Maravilhas do Mundo Prog: O Terço – Amanhecer Total [1973]

3 de fevereiro, 2011 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado

Nem só a Europa produzia material de qualidade em termos de rock progressivo. Outros países como Itália, Alemanha e principalmente o leste europeu possuiam bandas de alto calibre, capazes de degladiar com os dinossauros britânicos de igual para igual. E na nossa terra brasilis as influências britânicas chegaram como uma brisa em um dia de verão, Diversos grupos surgiram no início dos anos 70 com a finalidade de lançar aos brasileiros algo na linhagem progressiva da Europa, mas com adaptações para os ouvidos acostumados com uma sonoridade mais leve, que aproveitavam a grande onda da jovem guarda e também do sucesso da bossa nova.
O Têrço posando com o violoncelo elétrico e a Tritarra
Um dos principais expoentes do rock progressivo brasileiro foi o grupo O Terço. Nascido em 1970, o primeiro álbum do grupo foi batizado apenas com o nome da banda, e com um circunflexo no e, ou seja, O Têrço, trazendo uma mistura de folk com rock que lembra bandas como The Band, Crosby Stills Nash & Young e principalmente o Buffalo Springfield. Nessa época, o grupo era formado por Sérgio Hinds (guitarra, vocais), César de Mercês (baixo), Jorge Amiden (guitarra) e Vinícius Cantuária (bateria), e após o lançamento do primeiro álbum, depararam-se com o rock progressivo, e perceberam que nem tudo era flores.

Passam então a construir seus instrumentos e a fazer diversas experimentações. Entre os principais instrumentos, estão a famosa “Tritarra”, uma guitarra de três braços que Amiden empunhava para executar as difíceis peças que a banda começava a criar, bem como o violoncelo elétrico que Sérgio tocava. Esse violoncelo pode ser ouvido, por exemplo, em “Doze Avisos”, uma bolachinha que o grupo gravou inspirado nos sons que andavam ouvindo. Após a participação do grupo no VI FIC (Festival Internacional da Canção), Amiden discutiu com os demais integrantes, abandonando o barco.

O trio decidiu mudar o nome para O Terço (sem o circunflexo) e logo foram para os estúdios. É no primeiro álbum com a nova formação, Terço, lançado em 1973, que o grupo apresentou sua nova sonoridade. Trazendo a experiência de uma apresentação na França acompanhando o cantor Marcos Valle, o trio construiu o álbum que daria o passo para o sucesso do O Terço um ano depois, com o lançamento de Criaturas da Noite (1974), deixando registrado no lado B de Terço uma maravilha do mundo prog feita em nosso país.
O Terço no FIC – 1972
“Amanhecer Total” é daquelas raras composições onde um grupo entrega-se em busca da perfeição. Dividida em cinco partes (“Cores / Despertar pro Sonho / Sons Flutuantes / Respiração Vegetal / Primeiras Luzes no Final da Estrada – Cores Finais”) e com a participação do excelente tecladista Luiz Simas, que fazia parte de outro grande grupo progressivo nacional, o Módulo 1000, e também de Patricia do Valle (vocais), Chico Batera (percussão) e Maran Schagen (piano), ela ocupa todo este lado em seus quase vinte minutos de muita viagem. 
O início com “Cores” traz somente a voz de Patrícia cantando a letra branco branco, amarelo, cor-do-sol, Luz e sol, luz do sol, arco-íris brilhando no céu azul, acompanhada pelos violões de Sérgio e os efeitos de Chico Batera, no melhor estilo Jamie Muir, entrando então no “Despertar pro Sonho”, com o violão sendo acompanhado por sons de mata e floresta. As escalas de Sérgio soam indígenas, até a entrada de Simas com o moog. Os vocais então trazem as lindas letra e melodia, falando sobre “acordar de um mundo adormecido, de um sono eterno, despertar”, ou seja, uma espécia de “Awaken” antes mesmo da mesma ter sido concebida,  acompanhadas pelos violões e por intervenções de mini-moog e percussão. O arranjo musical dessa parte da canção é sensacional. Apenas os violões e a percussão criam um ambiente para viajar literalmente, fazendo o ouvinte se sentir em um mundo isolado dos demais seres humanos.
Camadas de teclados endoidecidas nos levam aos “Sons Flutuantes”, numa viajante sessão com César cantando sobre essas camadas, para daí entrar na melhor parte da canção, a marcada “Respiração Vegetal”, onde guitarra, teclado, baixo e moog fazem diversas escalas, com Vinícius tocando cirurgicamente. Baixo e guitarra fazem escalas pesadas, com o órgão interferindo sobre a levada de bateria. A guitarra então sola super distorcida, para assim os vocais assumirem novamente o posto principal. Temos então o solo de órgão acompanhado pela sessão instrumental anterior, muito pesada, e que repete a estrofe mais uma vez, com a mesma sessão rítmica. Destaque para a intrincada peça criada por Mercês e Cantuária para acompanhar o solo de órgão. 
O piano de Maran muda o clima em “Primeiras Luzes no Final da Estrada – Cores Finais”, numa linda melodia onde a letra de “Cores” é repetida diversas vezes sobre camadas de piano, moog, teclados, baixo e bateria. Nada mais nada menos que DIVINO!
Sérgio Hinds, Flávio Venturini e César de Mêrces
Em 1974, a entrada de Luiz Moreno para o lugar de Vinícius, e principalmente de Flávio Venturini assumindo os teclados, elevaram O Terço para o status de uma das principais bandas do rock nacional. Com essa formação, lançaram o fundamental Criaturas da Noite, onde outra maravilha foi registrada, no caso “1974”, mas se não fosse “Amanhecer Total”, certamente hoje não teríamos o prazer de cantar os “da-da-di-ra” de “1974”, e principalmente, não teríamos a saborosa sensação de ouvir uma maravilha feita em terras brazucas.
O Têrço
E para os que não tiveram a oportunidade de conhecer a versão de Terço com capa-sanduíche, deixo aqui os comentários feitos explicando essa canção:
o nada decompôs-se, era o princípio
o som, fugido do silêncio, surgiu:
cada coisa viva fez seu mundo, e vários mundos foram criados
verdes, azuis, brancos, vermelhos, amarelos, todos se mesclando. cinza
com o som, veio o movimento de pernas e de asas que correram e voaram
e foram levar cada qual seu mundo a outros mundos nascentes
mas correram e voaram tanto que se perderam pelos verdes e azuis daquela terra.
branco, branco
amarelo
cor do sol
luz e sol
arco íris
brilhando no céu azul

a água foge tropeçando em pedras, o verde vivo
ferve, borbulha, evapora-se em bolhas brilhantes. e tudo dança
através da terra.
a luz, por fim, toca o solo já mais frio e escuro.
é o despertar para o sonho.
despertar para o sonho
acordar do sono eterno
despertar
sono de pedra
trouxe o mundo adormecido
despertar
agora é dia. despertar
da longa noite. despertar
o sonho espera
as coisas nos envolvem ainda beirando a terra
e nos trazem o silêncio com seus sons flutuantes
sons flutuantes
soltos ao vento
sons flutuantes
livres
vivos
eles percorrem o ar numa dança primitiva, unem-se
e separam-se divertidamente até serem esmagados contra o 
ar, para então fugirem para longe, mais longe.
mas nós conseguimos vê-los sempre porque eles
como círculos de fumaça, girando, eles
sobem até desprenderem-se uns dos outros, depois se
deixam prender livres numa respiração vegetal,
porque querem ser seiva e alimentar um corpo ainda arbusto
cujas mãos, presas em galhos finos, dançam também
com o vento, se entrelaçando num gesto amoroso, mas
cujos pés são raízes cravadas no chão para sempre.
primeira luzes no final da estrada.
quando finda a longa espera
o homem transformado em fera
preso em jaulas de ouro e aço
confinado em seu espaço?
o final da estrada próximo está
a cidade morta quer despertar
talvez ainda exista dentro dela
qualquer coisa que haja vida
quando o homem da cidade
acordará por seu sonho
e ouvirá sons flutuantes
e verá cores toantes?
a vida talvez já não exista, mas temos
que transpor os blocos de cimento da
entrada para conhecer os homens da
cidade. então talvez amanheça nos campos
esquecidos e nas cidades mortas.”



8 Comentarios

  1. Grande texto, Mairon! muito legal esse poema tb, que eu desconhecia. Agora, sobre o som, eu particularmente não acho essa faixa assim tão espetacular. Além de demasiadamente grande, acho ela muito dispersa (aliás, o disco tb, carece de direcionamento na minha opinião, atira pra muitas direções com pouco êxito), as partes parecem que não se encaixam bem e aquela guitarra muito fuzzeada do Hinds nesse disco não combina com o clima. Olha, faz um tempo que não a ouço, pelos seus comentários, vale uma nova ouvida, mas em princípio é isso que me vem na cabeça. No Criaturas da Noite, aí o Terço se encontrou numa fórmula sonora, mesmo eclética, mas muito bem inspirada.
    Abraço!
    Ronaldo

  2. Grande Ronaldo, obrigado pelo seu comentário.

    Concordo contigo que a entrada do Flavio mudou O Terço para melhor, e o Criaturas da Noite (bem como o Mudança de Tempo, que é o meu favorito), é bem mais centrado e direcionado do que o Terço, principalmente pelo trabalho do Flavio.

    Porém, Amanhecer Total na minha opinião é uma faixa de destaque. Ela não é melhor que 1974, mas não perde feio, e o trabalho do Simas, bem como do Vinicius e do Cesar, é excelente. Eu gosto do som da guitarra do Hinds nessa faixa. O álbum pode até não ser otimo, mas essa canção é um achado. Ouça novamente e fico no aguardo de seus comentarios

    Um abraço e valeu!

  3. Faz uma cara que não ouço esse disco [talvez uns 5 anos], mas ainda lembro um pouco dessa música.
    Lembro também que não era a minha favorita, mas é boa também.
    Concordo com o Ronaldo e não gosto muito dos momentos 'rockão' desse disco, nem de rimas que se utilizam do verbo no fim do verso, como 'o final da estrada próximo está'.
    Mas valeu o texto. Vou procurar reouvir esse disco e em especial essa faixa, até porque O Terço é do caralho!

  4. LAM disse:

    Mairon, preciso do seu e-mail. Abraço do Luiz Antonio Mello, e-mail [email protected] .

  5. Elardenberg disse:

    Mairon, tudo bem? Você pode me ajudar?
    Encontrei por aqui um vinil “O Têrço”, o primeiro, e queria saber se dava pra vender. Não encontro em lugar nenhum (leia-se internet) uma referência de preço dele. Tem um pessoal desse site que gosta de minerar vinil em sebo (tem até dono de um, hehe), achei que alguém poderia saber quanto vale.

    Valeu, galera.

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