Por André Kaminski

Tema escolhido por Diego Camargo

Com Davi Pascale, Fernando Bueno, Mairon Machado e Ronaldo Rodrigues

Com nome brega e tudo mais, esta é a mais nova seção da Consultoria do Rock. Como forma de voltarmos com alguma frequência com as publicações coletivas, criamos um novo formato para que um consultor de cada vez escolha um tema de sua preferência e cinco discos relacionados a ele para ouvirmos e comentarmos. Lembra um pouco o Consultoria Recomenda, mas lá cada participante escolhe um disco dentre vários temas sugeridos por todos.

Diego Camargo, morando lá na fria Polônia, terra de meus ascendentes, foi o selecionado da vez para escolher um tema. E nos brindou com cinco discos de rock polonês que, em geral, ficaram mais restritos ao seu país de origem. Nós mesmos conhecíamos poucas destas bandas. E cá estamos ouvindo e comentando. Há mais alguma banda polonesa que cante em polonês que ache que mereça aparecer por aqui? Desça a barra de rolagem e escreva lá nos comentários!


Czesław Niemen – Enigmatic [1970]

Diego: Não é fácil falar de Niemen e eu nem vou tentar. Sei que qualquer coisa que eu escreva não vai explicar a história do artista e também nem vai significar nada para o leitor. Niemen é parte da herança cultural da Polônia, um herói, um gênio, uma das maiores vozes já surgidas na música polaca. Niemen foi o primeiro artista polaco a ganhar um disco de ouro (100 mil cópias em 1967 com o disco Dziwny Jest Ten świat (Estranho É Este Mundo), onde a faixa título é provavelmente umas das coisas mais fortes já gravadas neste pedaço do planeta. Mas Niemen não queria os louros da fama ou o Sucesso, não queria discos de ouro, queria a liberdade da criação. Depois do sucesso do primeiro trabalho e de dois discos de estúdio (um ironicamente chamado de Sukces), Niemen alçou vôos mais altos. Gravado no final de 1969 e lançado em Janeiro de 1970 Enigmatic está MUITO à frente do seu tempo. O rock de órgão a la Deep Purple já está aqui quando ainda estava engatinhando na Inglaterra. O Rock Progressivo já estava aqui como na faixa de abertura e seus mais de 16 minutos “Bema pamięci żałobny – Rapsod” , enquanto também ainda estava engatinhando na Inglaterra. Mas pra mim a coroa de glórias de Enigmatic fica com “Jednego Serca” (Um Coração), uma música que está conectada à cada Polaco e que tem uma carga emocional absurda. Sem mais, apenas a tradução da letra de “Jednego Serca” para que se possa entender um pouco do que se passa:
Um coração!
Um coração! Tão pouco! Tão pouco
Eu preciso de apenas um coração nesta terra
Um que tremeria com amor ao lado do meu coração
E eu ficaria quieto entre os silenciosos
Uma boca – da qual eu beberia felicidade por toda a eternidade
Um par de olhos nos quais eu poderia olhar ferozmente
Vendo-me um santo entre todos os santos
Um coração e duas mãos que cobririam meus olhos
Então eu poderia dormir, sonhando com um anjo
Que me leva em seus braços para o céu
Um coração – eu preciso de tão pouco
Mas claramente eu estou pedindo muito …

André: Nossa, gostei bastante disso aqui. Um mistura de uns cantos sacros gregorianos, umas influências de blues e jazz junto àquela pegada rock progressiva setentista sinfônica inesquecível é o que esta pérola polonesa nos apresenta. Para alguns, os vocais podem soar muito melodramáticos, mas para mim isso só deu um certo charme a mais a sonoridade complexa presente neste disco. Começo de lista com o pé direito!

Davi: Quando o disco começou a tocar, tive a impressão que seria um disco pentelho, mas graças a Deus, a impressão foi falsa. Esse é, certamente, o melhor trabalho dessa lista. Predominado por seu órgão hammond e sua voz poderosa, Niemen entrega uma sonoridade bem interessante mesclando elementos do soul, do blues e do jazz. As canções são muito bem construídas, os músicos que o acompanham são excelentes (embora o saxofonista goste de se intrometer onde não deve, às vezes). “Jednego Serca” e “Mów Do Mnie Jeszcze” são grandes canções. O trabalho de guitarra é muito bom em todo o álbum. Se conseguisse transformar o saxofonista em um ser menos Aparecido Gomes e cortasse a introdução de órgão e coral de igreja em 1/3 na faixa “Bema Paimeci Zatobny – Rapsod” teríamos um álbum perfeito. De todo modo, trabalho bem bacana. Sigamos…

Fernando: Já de cara fiquei com a imagem de que esse músico ser uma espécie de Elton John polonês, mas depois que percebi que tinha começado por uma música que não era a abertura do disco. Convenhamos que quase ninguém presta atenção à um nome de música que não consegue sequer pronunciar, não é? A longa faixa inicial em que não engata logo e parece não sair de sua introdução dispersou um pouco a atenção. Mas quando ele começa a cantar já muda tudo de figura. Gostei dos timbres do teclado a la “Whiter Shade of Pale” e da interpretação vocal de Niemen. A segunda faixa tem solos de vários instrumentos, inclusive um sax, o que me remeteu ao Van der Graaf Generator. Ouvi o discos, aliás, todos os discos dessa lista, sem me preocupar em ler sobre o artista e imagino que deva ser grande em seu país, pois tem muita qualidade.

Mairon: O único nome da lista que eu conhecia aparece mudando de fase, colocando um dos pés no “prog”. Niemen é uma espécie de Roberto Carlos polonês (Diego, se eu estiver errado, me avisa), perambulando por vários gêneros e sendo um ídolo principalmente nos anos 60 e 70. Ele foi o responsável por revelar o grupo SBB, do qual sou um fã fiel. Temos aqui a origem dessa guinada prog, começando exatamente nos mais de 16 minutos da linda faixa de abertura de Enigmatic, “Bema Pamięci Załobny Rapsod”, com Niemen debulhando seu órgão por mais de seis minutos, soltando o vozeirão em trêmolos vocais arrepiantes, sinos tubulares, corais, lindas passagens de guitarra e tudo que um épico progressivo tem direito. “Jednego Serca” tem uma pegada mais bluesy, principalmente na linha de guitarra e na condução da mesma, lembrando Joe Cocker do início de carreira, com um belo naipe de metais.  O mesmo ocorre em “Mów do Mnie Jeszcze”, onde a guitarra é quem manda com um belo solo. A experimental “Kwiaty Ojczyste” privilegia guitarra e órgão, surpreendendo com um sensacional solo de saxofone. Para muitos, esse é o melhor disco de rock polonês de todos os tempos. Não sei se é, mas que é um dos melhores, com certeza.

Ronaldo: Tecladista nascido em Belarus, mas radicado na Polônia, que contou com os futuros membros do SBB em sua banda de apoio. O disco tem fortes influências da música litúrgica/gospel e um clima soturno que perpassa toda a obra. Seu vocal é extremamente dramático e vez ou outra é interrompido por alguma guitarra mais blueseira; pilotando um poderoso Hammond, Niemen investe forte em melodias marcantes e até algo com influência da soul music norte-americana, obviamente que com um fortíssimo sotaque europeu. Algo bem com espírito de época e cheio dos clichês do rock do fim dos anos 60.


Lady Pank – Lady Pank [1983]

Diego: O Lady Pank é sem dúvida a banda de Pop Rock de maior sucesso da Polônia. Existe desde 1981, tem mais de 20 discos gravados e segue enchendo os ginásios por onde passa (comprovei isso em um excelente show que a banda fez em 2018 aqui onde eu moro). Eu traço um paralelo entre o Lady Pank com muitas bandas brasileiras contemporâneas, mas em especial o Titãs, com uma diferença, explico. As duas bandas começaram a gravar juntos, o Lady Pank em 83 e o Titãs em 84, as duas bandas bebiam na fonte do new wave/ska popularizada pelo The Police e as duas bandas mudaram MUITO com o passar das décadas. A diferença é que o Lady Pank alcançou seu pico… no primeiro disco, e daí foi a queda. Enquanto o Titãs demorou alguns anos pra fazer o mesmo. Nos anos 80 as duas bandas fizeram new wave e experimentaram. Nos anos 90 as duas bandas posaram de alternativos e gravaram discos pesados. As duas bandas no final dos anos 90 se tornaram Pop e ali ficaram sem mudar sem som desde então. As duas bandas gravaram acústicos, as duas bandas gravaram discos que repaginavam suas próprias músicas, a única diferença é que o Lady Pank gravou disco com orquestra e disco de Natal o Titãs não, ainda… Lady Pank de 1983 é o melhor disco da banda, ponto! Das 10 músicas do disco 8 são clássicas, tocam em rádio e todo mundo conhece. Da primeira faixa “Mniej niż zero” (Menos Que Zero) até a última “Moje Kilimandżaro” (Meu Kilimanjaro) o grupo desfila por um ska/reggae de branco (mas com qualidade), pitadas de new wave aqui e ali, um instrumental esperto, um vocalista carismático e um repertório de primeira. Incrível notar a rápida mudança, no entanto. Já no segundo disco todo o ska/reggae tinha ido embora e a banda adotara a new wave completamente, mais errando do que acertando. Incrível disco e mais incrível ainda por ser tão bom, traço outro paralelo aqui com uma banda brasileira, nesse caso o Longe Demais Das Capitais [1986] dos Engenheiros Do Hawaii, dois discos de estréia que não parecem ser os primeiros discos de cada banda.

André: É um disco um tanto estranho porque começa com uma ska mas depois no decorrer do disco vai se notando umas guitarras e baixo típicos do post-punk. Até as fotos dos caras lembram muito mais um post-punk com lápis de olho e talz do que algo mais leve e praiano como o ska. Mas de modo geral, achei um som bacana, embora eu ache que a pronúncia do idioma polonês parece travar um pouco o vocalista em arriscar mais nos tons de voz típicos do ska devido ao excesso da letra “k” que parece ser bastante proeminente nos términos das palavras na língua polonesa (é o que parece como leigo aqui, Diego, só carrego o sobrenome daí). Independente disso, achei um disco bem bacaninha e divertido, mérito principalmente do instrumental.

Davi: Essa banda chegou a causar um certo barulho lá pela metade dos anos 80 com uma canção chamada “Minus Zero”. O álbum que continha essa faixa – Drop Everything – chegou a ser lançado aqui no Brasil, inclusive. O disco que foi indicado é o debut dos garotos e é, basicamente, o Drop Everything cantado em polaco. Pop-rock competente com bastante influência de reggae. Em muitos momentos, lembra o The Police em sua fase inicial. “Kryzysowa Narzeczona” (“Hustler”) tem uma sonoridade bastante parecida aos dos grupos BRock que invadiram as rádios aqui em nosso país nessa mesma época. Contudo, “Fabryka Matp” (“The Zoo That Has No Keeper”) é minha favorita do álbum. Talvez por soar quase como uma versão de algum clássico do The Police, sei lá, mas foi a que mais curti. “Zamki na Piasku” (“Hero”) também é bem interessante, assim como “Dudu” (“Do, Do”) que conta com um trabalho de sax que me remeteu ao trabalho que George Israel fazia no Kid Abelha, embora aqui o sax seja aplicado de maneira mais sutil. Interessante.

Fernando: Sabem o que me lembrou a primeira música? Os Titãs!!! Gosto demais da fase oitentista da banda brasileira e com essa boa lembrança achei muito legal o som da banda, bastante datado, mas acredito que isso não é problema para ninguém que frequenta o site.

Mairon: Quando começou o disco, juro que achei que eram os Paralamas. Daí veio o riff da música, as vocalizações, e eu não soube onde me socar de tanta vergonha alheia e de tanta risada. Após me recompor, finalmente consegue escutar o disco e poder comentá-lo. O que temos é um ska cantado em polonês que soa muito estranho de início, mas depois acostumamos. Ao longo de seus quase 40 minutos, realmente fica uma sensação de ouvirmos o Paralams polonês, principalmente pelas linhas de guitarra, mas por incrível que pareça, isso veio antes que o grupo de Herbert Vianna. Não é ruim, mas honestamente, não consigo ver aproximação entre a fria Polônia com algo tão quente quanto esse tipo de som apresentado pelo Lady Pank.

Ronaldo: Pura new wave, pop rock divertido que deve animar as festas Ploc 80’s Polônia afora.


RSC – Fly Rock [1983]

Diego: O Kansas Polaco! É sério! Comprei esse disco por comprar. Fui na loja uns anos atrás e lá estava ele na promoção, já tinha lido que era um disco Prog, mas nunca tinha ouvindo nem um segundo dele. Levei o CD pra casa, coloquei no player e… surpresa, era o Kansas Polaco! A surpresa foi enorme já que o Kansas nunca fez sucesso na Polônia, então ter uma banda que segue os passos deles é mais do que estranho, mais estranho ainda é que Kansas é uma das minhas bandas favoritas então o RSC caiu como uma luva pra mim. Fly Rock foi lançado em 1983 e é como se o fosse um disco do Kansas se eles tivessem continuado seu caminho prog e não se tornado o insosso grupo de AOR que ele se tornou, mais do que evidente no disco lançado no mesmo ano, Drastic Measures, uma droga de disco. O RSC tem suas peculiaridades e seu próprio som em vários momentos, mas é logo de cara na faixa de abertura mais Kansas que o Kansas nunca gravou, “Jeśli czekasz” (Se você está esperando), é que vemos o quanto a banda é boa. Violino como instrumento base, os vários riffs ganchudos, a troca constante de tempos e sua frenética vontade de ir mais rápido do que realmente deveria. Uma aula de como se fazer prog incorporando os elementos dos anos 80 e não se rendendo à eles!

André: Achei interessante o fato usar bastante o violino que se torna, junto aos outros comuns do rock, um dos instrumentos em mais destaque deste bom disco progressivo, já com o estilão oitentista que influenciava o gênero nesta década. O que mais me chamou a atenção é que  a mixagem principalmente dos teclados e do baixo me lembra muito o chip de som do lendário Mega Drive da Sega usado nas sonoridades de seus jogos. E eu falo isso elogiando. A pegada mais cadenciada de “Aneks Do Snu” e a vibrante “Pralnia Mózgów” com um teclado brilhante foram as que mais me agradaram. Porém, achei que em “Kradniesz mi Moją Duszę” eles deram uma “chupinhadinha” de “Doctor Doctor” do UFO. No mais, adorei conhecer este disco.

Davi: Tem algumas bandas dessa indicação que eu gostaria de ter tido a chance de entender as letras, o que não foi possível, essa é uma delas. RSC é uma banda de rock progressivo. Embora esse álbum tenha sido lançado em 1983, soa como um trabalho do final dos anos 70. Os músicos são muito bons, o tecladista tem bastante evidência e acredito que seja quem alcance maiores voos nos arranjos. Durante a audição é facilmente perceptível um acento pop, digamos assim, na construção das canções, principalmente nas vocalizações. Essa característica, somado ao uso do violino, rendeu aos rapazes o apelido de Kansas polonês.  Acho um pouco exagerado, mas entendo a relação. As duas primeiras músicas, tinha achado um pouco chatinhas, porém a partir de “Aneks do Snu” o trabalho melhora consideravelmente. “Kradniesz Mi Moja Dusze” e “Na Dlugie Pozegnania” são as minhas favoritas desse disco. Bom álbum…

Fernando: Acredito que já ouvi essa banda para alguma matéria aqui da Consultoria ou até mesmo por indicação direta do Diego. Claro que a base de tudo aqui é o rock progressivo, mas é legal quando eles se arriscam em faixas mais rápidas como “Pralnia Mózgów”. Remeteu ao som progressivo feito nos Estados Unidos como Kansas, principalmente pelo uso do violino. Muito legal. Se aparecer por aí já trago para a coleção.

Mairon: Progressivo oitentista sensacional, levado por violino que me lembrou bastante Sagrado Coração da Terra, mas com mais pegada no baixo e na bateria. “Aneks Do Snu” é uma prova de fogo para ver se você tem aptidão ao disco, pois é uma faixa bastante atraente, onde o ritmo alucinante pode te deixar desnorteado. A faixa de abertura, “Jeśli Czekasz”, é uma paulada”. A baladaça “W Ucieczce Przed Sobą” traz muito do Genesis como quarteto. E que delícia ouvir “Kradniesz Mi Moją Duszę”, instrumental suave para botar qualquer progger de quatro pé. Claro que nem tudo são flores (determinados momentos de “Dzień Na Który Czekam” não me passaram), mas é muito bom ouvir algo tão bem trabalhado quanto esse disco, ainda mais para a década de 80.

Ronaldo: Uma insólita combinação de neo-prog com algo entre Kansas e Jethro Tull, prejudicada por infelizes escolhas de sonoridade. O disco todo soa muito mal (especialmente a bateria, a guitarra e o vocal), ainda que fique clara uma busca por uma sonoridade mais setentista, o que ajudaria mas não salvaria o álbum de uma classificação ruim. As composições são por demais primárias, assim como as execuções da bateria e do baixo, e ainda que a presença do violino traga algum charme, nem sempre ele foi bem aplicado.


Republika – Nowe Sytuacje [1983]

Diego: O Republika é outro marco na história da música polaca. Em pleno comunismo a banda gritava a plenos pulmões que as coisas estavam erradas e tiveram diversos problemas por isso, tanto que a banda durou 2 discos apenas (gravados em apenas 2 anos) e só retornariam nos anos 90, depois da queda do comunismo. Eu definiria Nowe Situacja como um disco de art punk, apesar do som óbvio do Post Punk e do da influência da coldwave o disco bebe em fontes mais artísticas e tenta quebras paradigmas punks pra tornar sua mensagem ainda mais interessante. Inclua aí o minimalismo enigmático pungente das letras e temos um clássico atemporal, mesmo que fique claro que é um produtos dos anos 80. Se você gostou desse disco corra pra ouvir Nieustanne Tango [1984] (Tango Constante) também. Recomendado!

André: Já nas duas primeiras músicas fiquei com a impressão de estar ouvindo o Titãs e o seu clássico Cabeça Dinossauro de 1986. Com a diferença de também fazerem o uso de flauta em suas composições. Embora eu ainda prefira o disco da banda brasileira, os polacos me agradaram aqui principalmente com a faixa “Arktyka” que é um ska ardido e em “Bedzie Plan” um pop rock cheio de energia que lembra também um pouco o Skank. Se gosta de Titãs, Paralamas do Sucesso e Skank, esse disco vai te agradar tranquilamente.

Davi: Esse é outro grupo que mudou de formação e de estilo com o andar da carruagem. Formado em 1979, em Torun, os meninos iniciaram sua trajetória fazendo um som altamente influenciado por Jethro Tull. Contudo, a jogada não decolou. Os músicos não conseguiram criar uma leva de fãs e o cantor abandonou o barco. Grzegorz Ciechowski tomou à frente e a partir de então, passaram a apostar em uma linguagem mais new wave. Também teria sido interessante descobrir o que retratam as letras, já que muitos que escrevem sobre a banda se referem às mesmas como poéticas. O som praticado pelo conjunto, contudo, não me cativou. Não gostei do trabalho vocal de Gzergorz e nem dos arranjos criados para o disco. “Bedzie Plan” é a que considero melhorzinha, mesmo assim longe do que consideraria uma boa canção de fato. Para mim, o mais fraco da lista.

Fernando: Achei que essa última banda – foi a última que ouvi – seria de heavy metal, mas o Diego tem preconceito com o estilo. Só pode! Eu mesmo já falei de algumas para ele e elas poderiam estar aqui. Achei a faixa de abertura ainda pior que a do Siekiera. Tem uma passagem de bateria na segunda faixa que parece que o músico está tendo um ataque epilético e acho que é proposital pois o nome da música me parece que é Sistema Nervoso.

Mairon: Som tipicamente oitentista, com baixo e bateria bem característico da época. A diferença, claro, é o vocal em polonês, que torna tudo um pouco estranho nas primeiras audições. Mas curti que os caras inovam, tipo, colocando uma flauta aqui (“System Nerwowy”), um solo de guitarra com efeitos (“Arktyka” e “Halucynacje”), e o embalo de violão e baixo da sensacional “My Lunatycy”. Não é o tipo de som que eu vá adquirir, mas eu curti ouvir o disco sem problemas, e conhecer o rock oitentista polonês então, foi um belo disco representativo do gênero.

Ronaldo: Um pop rock instigante, com cruzamentos inusitados entre batidas constantes da mesma ninhagem do krautrock com a fragmentação de células musicais como de bandas da new wave ou dos Talking Heads. O recheio da música traz lampejos de sintetizadores, flautas e outros instrumentos exóticos, bem como onomatopéias vocais. Seria como se fossem os Titãs, se estes fossem melhores músicos, com um resultado extremamente datado nos 80’s.


Siekiera – Nowa Aleksandria [1986]

Diego: O ápice do post-punk polaco! Nowa Aleksandria é o disco de estréia, e também o último, do grupo. Que surgiu em 1983 numa pequena cidade de 50 mil habitantes e que desbamcou todos os grupos modernos vindos da capital mas ao mesmo tempo formando uma cena na Polônia que incluia artistas como Klaus Mitffoch, Lech Janerka (o disco Historia Podwodna quase entrou nessa minha lista também) e Obywatel G.C. e bandas como Aya RL, Voo Voo e Rezerwat. Nowa Aleksandria não é para ser ouvido em qualquer momento e provavelmente muita gente ouviu ele num momento errado vai torcer o nariz pra ele, mas mesmo assim não sendo pra qualquer momento e sendo bem sombrio é um discaço!

André: Não é um disco ruim, mas foi o que menos me agradou. Daquelas bandas post-punks oitentistas tais como Siouxsie and the Banshees, porém um pouco mais influenciado pelo hardcore. “To Slowa” é a faixa que mais me agradou visto que tem uma pegada densa e guitarras ótimas. Quero que o leitor entenda que apenas não o aprecio por pura questão de que não se encaixou muito com os meus ouvidos, mas que dentro de quem curte esse tipo de som, ela possui um jeitão diversificado e interessante. Acho que o Alisson Caetano iria gostar dessa banda.

Davi: Essa banda teve início em 1982 como uma banda punk, onde os músicos arriscavam alguns covers do The Exploited, inclusive. Contudo, o guitarrista Tomasz Adamski resolveu reformular a banda em 1984 e, embora tenha mantido o nome, alteraram significativamente o visual e a sonoridade. Agora, faziam um som puxado para o que ficou conhecido como pós-punk. O som da banda traz bastante teclado, bastante experimentação. Carregam fortes referências de grupos como Killing Joke e Joy Division. Definitivamente, não é minha praia, mas se você curte esse tipo de som, vale uma audição. O trabalho é, indiscutivelmente, bem feito. Faixas preferidas:  “Idziemy Przez Las” e “Nowa Aleksandria”. E ahhh… Aquela linha de baixo de “Na Zewnatrz”, já ouvi em algum lugar hein…

Fernando: Confesso que a repetição sem fim da batida da primeira música me cansou um pouco e acabei ouvindo o disco com um pouco de má vontade. Pelo jeito a Polônia é um berço desse post punk/new wave oitentista, afinal o Diego recheou suas indicações com bandas assim. Prometo que vou tentar de novo, afinal ao longo da audição uma ou outra passagem me chamou atenção, então não vou descartar logo de cara.

Mairon: Esta banda apresenta um som mais experimental, com guitarras ácidas e muitos sintetizadores, além de um vocal bem enigmático. As instrumentais “Czerwony Pejzaż” e “Na Zewnątrz” foram as que mais curti, principalmente pelo trabalho de teclados da primeira e o ritmo percussivo da segunda. O disco inteiro lembrou-me algo do pós-punk inglês, tipo uma mistura de Joy Division com Bauhaus e Siouxsie & The Banshees, mas mais viril, se é que vocês me entendem. Não sei se foi pelo dia que ouvi, mas não casou muito com meus ouvidos. Posso dar outra chance no futuro.

Ronaldo: Dificilmente associaria esse tipo de som com a Polônia. O som do Siekiera neste álbum é algo acelerado, catártico, industrial e cinzento, com forte herança pós-punk, vocais melancólicos, muitos teclados. Um tipo de som que associaria de cara ao Joy Division. Algumas passagens etéreas (como as presentes na faixa título) se destacam no meio dos riffs de guitarras magrinhas e de músicas que soam meio como releitura uma das outras.

Republika

14 comentários

  1. Mairon

    Tu vê só, eu achei parecido com Paralamas, e o Fernando com Titãs. Mas é tudo brazuca no geral …

    Responder
    • Fernando Bueno

      E eu disse que gostei pq achei parecido com Titãs, daí os outros que o pessoal achou parecido com Titãs eu não gostei…rs

      Responder
  2. Fernando Bueno

    Ahhhh
    Achei que o Diego colocou dois progs aí pq ficou com vergonha de manter um estilo só nas indicações

    Responder
    • Diego Camargo

      hahahaha nah, é que eu tentei pinçar discos que eu acho bom e que tem história também.

      Quando eu perguntei pra minha mulher que discos ela escolheria ela disse o primeiro do Maanam e o primeiro do Coma, que eu não concordo MESMO! hahahah

      Responder
  3. Diego Camargo

    Só pra constar (porque eu também esqueci de mencionar) o Saxofonista no disco do Niemem é o Michał Urbaniak, que é um músico extremamente conhecido no circuito do Jazz. Esse foi o comecinho da carreira dele.

    Responder
  4. Diego Camargo

    Mairon, acho que eu consegui sintetizar no meu texto o que o Niemen é. Roberto Carlos Polonês em termos de popularidade, é, pode-se dizer que sim. Em termos musicais? Nem perto, já que enquanto o RC ficou cada vez estagnado durante os anos 70 o Niemen gravou cada vez mais discos estranhos.

    Tudo bem que ele gravou uns sons em Russo e Alemão também, mas acho que foi pra comprar a liberdade artística dele dentro da gravadora, já que na época basicamente só tinham a Polskie Nagrania Muza e a Pronit.

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    • Mairon

      Sim, eu quis dizer como popularidade. E tenho uma coletânea do Niemen para venda. Faço brecinho!!!

      Responder
    • André Kaminski

      Também achei que viria um SBB, mas no geral, gostei bastante das escolhas do Diego.

      Responder
    • Mairon

      Se fosse indicar algo do SBB, com certeza indicaria o excepcional Wołanie O Brzęk Szkła, para mim o melhor disco da banda!!

      Responder

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