Por Diogo Bizotto
É estranho comentar a respeito de um álbum de uma banda que recentemente deixou de existir, não? Pois é o que ocorreu com o Despised Icon, grupo canadense de Montreal que lançou quatro discos até anunciar o fim de suas atividades após o término da turnê de promoção para Day of Mourning. Lançado no Brasil em 2010 pela Shinigami Records, o disco é o canto do cisne de um sexteto que prima pela técnica, transformada em muito peso através do emprego de andamentos e sonoridades que não se enquadram em apenas um subgênero do heavy metal. Alguns poderiam rotulá-los como metalcore ou deathcore, mas o emprego de características que remetem ao thrash e ao death metal tornam Day of Mourning um álbum mais palatável àqueles que nutrem certa rejeição por sonoridades mais modernas.
Nem por isso o disco oferece uma audição tranquila. A densa massa sonora, por mais que seja muito bem produzida (todos os instrumentos são perfeitamente audíveis), é recheada de detalhes que vão se revelando após atentas audições. A grande quantidade de andamentos quebrados, destacando o trabalho do baterista Alexandre Pelletier, que remete aos mestres Derek Roddy (Hate Eternal, Nile) e George Kollias (Nile), traz uma forte associação com o death metal técnico desenvolvido nos Estados Unidos nos anos 90 por baluartes como Atheist, Death e Cynic, mas aqui levado a extremos de brutalidade jamais atingidos pelos pioneiros. Por outro lado, a alternância vocal entre os dois integrantes de posse dos microfones, Alexandre Erian e Steve Marois, finca os pés do grupo no presente.
Uma das características mais marcantes dos canadenses é a avalanche de riffs que brotam das mãos de Eric Jarrin e Ben Landreville, presente especialmente em faixas como “Diva of Disgust” (alguns bastante calcados no thrash metal) e na boa faixa-título, que recebeu um bem executado videoclipe. A alternância entre o peso cadenciado, entrecortado por segmentos de extrema velocidade, fazendo uso de precisos blast beats, como em “All for Nothing” e “Eulogy”, é outro elemento que permeia a música praticada pelo sexteto. O fato de contar com duas músicas cantadas em francês, “Les Temps Changent” e “Entre le Bien et le Mal”, língua predominante na província de Quebec, onde fica Montreal, também confere um diferencial interessante para Day of Mourning.
Alexandre Erian, Eric Jarrin, Max Lavelle, Alexandre Pelletier, Steve Marois e Ben Landreville
O extremismo do grupo atinge seu provável ápice em “MVP”, “Made of Glass” e “Black Lungs”, onde, em certos momentos, parece que Glenn Benton (Deicide) toma conta das pregas vocais de Erian e Marois, que cospem vociferações ininteligíveis para aqueles que não têm acesso às letras das canções. O único momento no qual o Despised Icon oferece um tempo para que o ouvinte respire após toda a avalanche sonora é encontrado na última faixa, “Sleepless”, que assume contornos quase doom, encerrando o disco com uma de suas mais interessantes faixas, talvez por justamente não exagerar em tantas quebradeiras, capazes de fazer os pescoços dos mais incautos desenvolverem grave torcicolo.
O Despised Icon pode ter a honra de dizer que encerrou sua carreira em alta. Além de ter lançado um disco que, apesar de necessitar de um bom número de audições para ser devidamente digerido, soa equilibrado e muito bem tocado, a banda ainda conseguiu beliscar a 162ª colocação na parada de álbuns da Billboard, um feito digno de nota para um grupo de heavy metal extremo. Day of Mourning pode às vezes se perder em alguns excessos, mas tem o mérito de atrair a atenção de ouvintes mais habituados com o que a música extrema oferecia no passado, assim como aqueles antenados com sonoridades mais modernas.
Track list:
1. Les Temps Changent
2. Day of Mourning
3. MVP
4. All for Nothing
5. Eulogy
6. Made of Glass
7. Black Lungs
8. Diva of Disgust
9. Entre le Bien et le Mal
10. Sleepless

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