Review Exclusivo: Mark Farner (Porto Alegre, 12 de março de 2012)

15 de março, 2012 | por Mairon
Resenha de Show
4

Por Mairon Machado
Fotos por Soraya Hossain (agradecimentos ao portal RockBox)

O show do guitarrista e vocalista norte-americano Mark Farner, no último domingo, 11 de março, foi uma verdadeira celebração à boa música e ao rock setentista. O ex-líder do Grand Funk Railroad apresentou-se no Bar Opinião para um público diminuto, mas que agitou junto com o músico durante todos os 90 minutos de apresentação. Ícone do passado, Mark, ao lado do baterista Don Brewer e do baixista Mel Schacher, mudou os rumos do rock nos Estados Unidos no início dos anos 70, adicionando peso e melodia em doses perfeitamente proporcionais, que fizeram inclusive com que o grupo lotasse o Shea Stadium de Nova York em 1970, batendo o recorde de vendas de ingressos dos Beatles, além de diversos outros fatos que marcaram a carreira do trio, como levar o público do Led Zeppelin a vaiar o quarteto britânico após o Grand Funk Railroad ter aberto o show de Jimmy Page e cia.
Mais tarde, como quarteto (adicionado do tecladista Craig Frost), o Grand Funk tornou-se rapidamente o símbolo do rock norte-americano, graças a álbuns como We’re an American Band (1973). No entanto, o sucesso do grupo não durou muito tempo, e, primeiramente em 1976, e depois em 1982, após uma breve volta, o Grand Funk Railroad deixou de existir, reunindo-se esporadicamente, mas sem causar muito estardalhaço. 

 

Passados alguns anos, Mark resgatou sua carreira solo, e, com a atual turnê, batizada de “The Loco-Motion Tour”, veio pela primeira vez à América do Sul, acompanhado por uma banda excelente, formada pelo tecladista Karl Propst e pelo baixista Lawrence Buckner, além do baterista Hubert “The H-Bomb” Crawford, esse último responsável por comandar durante um bom tempo o bumbo de um dos maiores ícones do funk, James Brown.
Antes do show principal ter início, como é de praxe na capital gaúcha, tivemos uma banda de abertura, que foi uma grata surpresa. O grupo Cattarse abriu os trabalhos e fez em meia hora o que muita banda grande não consegue fazer nos últimos anos: conquistar um público estranho a seu som.
O power trio formado por Igor Van der Laan, Yuri Van der Laan e Diogo Stolfo, mandou ver com um som empolgante, que mistura elementos setentistas de grupos como Black Sabbath, Led Zeppelin, Taste, Cream e, claro, Grand Funk Railroad. Nada mais apropriado para abrir uma noite que prometia ser pesada do que ouvir o baixo de Yuri carregado de distorção, como nos bons tempos em que Mel o fazia. Além disso, a performance de palco do baterista era muito similar a de Ginger Baker nos tempos áureos do Cream. A lamentar, apenas a péssima sonorização, que não permitia ouvir com clareza a voz de Igor, apesar de o cidadão em questão mandar ver na guitarra com muito feeling e inspiração. 
Cantando em português e investindo somente em canções autorais, sem repetir covers, como a maioria das bandas de hoje fazem para conquistar a aprovação do público, o Cattarse foi uma sensação, injustamente podado por um senhor careca e barrigudinho, que praticamente invadiu o palco pedindo para que o trio parasse. A vaia pegou, afinal, o som do Cattarse realmente agradou, com destaque para as canções “Amanhã a Gente Se Vê”, “Garota, Você Sabe…” e “Dias Ruins”. A banda poderia facilmente ficar tocando pelo menos mais meia hora que ninguém reclamaria. Enfim, parabéns para os caras, e tomara que consigam sucesso na empreitada musical.

 

Após o ótimo opening act, era a vez dos roadies subirem ao palco para organizar tudo para o pastor Mark Farner (para os que não sabem, ele chegou a ser pastor de uma igreja evangélica nos Estados Unidos). Eram 21 horas e 55 minutos quando Mark subiu ao palco, trajando uma camisa estampada em cores brilhantes com a imagem de um anjo, cujas asas estavam estampadas nas costas do músico. Farner entrou com o público na mão, pois, após um roadie perguntar aos presentes “Porto Alegre, Are You Ready?”, o trio detonou esse grande petardo que abre o álbum de estreia do Grand Funk Railroad (On Time, lançado em 1969) e que costumava iniciar os shows do grupo na maioria das vezes em que a banda se apresentou como trio. A partir de então, ninguém mais parou no Bar Opinião. Foi um clássico atrás do outro, com Mark esbanjando carisma, talento e uma voz incrível, cristalina e perfeita, como se o tempo não tivesse passado para esse senhor de 63 anos. 

Agitando bastante com suas dancinhas nada sensuais e os tradicionais pulos para frente e para trás que marcaram sua performance ao longo de sua carreira, o guitarrista desfilou soberanamente por “Rock ‘n’ Roll Soul”, atiçou a galera ao mandar ver no órgão com a introdução agitadíssima de “Footstompin’ Music” e fez o Opinião decolar ao entoar os versos do refrão de “We’re an American Band”, na qual o tecladista Karl Propst (que acompanhou nomes como Bo Didley e B.B. King) fez os vocais originalmente cantados por Don Brewer. 

 

“Mr. Limousine Driver” acalmou os ânimos da plateia, mas “Paranoid” colocou tudo abaixo com sua pesada introdução e com Farner pisoteando o pedal de wah-wah como poucos. A balada “Mean Mistreater” levou muito marmanjo às lágrimas, com um show de Mark no órgão, seguida pela sensacional “Shinin’ On”, na qual o guitarrista parecia possuído por uma aura iluminada, entoando a frase “Let it shinin’ on” e abençoando a todos os presentes. Esse foi um dos momentos mais arrepiantes da noite.
“Sin’s a Good Man’s Brother” e “Bad Time” fizeram com que a poeira baixasse novamente, mas era apenas para que pudéssemos pegar fôlego e nos prepararmos para o grande final. Com um clima alegre e emotivo, Mark convidou-nos para abrir os pulmões, e assim fizemos, seguindo o pastor na oração, cantando a plenos pulmões “The Loco-Motion”, “Some Kind of Wonderful” (durante a qual Mark abandonou a guitarra e tornou-se um verdadeiro pastor comandando seus seguidores com o microfone em mãos) e a fantástica “Heartbreaker”, outra que levou os marmanjos às lágrimas, e que mais uma vez, fez com que a aura iluminada que cercava Mark brilhasse em cena.
O grupo deixou o palco, mas o público queria mais, e aos gritos de “Mark, Mark, Mark”, trouxeram Hubert para que fizesse um longo solo, que inclusive contou com um duelo percussivo ao lado de Mark. Ao final do solo, o palco explodiu com uma estupenda performance para “Inside Looking Out”, que apesar de não ter sido apresentada como nos anos 70 (repleta de improvisos e solos), incendiou novamente o Opinião, principalmente durante o solo de harmônica feito por Mark. 
A apresentação encerrou-se com a clássica “Closer to Home”, a mais bela composição que o Grand Funk Railroad gravou em sua carreira, durante a qual o Opinião inteiro entoou seu título. Era o êxtase do batismo sagrado de Mark Farner na capital gaúcha. 
Ao final da apresentação, na saída para o hotel, Mark, Lawrence e Hubert ainda arranjaram tempo para atender aos fãs que pediam por uma foto, um autógrafo ou apenas um aperto de mão, mostrando uma elegância, humildade e empatia com o público que muitos músicos de porte bem menor do que Mark, seja do ponto de vista histórico, seja do ponto de vista musical, não possuem nos dias de hoje, deixando os presentes ainda mais convencidos de que o guitarrista realmente é uma pessoa diferenciada no mundo da música, seja em função de sua religião, seja por seu passado, mas diferenciado, com uma atenção raramente vista por um músico que agitou durante 90 minutos, que naquelas alturas apenas sonhava com um banho e uma cama de hotel.

Foi uma noite de louvor, inesquecível, na qual grandes clássicos do Grand Funk Railroad foram entoados como cânticos para Deus, tendo o pastor Mark Farner como o líder de todo o rebanho de fãs que confortavelmente deixaram o Opinião já com uma saudosa recordação gravada na memória e nos anais das grandes apresentações de rock que Porto Alegre já presenciou. 

Track list:

1. Are You Ready? 
2. Rock ‘n’ Roll Soul 
3. Footstompin’ Music 
4. We’re an American Band 
5. Mr. Limousine Driver 
6. Paranoid 
7. Mean Mistreater 
8. Shinin’ On 
9. Sin’s a Good Man’s Brother 
10. Bad Time 
11. Locomotion 
12. Some Kind of Wonderful 
13. Heartbreaker 
Encore:
14. Inside Looking Out 
15. Closer to Home



4 Comentarios

  1. Anônimo disse:

    Show para a Bambilândia? Pensei que só gostassem de CTG…

  2. msensei disse:

    Show maravilhoso, com M maiúsculo, eu estava lá e pude presenciar esse momento único e épico, ver o Mark ao vivo só consolidou o que eu já achava, sem dúvida é um dos maiores ícones do rock n' roll em todos os tempos, 63 anos tocando e cantando o que ele toca e com todo o gás, o cara é demais, é como o vinho, quanto mais velho melhor, monstro, domínio de palco, carisma, feeling e virtuosismo raros nos dias de hoje.

    Genial Mark, obrigado por esse momento perfeito, o show da minha vida.
    Quem não foi ou os desafortunados que não conhecem esse mito, não sabem o que perderam.

    PS: peguei autógrafo dele, do Lawrence Buckner e do Hubert ‘The H-Bomb’, Crawford, muito humildes acima de tudo.

  3. micaelmachado disse:

    Esse eu perdi, até porque Grand Funk realmente não faz a minha cabeça, por mais que eu tenha tentado gostar.

    Mas, pelo que ouvi e li, foi um showzaço, e é bom que artistas cujas carreiras não são tão divulgadas assim em nosso país consigam vir até aqui e emocionar seus fãs como Mark Farner fez! Que outros mais venham também!

    Me chamou muito a atenção ele ter concentrado o set list no Grand Funk, deixando de lado sua carreira solo e dando ao povo o que ele queria, ou seja, a música de sua antiga banda, que inclusive continua em atividade sem ele. A meu ver, uma prova de humildade e de respeito aos seus fãs, como poucos artistas parecem ter hoje em dia.

    Parabéns pela resenha, Mairon!

  4. Aguardando o show desse senhor aqui no Ceará! >.<''

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *