Discos que Parece que Só Eu Gosto: Mötley Crüe – Generation Swine [1997]

22 de junho, 2011 | por Pablo Ribeiro
Discos que Parece que Só Eu Gosto
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Por Pablo Ribeiro
Em 1997, após um registro com a voz de John Corabi (auto-intitulado, de 1994), o Mötley Crüe retornou com sua formação original: Nikki Sixx (baixo), Tommy Lee (bateria) – os famigerados “terror twins” – e Mick Mars (guitarra), além de Vince Neil de volta aos vocais. O álbum: Generation Swine, massacrado na época do lançamento. O desapontamento dos fãs em relação ao disco teve muito mais a ver com a esperança desses em ouvir de novo um Shout at the Devil (clássico da banda, de 1983) ou um Dr. Feelgood (esse, um sucesso comercial absurdo, de 1989). Generation Swine tem pouco do Mötley desses dois álbuns, mas traz – em doses nada homeopáticas – uma característica que indiscutivelmente é fundamental na gangue de Los Angeles: o espírito desafiador e inovador! A cozinha forte da banda sempre esteve lá. O vocal de Neil, excetuando-se o “Mötley Grunge” de Corabi, também. As guitarras de Mars mantiveram o timbre e a pegada. Mas mesmo assim nenhum disco dos caras é igual ao outro. É verdade que a banda foi agregando um punch e um groove com influências mais amplas no passar dos anos, cortesia de Lee, um fã confesso de hip hop, funk e afins. O rock industrial também ganhou mais espaço no som dos caras – dessa vez, a influência veio de Sixx.
Generation Swine é o álbum que esfregou essas influências na cara do mundo do rock. Apesar de modernizado (termo capcioso esse), o som do disco ainda é, sim, orgânico e “quente”. Prestando-se um mínimo de atenção, fica evidente que o Mötley está ali. É verdade que existem equívocos. “Brandon”, de Lee, escrita para o filho, é um (dos feios). “Rocketship”, feita por Sixx para a  sua então esposa, também… Vai ver o Crüe não é mesmo uma banda família. 
Assim como qualquer registro anterior dos caras, não há nada que possa ser comparado a Generation Swine. Nem mesmo em sua própria discografia. Começando pela capa, o álbum chama a atenção pela anormalidade. Originalmente, tanto o encarte, quanto capa e contra-capa estavam ao contrário. Não só de cabeça pra baixo, mas a maneira como as páginas eram grampeadas e a própria ordem de leitura do livreto também.
Mötley Crüe em 1997: Tommy Lee, Vince Neil, Mick Mars e Nikki Sixx

Análise faixa a faixa:
Find Myself“: A música de abertura entra como um soco na cara do ouvinte: um sampler onde se ouve uma breve risada seguida de um “destroy”. Aí entram os riffs da guitarra de Mars em loop, até cair no refrão grudento. A letra mostra o quanto a banda realmente não mudou. Vince destila ironia sobre sua condição (e da banda), enumerando suas necessidades básicas: drogas, álcool, amor e uma porrada de outras drogas. Tudo para chegar à conclusão de que é um filho da puta bêbado e doente. Um desastre neurótico do rock ‘n’ roll. Logicamente ele (nem a banda) dá a mínima. Pelo contrário.
Afraid“: O single do disco. A questão? Por que ela está com medo de viver? É apenas vida! Qualquer semelhança como o “Mötley Crüe way of life” não pode ser só coincidência. Assim como não é coincidência o fato de o vídeo para a musica contar com a participação de Larry Flint (aquele mesmo, criador da revista Hustler). Amigo íntimo da banda, que, como o próprio Crüe, arrebentou a murros a cara do bom comportamento norte-americano. 
“Flush”: Originalmente chamada “Kiss the Sky”, foi escrita ainda na época de John Corabi com o Crüe. Ao contrário da versão original, que possuía muito mais guitarra, essa é guiada por uma linha de baixo , deixando que as seis cordas transformem o refrão – bastante melódico – em um tijolaço sonoro sujo.
Generation Swine“: Mais uma que remete ao antigo Mötley. Groove debochado na entrada, vocal propositalmente desleixado de Neil, riffs de guitarra, e bateria em uma espécie de loop. O título da faixa diz tudo. Ou alguém conhece outra banda que poderia ostentar com orgulho a bandeira da “Geração Suína”?
“Confessions”: Outra guiada pelo baixo, no ínicio. A bateria de Tommy entra aberta logo em seguida (com os backings do mesmo Lee, que, aliás, escreveu a música). A guitarra repete um riff minimalista, mas eficiente. Lee contempla sua situação e sanidade na letra. 
O “logo suíno”, presente no merchandising da época

Beauty“: Começa com a bateria de Lee. Outra com uma sequência de riffs de guitarras (sujas), e uma letra de acordo com esses gentlemen: “…Ela se apaixonou pela cocaína / Sempre a amarei / Ela é minha beleza…” Música de acordo com a letra… e vice-versa.
“Glitter”: A balada “hit” do álbum. Tanto a música quanto sua letra refletem a linha do disco, seguindo uma sonoridade com influências industriais, no primeiro caso, e um certo pessimismo bem-humorado e auto-destrutivo no segundo. É, no final das contas, uma canção triste e embebida em desilusão. Participação de Robin Zander e Rick Nielsen do Cheap Trick, uma das bandas prediletas de Neil.
“Anybody Out There”: A faixa punk/hard do play. Menos de dois minutos. “Quero ser seu cão / Procurando por um amante? / Tem alguém aí”. Bom solo de Mars no meio. 
“Let Us Prey”: O peso dá o tom dessa, e a sujeira também. Lembra bastante o material da banda com Corabi, com letra do próprio, falando sobre as “presas”: os seres humanos.
“Rocketship”: Balada semiacústica, simples e curta. Sixx escreveu essa para Donna D’Errico, sua esposa na época. Nada de muito relevante, é verdade. Mas dá uma aliviada no climão denso do disco.
“A Rat Like Me”: “Uma ratazana como eu não vai salvar o mundo”. Combinada com um som sujo, grave e com um puta groove, não há mais muito o que se precise dizer. Mais uma que é a cara do Crüe do final dos anos 90.
“Dólar suíno”

“Shout at the Devil ’97”: Não se trata de uma regravação, como pode-se supor pelo título, e sim, uma espécie de remixagem. Sem dúvida a nova roupagem da música se encaixa com o resto do disco, mas remixar clássicos é no mínimo perigoso. Esse caso não foge à regra. Desnecessário (como se a própria banda estivesse dando a mínima para isso).
“Brandon”: Sixx tem a música para a “patroa” nesse álbum. T-Bone tinha que ter também, certo? Errado! Ele podia até ter o direito, de escrever/tocar/cantar, mas nao precisava dar um tiro no pé dessa dimensão! Errou feio… Logicamente a regra aqui é a mesma para o disco inteiro: “dane-se a opinião alheia…”. Mas aqui não tem como rolar, realmente.
Além das 13 músicas da edição original, o mesmo foi relançado em 1999 com três faixas bônus:
“Afraid [Swine/Jimbo Mix]”: Remixagem do single. Não acrescenta quase nada ao tracklist. Pouca diferença da original, o refrão é mais sujo e a música, como um todo, mais barulhenta. Serve como curiosidade.
“Wreck Me”: Sonzaço! Tem a cara do Mötley. Deveria ter entrado no disco. Contagiante do começo ao fim, com refrão poderoso!
“Kiss the Sky”: A versão original de “Flush”, contando com mais guitarras. Entretanto, a versão do disco tem mais a ver com seu track list. Boa adição para se ter uma ideia de como as coisas começaram e onde foram parar.
Em 2003, Generation Swine foi novamente relançado. Dessa vez, além das 13 canções do lançamento original, mais as três bônus da reedição de 1999, essa versão ainda adicionou mais duas faixas:
“Rocketship [Demo]”: Quase idêntica à original. Apenas um pouco mais crua.
“Confessions [Demo]”: Também muito parecida com a versão original. Mas dessa feita, cantada por Tommy Lee, que deixa a musica um pouco mais melancólica, devido a seu tom de voz mais grave, em comparação com o de Neil.
Mick Mars, Tommy Lee, Nikki Sixx e Vince Neil

Para desespero (e falência) dos colecionadores, existe ainda uma bônus lançada apenas no Japão, contida na versão original do disco – aquela de 1997 – “Song To Slit Your Wrist By”, uma puta canção, que segue a linha musical e lírica de todo o álbum. Refrão forte, letra idem (embora mantendo o deboche e a malandragem habitual). Uma das melhores músicas das sessões do disco. Infelizmente, essa canção não consta em nenhuma das reedições de Generation Swine, nem mesmo nas edições japonesas das mesmas. Uma pena. O próprio Nikki Sixx regravou a música, três anos depois, para seu projeto 58, no disco Diet For a New America, em uma versão também muito boa. Contudo, a do Mötley Crüe ainda é superior.
Generation Swine pode não ter aquela sonoridade clássica de Shout at the Devil, ou aquela produção “arena” de Bob Rock em Dr. Feelgood. Mas esses discos já foram feitos, e o Crüe é conhecido por se manter longe da armadilha da nostalgia, evitando desde sua criação tornar-se uma triste paródia de si mesmo! Essa característica, somada à latente malandragem, ao deboche, à cara-de-pau e ao feeling dos caras, faz deste Generation Swine um dos discos mais desafiadores não apenas do Mötley Crüe, mas de todo o final dos anos 90. E convenhamos, desafio é parte dominante do DNA da banda. Ainda bem!

Track list:

1. Find Myself
2. Afraid
3. Flush
4. Generation Swine
5. Confessions
6. Beauty
7. Glitter
8. Anybody Out There?
9. Let Us Prey
10. Rocketship
11. A Rat Like Me
12. Shout at the Devil ’97
13. Brandon



5 Comentarios

  1. diogobizotto disse:

    O que fica para mim a respeito do Mötley Crüe é o seguinte: eles NÃO possuem sequer um álbum ruim em sua discografia. Mesmo aqueles que não estão entre os meus favoritos, são recheados de ótimas faixas, caso desse "Generation Swine". Ok, ele conta com uma bosta monumental como "Brandon", mas por outro lado abre com uma pedrada como "Find Myself", que é a cara de tudo aquilo que a banda representa: hard rock agressivo, sujo e malandro, muito malandro.

    Fosse cria dos anos 70 ao invés dos 80, não tenho dúvidas que o status do Crüe seria bem mais elevado, pois não devem em nada aos medalhões norte-americanos da época, como um Aerosmith da vida. Aliás, o Mötley sempre foi muito mais ousado e não se prendeu a fórmulas, coisa que o Aerosmith aprendeu em 1987 e acabou lhe deixando um tanto preguiçoso no decorrer dos anos. Ainda bem que o Mötley Crüe se lixa para isso.

  2. Concordo que é um disco ousado, sujo e agressivo. Mas as composições, em sua maioria, são péssimas. Disparado o pior disco da banda.

    O New Tattoo não tem nada de original, mas tem musicas mais marcantes. No GS, pra mim, só se salvam Afraid (que é sensacional), Find Myself e a faixa-titulo. O resto, infelizmente, não está a altura da banda.

  3. péssimo é elogio para esse disco! Mas é interessante ver que tem gente que gosta….
    Jamais imaginei alguém defendendo…

    Deu até uma vontade de ouvir de novo…. mas já passou… KKKKKKK

  4. Sabrina disse:

    Pois bem, vou defender tbm, me amarro nesse disco do Motley, ele é p/ quem curte uma podrera, principalmente Find Myself, trasnmite bem o que a banda sentia, vivia e fazia naquele momento, a cara do Motley, bem sujo e absurdo!
    Mas gosto não se discute neh?!
    Tá vendo como não é só vc quem curte?!
    Um abraço a tds!

  5. Não conheço, mas tb não me animo a ouvir, mesmo com todas as palavras elogiosas do Pablo. Motley acabou em 80 e algo (talvez no Dr. Feelgood)

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