Por Diogo Bizotto
Tentar buscar a gênese de um novo estilo musical e definir datas e locais  de origem geralmente é uma tarefa complicada. A música está em constante mutação, e muito dificilmente alguém consegue criar um novo subgênero praticamente do zero. No entanto, em se tratando de death metal, é possível ao menos determinar duas cenas que foram de extrema importância para definir as diretrizes do estilo, a norte-americana, focada especialmente no estado da Flórida, e a sueca.

Por mais que muitos músicos neguem a existência de uma cena propriamente dita, é inegável que essas duas localizações geográficas uniram ao seu redor, no final dos anos 80 e início dos anos 90, uma grande quantidade de músicos que desbravaram as plagas mais extremas do heavy metal até então, seguindo os passos de grupos como Venom, Bathory, Hellhammer e Celtic Frost, além dos crescentes expoentes do thrash, como Slayer e Kreator. Bandas como Cannibal Corpse e Malevolent Creation, originários de outra região dos Estados Unidos, relocaram para a Flórida a fim de integrar-se ao crescente cenário, que tinha como quartel-general o Morrisound Recording Studios, em Tampa, local onde foram gravados vários importantes álbuns de death metal.

No entanto, é claro que o surgimento e a definição do estilo não se limitou a esses locais, vide o fato de que os maiores expoentes do heavy metal brasileiro surgidos nos anos 80 também se aventuraram por caminhos musicalmente agressivos, vide Sepultura e Sarcófago. Outro país que na época deu alguns nomes de peso ao death metal é a Holanda, sendo os principais pioneiros Asphyx e Pestilence.

É sobre o segundo que quero comentar hoje. Surgido em 1986, o Pestilence lançou seu primeiro álbum, Malleus Maleficarum, em 1988. Equilibrando-se entre o thrash e o surgente death metal, o álbum mostrou uma das mais talentosas entre as extremas bandas europeias despontando em grande estilo, destacando os riffs dos guitarristas Patrick Mameli e Randy Meinhard e os vocais de Martin Van Drunen, assemelhando-se aos de Chuck Schuldiner  (Death), porém mais vociferados e cantando de maneira mais veloz.

Pestilence em 1989: Patrick Uterwijk, Marco Foddis, Martin Van Drunen e Patrick Mameli

Se com Malleus Maleficarum o Pestilence já havia dado mostras de que era um nome a ser levado a sério, foi em Consulming Impulse que o grupo confirmou seus status de promessa e se tornou uma realidade entre os grandes nomes do gênero. Lançado no final de 1989 (no início de 1990 em alguns locais), o disco pode ser facilmente colocado lado a lado dos clássicos surgidos na primeira fase do death metal, como Altars of Madness (Morbid Angel), Scream Bloody Gore e Leprosy (Death), Seven Churches (Possessed), Cause of Death (Obituary), Left Hand Path (Entombed) e Deicide (Deicide). Os riffs são ainda mais criativos e bem executados que os do registro anterior, e os vocais de Van Drunen são menos ríspidos, porém muito mais cavernosos, soando como provenientes do diafragma, não da garganta.

Gravado no estúdio Music Lab, em Berlim (Alemanha), Consulming Impulse foi produzido por um dos mais experientes profissionais da crescente cena heavy metal europeia, responsável até então por registrar o som de bandas como Kreator, Sodom, Coroner, Helloween e Grave Digger, além dos canadenses do Voivod. Apesar de evoluída em relação ao disco anterior, a produção manteve a crueza, sem soar de maneira alguma desleixada, permitindo a boa audição dos instrumentos e demonstrando uma equalização eficiente. Resumindo: o álbum é pesado e agressivo da maneira que deve ser um lançamento que se prestou a ajudar na definição do que é o death metal.

Os trabalhos são abertos sem frescuras com “Dehydrated”. Não há introdução climática ou algo parecido; guitarras, baixo e bateria iniciam com força total, executando uma música bem estruturada, enquanto Martin emite seus graves grunhidos que podem até não ser compreendidos sem um conhecimento prévio da letra, mas seguem linhas vocais inteligentes. “The Process of Suffocation” não dá tempo para respirar e ilustra o quão azeitada estava a dupla de guitarristas do Pestilence, formada agora, além de Parick Mameli, por Patrick Uterwijk. A quantidade de bons riffs despejados em menos de três minutos é absurda e denota a inspiração do grupo.

Ao tomarmos conhecimento da terceira faixa, “Suspended Animation”, nos damos conta de que estamos ouvindo uma espécie de Reign in Blood (álbum do Slayer) versão death metal. Não há descanso. A dupla de Patricks descarrega riffs como um transatlântico descarrega contâineres, um após o outro, como se fosse a coisa mais normal do mundo. O único momento mais “tranquilo” da canção se encontra em sua mid session, onde teclados muito bem postados auxiliam a criar um fantástico clima macabro e completam os vocais de Martin Van Drunen, seguidos de solos típicos do gênero. “The Trauma” já inicia com as vociferações de Martin, entoando uma letra sobre uma experiência traumática envolvendo corpos putrefatos. Nada mais death metal old school, não?

Patrick Uterwijk, Martin Van Drunen, Patrick Mameli e Marco Foddis

Também se faz necessário frisar o bom trabalho executado pelo baterista Marco Foddis, letrista de algumas canções. Sua performance apresenta evolução em relação ao disco anterior, e, mesmo não sendo dotado da técnica de alguns bateristas norte-americanos do estilo, como Sean Reinert (Cynic, Death) e Gene Hoglan (Dark Angel, Death, Testament, etc.), apresenta um desempenho superior à maioria dos contemporâneos europeus, destacando sua pegada logo no início da ótima “Chronic Infection”. A faixa seguinte, “Out of the Body”, chegou a receber um videoclipe bastante simples, apenas mostrando a banda executando a faixa sobre o palco. Apesar de certamente não se tratar de uma música mais “radiofônica” mesmo para os padrões do Pestilence, configurou-se em uma escolha acertada, pois trata-se de uma música cativante, cujo riff principal permance na cabeça do ouvinte.

Não tenho dúvida em afirmar que Patrick Mameli é um dos mais injustiçados arquitetos do death metal mundial. Todas as músicas em Consuming Impulse foram escritas ou coescritas pelo guitarrista, que ainda executou o baixo em estúdio, tarefa acumulada ao vivo pelo vocalista Martin Van Drunen. Aliás, se é necessário apontar uma falha na sonoridade do disco, é o fato desse instrumento estar um pouco perdido na mixagem, escondido sob a riffeiragem de Mameli e Uterwijk.

“Echoes of Death” tem início com um solo bastante barulhento sobre uma base pesada, assemelhando-se ao que costumava executar uma dupla que foi provável influência do grupo, Jeff Hannemann e Kerry King (Slayer). Além disso, traz teclados que contribuem para a criação do clima adequado. Com riffs cavalgados, “Deify Thy Master” traz Martin esguelando-se como nunca em seu memorável refrão, diria até “grudento” para os padrões do death metal. O único momento de pausa para tomar fôlego nos pouco mais de 35 minutos do disco se dá com “Proliferous Souls”, momento solo de Mameli, onde guitarra e teclado são os únicos instrumentos que se ouvem através dos alto-falantes.

A obra é finalizada com “Reduced to Ashes”, encerrando com uma pedrada climática, de andamentos variados, um álbum que tem o mérito de ser totalmente nivelado por cima. Mais que uma avaliação faixa-a-faixa, Consuming Impulse deve ser analisado como uma obra completa e ouvido dessa maneira. É praticamente impossível dar o play e querer passar uma ou outra faixa. Escutá-lo por inteiro é uma obrigação. O aperfeiçoamento técnico demonstrado pelo grupo apareceria com mais força ainda no disco seguinte, Testimony of the Ancients (1991), aproximando-se cada vez mais do death metal norte-americano do que dos vizinhos europeus, contando inclusive com a presença do baixista Tony Choy, na época também no Atheist, um dos principais expoentes do death metal mais técnico, originário da Flórida. Martin Van Drunen abandonou o grupo e entrou para o Asphyx, deixando a função de vocalista para Patrick Mameli, que mesmo não soando tão bem quanto Martin, fez um ótimo trabalho. Se você busca a ligação perdida entre duas correntes distintas do death metal, talvez Consuming Impulse seja a obra que vai te dar as respostas corretas.

2 comentários

  1. Groucho KCarão

    Baterista de metal extremo tem alguma espécie de sina? Eu mal assimilei psicologicamente um cara chamado Paul Bostaph e agora já me vêm com um Marco Foddis?!
    Belo texto, Diogo. Me interessei pela banda. Assim que minha fase metal extremo retornar eu vou ouvir o primeiro e/ou esse.

    Responder
  2. Artur Barz

    Eu ja conhecia o Asphyx e gostei pra caraio…Mas esse Pestilence é mais fodido ainda…Riffs bem mais criativos, mais tecnica…Estamos falando das duas bandas mais fodidas da holanda!

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.