Monsters of Rock – Allianz Parque (04/04/2026):
Por Davi Pascale
Fotos: Davi Pascale
No último sábado, ocorreu mais uma edição do festival Monsters of Rock. Misturando artistas da nova geração com nomes consagrados da cena hard/heavy, o evento divertiu e emocionou os rockers que compareceram em uma festa que durou quase 12 horas.
Como não poderia deixar de ser, a nova edição do tradicional Monsters of Rock se viu envolto de polêmicas (?!?). Na página do evento, havia gente que compareceu nas primeiras edições reclamando que o festival de heavy metal havia se rendido ao hard rock. E havia gente reclamando sobre termos artistas da nova geração no cast, alegando que aqueles nomes não eram, de fato, monstros do rock. E, ambos, estão errados…
O Monsters of Rock foi criado em 1980, por Paul Loasby e Maurice Jones, com o intuito de ser um festival específico de hard rock e heavy metal. Se você pegar o cast das primeiras edições, encontrará nomes como Bon Jovi, Motley Crue e Cinderella na programação. Portanto, a ideia nunca foi ser um festival exclusivamente de metal. E os idealizadores também nunca fecharam as portas para novos nomes. The Black Crowes, por exemplo, tocou na edição de 1991 tendo apenas um único álbum nas costas. E, no Brasil, não foi diferente. Basta pegar a primeira edição ocorrida, em 1994, no Pacaembú. Angra, Dr. Sin e Raimundos se apresentaram tendo apenas um CD em seu curriculum. E o headliner era o Kiss, que era uma banda de hard rock. Portanto, são argumentos que não se sustentam. Assim sendo, vamos aos shows…
O evento iniciou às 11:30h com o Jayler, banda que vem sendo considerada a nova promessa do rock. Muitos críticos referem-se à eles como o novo Led Zeppelin. Sim, eu sei. Eles já devem ser a milésima banda a ser comparada ao Zeppelin e a bilésima a ser considerada a nova promessa do rock. Mas, entendo, que essas comparações servem para situar o ouvinte sobre o que esperar em termos de sonoridade e não para criarmos expectativas de que os garotos atingirão o mesmo grau de interpretação, composição e influência de seus ídolos. Os meninos de West Midlands fizeram um bom trabalho, entregando um show com garra, onde o destaque principal acaba sendo o trabalho vocal de James Bartholomew, que tem um timbre muito similar ao cantor do Greta Van Fleet. Misturando músicas de seu EP A Piece In Our Time com canções de seu álbum que será lançado em Maio, Voices Unheard, os garotos ganharam o respeito daqueles que chegaram cedo ao estádio.

A segunda banda à subir ao palco foi o grupo Dirty Honey, conhecido por fazer um hard mesclando influências dos anos 70 e 80. O grupo manteve o foco principal em seu mais recente trabalho de estúdio, Can´t Find The Brakes. Assim que soaram os primeiros acordes de “Won´t Take Me Alive”, já deu para notar o que viria pela frente. Uma banda enérgica, bem ensaiada e que conta com um ótimo cantor em cena. Não tenho nenhuma dúvida de que Marc LaBelle foi o grande destaque. Tanto pelo seguro trabalho vocal, quanto pelo esforço que fez para cativar o público, chegando, inclusive, a descer na plateia. O repertório contou com seus principais singles – “When I´m Gone”, “California Dreamin´”, “Don´t Put Out The Fire”… – e provou que a banda tem de tudo para se firmar como um forte representante da cena.
Na sequência, tivemos Yngwie J. Malmsteen, representante do metal neoclássico e um dos responsáveis por mudar a cara da guitarra na década de 80. O músico sueco chegou a lançar alguns álbuns com uma pegada mais hard e poderia ter ganhado o público muito facilmente, mas optou pelo caminho mais difícil. Mais uma vez, o rapaz veio sem um cantor na sua formação (algo que já havia ocorrido no Monsters de 2015) e decidiu dividir o microfone com o tecladista Nick Marino. Até aí, tudo bem, o problema é que a apresentação, que começou com o clássico “Rising Force”, teve um foco maior em números instrumentais, algo que não costuma agradar a maioria. A banda de apoio é excelente, Yngwie é um guitarrista exemplar, mas não acredito que esse seja o melhor tipo de repertório para um festival. Se tivesse apostado em músicas como “You Don´t Remember, I´ll Never Forget”, “Deja Vu”, “Heaven Tonight”, “Bedroom Eyes”, o saldo final poderia ter sido diferente. De todo modo, o show foi extremamente profissional e bem superior ao concerto que realizou na já citada edição de 2015. O ponto alto, para mim, ficou com a execução da belíssima “Far Beyond The Sun”. Aquela velha história… Para os convertidos, um belo show. Quem não era convertido, continuará igual.

Quem ficou responsável por comandar a festa foi o lendário Walcir (da loja Woodstock Discos) e o respeitado Eddie Trunk, mas sendo bem honesto, a vinda de Trunk é dispensável. Suas participações, ainda que respeitosas, foram curtas e frias. O cara não disse a que veio. Temos vários nomes conhecidos, daqui do Brasil, que poderiam ter feito o papel dele numa boa. Caras como Gastão Moreira, Régis Tadeu ou até mesmo o cômico Lord Vinheteiro poderiam ter feito a vez e teriam uma resposta maior do público. Vi vários posts respeitosos de Eddie Trunk sobre o festival e o público daqui – o que é muito bacana – mas, novamente, não precisava.
Voltando aos shows… O próximo nome à pisar no palco do Palmeiras foi o Halestorm, banda que aposta em um hard rock moderno e que vem crescendo a cada ano. O show foi excelente, onde vale um destaque para os irmãos Arejay Hale (baterista) e Lzzy Hale (guitarra e voz). Afirmo, sem medo de errar, que a garota foi a melhor vocalista da noite. Empolgadaça, além de atacar a voz para cima todo o tempo, durante as músicas, ainda achava fôlego para poderosos vocalizes entre uma canção e outra. A apresentação que teve início com “Fallen Star”, mesclou canções de seu recente álbum Everest com músicas que já são consideradas clássicas por seus seguidores como “I Miss The Misery” e “Freak Like Me”.
E eis que chega a vez do Extreme, banda de hard rock que teve seu auge na década de 90. Embora hoje tenha respeito na cena, na época, Gary Cherone era bem criticado pela imprensa especializada. Quem calava a boca de todo mundo era o virtuose guitarrista Nuno Bittencourt que entregava riffs e solos fora da curva. Cherone cantou como vem cantando nas últimas décadas, apostando em um vocal mais gritado para disfarçar o vibrato de sua voz. Nuno continua preciso. Os músicos entraram em cena debaixo de chuva e apresentaram um set misturando clássicos como “Decadence Dance”, “Get The Funk Out”, “Play With Me” e “It´s a Monster” com canções de seu mais recente álbum como “Rebel” e “Rise”. No entanto, foi com a execução da balada “More Tha Words” que o estádio veio abaixo. O show foi muito bom, minha única reclamação foi terem encerrado com a já citada “Rise”. Ainda acho que deveriam ter encerrado com um classicão para sair de cena com a adrenalina no talo. Tirando isso, nada a reclamar.

Todas as apresentações começaram dentro do horário previsto e as bandas tiveram um bom tempo de show. Jayler e Dirty Honey tocaram 45 minutos cada. Yngwie J. Malmsteeen, Halestorm e Extreme tocaram por 1 hora, mas o melhor ainda estava por vir. Lynyrd Skynyrd, o grande nome do southern rock, viria a seguir tocando por 90 minutos. Sim, tivemos 2 shows completos!
Embora a maior parte do público brasileiro só conheça “Sweet Home Alabama” e “Freebird”, os rapazes, que são cultuados nos Estados Unidos, possuem várias canções que são consideradas clássicos do gênero. E foram justamente essas faixas que formaram o set do grupo de Jacksonville. Os músicos iniciaram o set com “Workin´ For MCA” e emendaram clássico atrás de clássico. “What´s Your Name”, “Call Me The Breeze, “Gimme Back My Bullets”, “Gimme Three Steps”, “Simple Man”… Quem é fã, não tem do que reclamar. A equalização do som estava perfeita e a performance irretocável. Como de costume, não faltaram as homenagens aos falecidos Gary Rossington e Ronnie Van Zant.
E, para fechar a noite, nada melhor do que a banda mais perigosa do mundo. The one and only, Guns n fuckin´ Roses. Os músicos fizeram uma apresentação típica. Set longo (ultrapassando 2 horas e meia) misturando lado B com clássicos. A noite teve início com o hino “Welcome To The Jungle”, emendando em “Slither” (Velvet Revolver) que contou com um curioso momento, onde Slash, sem querer, acertou a guitarra no rosto de Axl Rose. Graças a Deus, a rabugice de Axl ficou pra trás e ao invés de atirar o microfone no chão e sair do palco (como faria no passado), ele deu risada e seguiu adiante.

Em comparação ao show do ano passado, notei que o grupo deu uma bela diminuída nos covers. Na homenagem ao Ozzy, rolou apenas o lado B “Junior´s Eyes”. Os covers de Glenn Campbell, Thin Lizzy e New York Dolls caíram fora. Os músicos também deram uma diminuída nas baladas, deixando de fora canções como “Don´t Cry”, “Yesterdays” e “Patience”. Dos singles novos, apenas “Perhaps”, “Nothing” e “Atlas” deram as caras. Contudo, os músicos surpreenderam o público paulista ao tirarem da cartola canções como “Dead Horses” e “Bad Apples”, canção que eles não tocavam desde a turnê do Use Your Illusion. Clássicos como “It´s So Easy”, “Rocket Queen”, “Sweet Child O Mine”, “Mr Brownstone”, “You Could Be Mine” e “Civil War” seguem marcando presença.
Em relação à performance da banda vale mencionar que fiquei feliz ao notar que, aparentemente, os rapazes deixaram para trás os longos atrasos. Mais uma vez, os músicos subiram pontualmente ao palco. Axl Rose cantou no mesmo nível do ano passado. A voz dele está perfeita nos graves. No entanto, os agudos não mais existem e o cantor acaba recorrendo ao falsete. Isaac Carpenter provou, mais uma vez, ter sido a escolha perfeita para empunhar as baquetas do grupo com uma performance irretocável.
O grande destaque da noite, contudo, foi Slash. Novamente, o músico apresentou uma performance inspirada, executando as músicas totalmente compenetrado. Achei que estava um pouco mais solto do que na apresentação de 2025, improvisando longos solos em determinados momentos. Os fãs de longa data, com certeza se emocionaram ao vê-lo puxando o riff de “Voodoo Child” ao final de “Civil War” e a intro de “Only Women Bleed” antes de “Knockin´ On Heaven´s Door”. Brincadeiras que o músico costumava fazer na tour do Use Your Illusion. A noite se encerrou, conforme já esperado, ao som de “Paradise City”. Os fãs que só conhecem os hits de FM deve ter achado o show cansativo, já quem acompanha a banda, de fato, saiu extremamente satisfeito.

O festival é muito bem vindo e estava, de fato, muito bem organizado. Minha única reclamação é dos preços praticados dentro do estádio. 10 reais um copinho de água, 14 reais uma latinha de coca-cola, 28 reais uma porção de mini coxinha, considero uma exploração. É verdade que essa é uma realidade que sempre foi presente nos shows, mas vamos combinar que esses preços poderiam ser melhor pensados. Ainda mais em um evento de 12 horas de duração, que não tem como você não consumir alguma coisa. Do mais, achei o saldo do festival positivo. Os shows foram todos muito bons, as apresentações foram pontuais, a qualidade do som estava muito boa. Torço pela continuidade do evento. Para o próximo ano, os produtores poderiam pensar na dobradinha Slipknot (que agora conta com Eloy Casagrande na bateria) e Metallica, com os 2 shows completos. Que tal?
