Entre Caixas e Lados B: A Discografia Paralela de Bruce Springsteen

Entre Caixas e Lados B: A Discografia Paralela de Bruce Springsteen

Por Fernando Bueno

Em 1998, Bruce Springsteen já tinha uma carreira super consolidada com onze álbuns de estúdio já lançados e sus principais clássicos já no imaginário de seus fãs. E para surpresa de muita gente foi divulgado uma caixa chamada Tracks que prometia faixas inéditas e que não haviam entrado em nenhum dos álbuns que já tinham sido lançados até então. Mas o que surpreendeu mesmo foi a quantidade de músicas que esse lançamento continha. A caixa com quatro CDs e 66 faixas reunia lados B, demos, takes alternativos e músicas rejeitadas ao longo de mais de duas décadas. Para muitos fãs, foi a primeira confirmação oficial de algo que os bootlegs já sugeriam: Springsteen sempre gravou muito mais do que lançou. A sensação que ficou para os fãs era que o cofre tinha sido finalmente aberto.

Mesmo considerando que uma parte dessas músicas são de takes que não entraram nos disco, seria material suficiente para pelo menos mais cinco álbuns, algo muito fora do convencional. Não lembro de nenhuma outra banda ou artista com um cofre tão cheio de material assim. Para não deixar passar sem comentar, um CD simples com 18 dessas faixas é bastante fácil de encontrar.

Porém em 2010, mais um lançamento parecido. Dessa vez material que sobrou somente das gravações de Darkness On The Edge of Town (1978), quase como um álbum paralelo perdido no qual ele estava passando por um momento de transição artística, experimentando novos tipos de arranjos e temas narrativos. Esse material saiu sob o nome de The Promisse (2010) e contém, pelo set list do álbum, incríveis 21 faixas. Entretanto, na verdade existe mais uma, escondida segundos após “City of Night”, chamada “The Way”. Importante dizer que essas músicas fazem parte também da edição comemorativa de Darkness On The Edge of Town, um box em formato de caderno muito bonito e procurado pelos fãs. E o mais importante de tudo, não se trata somente daquele velho resto do resto. São faixas acabadas que poderiam estar perfeitamente no set list de qualquer álbum e não faria feio.

No geral, não eram somente faixas totalmente inéditas. Havia sobreposições, mas não se pode chamar simplesmente de repetição. Ali surgiram músicas que os fãs já conheciam de registros piratas, além de versões definitivas de composições que já haviam aparecido em Tracks. Esse é um ponto importante: o arquivo springsteeniano não é linear. Certas músicas reaparecem em contextos diferentes, às vezes com mixagens novas, overdubs recentes ou takes alternativos.

Entre Tracks e The Promisse, mais cinco álbuns oficiais já haviam sido lançados, dentro deles um álbum duplo de covers de músicas de Pete Seeger, o We Shall Overcome: The Seeger Sessions (2006), em que ele faz uma abordagem bastante diferente do seu estilo habitual. Mais 4 álbuns de estúdio e mais um disco de covers (leia mais sobre ele aqui) depois mais uma nova surpresa; Tracks II: The Lost Albuns (2025). Uma caixa impressionante com mais de 80 (!) faixas sendo a maioria delas inéditas em termos de lançamentos oficiais. Ainda assim, algumas músicas já eram conhecidas e reaparecem em versões diferentes. Esse diálogo entre passado e presente reforça a ideia de que seu arquivo é enorme e em constante evolução.

Se Tracks apresentava sobras espalhadas ao longo de mais de 20 anos, Tracks II organizou o arquivo como se fossem sete álbuns completos que, por diferentes razões, nunca haviam sido lançados. Projetos como LA Garage Sessions ’83, Streets of Philadelphia Sessions, Faithless, Somewhere North of Nashville, Inyo, Twilight Hours e Perfect Worlds surgiram como entidades conceituais próprias, mostrando que Springsteen não apenas acumulava músicas descartadas, ele frequentemente gravava ciclos inteiros que acabavam engavetados e, nas suas próprias palavras “ele não estava totalmente seguro de que esse material, que continha algumas falhas, poderia ser parte de um lançamento oficial”.

O ponto negativo disso é algo bastante mundano: o preço desse material. Enquanto Tracks é facilmente encontrado por preço bastante acessível, condizente com um lançamento de quatro CDs, Tracks II vem em uma caixa luxuosa com sete CDs e mais um punhado de material extra que encarece o produto e o torna proibitivo para o fã que não quer despender alguns milhares de reais. Para aplacar um pouco esse problema foi lançado um álbum duplo com vinte faixas chamado Lost and Found: Selections from The Lost Albums. Essas vinte faixas prometem ser os melhores momentos dessa caixa e no encarte você consegue identificar de qual daqueles projetos que elas fazem parte. O item acaba sendo perfeito para quem quer ter acesso à essas músicas e não quer dispender de um rim.

Quase ao mesmo tempo, é lançado nos cinemas a cinebiografia Springsteen: Deliver Me From Nowhere, que dramatiza de forma um pouco diferente do que lemos em sua biografia o seu período de vida durante as composições e gravações de Nebraska. Aproveitando a promoção do filme uma edição especial do álbum é lançada sob o nome Nebraska ‘82: Expanded Edition, que traz, (adivinhem!!!), mais material inédito, dessa vez da época em que ele se isolou em uma casa e começou a gravar em um gravador de 4 faixas as músicas para seu novo álbum. Essas faixas incluem raridades acústicas como “Losin’ Kind”, “Child Bride” e “Downbound Train” em versões caseiras, assim como gravações do período que nunca foram oficialmente catalogadas em nenhuma compilação anterior.

Porém, a meu ver, o principal atrativo desse material são as versões das músicas do álbum em formato elétrico, acompanhado da E Street Band. No box esse material vem em um CD separado e tem o nome de Eletric Nebraska e nem mesmo Springsteen sabia que esse material existia em seus arquivos. Como sabemos, ele não ficou satisfeito com esse formato na época, muito por conta de tudo o que ele estava passando em sua vida pessoal, e preferiu lançar o disco com as versões caseiras que tinha feito sozinho no violão e gaita, para desespero da gravadora. Uma das curiosidades desse material é uma versão inicial de “Born in USA”, que entraria somente no sucessor de Nebraska e que se tornou mais um fenômeno em sua carreira.

Poderia terminar o texto aqui mesmo, mas é claro que não acabou. Mesmo considerando esses grandes projetos citados acima, o material de sobras oficialmente lançado por Springsteen vai além deles. Em seus singles e EPs muitos materiais que não entraram nos discos estão espalhados. Não duvido que em algum momento tudo isso seja reunido num lançamento único. Particularmente eu prefiro que seja assim, pois não tenho coragem e nem dinheiro suficiente de começar a ir atrás desse tipo de material. Só espero que se um dia isso sair, não seja tão custoso quanto foi o Tracks II.

Desde os anos 1970, o formato single foi terreno fértil para músicas que não entravam nos álbuns. Lados B como “Held Up Without a Gun”, “Loose Change”, “Lucky Man” e “Two For The Road” circularam inicialmente apenas nesse formato. Algumas acabaram absorvidas por compilações posteriores, mas outras permaneceram dispersas e conhecidas apenas pelos colecionadores mais ávidos. Em vários casos, as versões lançadas nos singles diferem daquelas que apareceriam anos depois em caixas retrospectivas. Os EPs também desempenharam papel relevante. Um exemplo central é Blood Brothers, lançado durante a reunião temporária da E Street Band nos anos 1990. Nesse EP uma versão de “High Hopes” que seria incluída em um álbum somente muitos anos depois como faixa título de seu álbum de 2014.

Outro território importante são as trilhas sonoras. Springsteen compôs músicas exclusivas para o cinema, como “Dead Man Walkin’”, “The Wrestler” e “Philadelphia”. Algumas foram posteriormente incluídas em coletâneas, mas não necessariamente nos boxes de sobras.

Ao observar todo esse panorama, torna-se evidente que o material fora dos álbuns de estúdio forma quase uma discografia paralela. Springsteen sempre trabalhou com abundância criativa. Ele grava ciclos completos, testa abordagens, abandona projetos inteiros e retoma ideias décadas depois. O resultado é um catálogo que se expande lateralmente, revelando não apenas o que foi lançado, mas também o que poderia ter sido.

Para o fã casual, os álbuns oficiais, que já é um material extenso, contam a narrativa principal. Se algo ficou claro ao longo dessas décadas é que o arquivo de Bruce Springsteen não é apenas vasto, ele é dinâmico. E talvez seja exatamente isso que mantém a chama acesa: a certeza de que, em algum estúdio, em alguma fita catalogada, ainda existem histórias esperando para serem ouvidas. O que será que será apresentado nos próximos anos? Um Tracks III? Uma expansão de algum outro clássico? Novos discos de covers? Não dá para saber, mas é certo que alguma coisa ainda está guardada em alguma gaveta por aí.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.