Entrevista Exclusiva: El Efecto

19 de dezembro, 2016 | por Mairon
Entrevistas
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Por Mairon Machado

* Fotos do facebook oficial da banda

Um dos grandes nomes do rock nacional nesta década, o grupo carioca El Efecto lançou no final de 2015 seu quarto registro, A Cantiga É Uma Arma, com uma sonoridade voltada para o lado acústico. Em um bate-papo descontraído, o grupo viaja pela sua carreira, conta como foi o processo de gravação deste álbum e a expectativa para o próximo lançamento, no decorrer do ano que vem.


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1. Consultoria do Rock: Olá pessoal da El Efecto. Obrigado por este bate-papo com a Consultoria.

El Efecto: Salve pessoal, obrigado pelo espaço e pela força.

2. A El Efecto já está em atividade há mais de uma década. Com quatro álbuns oficiais em sua discografia, como a banda encara as transformações que a música mundial, bem como a sociedade, sofreu nesse período.

Encaramos com atenção, uma dose de ceticismo e certo pé atrás…
3. O álbum Como Qualquer Outra Coisa (2004) apresentou faixas surpreendentes pela mistura sonora, como “A Caça Que Se Apaixonou Pelo Caçador” e “O Último Tango”. Quais foram as inspirações iniciais do grupo?
A ideia sempre foi abrir para o máximo de influências possíveis, um trabalho de pesquisa musical e poética, de maneira geral. De qualquer forma, podemos destacar algumas influências do primeiro disco, tais como os musicais Saltimbancos e Arca de Noé, os escritos de Eduardo Galeano, o funk carioca, as bandas Karnak, Deftones, System of a down, Nofx, Astor Piazzola, Luis Melodia e Racionais Mcs…
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4. “O Último Tango” traz uma citação a “Veraño Porteño”, de Astor Piazolla. O El Efecto já teve a oportunidade de tocar em outros países da América do Sul? Caso positivo, como foi a experiência?
Tocamos no Equador há muitos anos. Também tivemos uma experiência relâmpago na Argentina, em condições muito peculiares. Gostaríamos de poder ter mais oportunidades assim… O imaginário latino-americano é uma grande influência pra gente, estética e politicamente. A música, poesia. e as experiências de resistência popular latino-americanas são inspiração constantes nas nossas composições.
5. A imagem dos macacos cavalgando na zebra na contra-capa de Como Qualquer Outra Coisa é emblemática do poder crítico de suas letras, bem como da banda em si, que é o que considero o diferencial da banda perante outras. Além disso, a criatividade com o jogo de palavras é ímpar de gênios como Chico Buarque. Hoje, passados doze anos desse lançamento, as críticas e genialidade se mantém com alto padrão, como no início. Como fazer para manter as letras tão atuais em uma época onde o comércio musical praticamente virou imediatismo.
Escrever é a parte mais complicada pra gente. Temos bastante dificuldade, tanto por inaptidão, quanto por cuidado, pois tentamos estar sempre atentos ao risco de produzir um discurso político banalizado, já que a ideia é inquietar e sensibilizar. Talvez por isso demoremos tanto pra conseguir produzir e lançar coisas novas. Mas com muita insistência e paciência, uma hora sai!
6. A banda tem fortes ligações com o rock, mas eu seu álbum de estreia, registrou o funk carioca “Montagem da Solidão”. Qual o objetivo na época para o registro dessa canção?
A mistura de gêneros sempre foi uma bandeira importante pra gente, tanto pelo gosto musical nosso, quanto por enxergá-la também como uma forma de questionamento das segregações. Há 15 anos atrás, tínhamos a impressão de que, no nosso meio, o consumo de música e de ideias era muito segmentado.  A “Montagem” veio um pouco da vontade de embaralhar estas barreiras e provocar, até porque essa rixa funk/rock era muito grande. Tão grande que, uma vez, quase fomos apedrejados. Essa preocupação aparece no sincretismo das nossas composições como um todo. Além da mistura em si, há também o interesse político de ressaltar o valor da música popular e dos gêneros que sofrem preconceito no julgamento estético, devido à sua identidade de classe.
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7. Como foi a passagem do baterista Uirá pela banda e como está a amizade entre vocês?
O Uirá gravou os dois primeiro discos da banda. É uma parte muito significativa da nossa história e uma grande amizade. Hoje em dia ele toca com a banda Dos Cafundós, com o compositor Cícero e com uma porção de gente mais. Há quem diga, inclusive, que ele pode dar as caras novamente, atuando em outra posição…
8. Por que o hiato tão longo entre os dois primeiros discos?
Até hoje, os três discos com a nossa formação elétrica tiveram o mesmo intervalo de 4 anos entre eles. Tem sido assim demorado, devido às circunstâncias de composição, ao tempo de maturação das ideias e às dificuldades inerentes à  trajetória (in)dependente.
9. Para Pedras e Sonhos, houveram duas mudanças na formação, com as saídas de Diogo Furieri e de Uirá para a entrada de Pablo Barroso e Gustavo Loureiro respectivamente. Como foi se adaptar agora com uma formação oficial como quinteto?
Começamos como um quinteto, depois, tivemos que nos adaptar como um quarteto. Quando surgiu a oportunidade de agregarmos novamente mais um membro, foi muito bom. O Loureiro entrou e resgatamos o formato “original”. Isso possibilitou a retomada de mais elementos musicais, como a percussão e também a entrada de novos sons, como o clarinete.
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10. O lançamento de Pedras e Sonhos propiciou os clipes de “O Encontro de Eike Batista com Lampião” e da faixa-título. Conte-nos um pouco sobre as gravações desses clipes.

O vídeo de “Lampião” foi feito com registros do processo de gravação que fizemos do disco como um todo. Tivemos a ideia de lançar essa música antes do CD completo e funcionou bem, o clipe circulou bastante, preparou o terreno e abriu algumas portas. Ele é, sem dúvidas, o maior responsável pelo modesto crescimento de divulgação que tivemos.

Já o vídeo de “Pedras e Sonhos” foi composto a partir de imagens de apresentações ao vivo, mescladas com algumas referências e registros de lutas populares do terceiro mundo.
11. Quanto tempo e quais as inspirações para a criação de “O Encontro de Eike Batista com Lampião”?
A inspiração foi, por um lado, o literatura de cordel e, pelo outro, a onipresença do mega-empresário caricatural que, naquele então, era o grande símbolo da eficiência da iniciativa privada e da ideologia do “empreendedorismo”, a principal figura de sustentação da lenda do sistema. Daí, enfrentamos ele com uma lenda mais bonita…  Não foi das mais demoradas não, talvez devido a forma estilizada do cordel que já apresentou um caminho, uma estrutura a ser seguida.
12 – Houve algum problema com a Igreja por conta da gravação de “Adeus Adeus”?
Não, nunca ficamos sabendo de nenhum problema.
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13. É possível afirmar que com Pedras e Sonhos o El Efecto conseguiu finalmente chegar ao grande público, apresentando-se em programas de TV e tendo uma boa divulgação em rádios?
Creio que não. O disco foi um marco na ampliação da circulação das músicas. Mas nossa veiculação em grandes meios de comunicação não aconteceu, ou foi minúscula. Só somos conhecidos num espectro reduzido, mesmo aqui em nossa cidade.
14. Os quatro álbuns da banda estão disponíveis para download em vosso site (http://www.elefecto.com.br/). A internet é hoje o melhor meio de divulgação para a música?
Sem dúvida.
15. O grupo já utilizou, ou pretende utilizar, o sistema de financiamento coletivo?
Até o momento, não utilizamos e nem pretendemos utilizar.
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16 – Em seu último lançamento, A Cantiga É Uma Arma, o grupo resolveu partir para o lado acústico. Por que os instrumentos elétricos, no geral, foram abandonados.
Essa é uma proposta de formação paralela. Já havíamos feito algumas apresentações nesse formato acústico e nos pareceu uma boa ideia registrar as canções com essa roupagem. A ideia do acústico veio como uma forma de poder se aproximar mais de eventos que não dispõem de toda estrutura que o formato elétrico requer, principalmente os eventos ligados aos movimentos sociais, já que esse é um diálogo muito importante pra gente. Para tentar ampliar essa frente com os movimentos e também com o público menos habituado ao som mais pesado, constituímos a formação de guerrilha.
17. Nesse álbum temos algumas regravações, como “Pedras e Sonhos”, “Santos Dumont” e “Os Assaltimbancos”. Essas novas versões estão aparecendo também nos shows da banda?

Só nas apresentações em formato acústico.

18. Conte-nos alguma história curiosa envolvendo alguma gravação ou show com a banda.

 

Uma vez fomos expulsos do palco por um herói do rock nacional que não quis esperar a sua vez de se apresentar.
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19. Algum de vocês é colecionador de discos? Se sim, o que predomina nessa coleção?
O Loureiro tem uns discos de metal e o Pablo de Jazz. Mas o que predomina mesmo é a pirataria virtual.
20. Quais as expectativas da banda para os próximos meses?
Terminar as composições para começar a gravar o novo disco em Janeiro e lançá-lo no primeiro semestre de 2017.
21. Novamente, obrigado pela participação e sucesso para o grupo.
Nós é que agradecemos. HáBraços!



9 Comentarios

  1. Thiago Reis disse:

    Muito bom dar espaço para bandas que estão fora do radar do grande público, Mairon. Parabéns mais uma vez!

    • maironmachado disse:

      Valeu Thiago. O El Efecto é uma bandaça. Amadureceram seu som muito bem. Os dois últimos discos são sensacionais. No aguardo do quinto álbum, com muita certeza!

  2. Edu. M. disse:

    Eu até tento parar de ouvir os caras, mas o som deles pra mim é que nem cafeína, doses diárias por favor! Tô só no aguardo pelo novo cd, consegui graças aos deuses ir num show deles em são paulo e quase morro do coração. Fico na torcida pra que a mensagem dos caras chegue em públicos maiores, sou evangelizador da palavra do ‘el efecto’ sempre que posso. (ps.: fiquei curioso pra saber quem foi o “herói nacional do rock” citado na entrevista)

    • maironmachado disse:

      Então Edu. M, eu tb fiquei curioso, hehehe. Evagelizador da palavra do El Efecto é uma boa, e realmente, o que os caras falam precisa ser divulgado. Muito obrigado pelo seu comentário!!

  3. Diego Camargo disse:

    Qualquer espaço dado ao El Efecto merece respeito!

    Banda ímpar no cenário Brasileiro. O disco Pedras E Sonhos é simplesmente perfeito, sem contar que tem-se anos de sons a se descobrir na discografia da banda, mesmo sendo pequena!

    • maironmachado disse:

      Então Diego, para mim, é a melhor banda nacional que surgiu nos últimos 15 anos, apenas isso

  4. Ronaldo disse:

    Ainda não fui capturado pelo som desses caras. Vou continuar tentando.
    Abraço,

  5. Bruno V disse:

    No aguardo do novo disco!

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