Por Mairon Machado

Eis que você é um garoto de 19 anos que consegue conquistar a Europa logo no seu primeiro álbum de estreia. Com a pressão pelo sucesso, acaba sucumbindo a uma grave doença, e fica acamado por quase um ano. Nesse período, cria um dos melhores de sua carreira, e por que não, da música mundial. Estou falando do britânico Cat Stevens, hoje também conhecido como Yusuf Islam.

Stevens aos 18 anos

Antes de converter-se ao mundo do islamismo, Stevens teve uma carreira de grande sucesso no mundo inteiro. Para quem não sabe, ele é o autor da linda “Wild World”, que depois ficou conhecida aqui no Brasil através das vozes de Pepê & Neném, com o atentado “Nada Me Faz Esquecer”, além de ter recebido versões desde Jimmy Cliff e UB-40 até Mr. Big. Essa canção é do quarto álbum de Stevens, Tea for Tillerman (1970), lançado no mesmo ano daquela que julgo ser sua obra-prima, Mona Bone Jakon.

Esse, portanto, é o terceiro álbum de Stevens. Chegou às lojas em abril de 1970, e foi o divisor de águas na carreira do artista, conquistando ouro nos Estados Unidos. Stevens teve um um início de carreira estardalhante, com os sucessos “I Love My Dog”, “Matthew and Son” e “I’m Gonna Get Me a Gun”, do aclamado disco de estreia de Stevens, Matthew and Son (1967).

A estrondosa estreia de Stevens

A faixa-título conquistou segunda posição no Reino Unido, com o álbum chegando na sétima posição, um fato raro no mundo da música para alguém tão jovem. A pressão pela repetição do sucesso era enorme, e o inglês não conseguiu repetir a façanha em seu segundo disco, New Masters, de 1967.

O fracasso de New Masters deixou Stevens muito doente, diagnosticado com tuberculose e infarte do pulmão. Com isso, acabou ficando um ano em repouso forçado, boa parte no hospital King Edward VII Hospital em Midhurst, West Sussex. Lá, começou a compor as canções de seu próximo disco, inspirado por uma vida espiritual e praticando Yoga, meditação e estudos de metafísica, além de tornar-se vegetariano.

Cat, compondo no hospital

Assim, após se reabilitar, entra em estúdio acompanhado de Alun Davies (violão), John Ryan (baixo) e Harvey Burns (bateria), além dos arranjos de Del Newman e da produção do ex-baixista dos Yardbirds, Paul Samwell-Smith, Smith foi o responsável por “limpar” o som de Stevens, com uma alta qualidade sonora que beneficiou a performance folk rock de Stevens.

Mas foi por conta do nome de Peter Gabriel,vocalista e flautista do Genesis, que eu conheci esse discaço, daqueles que marcaram minha formação musical. Ainda hoje, mesmo passado mais de 20 anos da primeira audição, rola fácil na vitrola, sempre causando a mesma sensação de conforto, emoção, prazer e saudade de descobrir um artista, e dos tempos que bons cantores surgiam pelos quatro cantos do mundo. Explicarei o por que de Gabriel adiante.

Patti e Cat

“Lady D’arbanville”, homenagem de Stevens a sua namorada americana, Patti D’arbanville é a responsável por abrir os trabalhos, com o dedilhado do violão e o vocal sofrido de Stevens, em uma música que você se apaixona de cara. Basta ouvir essa canção para saber que o que virá pela frente é um álbum espetacular. A percussão e o baixo pulsante são temperos a mais adicionados na canção, a qual considero uma das melhores da carreira de Stevens. “Maybe You’re Right” é uma balada pop ao piano, na qual Stevens coloca para fora seus sentimentos, e com um delicado acompanhamento de violão, baixo e arranjos orquestrais.

“Pop Star” é um grande clássico da carreira de Stevens, na qual ele grita para sua mãe “Yes, I’m Gonna Be a Pop Star” sob a levada de baixo e violão, no melhor estilo folk flower power, em uma faixa ótima para agitar luais mundo a fora. O piano sessentista de “I Think I See the Light” nos remete fácil para o primeiro álbum do Genesis, From Genesis to Revelation, e depois que a banda surge acompanhando os vocais de Stevens, é fácil mesmo confundir a canção com algum material perdido do início do famoso grupo de Peter Gabriel. Aliás, Stevens por vezes até emula Gabriel nas vocalizações, principalmente nos trêmolos vocais que o vocalista e flautista fez destaque em sua carreira.

O lado A encerra com outra linda balada ao violão, a tocante “Trouble”. A dolorida interpretação de Stevens é de arrancar lágrimas, e o andamento suave de baixo, bateria e piano vão causando uma sensação tão marcante que é impossível descrever com palavras. Certamente, cantar essa canção em um dia de auto-estima lá embaixo fará um bem danado para o corpo e a mente.

Cat, em 1970

A faixa-título surge com violões, maracas e o vocal de Stevens carregado de efeitos, em uma faixa curta e bem experimental, chegando a mais um clássico, “I Wish I Wish”, faixa suave, embalada pelo violão e piano, que lembra bastante “Wide World”, o clássico citado acima. Destaque para o breve solo de violão por Davies. E eis que surge Gabriel, fazendo breves passagens de flauta na ótima “Katmandu”, faixa com apenas o dedilhado do violão de Stevens e seu vocal, e que irá agradar aqueles que gostam de algo na linha de Nick Drake.

O vozeirão de Stevens toma conta da curtinha “Time”, com uma levada pesada do violão e uma das melhores letras do álbum, levando a “Fill My Eyes”, outra ótima faixa de se cantar em um luau e alegrar a gurizada. Fechando o disco, “Lilywhite” é uma brilhante mensagem de Stevens ao mundo, com o violão e as orquestrações fazendo a cama para o britânico soltar sua voz cheia de paz.

Yusuf Islam

O nome Mona Bone Jakon é um apelido dado por Stevens para seu pênis. “Trouble”, “I Wish, I Wish” e “I Think I See the Light” fizeram parte da trilha sonora do seriado Harold and Maude, de Colin Higgins, em 1971 (o filme aqui no Brasil é conhecido como Ensina-me A Viver). A trilha oficial é toda de Stevens, e só foi lançada em 2007. A produção, a cargo de Paul Samwell-Smith, mostra que além das músicas dos Yardbirds, os caras tinham talento também para comandar grandes discos. Foi o álbum que marcou o lançamento da carreira de Stevens nos Estados Unidos.

Por lá, vendeu quase 1 milhão de cópias em pouco mais de cinco anos, e continua a vender bem, apesar de Stevens ter sido proibido de entrar no país por conta de sua conversão ao islamismo, o que gerou muita polêmica desnecessária, e portanto, não irei tratar aqui. Por fim, é um daqueles álbuns para ser ouvido a vida inteira, em qualquer momento.

Contra-capa do vinil

Track list

1. Lady D’arbanville

2. Maybe You’re Right

3. Pop Star

4. I Think I See the Light

5. Trouble

6. Mona Bone Jakon

7. I Wish I Wish

8. Katmandu

9. Time

10. Fill My Eyes

11. Lilywhite

4 comentários

  1. Ronaldo

    Sonzão! e uma bela descrição para um belo disco…desconhecia essa participação do Peter Gabriel no álbum…sabe dizer o porquê da participação? ele e Stevens eram amigos?
    Abraço,

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    • Mairon

      Valeu Ronaldo. Segundo o livro “Peter Gabriel, From Genesis to Growing Up”, Paul Samwell-Smith trabalhou com o Genesis em umas seções da BBC, e gostou do estilo de tocar do Gabriel. Então, convidou ele participar do álbum de Stevens. O mesmo livro diz que Gabriel estava extremamente nervoso em participar do álbum de Stevens, que tiveram que fazer várias brincadeiras até que ele conseguisse se acalmar.

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      • André Kaminski

        Bacana essa história, quem diria que o Gabriel era fanzaço do Stevens!

      • Mairon

        Não sei se fãzaço. Ao que parece, o nervosismo era por estar em um estúdio grande mesmo. E outra, quem emula quem na verdade é Gabriel emulando Stevens, e não vice-versa como escrevi. Gabriel pegou muita influência de Stevens e tb do Roger Chapman (Family)

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