Por Mairon Machado

Continuo hoje a apresentar a Discografia Comentada do grupo britânico Supertramp. Com a saída de um dos seus principais membros, Roger Hodgson, coube ao pianista e vocalista Rick Davies continuar o legado da banda, com mais quatro álbuns de estúdio e dois ao vivo. Vamos à eles.

Brother Where You Bound [1985]

Com a saída de Hodgson, Davies, John Anthony Helliwell (saxofone, vocais), Bob Siebenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo) cravam o pé na estrada progressiva que era o desejo de Davies, e criam um disco excelente, apesar de muitos ainda torcerem o nariz para Brother Where You Bound até hoje. Davies é o nome do disco. A sinistra “No Inbetween”, com boa presença do saxofone, e a linda “Ever Open Door”, cuja interpretação vocal e técnica ao piano são de emocionar, são alguns de seus melhores trabalhos em toda a carreira, principalmente  a última, onde é apenas ele, piano e sintetizadores. Para quem busca lembranças do passado Trampiano, aconselho ouvir direto “Still In Love”, a qual parece saída das gravações de Breakfast in America, essencialmente pelas vocalizações e o saxofone. Temos mais um hit, “Cannonball”, faixa dançante, misturando elementos de jazz e pop, onde a presença de sintetizadores é marcante. Os sintetizadores também são o centro das atenções na prog “Better Days”, que lembra um pouco algo da The Alan Parsons Project, e inclui vozes da campanha eleitoral americana de 1984. O grande destaque fica para a participação de David Gilmour, fazendo os solos da sensacional faixa-título. Essa foi uma das primeiras “Maravilhas do Mundo Prog” que escrevi aqui pro site, e ainda hoje, é uma das minhas favoritas da banda, sendo com certeza a melhor canção do Supertramp pós-Hodgson. A faixa havia sido composta na época de … Famous Last Words …, com dez minutos de duração, mas acabou sendo abortada, em virtude de Hodgson querer afastar-se das tendências progressivas. Foi reconstruída três anos depois, baseada no livro 1984 (George Orwell) e retratando a crise da Guerra Fria, e com mais de dezesseis minutos de duração, ocupa boa parte do lado B. A participação de Gilmour, apesar de curta, é brilhante! Há uma versão demo, até hoje não lançada, com Hodgson nas guitarras. O guitarrista Scott Gorham (Thin Lizzy, Pink Foyd) é o responsável pela guitarra base nessa suíte, que por si só já vale a aquisição de Brother Where You Bound. Além de Scott e Gilmour, o álbum conta com a participação de Marty Walsh (guitarras), Scott Page (flautas), Doug Wintz (trombone) e Cha Cha (backing vocals). Vigésima posição no Reino Unido, vigésima primeira nos Estados Unidos, e a sensação de que o grupo tinha forças para permanecer sem Hodgson era certa.

Rick Davies, David Gilmour, Bob Siebenberg, John Helliwell e Dougie Thomson

O grupo fez uma pequena excursão para promover o álbum, sem incluir nenhuma canção composta por Hodgson. Em 1986, é lançada a coletânea The Autobiography os Supetramp, facilmente uma das melhores coletâneas já lançadas não só pelo grupo, mas por toda a indústria musical. São onze canções, abrangendo apenas os álbuns pós Crime of the Century, e excluindo também Crisis? What Crisis?. Para quem quer conhecer a banda, é altamente recomendável.

Free As A Bird [1987]

É o primeiro, desde Indelibly Stamped, a não ficar entre os 100 mais nos Estados Unidos, sendo realmente o mais fraco do grupo. O quarteto resolve apostar em um som moderno, experimental, voltado para o eletrônico, e contando com a presença da percussão de Steve Reid e de um naipe de metais, formado por David Woodford, Lee Thornburg, Lon Price, Nick Lane e Scott Page. Além dos metais e de Hart, Marty Walsh também participa como guitarrista, e há um grupo vocal de apoio, formado por Evan Rogers, Karyn White, Linda Foot e Lise Miller. O som é bastante peculiar, e tem-se alguns momentos interessantes, no ritmo de “It’s Alright”, com um bom solo de piano por Davies, na datada mas gostosa de ouvir “Free as a Bird“, resgatando o Wurlitzer e os vocais gospel, e a típica faixa Supertramp “You Never Can Tell With Friends”, com um bom tempero jazz dado pelos metais. Por outro lado, existem músicas sem explicação, que são “Not the Moment”, a qual parece trilha de um filme mela-cueca da Sessão da Tarde, e “Where I Stand”, primeira composição de Davies em parceria com Hart, cuja voz aguda até lembra Hodgson, mas falta algo para convencer os fãs, é de arrepiar os cabelos e se pensar: “Sério que isso é Supertramp?”. No meio termo, faixas sem sal ou açúcar como “I’m Beggin’ You”, que até alcançou certo status nas paradas dos EUA, “It doesn’t Matter” e “Thing For  You”, que pouco agregam na carreira do Supertramp. A exceção em todo o disco é “An Awful Thing To Waste”, faixa com inspirações progressivas, apesar do excesso de eletrônicos, mas que dá para se perceber que ainda havia uma veia prog pulsante nos britânicos, nessa que é disparada a melhor faixa do álbum. Aos colecionadores, existem quatro versões desse álbum lançadas no formato vinil, com capas em azul (a mais comum), rosa, verde e amarelo.

Supertramp em 88. Brad Cole, Marty Walsh, John Helliwell, Mark Hart e Steve Reid (acima). Bob Siebenberg, Dougie Thomson e Rick Davies (abaixo).

A turnê de promoção de Free as a Bird trouxe pela primeira e única vez o Supertramp ao Brasil, durante duas apresentações no Hollywood Rock, abrindo a turnê tendo na formação Davies, Helliwell, Thomson, Siebenberg, Hart, Walsh, Brad Cole (teclados, saxofone) e Steve Reid (percussão). Essa formação está presente no segundo ao vivo, Live ’88, com Hart interpretando as canções de Hodgson, e destacando-se as covers para “Hoochie Coochie Man” (Willie Dixon) e “Don’t You Lie To Me (I Get Evil)” (Tampa Red), não presente no vinil, além dos registros ao vivo exclusivos para “It’s Alright”, “Not the Moment” e “Free as a Bird”. O CD conta também com “Bloody Well Right”. Destaque para a contra-capa, com Davies narrando as peripécias dos shows no Rio e em Sampa, e de sair do calorão brazuca para o intenso frio canadense.

O grupo dá uma pausa, sendo que muitos acham que era o fim. Eis que em 1993, Hodgson e Davies voltam a se encontrar, nessa feita para se apresentar durante um jantar em homenagem a Jerry Moss, co-fundador da A & M Records. Na noite de 14 de abril de 1993, no Hotel Beverly Hills Hilton, Hdgson, Davies e John Helliwell, acompanhados de Jeff Daniel, deixaram as diferenças de lado e interpretaram “The Logical Song” e “Goodbye Stranger”. Os chefões voltaram a trabalhar juntos, mas divergências contratuais acabaram com o sonho de reunir a formação clássica do Supertramp. De qualquer forma, Davies seguiu com o timão em mãos, e agora como um octeto, lançou o décimo disco de estúdio da banda, em 1997.

Mike Hart, Lee Thornburg, Carl Verheyen, Rick Davies, John Helliwell, Bob Siebenberg, Cliff Hugo e Tom Walsh

Some Things Never Change [1997]

Aproveitando “You Win I Lose” and “And the Light” das composições do reencontro com Hodgson, um novo Supertramp surge em 1997. Agora, há um octeto, mantendo Davies, Helliwell e Siebenberg, ao lado de Hart (efetivado finalmente), Cliff Hugo (baixo), Lee Thornburg (trompete, trombone e backing vocals), Carl Verheyen (guitarras) e Tom Walsh (percussão). Participam como convidados Bob Danzinger (kalimbas) e a dupla de apoio vocal Karen Lawrence e Kim Nail. A primeira faixa até pode-se imaginar a voz de Hodgson, principalmente durante o refrão, tendo um ritmo próximo ao reggae. A segunda, com Walsh na bateria, é daquelas baladas suaves comandadas pelo Wurlitzer, e destacando o vozeirão de Davies. Aliás, para quem acha o Wurlitzer o principal instrumento do Supertramp, divirta-se com “Get Your Act Together” e “Listen To Me, Please”, cantada em dueto por Davies e Hart.  Aprecio bastante a introdução de “It’s a Hard World”, onde o baixo de Hugo se destaca, e a canção em si, ao longo dos seus quase dez minutos de duração, nos remete aos bons tempos de inspirações progs da banda. Outras faixas que gosto são as experimentações jazzísticas dos mais de oito minutos de “C’est What?”, o bluesaço “Help Me Down That Road”, a balada “Live To Love You”, e o ritmo dançante de “Give Me A Chance”, cantada exclusivamente por Hart. Ele também é o vocal central de “Sooner or Later”, que junto com a faixa-título, é daquelas faixas que não desagradam, mas também não animam. Por outro lado, “Where There’s a Will” fecha o álbum com chave de ouro, e uma interpretação vocal magnífica por Davies. Peca por ser um álbum longo (70 minutos), mas está bem acima de seu antecessor em termos de preferência. Da sua turnê de Some Things Never Change pariu o terceiro ao vivo, It Was The Best of Times (original de 1999, posteriormente lançado em 2006, no formato simples, como Live ’97), e mais um longo hiato surge pela frente.

Slow Motion [2002]

Depois de cinco anos, o Supertramp volta tendo uma modificação em relação a formação anterior, com Jesse Siebenberg no lugar de Tom Walsh. “Goldrush” é uma canção dos tempos da primeira formação da banda, com Richard Palmer-James, e tem um climão bem flower-power. Esta era a faixa de abertura dos shows da banda até Crime of the Century. Há canções que nos remetem direto aos anos 70, como o Wurlitzer de “Broken Heart”, boa canção com uma pegada blues, da faixa-título e de “A Sting in the Tail”, que ainda apresenta uma harmônica muito idêntica a de “School”. Outras, seriam melhor se lançadas em um disco solo de Davies, e aqui ficam “Little By Little”, “Over You”, nas quais faltam uma coesão musical para agradar os ouvidos por completo. Gosto do ritmo e das variações de “Bee In Your Bonnet”, que poderia estar em discos como Brother Where You Bound ou … Famous Last Words. Destaque para as longas “Tenth Avenue Breakdown” e “Dead Man’s Blues”, que fazem florescer vestígios do Supertramp progressivo. Na primeira, uma jazzística faixa comandada pelo piano e pelo trompete, destacando o maravilhoso naipe de metais. A segunda, ótima criação de Davies, com o piano martelando nossa cabeça, perfeita participação do hammond, e fantásticos solos de saxofone e trompete, encerrando o disco em alto nível. Foi vendido nos Estados Unidos somente através do site oficial da banda e não conseguiu posição relevante nos charts.

Supertramp em 2002: Cliff Hugo, John Helliwell, Jesse Siebenberg, Rick Davies, Carl Verheyen, Lee Thornburg, Bob Siebenberg e Mark Hart

Como complemento, cito as coletâneas The Very Best of Supertramp (1990), The Very Best of Supertramp 2 (1992), e Retrospectacle – The Supertramp Anthology, lançada em 2005 e resgatando o raro compacto “Land Ho” / “Summer Romance”, lançado em 1975. Também destaco o ao vivo Is Everybody Listening? (2001), com uma apresentação do grupo em 1975, apesar de creditado como um show em Ohio em 1976, além da série de lançamentos 70-10 Tour, os quais saíram no formato Instant Live após os shows da turnê de 40 anos. Apesar de ambos afirmarem não haver possibilidades, os fãs não perdem a esperança de um dia voltarem a ter no mesmo palco Rick Davies e Roger Hodgson, líderes de uma formação com um passado glorioso e de grandes feitos, músicas e sucessos.

2 comentários

  1. Marcello

    Conheço muita gente que despreza esta fase da banda, por achar que o Supertramp é apenas Rick Davies, Roger Hodgson e os músicos de apoio. Inclusive um amigo meu dizia que a banda devia ter abreviado o nome apenas para “Tramp”. Pessoalmente, embora nunca tenha sido grande fã da banda, acho uma injustiça (à exceção do Free as a Bird, que de fato não devia existir) – mais ou menos como aqueles que não aceitam Deep Purple sem Ritchie Blackmore!!

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    • Mairon

      Eu conheço mais gente que despreza O Supertramp sem Hodgson do que o Purple sem Blackmore. É uma bela injustiça mesmo. Agora, queria entender o que passou na mente do Davies quando fez o Free as a Bird …. Valeu Marcello

      Responder

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