Por Mairon Machado

O grupo americano The Allman Brothers ficou marcado na história da música pelo essencial álbum At Fillmore East, gravado ao vivo na casa mais famosa de Nova Iorque dos anos 60, e que se tornou referência para todas as outras bandas que gravaram discos ao vivo a partir de 1971, no ano em que o álbum foi lançado.

Ao longo de uma década e meia (entre 1969 e 1982), a banda teve altos e baixos, levando ao seu fim prematuro ainda em 1982, por conta de diversos desgastes pessoais, principalmente a perda de Duane Allman, um dos maiores gênios da guitarra em todos os tempos. Porém, em 1989, uma turnê para comemorar os 20 anos da banda foi realizada, e dela, surgiu a motivação para o retorno em definitivo, com a gravação dos discos Seven Turns (1989) e Shades of Two Worlds (1991), além de uma imensa turnê, registrada nos dois volumes dos discos An Evening With The Allman Brothers Band (1992 e 1995 respectivamente).

Butch Trucks e Greg Allman (acima); Dickey Betts, Warren Haynes e Al Woody (centro); banda e Marc Quinones (abaixo)

Esses álbuns estavam inicialmente planejados para contarem apenas com registros de shows que a banda fez em Macon, entre os dias 28 e 31 de dezembro de 1991. Porém, os membros do grupo, que na época a formação era Gregg Allman (órgão, piano, violões e vocais), Dickey Betts (guitarras, violões, vocais), Warren Haynes (guitarras, violões, vocais de apoio), Allen Woody (baixo, violão, vocais de apoio), Butch Trucks (bateria, vocais de apoio), Jaimoe (bateria, vocais de apoio), Marc Quinones (congas, percussão) e Thom Doucette (harmônica), decidiram que haviam faixas do show de Macon não completamente perfeitas para serem lançadas, e assim, decidiram fazer mais alguns registros na turnê, dentre eles, as 10 datas de apresentação no Beacon Theatre de Nova Iorque.

Vale lembrar que em 1989, o grupo tocou 4 noites seguidas no Beacon, e em 1992, foram 10 datas no teatro, o que acabou virando uma tradição nos próximos dezenove anos, quando a banda tocou de 8 a 19 shows por cada primavera, com exceção de 2010, ano em que o teatro não pôde receber os americanos devido a uma série de apresentações do Cirque de Soleil agendadas para a mesma data. Algumas apresentações desse período acabaram sendo registradas no CD Peakin’ at the Beacon (2000) e no DVD Live At The Beacon Theatre (2003).

Parte do encarte em formato de pôster, com a história da banda

Das 10 datas de 1992, somente os dias 10 e 11 de março de 1992 foram gravados para o lançamento de An Evenin With, e em 2014, foi lançado uma mescla unindo os dois shows em um CD duplo de tirar o chapéu. Tudo começa nos lembrando de cara Fillmore East, já que temos a dobradinha “Statesboro Blues” e “You Don’t Love Me” embalando nosso corpo. A primeira é um clássico indiscutível na carreira dos americanos, com um show de Haynes ao slide. A segunda, apesar de mais curta do que a versão eternizada no Fillmore (aqui apenas com 6 minutos), traz o sensacional fôlego de Thom Doucette na harmônica, fazendo a alegria geral dos moradores da caverna sessentista.

Um dos grandes atrativos de Play All Night … é o registro in the act de canções recém-lançadas na época, sendo o caso para “End Of The Line” e “Nobody Knows” (ambas de Shades of Two Worlds), e “Low Down Dirty Mean” (Seven Turns). “End of the Line” traz a destacada participação percussiva de Quinones, enquanto “Nobody Knows” parece ser uma pérola bônus track dos álbuns iniciais da banda, com uma pegada fantástica, repleta de improvisos, ao longo de seus mais de treze minutos. Que sonzeira! “Low Down Dirty Mean” é um blues sem vergonha, para curtir o swing após o massacre de “Nobody Knows”.

Entrinchada entre essas, temos uma versão absolutamente arrepiante para “Blue Sky”, clássico que na voz de Dickey Betts ganha muito poder, e com um belíssimo trabalho de guitarras. O CD 1 encerra com o momento acústico do espetáculo, dedicado para “Seven Turns”, mais uma emocionante interpretação de Betts, a paulada vocal “Midnight Rider” e “Come On In My Kitchen”, a última, uma sensacional homenagem para Robert Johnson, com Warren Haynes brilhando no slide.

Encarte do CD, com momentos do show

O melhor fica reservado ao disco 2, no qual as inspirações de cada músico são levadas ao limite em longas jams sessions, a começar para a reinterpretação animalesca de “Hoochie Coochie Man”, com mais de dez minutos de duração, dos quais quatro são uma sensacional introdução solo de Haynes ao slide. Outra que supera os dez minutos é a essencial instrumental “Jessica”, com certeza uma das principais canções da carreira da banda, com sua melodia marcante e muita improvisação.

A novata “Get On With Your Life” (de Shades of Two Worlds) cai como uma luva na sequência da segunda mídia. Um blues arrepiante, onde a guitarra de Haynes casa com perfeição na voz rouca e aveludada de Greg, em uma das melhores faixas do grupo em anos. “Revival” levanta a galera com o seu famoso refrão que levou a banda para um grupo mais popular de fãs ao redor do mundo.

A versão em vinil

Os mais de 20 minutos de “In Memory Of Elizabeth Reed” são o êxtase orgásmico do CD. Um espetáculo de solos de guitarra, conduzidos primorosamente pela cozinha afiada das baterias e do baixo, e que irá colocá-lo diretamente no Fillmore lá em 1970. Ouvir o esplêndido solo de bateria / percussão, com mais de 8 minutos de duração, é uma aula de como tirar o máximo de seu instrumento sem deixar soar presunçoso. As fantásticas revisões para “Dreams” (Haynes destruindo no slide) e “Whipping Post” (o baixão de Woody estremecendo o quarto), cada uma com mais de 10 minutos, encerram de forma brilhante essa apresentação magistral dos americanos.

Lançado somente lá fora (Europa, Japão, Austrália e Estados Unidos), o CD ainda apresenta um belo encarte em formato de pôster, que conta um pouco da história da banda nesse período. Tendo uma versão limitada de 4000 cópias em vinil (com apenas 10 das 16 faixas do CD) chamada Selections from Play All Night: Live at the Beacon Theatre 1992, Play All Night: Live At The Beacon Theatre 1992 é super fundamental para entender por que, em pouco mais de duas horas, a música é um dos principais instrumentos de entretenimento do ser humano, e de como a criatividade de alguns artistas é incomparavelmente além deste mundo!

Contra-capa

Track list

CD 1

Statesboro Blues

You Don’t Love Me

End Of The Line

Blue Sky

Nobody Knows

Low Down Dirty Mean

Seven Turns

Midnight Rider

Come On In My Kitchen

CD 2

Guitar Intro / Hoochie Coochie Man

Jessica

Get On With Your Life

In Memory Of Elizabeth Reed

Revival

Dreams

Whipping Post

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