Maravilhas do Mundo Prog: Renaissance – Song of Scheherazade [1975]

19 de abril, 2012 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado
Quando se quer falar de rock progressivo da década de 70, uma das principais bandas a serem ouvidas e conhecidas é o Renaissance. Formado na Inglaterra, o grupo foi um dos pioneiros a realmente unir a música clássica com o rock, graças ao talento de um gênio injustiçado na música, o vocalista Keith Relf. Sim, o mesmo Keith Relf loiro que, entre 1965 e 1967 liderou os Yardbirds em uma batalha (musical) contra Beatles e Rolling Stones, gerando três dos principais nomes da história do rock: Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page.
Primeira geração do Renaissance: Keith Relf, Louis Cennamo,
Jim McCarthy, John Hawken e Jane Relf
Após a queda do Yardbirds em 1968, de onde nasceu o Led Zeppelin, Relf deicidiu ingressar no mundo da música clássica, levando com ele o baterista Jim McCarthy. Junto da irmã Jane Relf (vocais), do fantástico baixista Louis Cennamo e de John Hawken (teclados), nascia o Renaissance, com uma musicalidade muito inspirada na obra renascentista e em canções da Idade Média. O primeiro álbum do grupo, Renaissance (1969), é belíssimo, e o segundo (Illusion, de 1971), apesar de todas as brigas que levaram à primeira dissolução do grupo, com a entrada do violonista Michael Dunford, também é uma obra muito bonita de ser apreciada.
Essa é a chamada primeira geração do Renaissance, que foi levada adiante após Relf e Hawken se desentenderem, com Relf perambulando por diversos grupos, tendo destaque para o Armaggedon, e falecendo em 14 de maio de 1976, enquanto Hawken ingressou no Third World War, passando rapidamente pelo Strawbs e reformulando o Renaissance ao lado de Jane, Cennamo e McCarthy, no belo projeto Illusion, que não adotou o nome Renaissance porque Dunford estava no auge da carreira do grupo, graças ao álbum Scheherazade and Other Stories, de 1975.

Jon Camp, Michael Dunford, John Tout, Annie Haslam e Terence Sullivan
Sexto disco na carreira do Renaissance, Scheherazade and Other Stories é visto pela maioria dos fãs como o melhor álbum do grupo. Ele é o quarto de uma formação tão clássica quanto Roger Waters, David Gilmour, Rick Wright e Nick Mason (Pink Floyd) ou Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire, Bill Bruford e Rick Wakeman (Yes), trazendo, além de Dunford nos violões e vocais, a sensacional Annie Haslam (voz), John Tout (piano, teclados), Jon Camp (baixo, voz) e Terence Sullivan (bateria). Nessa época, o grupo também contava com o apoio essencial da poeta Betty Thatcher, responsável por elaborar a maioria das belas letras do Renaissance.
Os dois lados do vinil simples são diferentes um do outro. No lado A temos a balada épica “Trip to the Fair”, a hardeira “The Vultures Fly High” e a encantadora “Ocean Gypsy”, todas representativas do segmento que o novo Renaissance abriu a partir de Prologue (1972), e que consolidou-se através de Ashes are Burning (1973) e Turn of the Cards (1974), ou seja, uma mescla de canções acústicas, levando a bela voz de Haslam entre sensacionais arranjos para baixo e piano.
Já o lado B de Scheherazade and Other Stories é totalmente dedicado para a suíte “Song of Scheherazade”, a nossa maravilha do mundo prog dessa semana. Inspirada na obra que lhe dá nome, e contando com um fantástico arranjo orquestral ao fundo, obra do compositor Tony Cox, que conduziu a London Symphony Orchestra, o Renaissance conta a história das “Mil e Uma Noites” através de embriagantes 24 minutos e 39 segundos, os quais são divididos em nove partes perfeitamente encaixadas, que criam uma peça seminal do rock progressivo. Vale a pena ressaltar que a suíte demorou quase dois anos para ficar pronta, e que ela possui muito pouco (apenas seis pequenos trechos) da famosa obra do compositor russo Rimsky-Korsakov, batizada apenas de “Scheherazade” e composta em 1888, sendo uma das principais suítes sinfônicas da história.

Jon Camp

Apesar de muitos criticarem a canção por ser repetitiva, na verdade são justamente as citadas repetições que tornam “Song of Scheherazade” uma maravilhosa experiência sonora, a começar pelo belo tema introdutório de “Fanfare”, no qual os metais imponentes executam sinistras notas que mesclam escalas orientais com escalas blueseiras. Bateria, piano e baixo aparecem vagarosamente, explodindo em uma agitada sessão junto ao violão, chamada “The Betrayal”, com cordas e piano duelando entre explosões percussivas, intervenções das cordas e espetaculares linhas de baixo. Os metais entoam o grandioso tema central de “The Betrayal” em uma agitada sessão percussiva, na qual o baixo cavalgante de Camp é um dos principais destaques, assim como as batidas nos tímpanos e as quebradas complicadas da bateria de Sullivan.

A canção cresce, com cordas e metais se sobrepondo, e após nos introduzir ao mundo de Bagdá, onde as “Mil e Uma Noites” supostamente ocorreram, baixo e piano abrem “The Sultan”. O coral, acompanhado pelo violino e pela marcação do baixo, entoa um tema triste, abrindo espaço para os vocais de Camp, que canta as duas primeiras estrofes acompanhado por violão, baixo e piano, com pequenas intervenções da flauta. Haslam surge cantando uma frase junto de Camp, trazendo coral e bateria. Dunford continua a letra, contando que um dia chegou a jovem Scheherazade ao templo do sultão assassino de esposas, para se casar com o rei árabe, com intervenções de fagotes, harpa e cordas. Haslam novamente canta uma frase ao lado de Camp e somos hipnotizados pelo emocionante arranjo de coral e cordas que leva ao tema principal, com Camp e Haslam cantando juntos o início das histórias de Scheherazade, contando lendas que duraram mil e uma noites, para poder escapar da morte.

John Tout

Coral, Haslam e Camp cantam o nome da princesa, envoltos por flautas, baixo, piano, cordas e um tímido andar da bateria, passando por uma breve ponte instrumental, que nos entrega “Love Theme”, a qual começa apenas com o dedilhado do piano de Hawken, fazendo um bonito tema, simulando escalas orientais. O mesmo tema então é repetido pela orquestra, acompanhado por baixo, bateria, violões e piano, com os metais sendo responsáveis por construir a primeira parte da melodia, deixando para as cordas a segunda parte, fazendo brotar pequenas lágrimas no canto dos olhos do ouvinte, tamanha a beleza do arranjo criado pelos britânicos.

Haslam então surge com sua cristalina voz para fazer as vezes de Scheherazade contando a primeira história ao sultão em “The Young Prince and the Princess”, tendo apenas o violão de Dunford fazendo um triste dedilhado ao fundo, e pequenas intervenções do oboé. A voz de Haslam é angelical e ao mesmo tempo arrepiante. Como uma pequena mulher podia ter tanta voz em seu corpo é uma pergunta inexplicável. Cordas e fagotes passam a acompanhar o violão e a voz de Haslam, aumentando o ritmo do conto, para a bateria surgir, voltando ao ritmo de “Love Theme”, com Haslam entoando longas vocalizações.

Terence Sullivan

A canção é interrompida brevemente para dar início a “Festival Preparations”, a mais longa das partes instrumentais de “Song for Scheherazade”. Lentamente, harpa, flauta e percussão fazem um sinistro tema, acompanhados por cordas, que explodem em acordes rápidos, sobrepostos por coral e metais, construindo um ambiente tenso, grandioso, para piano, baixo e bateria colocarem a casa em ordem. O tema do piano, com o acompanhamento de baixo, bateria e piano, apresenta outro belo tema, feito pelas cordas, em uma escala tipicamente oriental, com intervenções vocais e de solos de metais ou flautas. 

O crescendo desse trecho da canção, com vocalizações femininas e masculinas, mescladas com um tímido solo de flauta, nos leva a um sensacional solo de flauta, acompanhado apenas por violão, baixo e piano e finalmente, ao trecho final de “Song of Scheherazade”, começando com a bela “Fugue for the Sultan”, tendo o piano como destaque, no único momento que relembramos a composição de Rimsky-Korsakov. O solo de piano é quebradiço, posteriormente acompanhado pelas cordas e metais em um duelo sensacional do oboé e do piano.

Annie Haslam

O tema central de “The Betrayal” é repetido em “The Festival”, porém com mais variações, principalmente com a inclusão de um novo tema feito por baixo e metais, trazendo o violão de Dunford e percussões para acompanhar a voz de Haslam contando sobre o casamento de Scheherazade com o Sultão, que deixará a esposa viver, com uma incrível participação vocal, fazendo da voz realmente um instrumento repleto de variações de notas.

Camp surge cantando junto de Haslam, e ambos entoam a terceira estrofe de “The Festival”, quase perdendo o fôlego em longas e complicadas frases acompanhadas apenas por violão, piano, baixo e bateria, e sem sombra de dúvidas, o destaque maior vai para os vocais de Haslam.

Renaissance ao vivo na turnê de Scheherazade and Other Stories

Um longo rufar brinda-nos com o coral e os metais de “Finale”, majestosos, preenchendo o coração do ouvinte com a repetição da última estrofe de “The Sultan” cantada por Haslam e Camp, e encerrando com repetições do nome da princesa por diversa vezes, tendo um sensacional crescendo do coral, enquanto Camp, Tout e Sullivan mantém o ritmo tradicional da canção, aglomerando-se as intervenções dos metais, para Haslam soltar um impressionante agudo e assim, “Song of Scheherazade” encerrar-se com a repetição do tema inicial da canção, feito por piano e oboé, acompanhados por um longo entoar das cordas. 

O disco foi o mais bem sucedido da carreira do Renaissance, alcançando a quadragésima sexta posição nos Estados Unidos. A gigantesca turnê de promoção acabou sendo registrada no essencial Live at Carnegie Hall (1976), no qual “Song of Scheherazade” acabou ganhando todo o lado C. Ainda em 1975, os britânicos marcaram presença entre os cinco nomes da música mais lembrados daquele ano, assim como Annie Haslam recebeu o prêmio de melhor performance vocal por causa de Scheherazade and Other Stories.

Renaissance 2011

Outras maravilhas prog sairam posteriormente da cabeça de Dunford e cia., principalmente nos álbuns Novella (1977) e A Song for All Seasons (1978). Depois, o Renaissance foi se desintegrando pouco a pouco, até acabar definitivamente em 1983, lançando o contestado mas não ruim Time-Line. Várias foram as tentativas de um retorno, até que em 2009, Annie Haslam e Michael Dunford voltaram a fazer shows com uma nova formação, tendo além da dupla, os tecladistas Rave Tesar e Jason Hart, o baixista David Keyes e o baterista Frank Pagano, chegando a registrar em 2011 um DVD e um CD ao vivo (Renaissance Tour 2011 – Turn of the Cards and Scheherazade & Other Stories Live In Concert), que contém os dois álbuns na íntegra, e é uma boa pedida para conferir ao vivo a maravilha prog dessa semana. 



1 Comentario

  1. micaelmachado disse:

    Uma suíte sensacional, com provavelmente a melhor performance vocal de Annie em sua carreira! Grande lembrança!

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