Por Davi Pascale

Resgatando o soul dos anos 60

De tempos em tempos, surge uma galera querendo reviver a sonoridade do início do rock n roll. Foi assim com Robert Plant e seus Honey Drippers, foi assim com o Black Crowes, com o Lenny Kravitz e nesse exato momento existe uma nova turma fazendo um som retrô de primeiríssima qualidade. Sem pensar muito, me vêm à mente nomes como Blues Pills, Greta Van Fleet, o próprio Jack White. E com a galera do Vintage Trouble, a história não é muito diferente.

Na realidade, existe sim uma grande diferença. No rockbluesnsoul desses garotos de Los Angeles, o lado soul music acaba falando mais alto do que tudo. Na cena pop, tivemos recentemente algumas (ótimas) cantoras resgatando um pouco dessa vibe. Caso de Joss Stone, Duffy e até mesmo Amy Winehouse. Para se promoverem, os rapazes se utilizaram da mesma lógica que muitas dessas meninas. Uma vez que não está rolando muita coisa no nosso território, vamos para a Europa. Se acontecermos lá, gera burburinho aqui. Se não acontecermos lá, temos uma boa história para contar. E, sim, a jogada funcionou muito bem.

A ideia dessa jogada não foi dos músicos, contudo, e sim de seu empresário, Doc McGhee. Quem acompanha a cena musical há um tempo já conhece bem sua figura e nutre um certo respeito por sua trajetória. O rapaz empresariou artistas do naipe de Ted Nugent, Kiss, Guns n Roses, Hottie & Blowfish, entre outros tantos. Certamente foi ele quem arrumou para os garotos dividirem o palco com nomes consagrados como Brian May, The Who, Bon Jovi e o próprio Kiss. Juntou o talento dos garotos com os megacontatos de seu empresário, o resultado não poderia ser outro. A banda começou a dar o que falar.

Vintage Trouble: Richard Danielson (bateria), Nalle Colt (guitarra), Rick Barrio Dill (baixo) e Ty Taylor (voz)

Sim, o sucesso deles ainda é muito tímido perto daqueles que se destacaram em décadas passadas, mas temos que dar um desconto aos rapazes. A ideia de ‘indústria da musica’ está morrendo mais rápido do que o Kenny nos episódios do South Park. A mesma realidade que vivemos em nosso país está acontecendo nos states. Estive por lá ano passado. Inclusive, em Los Angeles. Muitos bares de rock fecharam, as lojas de disco diminuíram drasticamente, o numero de publicações diminuiu, o som que fazem não é trabalhado com força nas rádios e nas TVS. O que tem dominado com força no cenário mainstream por lá é o rap, o country e o pop. Muito difícil chegar arregaçando com uma ‘estrutura’ dessas. O que é uma pena.

The Bomb Shelter Sessions foi um dos melhores debuts que ouvi nos últimos anos. Já tem um tempinho que estou querendo escrever sobre esse disco por aqui. “Blues Hand Me Down” e “Total Strangers” são as que apresentam uma pegada mais rock n roll. Nessas, vale destacar a guitarra precisa de Nalle Colt, com o musico encaixando as notas exatamente onde devem ser. Recentemente, assisti uma entrevista do Faíska onde este comentava que a grande diferença dos músicos do passado para os atuais é que os músicos do passado tocavam para a música, sem se preocupar em ficar ‘fritando’ o instrumento. Nalle Colt parece ser fã dessa lógica. Outra canção que conta com uma pegada roqueira e que traz um belo riff do garoto é a divertida “You Better Believe It”. “Blues Hand Me Down” tem um ‘q’ meio Zeppelin, enquanto “You Better Believe It” remete um pouco ao Black Crowes.

O grande destaque do conjunto, contudo, verdade seja dita, é seu vocalista Ty Taylor. Tanto nas apresentações, onde se transforma em um grande showman atiçando o publico e arriscando alguns passos de dança, quanto no álbum. O garoto é dono de uma voz forte, canta com emoção. É fácil notar suas inspirações de Otis Redding e James Brown. Principalmente, na faixa que encerra o disco, a ótima “Run Outta You”.

Ty Taylor em ação

Para fazer esse registro, voltaram no tempo em quase tudo. Tendo apenas 3 meses de banda nas costas, os garotos se trancaram no Bomb Shelter Studios em Los Angeles (daí o nome do disco) e em 3 dias fizeram as gravações que renderam o CD. Tudo na raça, como nossos velhos heróis faziam. Tocando ao vivo. 10 faixas em 12 takes. A razão era a velha razão de sempre. Os caras não tinham onde cair morto. Segundo o baterista Richard Danielson, em entrevista ao canal Music Feeds, o álbum custou US$1.200,00 “incluindo a pizza e a cerveja”.

Vale o lembrete que boa parte do repertório é formado por baladas. Todas, contudo, de altíssimo nível. “Nobody Told Me” e “Gracefully” são as que mais se aproximam dos padrões das rádios FM, mas ainda assim são lindíssimas. Lembram um pouco as baladas que a Joss Stone fazia nos seus primeiros álbuns. “Not Alright By Me” poderia ter sido gravada pelo Rod Stewart. A minha preferida, entretanto, acredito que seja mesmo “Still And Always Will”.

Se você está com medo de ouvir o álbum pelo baixo custo, esqueça que você leu essa parte e vá sem medo. Os músicos são de primeira. A qualidade de gravação é muito boa. O trabalho de voz é um absurdo. Não me surpreenderia se daqui alguns anos algumas publicações começassem a indicar esses álbuns em listinhas de melhores disso, melhores daquilo. Se você está sentindo falta de boas músicas e de um som feito com honestidade, esse álbum é para você. Rock, blues e soul na medida certa.

Tracklist:

01) Blues Hand Me Down

02) Still And Always Will

03) Nancy Lee

04) Gracefully

05) You Better Believe It

06) Not Alright By Me

07) Nobody Told Me

08) Jezzebella

09) Total Strangers

10) Run Outta You

4 comentários

  1. Fernando Bueno

    Excelente pauta Davi. Eu recebi uma versão resumida desse primeiro disco junto da revista Classic Rock há alguns anos atrás. Muito boa a banda, que chegou a tocar no RIR em um dia totalmente fora do público que iria gostar deles.

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    • Davi Pascale

      Também tenho esse CD da Classic Rock. Bem legal, mas bem curtinho. Esse é um disco que vale a pena ter. É fantástico.

      Lembro deles no Rock in Rio. Gosto bastante do festival, mas eles sempre fizeram essas cagadas. Colocar banda em dia que não tem a ver é a cara deles kkkkk

      Responder
  2. Ronaldo

    Curti bastante essa banda, que conheci por indicação daqui do site mesmo. Apesar de ter muitas baladas, todas são ótimas! o disco tem uma energia muito boa e é um capricho em termos de instrumentação e vocal. Rock infalível!
    Abraço,

    Responder

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