Por Mairon Machado
Há alguns anos, eu participava de um outro blog, escrevendo praticamente o mesmo que escrevo aqui no Consultoria do Rock. Graças ao tal blog, conheci pessoas sensacionais, como nossos colaboradores Fernando Bueno e Davi Pascale, além de Daniel Sicchierolli, Ronaldo Rodrigues, Diogo Bizzoto e tantos outros que vieram com o surgimento do Consultoria do Rock, o qual nasceu justamente por uma discidência em opiniões dentre o manda-chuvas do primeiro blog.
Por lá, eu resenhei o DVD Live in Germany, lançado pelo Supertramp como um VHS em 1983,  que chegou às lojas na versão digital em 2004. Lembro que quando escrevi aquela resenha, eu coloquei muito do que envolvia o show registrado no DVD, e pouco me prendi a detalhes do palco ou das canções em si.
Por pura babaquice, o dono do outro blog apagou todas as minhas postagens, e eu perdi essa e tantas outras resenhas que fiz para ele. Mas o tempo passa, e com idas e vindas de DVDs no meu aparelho, eis que um dia resolvi olhar Live in Germany novamente com olhos de resenhador. Não que depois daquela época eu nunca mais tivesse visto o DVD, mas sabe quando bate o dia da inspiração.
E eis que nesse dia, Live in Germany me passou uma sensação ainda mais incrível do que da primeira vez que o resenhei. Esse DVD foi gravado n Reiterstadium, localizado em Munique, Alemanha, no dia 24 de julho de 1983, durante o auge do verão alemão, e transmite ao fã do grupo um dos principais momentos na longa carreira dos ingleses, que é o último show do vocalista, guitarrista e pianista Roger Hodgson.
Bob Siebenberg, Dougie Thomson, Rick Davies
John Helliwell e Roger Hodgson
Na época, Hodgson havia decidido sair do cenário musical por não aguentar mais o ritmo de turnês e gravações, preferindo viver uma vida isolado com sua família. Porém, soube-se depois que divergências musicais entre ele e Rick Davies, o pianista, vocalista e “Poderoso-Chefão” do Supertramp, levaram Roger a desistir de seguir com a carreira ao lado de Davies, John Helliwell (saxofone, voz, instrumentos de sopro), Bob Sienbenberg (bateria) e Dougie Thomson (baixo), mesmo após o estrondoso sucesso do recém lançado (à época) … Famous Last Words …, um dos melhores trabalhos do grupo. 
Durante todo o show, é visível que Davies e Hodgson estão em forte atrito, praticamente sem um olhar para o outro. Mais intrigante é o fato de Hodgson estar fazendo um show a parte, tentando despedir-se do público deixando na retina dos fãs uma imagem positiva de sua pessoa.
Assim, o duelo de egos desses dois monstros do rock, amenizado pela serenidade do trio Helliwell, Siebenberg e Thomson, acompanhados também por Scott Page (guitarras, instrumentos de sopro, percussão, vocais) e Fred Mandel (guitarras, saxofone, vocais), transforma-se em uma das melhores performances já vistas em um DVD, e sim, a melhor performance do Supertramp (superando aquela do também sensacional álbum ao vivo Paris, de 1978).

Roger Hodgson
O DVD começa surpreendendo, após uma breve introdução, com o grupo detonando “Crazy”, canção de abertura de … Famous Last Words …, e que com Hodgson esganiçando a garganta, já agita os milhares de alemães que lotam o local. Na sequência, Davies comanda “Ain’t Nobody But Me”, pérola de  Crisis? What Crisis?, e que mesmo com Davies se esforçando, a principal atração vai novamente para Hodgson, que pisoteia o wah-wah com uma gana incomum para as canções leves do Supertramp.
Helliwell assume o posto de “Mestre de Cerimônias”, e anuncia a clássica “Breakfast in America”, do álbum homônimo de 1979, seguida por “Bloody Well Right” (Crime of the Century, de 1974) e “It’s Raining Again”, maior sucesso de … Famous Last Words …, e que praticamente põe o estádio abaixo com os pulos dos alemães ensandecidos.
Nesse ponto, é interessante ver que o público alemão, além de agitar muito, também é bastante liberal, já que por diversas vezes podemos ver nas imagens mulheres com os seios de fora. Outro fato interessante é que tirando Davies (sempre com a cara amarrada) e Hodgson, os demais membros estão bem à vontade no palco, e o clima em geral é de festa, ou seja, ninguém percebe que é o show de despedida de Hodgson.

Rick Davies
“Put On Your Old Brown Shoes” (… Famous Last Words …) mantém o clima de festa, enquanto que “Hide in Your Shell” (Crime of the Century) arranca as primeiras lágrimas dos fãs, mesmo com a invasão de diversos convidados para cantar o trecho final da mesma. Ouvir Hodgson cantando essa canção e não lembrar de um momento triste de um relacionamento que você tenha vivido é praticamente impossível, e nesse ponto, o DVD irá atingir você de uma forma diferente.
Emocionado com a belíssima interpretação de “Hide in Your Shell”, os fãs acabam levando um choque quando Hodgson vai para o microfone, e com o violão em punhos, anuncia que é o show de despedida dele no Supertramp, agradecendo à todos pelo apoio até então e interpretando “Give a Little Bit” (Even in the Quietest Moments …, de 1977) e “Dreamer” (Crime of the Century).
Roger Hodgson, durante “Rudy”
A partir de então, o DVD muda de tom, e o clima de festa ganha ar de seriedade, e o Supertramp mostra aos alemães (e ao mundo) o porque de serem até hoje classificados com um grupo de rock progressivo. Primeiro, Davies interpreta a sensacional “Rudy” (Crime of the Century), um pequeno épico de quase oito minutos, com um duelo de vozes entre ele e Hodgson de arrepiar até os cabelos do suvaco, e com Hodgson novamente pisoteando o wah-wah com gana.
Na sequência, a suíte “Fool’s Overture” (Even in the Quietest Moments … ) é apresentada em todos os seus mais de dez minutos de perfeição progressiva, com suas variações de andamento e as complicadas passagens da introdução. É na introdução de “Fool’s Overture” que chegamos ao momento mais emocionante do show.
Principal canção da carreira do Supertramp (apesar do sucesso de tantas outras já citadas no texto), “Fool’s Overture” serviu como um desabafo do grupo na época de seu lançamento (por isso o título de “Abertura do Tolo”), e muitos até hoje criticam a pomposidade da mesma. O fato é que é uma suíte linda, e os acordes iniciais, levados apenas pelo teclado de Hodgson, tomam conta de mais de dois minutos da canção.
É óbvio que sendo esse o último show de Hodgson, ele tocando durante dois minutos sozinho no palco, irá sentir emocionado, e com a entrada do belíssimo solo de saxofone após a introdução, Hodgson não se segura, e chora copiosamente no palco, tentando enxugar as lágrimas com a mão esquerda enquanto executa os acordes da canção.
Cantar essa pérola se torna difícil com tamanha dose de emoção, mas Hodgson se sobressai novamente, e conclui “Fool’s Overture” soberanamente, deixando todos no estádio (e no sofá) embasbacados com a performance.
John Helliwell
O show encerra-se, mas com o pedido de mais um, o grupo volta para interpretar mais dois clássicos de Crime of the Century: “School” e a própria faixa-título”, encerrando o DVD com uma bonita montagem em cima da capa do mesmo, enquanto Helliwell executa o solo final da canção.
Não há extras, encarte ou outro mimo ao fã (pelo menos na versão da gravadora The Max Entertainment), assim como o som não é 5.1 Surround e a imagem é sem riqueza de pixeis ou algo assim, sendo bastante fiel a imagem do VHS de 1983, mas nada disso se faz necessário. As quase duas horas de apresentação do Supertramp são suficientes para você ter uma noite inesquecível.
PS: Veja o DVD ao lado da companheira, será garantia de uma noite mais inesquecível ainda!
Track list
1. Intro
2. Crazy
3. Ain’t Nobody But Me
4. Breakfast in America
5. Bloody Well Right
6. It’s Raining Again
7. Put On Your Old Brown Shoes
8. Hide in Your Shell
9. Waiting So Long
10. Give a Little Bit
11. From Now On
12. The Logical Song
13. Goodbye Stranger
14. Dreamer
15. Rudy
16. Fool’s Overture
17. School
18. Crime of the Century

12 comentários

  1. fernandobueno

    Eu "tenho" esse show de um arquivo que encontrei há muito tempo na net. A qualidade de som e imagem não das melhores, mas dá para se divertir. Queria tirar uma dúvida, o Paris já saiu em Blu Ray com estava sendo prometido? Gostei do seu lado provocador Mairon….rs

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  2. Davi Pascale

    Valeu pelo elogio no primeiro paragrafo. Não tenho nenhum DVD do Supertramp, mas tenho o CD ao vivo Paris que você citou no texto.
    Abraços

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  3. Evaristo

    Mairon, bela resenha, com só um porém: tanto a versão em VHS quanto a em DVD do "Live in Germany" não são oficiais. Foram lançadas por gravadoras menores e sem obter autorização do detentor dos direitos. É por isso que, passado pouco tempo, as cópias foram retiradas das lojas por decisão judicial. Aconteceu a mesma coisa com o show no "Queen Mary College", do mesmo Supertramp que, apesar de ótimo, nunca foi lançado oficialmente.

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  4. Anônimo

    Sensacional seu post! Não tinha percebido que ele tinha chorado, tão menos, por não entender muito em ingles, que seria o ultimo show dele. Como sabia que ele iria sair e m83/84 sabia que seria um dos ultimos… entendi que ele falou que "esta noite sera uma noite fantastica".Não gosto muito de ler, mais quando se trata de supertramp a leitura é bem-vinda pra mim.

    Abraços! Se quiser me adicionar no face:
    https://www.facebook.com/julian.oenning.75

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  5. Anônimo

    Amigos onde compro o dvd lve munich 83 , its raining again marcou a minha infância , esse show foi performático!!!
    Adriano Ourique.

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  6. Rusty James

    Mas de maneira nenhuma este dvd supera PARIS que foi lançado finalmente em bd/dvd e agora em uma edição deluxe tripla. NUNCA SERÁ MELHOR, NEM EM UM MILHÃO DE ANOS e com toda a remasterização comandada pelos maiores estudios e técnicos do mundo. Este dvd traz uma imagem bem inferior a qualquer coisa lançada pelo grupo, oficial ou não oficial existente. Algumas partes que foram inseridas no dvd Story so Far estão com qualidade boa, mas nada que supere Paris e sua gravação profissional com varios cameras e um diretor egresso da BBC. “A Imagem é fiel a do VHS”, isso pois é ripado de VHS, coisa que a tal de Top Tape tem feito descaradamente durante os anos. O Melhor show do Supertramp gravado em video é o insuperavel Paris. Nunca que uma gravação feita para a tv alemã irá superar o profissionalismo de uma equipe (mesmo sendo de tv, mas é merito da BBC por formar profissionais de alto gabarito). Então, recomendo aos amigos que passaram os olhos por este post que procurem o dvd Paris, lançado em 2011 pela extinta ST2 e relançado em 2014 pela Globo marcas, ou ainda, fiquem com a edição deluxe tripla de Paris com cd duplo e o dvd, com a performance na integra, trazendo as faixas que ficaram de fora do disco Paris, bem como as faixas que entraram na edição deluxe de Breakfast in America, gravadas em Wembley. Outra edição recomendavel é a edição deluxe dupla de Crime of the Century com uma apresentação da BBC gravada no Hammersmith Odeon em 74. Se vc é fã hardcore do Supertramp, por obvio que esta versão de Germany 83 se faz obrigatória. Mas acredito que logo este item será relançado de maneira oficial. Portanto, aguarrem-se ao mote “a paciencia é uma virtude”. Paris levou 30 anos para ser relançado em dvd, e muita gente que é fã (como eu), continua sendo, e não morreu no meio do caminho pela ansiedade.

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    • maironmachado

      Meu caro, na época que fiz esse comentário, me referia não a qualidade do vídeo, mas do áudio, com as canções no conjunto sendo melhores do que o de Paris. Depois Paris chegou às lojas, e concordo totalmente, essa versão em DVD é FANTÁSTICA. Aliás, está merecendo uma resenha por aqui. Abraços

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    • maironmachado

      Uma pena que a ST2 fechou. Comprei muita coisa boa e barata deles.

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  7. Rusty James

    Uma pena mesmo que a ST2 faliu/fechou. Neste exato momento vc encontra muita coisa no ML, mas até quando? Alguns dvds deles já são reliquias como Baby Snakes do Zappa, The Boys are Back in Town do Thin Lizzy, Inn a Gadda da Vida do Iron Butterfly, The Boomtonwn Rats Live at Hammersmith Odeon 78, Rory Gallagher Live at Montreux (a primeira edição), Welcome to my nightmare e Good to see you again do Alice Cooper dentre outros titulos. Quem tem que guarde que estes itens ja são bem valorizados.

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    • maironmachado

      Pois é. Acho que foi uma das piores perdas de lançamentos que o Brasil teve. E os preços eram ótimos

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