Por Mairon Machado

O Brasil, apesar de muita gente dizer que não, vem produzindo muitas bandas de qualidade. Mesmo em um mercado bastante restrito, onde é melhor enaltecer absurdos musicais como Pablo Vittar, ainda aparecem nomes capazes de fazer o ouvinte ter vontade de comprar um CD de rock.

O Threesome é uma banda que pode se encaixar nesse sentido. Formados em 2012 na cidade de Campinas, o quinteto conta na formação com Juh Leidl (vocal), Fred Leidl (guitarra, piano, vocal), Bruno Manfrinato (guitarra), Bob Rocha (baixo) e Henrique Matos (bateria), o grupo traz em seu release a influência do rock dos anos 60 e 70, com referências ao blues, jazz e indie. Ainda, destaca letras maliciosas, sobre relações humanas através de perspectivas das experiências sexuais, monogâmicas ou não.

O grupo lançou seu primeiro trabalho em 2014, Get Naked, contando com o vocalista Bruno Baptista. Porém, Bruno saiu, deixando os vocais para Juh, e assim, o Threesome seguiu carreira. Em 2017, lançou o EP Keep On Naked, que traz duas regravações para canções de Get Naked.

A primeira delas é “Sweet Anger”, que abre o EP. Antigamente chamada de “Why Are You So Angry”, aqui ela ficou mais intensa. Começa com um pesado riff da guitarra, e destaca-se pelo bom vocal de Juh. É uma faixa que irá agradar principalmente aqueles apreciadores do heavy metal do final dos anos 80, início dos 90, e com certeza, é a melhor faixa do EP. O trecho central, onde Juh canta sobre as viagens de guitarra, levando aos ótimo solos de Fred e Bruno, irá fazer você sair pulando pela casa.

Porém, o som muda bastante em “My Eyes”, a única faixa nova da bolachinha. Os vocais de Fred, roucos e agressivos, não trazem a mesma agradável sensação dos vocais de Juh, e o próprio ritmo da faixa não é das mais agradáveis. “ERW” é a antiga “Every Real Woman”, que ficou bastante provocativa e sensual na voz de Juh. A introdução com as viradas de Henrique, o riffzão sujo e a pegada punk rock são estimulantes adicionais para a canção, complementada pela ótima linha vocal.

A captação, mixagem e masterização do EP ficou a cargo de Maurício Cajueiro, produtor que assinou trabalhos de Gene Simmons, Glenn Hughes, Stephen Stills, Steve Vai, entre outros gigantes da música mundial. Chama a atenção a capa de Keep On Naked, criada por Juh (que é artista plástica).

Entre mortos e feridos, o EP é aprovado com média. Acredito que o quinteto deve investir mais nos vocais de Juh, a qual parece ser uma promissora peça ao microfone. Além disso, o impacto das letras irá aumentar muito mais se cantadas em português. É estranho que a intenção da banda seja o de provocar, romper barreiras impostas pelo preconceito e por setores opressores da sociedade, tentando promover uma livre reflexão sobre o sexo, falando em inglês, exatamente para um país onde a maior parte da população tem dificuldades de interpretação na própria língua.

Gostaria realmente de ver as letras em português, e quem sabe, com mais uma azeitada na parte instrumental, não tenhamos aqui mais uma preciosas joia brasileira a ser garimpada por colecionadores e admiradores de música do mundo inteiro.

Tracklist:

1. Sweet Anger
2. My Eyes
3. ERW

4 comentários

  1. André Kaminski

    Eu já vejo diferente essa questão do português e do inglês.

    Imaginem se o Angra e o Sepultura gravassem só em português? Seriam bandas irrelevantes dentro do cenário mundial.

    Se eles se focarem no português, vai ser uma banda nicho em outro nicho restrito ao Brasil. Se a banda tem pretensões de tentar futuramente uma carreira internacional, é óbvio que devem apostar no inglês. Além do quê, ao menos que eu saiba, boa parte dos ouvintes de rock por aqui também ouvem bandas que cantam em inglês.

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    • Mairon

      É uma boa visão André, da qual apesar de não concordar, respeito. Porém, penso que a maioria dos ouvintes no Brasil ainda tem dificuldades em entender o inglês, e para além de entender o inglês, ter que interpretar o que as letras do grupo realmente querem dizer, acho que será mais complicado ainda. Mas como uma meta internacional, realmente, pode ser uma dentro.

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  2. Marcella Matos

    O mundo tem passado por mudanças significativas, mas ainda vejo uma certa resistência da sociedade em atribuir determinadas funções a mulheres, principalmente cargos tradicionalmente masculinos (estigma que até hoje serve de obstáculo). Este quadro tem mudado, mas num ritmo muito lento… Tenho grande estima por mulheres que rompam àquela lógica/realidade (como a Juh Leidl, vocalista da banda). Papéis de gênero ainda influenciam nas escolhas profissionais, pois, não somos estimuladas a ocuparmos determinados espaços, como a liderança de uma banda de rock/heavy metal, por exemplo. Juh Leidl, como você mesmo disse, se destaca ao longo das faixas do disco e o resultado da performance é excelente. Minha esperança é que haja uma maior demanda pela presença feminina no cenário do rock (e, do mesmo modo, em outros setores). Não conhecia a banda, Mairon, mas fico contente de ter sido apresentada a ela, pois representatividade feminina (em novos espaços) é fundamental para incentivar outras mulheres e, ao mesmo tempo, contribui para a quebra dos estereótipos de gênero que estão tão enraizados, desde a infância, na nossa visão de mundo e construção social.

    Ótimo texto!

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    • Mairon

      Obrigado Marcella, e legal que você foi conferir a banda. É sempre bom poder trocar figurinhas. Abraços

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