Por Mairon Machado

Marc Spitz, jornalista que já publicou livros sobre o movimento punk e a cena inglesa dos anos 80, além da mais famosa biografia do Green Day, fez um de seus melhores trabalhos literários em 2010. Trata-se de Bowie – A Biografia, um livro com 29 capítulos dividido em 430 páginas, e que faz uma retrospectiva da vida e obra de David Bowie, um dos maiores – e eleito pela Consultoria do Rock como o maior – artista de todos os tempos.

David Jones aos dez anos (1959)

O livro é realmente bastante completo. Ele trata desde o início do relacionamento entre os pais de Bowie, Margareth “Peggy” Burns e Hayword “John” Jones, após um relacionamento conturbado de Peggy com Wolf Rosemberg. Este era um francês que se tornou o pai do meio irmão de Bowie, Terence “Terry” Guy Adair Burns, o qual sofria de problemas psíquicos, e foi a principal influência, por exemplo, para Bowie gravar o álbum The Man Who Sold the World.

A infância do pequeno Bowie, no subúrbio londrino de Bromley, mostra uma criança dolorosamente tímida, que chegou a molhar as calças no seu primeiro dia de aula, e que conviveu com diversas mudanças de lar, até um pré-adolescente apaixonado por música, principalmente jazz, formado em uma educação rígida, e que já demonstrava a criatividade que marcou sua carreira.

Na adolescência, Bowie descobre James Dean, Elvis Presley e, principalmente, Little Richard, que impactam diretamente nas escolhas pessoais do astro britânico para ele se tornar um artista. É um período onde ele vive o auge da fase mod, e conhece vários amigos, dentre eles, Peter Frampton, que se tornou um parceiro musical nos anos 80. Também é uma fase “quente”, já que a vida sexual desperta para o menino, que traça o que aparece pela frente, não importando o gênero, a cor ou qualquer outra característica da pessoa que quisesse se relacionar com ele.

“Davy Jones” e seu desastrado grupo mod, o Lower Third (1965)

Foi em um desses apetites sexuais que David Jones acabou conseguindo uma de suas marcas registradas, o famoso “olho diferente”, que na verdade, é um problema originado por uma briga com o amigo George Underwood. Ele e Bowie apaixonaram-se pela mesma garota, Carol Goldmith, e por ciúmes, George acabou dando um soco no rosto de David, o qual acertou de forma tão bizarra que deixou-o com a íris deslocada, gerando então a aparência extraterrestre do músico – curioso que sempre soube que Bowie tinha sido agredido com uma faca da marca Bowie, mas segundo o livro, não foi isso que aconteceu.

A partir de então, Bowie trava uma grande batalha, de quase 7 anos, em busca do sucesso. Saindo de Bromley em 1963, com 16 anos, Jones passa por diversas bandas (Kon-rads, King Bees, Manish Boys, entre outros) e clubes do subterrâneo londrino. Surgem as primeiras – e hoje cobiçadas – gravações, ainda como David Jones, o primeiro álbum solo, lançado em 1967, até chegar no primeiro grande sucesso, “Space Odditty” (1969).

Em uma coletiva de imprensa com Iggy Pop (centro), Lou Reed (direita) e Marc Bolan (na camiseta de Iggy) (1972)

Esse sucesso inicial foi alcançado principalmente pela ajuda do empresário Kenneth Pitt, que além de fazer Bowie crescer como artista, apresentou-o ao mundo de Lou Reed e Velvet Underground. Outros nomes importantes na carreira de Bowie nesse período são os de Tony Visconti e Calvin Mark Lee, que levaram Bowie a gravação de “Space Oddity”, sucesso principalmente nos Estados Unidos, local que modificou – mais uma vez – a vida de Bowie. Para se ter ideia, é nos states que Bowie colhe centenas de referências musicais e cria Ziggy Stardust, além de toda uma cena de palco que ninguém havia visto antes em produções de rock.

Aqui, diversas pessoas surgem para influenciar a carreira e o modo de vida do artista, e cada um tem seus parágrafos de destaque no livro. Mick Ronson, guitarrista da fase Ziggy, é reverenciado com belas palavras, assim como outro guitarrista famoso na carreira do Camaleão, Carlos Alomar. Outros nomes importantes também dão o ar da graça, com breves histórias sobre Marc Bolan, Andy Warhol, Charles Murray, Brian Eno, Dana Gillespie, Lou Reed, Michael Bennett, Mick Jagger, Glenn Hughes, Iggy Pop, John Lennon, Nile Rodgers, Adrian Belew, Reevels Gabrels, Siouxsie Sioux, Trent Rezonr, e por aí vai. Depoimentos de grande parte desses nomes também surgem no texto, sempre exaltando a capacidade de criar e competitividade que o astro central da obra tinha.

Em Beverly Hills, com Elizabeth Taylor (1975)

O livro também abrange os filmes que Bowie participou, desde o curta de vanguarda The Image (1969), o promocional Love You Till Tuesday (1969), passando pelos clássicos O Homem Que Caiu Na Terra (1976), Furyo – Em Nome da Honra (1983), Um Romance Muito Perigoso (1984) e Labyrinth (1986), os fracassos Just a Gigolo (1978), Fome de Viver (1982) e Absolute Beginners (1986), até chegar no Pôncio Pilatos de A Última Tentação de Cristo (1988), o Andy Warhol de Basquiat (1996) e no Tesla de O Grande Truque (2006). Spitz, diretores e amigos destacam todo o profissionalismo de Bowie para exercer os papéis no cinema, encarando cada um com uma dedicação rara nos sets de filmagem. Além disso, o essencial documentário Cracked Actor (1975) também está citado e comentado em um trecho do livro.

Um dos trabalhos mais relevantes além da música e do cinema, foi no teatro, quando Bowie interpretou O Homem Elefante. Até nesse ponto o livro tem sua relevância, já que há comentários bem estruturados sobre as participações de Bowie no Teatro, desde o show itinerante Pierrot in Turquoise, em 1967, passando pelo laboratório de artes Growth, no qual Bowie desenvolveu seus estudos de mímica, e também o papel Baal na produção de Bertolt Brecht para a BBC.

Em Moscou, visitando o túmulo de Lênin (1977)

Os relacionamentos amorosos de Bowie também estão citados no livro, com destaque para Hermione Farthingale, para quem dedicou “Letter to Hermione” (do álbum David Bowie, de 1969) e que ele conheceu durante a filmagem da série Theatre 625 (a saber, episódio The Pistol Shot), dividiu os palcos com Bowie no seu momento hippie, através dos espetáculos Turquoise e Feathers, e foi, considerada por ele, seu primeiro grande amor. A amante Ava Cherry também tem seus parágrafos, assim como a secretária e “faz-tudo” Corinne “Coco” Schwab, e também a jovem Melissa Hurley. Mas claro, as duas principais mulheres da vida de Bowie estão inevitavelmente com relevância na obra.

A primeira é Mary Angela “Angie” Barnett, a primeira esposa do artista, responsável por levar o marido a seguir o caminho Glam que o consagrou como Ziggy Stardust. A segunda é a modelo Iman Abdulmajid, segunda esposa de Bowie, e que viveu com ele até sua recente morte em 2016.

Com Trent Rezonr, do Nine Inch Nails, no set do vídeo “I’m Afraid Of Americans”, em Nova Iorque (1997)

Brigas com empresários, opiniões pessoais do autor para praticamente cada música de todos os álbuns lançados por Bowie até então, as diferentes personalidades que o artista assumiu em sua carreira, os momentos conturbados da fase Thin White Duck, onde consumindo apenas cocaína e leite, o Camaleão varava noites e dias acordado, trabalhando. Um fato que me chamou a atenção aqui é o depoimento de Hughes dizendo que não era páreo para o consumo de cocaína de Bowie. Enquanto Hughes apenas divertia-se, Bowie usava a droga como uma obsessão, incluindo até estudos – e talvez, realização – de magia negra. Isso dito por um cara que é uma das maiores referências em consumo de cocaína que já li, como falei no livro de Tony Iommi.

Ainda há detalhes sobre a criação dos magníficos palcos das turnê de Diamond Dogs, Serious Moonlight e Glass Spider, participações em diversos programas de TV, gravações de clipes históricos, o auge da carreira no Mainstream dos anos 80, o projeto Tin Machine, enfim, diversas informações que saciam os fãs com o passar de uma leitura um pouco longa, acompanhada de 16 páginas de imagens em preto e branco, com fotos de Bowie em várias fases de sua vida.

Contra-capa do livro

Particularmente, não gostei das poucas páginas dedicadas para o disco que mais gosto de Bowie, que é Low. Mas isso é questão pessoal. O fato geral é que o livro por vezes pode se tornar maçante, até por que Spitz capricha nos detalhes, mas é uma excelente fonte de informação e conhecimento sobre a obra de um artista que na época do lançamento de Bowie, estava vivendo um período em Stand-By, após problemas de coração. Cada capítulo é merecedor da atenção do leitor, pois ao final da obra, poderá concluir sem dúvidas quanto foi a capacidade criativa e profissional de um dos maiores e mais influentes artistas da história mundial, independente da área onde se envolveu.

4 comentários

  1. Marcello

    Boa recomendação, vou procurar o livro. Li uma outra biografia do Bowie alguns anos atrás (mas como não tenho mais o livro não me lembro do autor), mas não gostei muito, achei-a um pouco incompleta.

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