Por André Kaminski

Tudo começou em 1985 quando cinco pirralhos de Seattle começaram uma banda chamada Sanctuary. A ideia deles era tocar um heavy metal pesado aos moldes dos conterrâneos do Savatage e do Jag Panzer. Esses moleques eram Warrel Dane (vocais, R.I.P.), Lenny Rutledge (guitarra) e seu primo Sean Blosl (guitarra), Jim Sheppard (baixo) e Dave Budbill (bateria). Eles conseguiram um contrato com a Epic Records graças a Dave Mustaine do Megadeth.

Segundo contam, o Megadeth foi fazer um show em Seattle e a banda foi lá vê-los com planos de entregar uma demo a Mustaine. Após a apresentação, eles convidaram umas amigas bonitas que conheciam e foram até o hotel em que a banda estava hospedada fazendo um after party. Obviamente, as garotas foram convidadas a participar da festa. E a banda entrou de penetras dizendo que as acompanhavam. Após uns tragos, Lenny ofereceu a Mustaine que escutasse a demo deles ao qual Dave, que nunca aceitava isso, relutantemente pegou para ouvir. Ele resolveu após um tempo escutar e gostou muito da sonoridade dos caras e os recomendou a gravadora Epic Records que os aceitou de imediato. Eles lançaram dois álbuns no final dos anos 80 que são Refuge Denied [1988] e Into the Mirror Black [1990], discos muito elogiados pela crítica da época.

Jeff Loomis (guitarra), Van Williams (bateria), Warrel Danne (vocais) e Jim Sheppard (baixo)

Porém como sabem, Seattle se destacava por um outro gênero musical que estava em alta dentro do rock da época . E sabendo que esses jovens eram da cidade e visando o aumento das verdinhas em suas contas bancárias, a gravadora pressionou fortemente para que a banda mudasse a sua sonoridade para o estilo grunge já no ano de 1992. A banda literalmente quebrou o pau entre eles, com Warrel Dane, Jim Sheppard e Jeff Loomis (que era o guitarrista da tour visto que Sean Blosl havia deixado a banda dois anos antes) saíram para formar o Nevermore junto ao baterista Van Williams. Lenny Rutledge e Dave Budbill formaram o Undone, banda que não deu em absolutamente nada. E assim começa a história de uma das bandas mais queridas do heavy metal dos anos 90 e 2000.


Nevermore [1995]

Este primeiro disco ainda traz um heavy/thrash um tanto primitivo, sem ainda uma direção definida, lembrando a sonoridade que o Iced Earth fazia nesse mesmo período. Algumas passagens mais melódicas intercaladas com riffs pesados geravam uma atmosfera bastante agonizante enquanto outras são daquelas de fazer banguear o pescoço. Porém, sinto que falta um capricho maior nas composições deste álbum, alguma canção que te faça mesmo prestar total e completa atenção a ele, com algum riff mais ganchudo ou uma linha instrumental que te impressione. O maior destaque são os vocais de Warrel Dane que variam muito no álbum todo, até mesmo dentro de uma mesma faixa ele canta de duas a três formas diferentes. As canções que mais destaco são “C.B.F.” ao qual Dane consegue fazer um misto de vocal gritado, melódico à la Matt Barlow do Iced Earth e um falseto ao melhor estilo King Diamond e “Garden of Gray”, com um destaque especial as guitarras de Loomis. No geral, um disco mediano com bons momentos, o Nevermore tinha muito ainda a melhorar.


The Politics of Ecstasy [1996]

Apesar deste disco ser um pouco melhor que o anterior, ainda acho que a banda não chegou aonde tem potencial para chegar. Os riffs são ainda mais pesados (em parte, devido a entrada de Pat O’Brien como segundo guitarrista), as temáticas líricas são baseadas no desgosto aos sistemas políticos e Warrel Dane continua soltando a voz em mais uma variedade de estilos que são incontáveis. Sinto que nesse disco, o baterista Van Williams resolveu soltar muito mais o braço, enfiando um peso maior nas batidas e com viradas sensacionais nas muitas quebras de ritmos que a banda utiliza, se assemelhando em uma mistura de thrash e metal progressivo. Um pouco mais de capricho nas composições e a banda vai chegar em um nível excelente, que é o que ocorrerá no próximo disco. Neste disco, os maiores destaques vão para o peso furioso de “This Sacrament”, as letras excelentes de “Tiananmen Man”, cujo tema se trata do conhecido “Tank Man”, o chinês que em 1989 se prostrou a frente dos tanques do exército de sua nação e que acabou virando símbolo mundial. Também gosto bastante de “42147”, canção que possui um longo instrumental baseado em speed metal conhecido das décadas anteriores e muitos solos de guitarra. Ótimo disco, mas as coisas ainda vão melhorar alguns anos depois.


Ao final da turnê O’Brien resolve deixar o Nevermore insatisfeito com o direcionamento musical da banda, sendo que ele preferia estar envolvido com alguma grande banda de death metal. Ele acaba entrando para o Cannibal Corpse, banda em que toca até hoje.


Dreaming Neon Black [1999]

Para mim, a obra prima da banda. Em 1997, eles resolvem efetivar Tim Calvert (Ex-Forbidden, R.I.P.) como segundo guitarrista. Um álbum conceitual pesado, denso, agoniante e com uma história triste por trás dele. O que inspirou o álbum foi o fato de uma namorada de Warrel Dane, cerca de uns 2 anos antes do disco ter sido lançado, ter entrado para uma seita religiosa que fazia o uso de drogas pesadas. Ela simplesmente sumiu e nunca mais foi vista até hoje, o que se imagina que ela tenha morrido de alguma forma. Nesta mesma época, Dane contava que sofria com muitos pesadelos com ela desaparecendo às suas vistas. O disco acaba representando a dor dessa sua perda. E o tema do álbum trata justamente do sofrimento de um cara que perde a sanidade pela morte de sua amada. As melhores músicas são”I Am the Dog” em que uma guitarra pesada e os vocais cheios de dor misturada a uma raiva em que ele grita pelos sonhos que teve pela sua amada. “Dreaming Neon Black”, a faixa-título, inicia com uma guitarra desplugada limpa em que Dane novamente canta de tristeza pelo sumiço dela e que Christine Rhoades (uma vocalista que cantou em várias bandas menores e que era amiga deles) faz uma participação cantando as partes que representavam a moça. Uma bela faixa emocional. A décima segunda canção chamada “No More Will” meio que encerra as esperanças do homem que não deseja mais viver em mais uma canção de cortar o coração. Um disco doído, triste, mas que aparentemente este tipo de álbum costuma trazer muita qualidade em aflorar a veia artística. Espero que Warrel Dane tenha melhorado com o tempo logo após desabafar por aqui.


A banda com Tim Calvert (o primeiro da direita).

Continuando a sina de ter azar com seus segundos guitarristas, Tim Calvert resolve deixar o Nevermore após a turnê deste álbum pelo fato de que gostaria de seguir uma carreira como piloto de aeronaves. Infelizmente, pouco tempo depois, Calvert foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica e acabou falecendo no ano passado devido ao avanço da doença.


Dead Heart in a Dead World [2000]

Este é o meu segundo favorito da discografia deles. Lançado apenas um ano depois, este disco traz a novidade do guitarrista Jeff Loomis fazer o uso de uma guitarra de sete cordas em um estilo que soa muito mais como um metal moderno. Eles continuam naquela vibe thrash/groove, mas o uso de mais quebras de ritmos e técnica os deixaram ainda mais com cara de metal progressivo, coisa que já ocorria nos discos anteriores mas em menor escala. As temáticas aqui voltam a falar de política mas desta vez soando até mais reflexivas e filosóficas. Neste álbum que mistura técnica e muito groove, temos canções excelentes como da excelente faixa de abertura “Narcosynthesis” em que a porradaria come solta. Ainda gosto da insanidade presente em “Engines of Hate”, uma mistura de peso e melodia bem típico daquelas bandas pesadas progressivas. Mesmo uma balada como “Insignificant” não perdem no peso das guitarras apesar do seu ritmo mais vagaroso. Neste disco há um cover de um clássico de Simon & Garfunkel que é “The Sound of Silence”, que ficou irreconhecível, mas ainda muito satisfatório a meu ver. Muitos fãs consideram este disco como o seu favorito, o que é compreensível devido a qualidade de suas composições. Para quem gosta de um heavy metal pesado mas soando moderno, este disco é um prato cheio.


Enemies of Reality [2003]

O lançamento deste álbum foi um tanto quanto tumultuado. Este era o último álbum pelo contrato com a gravadora Century Media. A gravadora estava pressionando a banda a assinar um novo contrato enquanto eles queriam primeiro que o contrato terminasse antes de assinar um novo já que outras gravadoras estavam oferecendo contratos melhores. Houve um stress e o orçamento do álbum foi cortado em grande parte pela Century Media, mas eles mantiveram suas posições e só assinaram quando ofertassem melhores condições financeiras. A gravadora cedeu e o disco saiu produzido por Kelly Gray. Na época, o trabalho foi bastante criticado pela sua produção inferior mesmo aos primeiros álbuns da banda. Em 2005, ele foi remixado por Andy Sneap, que já havia sido o produtor do disco anterior, e assim as críticas quanto a sonoridade do álbum melhoraram. Porém, eu particularmente percebi que a banda deu uma decaída em termos de arranjos e composições. Aqui a banda desce a mão em mais velocidade e riffs pesados, todavia, nem sempre mais peso significa mais qualidade. Não é um disco ruim, mas fico mesmo com os anteriores. Gosto principalmente da cozinha criativa de baixo e bateria em “Ambivalent” que geraram um ritmo muito foda nesta faixa e “Never Purify” apresenta um instrumental bem thrash com um excelente solo por parte de Jeff Loomis. “Seed Awakening” é a banda, finalmente, reabraçando de vez suas origens thrashers. Uma faixa que não curti foi “Who Decides”, uma semibalada meia boca. Tal estilo de canção já foi trabalhada muito melhor em álbuns anteriores. É um bom disco, daqueles nota 7, dá de se tirar coisas boas dele, mas sabemos que a banda já fez coisas muito melhores no passado.


A banda com Steve Smyth (o primeiro da esquerda).

Mais uma vez a banda investe em um segundo guitarrista para a gravação do próximo disco. Steve Smyth (ex-Testament) é chamado para compor a formação da banda.


This Godless Endeavor [2005]

A crítica da época amou o disco. Os fãs  já se dividiram entre os que adoraram e os que acharam insosso. Eu particularmente o considero um bom disco, abaixo de outros anteriores da discografia deles, mas que é longe de ser ruim. Novamente eles continuam apostando mais no peso e no groove, deixando as passagens mais thrash/tradicionais de lado. A banda de fato nunca foi lá fácil de rotular, neste disco mais ainda. Tirando o fato de diminuírem um pouco as quebras de ritmos, eles seguem fazendo seu groove/power com guitarras proeminentes e vocais desesperadores de Warrel Dane. “Final Product” continua mostrando que a máquina de riffs de Jeff Loomis parece não ter fim. “Medicated Nation” é uma canção com um forte apelo anti-narcóticos em suas letras embora eu não saiba se alguns dos membros da banda tiveram problemas com drogas. As outras canções ficam entre boas (“Born, “A Future Uncertain”) e médias (“My Acid Words”, “The Psalm of Lydia”), todavia, o sucesso e as boas críticas que receberam contribuíram para serem considerados como uma das grandes bandas destaque dessa década de 2000. Lembro que nesse período. o Nevermore era destaque em muitas publicações, artigos e críticas e o Nevermore parecia estar em seu momento máximo. Porém, internamente, a banda apresentava alguns problemas e brigas internas que culminaram no último álbum a seguir (e que, acreditem, Steve Smyth deixa a banda em 2007. De fato, a banda não tem sorte com seus guitarristas tirando Loomis).


The Obsidian Conspiracy [2010]

Apesar da crítica ter elogiado novamente a banda com altas notas, fico com a opinião de vários dos fãs que o consideram o mais fraco da banda. Há muitos problemas com este álbum em que pouco fazem jus a qualidade e apreço dos fãs pelo Nevermore ao longo dos anos. O disco tem como principal defeito o fato de algumas canções parecem ser “colagens” de diferentes quebras de ritmos o que o deixa um tanto quanto difícil de engolir. “Your Poison Throne” é um exemplo disso. Outro problema é a atmosfera do disco ser um tanto quanto “acessível” no mal sentido em querer soar como se fosse o “Black Album” deles. Não que se queira fazer algum tipo de pop metal, mas sim descaracterizar toda a técnica pela qual a banda apresentava em composições que parecem querer agradar a um público menos exigente. Mesmo Warrel Dane parece mais contido em suas aventuras vocais (o que para os não tão fãs, isso pode soar como positivo). Uma produção mais pobre completa o pacote de um disco fraco e pouco inspirado. Só mesmo a balada “The Blue Marble and the New Soul” me agrada um tanto mais.


Infelizmente, a banda que não andava internamente bem das pernas acabou rachando de vez um ano após este lançamento. Insatisfeitos com Jim Sheppard os tratando como “contratados” ao gerenciar o dinheiro da banda e fazendo ele próprio os pagamentos deles e Warrel Dane dizendo em uma entrevista que nunca teve lá tanta estima por Van Williams, o baterista e o guitarrista Jeff Loomis anunciam suas saídas em 2011.

Van Williams passa a tocar com a desconhecida banda Ghost Ship Octavius, onde está até hoje. Jeff Loomis se concentra na gravação de um álbum solo e logo depois é recrutado para integrar o Arch Enemy. Jim Sheppard após se recuperar de seus problemas de saúde pouco antes da banda acabar, remonta junto a Warrel Dane o velho Sanctuary em que toca baixo até 2016. Não consegui notícias sobre o que tem feito o músico nos dias atuais.

Já Warrel Dane precisa de um parágrafo a parte. Após reviver o Sanctuary, ele tocou algumas vezes no Brasil com a banda e acabou fazendo muitos amigos aqui. Nesse meio tempo, ele começou a vir direto para o nosso país e inclusive recrutou alguns músicos brasileiros para tocarem em seu disco solo, gravando o mesmo em São Paulo. Enquanto ele estava gravando alguns vocais para o seu futuro álbum intitulado Shadow Work, Dane passou mal e teve um infarto em seu quarto de hotel, vindo a falecer em 2017. O restante da banda finalizou o disco e o lançou em outubro agora de 2018. Nem é necessário citar o quanto a comunidade metálica mundial lamentou o fato.

E chega ao fim a discografia comentada dessa incrível banda que marcou uma geração e uma década com discos incontestavelmente fodas. Sem Dane, é improvável que o Nevermore retorne, embora o Sanctuary tenha resolvido dar continuidade em sua carreira. Apesar de alguns baixos, é fato que a banda tem muito mais altos que valem a pena ser deglutidos sendo eles uma das bandas mais originais da década passada. Espero que tenham curtido esta empreitada pelo universo Nevermore!

Jim Sheppard, Warrel Dane, Jeff Loomis e Van Williams.

7 comentários

  1. António Marcos

    Meu conterrâneo fez uma ótima análise. Está de parabéns. Não sou muito fã da banda, mas considero uma resenha pertinente e que aponta adequamente as principais características de cada álbum. Quando puderem façam uma análise do Tool que irá lançar disco novo em Junho. Grato. E que jesus e Mary Chain vos abençoe!

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    • André Kaminski

      Não sabia que era do Paraná, Antonio. De fato, o Nevermore é uma grande banda e agradeço a consideração. Sobre o Tool, acho que é uma banda e um lançamento que vale sim darmos um espaço a ele, vou lançar a ideia para os outros na época que sair. Abraços!

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      • António Marcos

        Olá grato pelo retorno. Sou de Guarapuava

      • André Kaminski

        Eita cara, eu também sou. Hoje moro em Ampére mas nas férias eu estou por aí meio direto passando frio. Abraços!

      • António Marcos

        Quando vier está convidado para comer pinhão assado na chapa do fogão a lenha com dibradinha ou arroz carreteiro (a sua escolha) regado a um bom rock indie.

  2. Daniel Benedetti

    Muito legal ler uma matéria tão boa sobre o Nevermore, que é uma das bandas dos anos 90 de que mais gosto. Tenho os quatro primeiros álbuns em alta conta, mas o meu preferido é mesmo o Dead Heart in a Dead World, pois ele tem faixas como “We Disintegrate”, “The Heart Collector” e “Insignificant”, só por exemplo. Os posteriores eu já não consigo apreciar da mesma maneira. E também gosto muito do Sanctuary, acho o Into the Mirror Black um puta álbum! Parabéns pela matéria.

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