XTC.

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    • Mairon

      Ler o Marco aqui me deu o orgasmo do ano!!! Quanto tempo meu camarada!!!

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    • Ronaldo

      Muito legal, Marco! valeu pelo comentário e essa versão do XTC é deveras interessante mesmo…abraço!

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  2. Mairon

    A versão do Esperanto para “Eleanor Rigby” é tão surpreendente que até hoje meu queixo ainda não levantou.

    Outra versão estonteante é a de “Sympathy for the Devil”, feita pelo Blood, Sweat & Tears

    Agora, a melhor de todas, é a do Zappa para “Stairway to Heaven”. INSUPERÁVEL!!!

    Baita texto Ronaldo!!

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  3. Mairon

    Outra que lembrei agora: “Seasons of the Witch”. Com o Donovan, uma tchu-tchuca, com o Vanilla Fudge, um tigrão!!!

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    • Ronaldo

      hahahahaha! boa! essa música tem trocentas versões…a que eu mais gosto é do Al Kooper & Michael Bloomfield…ali o bicho pega!

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  4. Pergaminho

    “Eleanor Rigby” (1975) do Esperanto: a linha conduzida por violinos e órgão me lembrou o Kansas do disco “Song for America” (também de 1975).

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  5. Valmir

    Novamente volto a elogiar seu artigo, Ronaldo. Excelentes escolhas.
    Como uma modesta colaboração cito o “auto-cover” que Gregg Allman fez de Midnight Rider no álbum Laid Back. A versão original no segundo álbum dos Allman Brothers (Idlewild South) é um country um pouco além da linha que eu aprecio no country-rock. Porém a versão contida em Laid Back com arranjo sofisticado, uma slide minimalista mas imprescindível, e participações de grandes nomes como Chuck Leavell no piano elétrico demonstra o verdadeiro sentido de sua famosa elegância sulista.

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