Discos que Parece que Só Eu Gosto: Bruce Dickinson – Skunkworks [1996]

8 de março, 2011 | por Ricardo Lira
Discos que Parece que Só Eu Gosto
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Por Ricardo Lira

Lockheed Aviation Co. é o nome de um bureau que desenha aviões secretos e avançados que não podem ser detectados por radar, como o Blackbird, o F-104 e o U-2 na Segunda Guerra Mundial. O nome da companhia não parece estar associado a nada que os fãs tenham comentado em fóruns ultimamente. Deve ser porque o apelido da companhia é “Skunk Works”.

Enquanto é mera curiosidade o fato de Dickinson ter juntado as duas palavras desse apelido e ter formado uma banda na metade dos anos 90, quase ao estilo de David Bowie com a Tin Machine, o efeito foi mínimo para muitos fãs de Bruce, que sempre o apoiaram no Maiden e guardavam ainda aquela luz reservada de que o próprio pudesse voltar às origens e tocar heavy metal em seus shows, nem que fosse uma música do Maiden. Ok, Bruce atendeu ao pedido de uma música do Maiden ao vivo, quebrando o gelo da Balls To Picasso Tour, mas o contentamento não veio assim mesmo… Apesar disso, Skunkworks como banda, e seu álbum homônimo, apesar de virar um pequeno bastardo esquecido na carreira do vocalista, é uma das grandes obras que surgiram nos anos 90, em termos musicais (e no meu ponto de vista). Skunkworks de longe se trata de fábula grunge…

Prévia: Quando a Tribe of Gypsies de Roy Z juntou-se ao vocalista para definir seu álbum de retorno Balls to Picasso, encabeçado pela clássica “Tears of the Dragon”, Dickinson viu na arte da guitarra flamenca de Roy Z, e na instrumentação tribal dos Gypsies, a rota de fuga do heavy metal que o detivera por anos no Maiden, tornando-se, desde o início da década, necessário estar o mais longe possível do estilo. Como infelizmente a Tribe of Gypsies precisou seguir seu curso após a gravação de Balls to Picasso, Dickinson chamou um grupo de jovens músicos que flertavam com o hard rock e o funk, para a turnê do disco. Fãs de Glenn Hughes, Deep Purple e Kiss, todos eles já haviam estado em bandas anteriormente, e em estúdio houve um ótimo entrosamento. Aprendendo o set list durante a grande quantidade de shows agendados, e assistindo o público curioso pela volta de Bruce Dickinson solo os assistirem, o grupo e Bruce se tornaram íntimos, músicos profissionais competentes, e Bruce foi desejando cada vez mais não ser visto como um ex-Maiden à frente de um projeto, mas apenas mais um membro de uma banda real. Daí, ao começarem os ensaios para o novo álbum, o primeiro de estúdio de Dickson, Dale e Elena, estava criada a Skunkworks.

Bruce Dickinson, Chris Dale, Alessandro Elena e Alex Dickson

Com o passar dos meses, os fãs tiveram as mais diversas reações ao álbum Skunkworks. Em boa parte essas reações eram negativas, apesar de revistas de metal elogiarem bastante o álbum. Avessos, houve ainda aqueles fãs que nem se deram ao trabalho de ouvi-lo, pois o desinteresse tomou forma pelas notícias. Jack Endino, produtor de bandas como Nirvana, Mudhoney, Soundgarden e Titãs, talvez seja um dos “responsáveis” pelo desconforto. Em todo seu experimento, Skunkworks é tido por vezes como um produto grunge de Bruce Dickinson; um desvio, uma perda de foco e conteúdo, e até mesmo uma lástima. Como se o grunge assim o fosse e não tivesse raízes em bandas importantes… As críticas muitas vezes são pautadas em visual, naquela imagem que o público constrói há anos e vira objeto-desejo. E, bem, na visão do público, eles não engoliram garotos que tivessem talvez a metade da idade de Bruce Dickinson e tocavam como sendo sua nova banda. Na Balls To Picasso Tour sim, pois não havia outra opção e era a volta de Dickinson aos palcos, solo. Mas talvez o público esperasse mudança antes do próximo álbum, o que não ocorreu. Além disso, os músicos não tocavam heavy metal, e Bruce sempre foi associado ao heavy metal, ao Maiden. Isso fala muito por si só.

O que, além de heavy metal, seria Bruce Dickinson? Na verdade, para compreender o Skunkworks, a pergunta deveria ser: o que mais já foi Bruce Dickinson?

As críticas negativas estariam tão engatilhadas no rigor do cortejo ao rei da voz metálica, que esqueceram que antes do Maiden, Bruce esteve envolvido com uma banda que se divertia com música e doping como o Samson, e que a saudade daqueles idos de enlouquecer e se divertir livremente, teriam se acanhado no sistema ultra-rotineiro e padronizado do Iron Maiden. Esta é uma absoluta verdade por trás do afastamento e entre a busca por novas atividades no Skunkworks. Antes de tudo, ganhar a liberdade que se fora e estabelecer-se como banda, como um entre seus músicos. Mas seu fiel público aceitaria um dia o fato de Bruce Dickinson viver atrás de um nome como Skunkworks? Não! E nem a gravadora! Assim sendo o rótulo “Bruce Dickinson” foi forçado a sair por cima do nome “Skunkworks” no álbum, e as coisas seriam pelo menos interessantes durante a turnê do álbum, abrindo para o Helloween, o que não trouxe assim uma grande vantagem e público para próximo deles. Muitos fãs entendiam, mas uma boa parte via tudo pelo estilo metal, precisando ser metal.

Chris Dale e Bruce Dickinson ao vivo
Não chega a ser irritante esse espaço que as pessoas nunca dão…?

Musicalmente, Jack Endino foi um gênio. Paciente e político, soube trabalhar o melhor da Skunkworks e fazer todos experimentarem música como se fossem suas últimas. Isso sem falar do tempo que o álbum tomou para ser concretizado. E no final os resultados foram magníficos, as músicas são de diversos estilos, com influências em bandas como Deep Purple, Soundgarden, The Doors, Led Zeppelin e Black Sabbath.

Recordo quando ouvi Skunkworks pela primeira vez na casa do meu amigo e de dizer a ele que a Tribe of Gypsies fez um trabalho brilhante no álbum, no que ele prontamente me respondeu: ‘Que Tribe of Gypsies!? Esses são os mesmos músicos que estavam em turnê com ele! Dickson, Dale e Elena.’ Não poderia ser! Isso é Alex Dickson? Como esse garoto trabalhou tão bem as guitarras? Isso é… Pode não ser metal, mas é bem pesado, é espacial, é… novo! Porra, tínhamos um som novo na metade dos anos 90 e aquilo se chamava Skunkworks. Não parecia exagerado dizer isso ou pensar que Dickinson estava vindo para a destruição . Podíamos notar a fúria de “Back From The Edge” e a atrativa dança de “Dreamstate” (fortemente embasada em “The End”, do The Doors). Aquela, tive a sorte de assistir ao vivo no Imperator, aqui no Rio de Janeiro, quando Dickinson anunciou que eles iam tocar uma música nova que estaria no próximo álbum. Havia uma força maior acontecendo no show, depois da “Back”, com “Sabbath Bloody Sabbath”. Sem mais, aquilo era vibrante, direta, e cheia de energia (“A silent river flowing black…”). Um tanto diferente do que havia em Balls to Picasso (apesar de também considerar este álbum futurista), e se o Maiden quisesse algo para mantê-lo corrente em 1996, acredito que ao invés de “Virus”, essa poderia ter sido a música! Claro que quando a ouvi no álbum Skunkworks, estava melhor ainda.

Skunkworks progride, então. “Faith” tem uma guitarra funkeada, e outra vem atrás zumbindo, enquanto a base – a terceira guitarra – contorna, para as três se encontrarem no final do verso cantado. Para mim, a letra de “Faith” fala diretamente a Steve Harris, mas é só uma percepção. “Solar Confinement” começa com uma melodia parecida com “Communion” do Samson, e traça as tomadas místicas que Dickinson teria com The Chemical Wedding alguns anos depois. “I Will Not Accept The Truth” é uma melodia misturada com agressividade, certamente nascida de jams, com nenhum riff atraente em particular, mas ao mesmo tempo bonita e descompromissada. “Inside the Machine” é um dos únicos passos da Skunkworks para dentro do território metal, e em “Headswitch”, Soundgarden e Deep Purple caem pesadas, tendo seus espíritos arrancados; o vocal de Dickinson é “backeado” por seu fantasma, ambos taciturnos, na música urgente. Ele não grita, não precisa. “Meltdown” vem da sombra de Balls to Picasso e nós nos submetemos a ela, à bateria tribal de Alessandro Elena; cresce no refrão dramático. “Octavia” parece um vôo noturno pela cidade, e logo alcançamos a sombria e sabbáthica “Stranger Death in Paradise”, claro que com uma vibração mais hard rock, mas notadamente de peso e com uma progressão até o refrão de encerramento. 

Alessandro Elena e Alex Dickson ao vivo
A fase de múltipla criatividade, independente do que fãs de Dickinson possam taxar, infelizmente falhou em continuar. As diferenças musicais vieram e Dickinson teve que se separar dos rapazes. Posso estar falando por ignorância, mas é uma pena ver os músicos Chris Dale, Alex Dickson e Alessandro Elena, esquecidos hoje em dia na Sack Trick com suas gracinhas, tributo ao KISS, e nenhum comprometimento sério, apesar dos álbuns terem uma competência musical incrível (efeito Skunkworks?). Voltando ao Skunkworks, a profunda catarse sofrida nas letras do álbum, refletindo ainda as dores da saída do vocalista do Maiden, junto a seus primeiros “experimentos” místicos, e mais os projetos de aviões desenhados pelo álbum, não ajudaram a banda a se identificar. Acho que pioraram. Não porque não fosse excelente, mas porque havia um vocalista com sua matéria atraída ainda para o centro gravitacional do heavy metal… do eterno heavy metal.
Dickinson chamaria os mestres Roy Z e Adrian Smith para no ano seguinte lançar seu quarto álbum de estúdio, Accident of Birth. Tudo parecia ter melhorado 100%, ainda mais com a volta de músicas parecidas com Maiden, e ainda mais porque Bruce e Smith estavam tocando o que? Maiden! E Skunkworks logo virava coisa do passado, tão ignorado que nenhuma música fora aproveitada no novo set list. Ninguém parecia se importar, como Dickinson parecia não se importar. E pessoas taxavam sua fase anterior de grunge, fase fraca ou desnecessária. Mas não muita gente ia além de dizer isso, porque apenas viam seu ídolo “perdido” em uma fase e aquilo parecia não combinar com ele. Musicalmente ninguém arriscou um palpite sério contra o Skunkworks. Musicalmente, e como disse antes, muitas matérias saíram bem favoráveis ao álbum.
Mas só pra fechar, vou tecer minha crítica aos tipos de comentário anti-Skunkworks. Não contra os que não gostam realmente do álbum, porque esses eu respeito, mas os que não saem da superficialidade do Bruce Dickinson grunge (ou que cantava numa banda grunge, whatever…). Em 1997 os críticos pareceram fingir não perceber, mas justamente Adrian Smith lançou um álbum chamado Welcome to the World, grandemente elogiado, e simplesmente taxado com o estilo cuspido de Alice In Chains! Mas NUNCA ouvi um só fã dizendo que Adrian Smith ficou grunge… Chega, né?
Track list:
1. Space Race
2. Back from the Edge
3. Inertia
4. Faith
5. Solar Confinement
6. Dreamstate
7. I Will Not Accept the Truth
8. Inside the Machine
9. Headswitch
10. Meltdown
11. Octavia
12. Innerspace
13. Strange Death in Paradise



11 Comentarios

  1. Não acho um disco ruim. O 'problema' é que se esperava uma coisa de Bruce Dickinson, e nunca um álbum influenciado pelo grunge e pelo rock alternativo, como Skunkworks é.

  2. diogobizotto disse:

    Eu nem enxergo por esse viés das influências diversas ao que ele estava acostumado ao executar com o Iron Maiden. "Tattooed Millionaire" já diverge bastante do Maiden e é meu disco favorito do hômi, recheado de boas composições como "Born in '58" e "Son of a Gun", além do baita cover pra "All the Young Dudes".

    Tendo ouvido "Balls to Picasso" antes de "Skunkworks", com algumas músicas já um tanto "estranhas", como "Sacred Cowboys" e "Shoot All the Clowns", apesar do tom mais espirituoso e menos sério do posterior, a surpresa não foi tão grande, até porque essa história de se tratar de um disco grunge nunca colou comigo. O disco passa longe da ruindade que alguns lhe atribuem, mas algumas coisas me desagradam bastante, como a produção. Em especial baixo e bateria soam magros e sem pegada. Sempre achei que o caldo entornava mesmo ao vivo, ô bandinha sem cacife. Em estúdio o Alex Dickson até faz algumas coisas legais, podendo lançar mão de diversas camadas de guitarra executando coisas diferentes, mas ao vivo, na na na…

    De qualquer maneira, respeito o Bruce por ter tentado ao máximo se desvencilhar da imagem de ex-Iron Maiden nos anos 90, ao contrário do Paul Di'Anno, algo que nem preciso discutir.

  3. Christiano disse:

    Skunkworks é meu disco preferido da carreira solo do Bruce Dickinson. Eu não tinha gostado muito do Balls To Picasso, mas quando ouvi o Skunkworks achei ótimo. Uma pena as pessoas não terem dado uma chance.

  4. Rafael "CP" disse:

    Tudo o que faz parte da carreira solo d Bruce eu gosto mais do que do Iron Maiden , e gosto desse , embora e o meu favorito seja TAttoed Milionaire , e eu gosto mais na frente desse do Balls to Picasso e The Chemical Wedding

  5. Saec Torin disse:

    A minha impressão ás vezes é a de que, se a Skunkworks tivesse surgido como banda, com outro vocalista no lugar de Dickinson (que até se parecesse com ele), o álbum teria influenciado muita gente e garantido muitas vendagens.

    O fato de ser Dickinson, prende tudo em um contexto metal e isso é o que me desagrada em uma fase que podia ter decolado (vale o trocadilho).

    Lira

  6. micaelmachado disse:

    Como nessa época eu já tinha noção de que o Dickinson queria se "afastar do metal", numa decisão que nunca entendi muito bem (e que ele mesmo renegou pouco depois), a sonoridade do disco não me surpreendeu, e, por não esperar um "Metal Maideniano", curti bastante o disco. Mas não dá para negar que é muito melhor ouvir o "Accident Of Birth" ou o "Chemical Wedding" do que este CD…

    Aliás, lanço a polêmica: nenhum disco do Maiden desde a volta de Bruce ao grupo (digo mais, desde o "Fear Of The Dark"), por melhor que seja, bate "Chemical Wedding" em termos de composições. É um dos meus discos favoritos da carreira deste que é um dos maiores cantores da história do Heavy Metal!

  7. diogobizotto disse:

    Essa polêmica lançada pelo Micael é interessante. Gosto bastante de "The X Factor", mas considero "The Chemical Wedding" um disco super bem resolvido e não vejo problema algum em que o considerem um álbum melhor. Na verdade, apesar de ter "Tattooed Millionaire" como meu preferido de Bruce, tenho noção de que "The Chemical Wedding" é um disco em um nível mais elevado, tanto de composição quanto de execução. Mas não adianta, quando ouço "Born in '58" e "All the Young Dudes" sou fisgado, é coisa muito mais de sentimento que de racionalidade.

  8. Saec Torin disse:

    Entendo o que o Diogo diz. Existe uma liberdade no Tattooed Millionaire que difere de tentar alcançar "aquela sonoridade". É um álbum que ele não esperava e, quando veio o pedido, produziu com facilidade. Me identifico muito com músicas como "Son Of a Gun", "Tattooed Millionaire" e "Born In 58".

    A única coisa que não gostei no Chemical Wedding é o tune down de guitarras soando ainda mais graves do que no Accident of Birth. Achei exagerado, entretanto ótimas composições. Por isso amo o equilíbrio do Skunkworks.

    Quanto o Skunkworks ao vivo, houve uma diferença sim em tocar apenas 1 guitarra quando o álbum exige duas no mínimo (há músicas como "Faith" com 3 guitarras). Até "The Prisoner" do Maiden sofreu com isso, mas… eu não ligo. rsrs

  9. Christiano disse:

    O Micael tem toda razão quando diz que nenhum disco do Maiden desde o Fear Of The Dark bate Chemical Wedding em termos de composições.

    Eu diria mais: nenhum desde o Fear Of The Dark bate Chemical Wedding, Skunkworks ou Accident Of Birth.

  10. Sempre gostei deste álbum. Tanto que estranhei a volta ao metal com o Accident Of Birth hehe Adoro todos os discos solo do Bruce e acho todos eles melhores do que os discos do Maiden dos anos 90. E o Chemical Wedding é uma obra-prima, um dos melhores discos de metal de todos os tempos. Na minha modesta opinião, o melhor disco Maiden-related desde o 7th Son! Voltando ao tópico, parabéns Lira por falar do Skunkworks. Disco realmente underrated!

  11. Anônimo disse:

    Cara, o Bruce até cantando pagode é bom !! Eu acho este cd muito fraco na parte instrumental, esta banda do Skunk é bem fraquinha comporada ao TOG. Eu acho que o AMOLAD do Iron chega perto do CW. Abraço

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