Por Ulisses Macedo

Em se tratando do Imarhan, a profecia musical de que o segundo álbum de uma banda é seu momento crucial revelou-se verdadeira. Embora a recepção de sua estreia autointitulada tenha sido positiva por parte de crítica e público, ninguém sabia dizer se aquelas dez faixas representavam o melhor que a banda seria capaz de criar pelo resto da vida. Eu elogiei o disco em minha lista de 2016, mas citando-o somente como uma grata surpresa. De fato, faixas animadas e dançantes como “Imarhan”, “Tahabort” e “Assassamagh” foram tocadas nos meus players à exaustão desde o momento em que as conheci. Por outro lado, o restante do registro não fazia (e ainda não faz) muito a minha cabeça, pois explorava de maneira mais uniforme aquilo que o povo tuaregue chama de assouf, palavra que expressa um estado de contemplação solitária, o que era exatamente a sensação que aquelas outras faixas, lentas e reflexias, passavam para o ouvinte. O importante é que Imarhan, o álbum, colocou o quinteto no mapa musical do mundo e, claro, no meu, já que continuei apostando minhas fichas de que aquela mescla única de rock, blues e música regional daria frutos maiores ainda.

De Tamanrasset, na Argélia, a trupe toca junto há mais de dez anos naquela região. Primo de Eyadou Leche, baixista do lendário grupo Tinariwen, o guitarrista e vocalista Iyad “Sadam” Moussa tem experiência na banda mais velha substituindo, quando necessário, Ibrahim Ag Alhabib. Junto a ele estão seus amigos de infância: Abdelkader Ourzig (guitarra), Tahar Khaldi (baixo), Haiballah Akhamouk (percussão) e Hicham Bouhasse (percussão), e daí vem o nome da banda, que significa “aqueles com quem me importo”.

Por muito tempo, o Tinariwen havia sido a face da música tuaregue por quase três décadas, e agora passam o legado para o Imarhan, tendo seu baixista, Eyadou Leche, co-produzido e co-escrito a estreia do quinteto mais novo. Com isso, o Imarhan ultrapassou as barreiras locais e conseguiu mostrar seu som para todos – da Argélia para o mundo inteiro -, fazendo turnês inclusive nos Estados Unidos e na Europa. Embora a revolução do Tinariwen tenha começado ao adaptar as melodias e ritmos tuaregues para a linguagem da guitarra elétrica, o Imarhan mostra em Temet que é capaz de ir além disso: A produção do álbum parece ter sido construída de modo a reter os elementos culturais do Imarhan, já bem delineados no álbum de estreia, dentro de parâmetros musicais modernos – cortesia do francês Patrick Votan, junto ao patrono Eyadou. A palavra temet, que significa justamente “conexões”, não foi colocada aí à toa.

A guitarra faíscante do frontman Iyad Moussa soa ainda mais selvagem já na abertura com “Azzaman“, e cânticos tomam lugar de destaque no panorama sonoro do Imarhan em “Tamudre”. As típicas canções lentas e contemplativas ainda possuem seu espaço aqui, como em “Imuhagh” e “Tarha Nam”, já sem o mesmo monopólio de antes, embora ainda mais belas e hipnóticas. Com elementos de disco e funk, “Tumast” é a composição mais elétrica do registro, tendo baixo e percussão bem presentes e unidos num ritmo apressado, mas que dá espaço para que a guitarra finalize a música numa jam explosiva. Junto a ela, “Ehad Wa Dagh” cativa o ouvinte de primeira com seu ritmo dançante intercalado com ótimas passagens de guitarra e melodias vocais convidativas. O encerramento do CD é menos impactante e animado, explorando as raízes acústicas dos tuaregues, como na bela “Tochal”.

Da contemplação solitária para a expressão universal – houve uma notável evolução musical de um álbum para o outro. A banda mostra que é capaz de carregar a bandeira de suas raízes tuaregues para o Século XXI, onde gêneros musicais colidem entre si e culturas locais milenares encontram a globalização. Em suma: o estilo eclético do Imarhan, que vai de canções saharianas dançantes a baladas acústicas contemplativas, ficou ainda mais amplo. Aproveite e ouça o álbum inteiro no canal da banda no YouTube.


Tracklist:

  1.  Azzaman
  2. Tamudre
  3. Ehad Wa Dagh
  4. Alwa
  5. Imuhagh
  6. Tumast
  7. Tarha Nam
  8. Tochal
  9. Zinizjumegh
  10. Ma S-Abok

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