Por Fernando Bueno

Estou certo que todos os nossos leitores são apaixonados por música. Nos dias de hoje quem passa seu tempo lendo sobre isso quando se tem infinitas outras opções de lazer só pode ser um aficionado. Certamente a grande maioria se informa sobre o tema em alguns dos milhares de grupos sobre música do Facebook ou de alguma outra mídia social por aí. Proponho então eu alguém faça uma rápida pesquisa em um desses grupo perguntando por conjuntos musicais expoentes de Cuba. Estou quase certo que dez entre dez respostas vai citar o combo que mistura jazz, salsa, bolero com pitadas de rock: o Buena Vista Social Club.

A banda no final da década de 70

A falta da proliferação de grupos de rock nesse país se deve à proibição ao estilo desde que o regime atual foi imposto à ilha. O rock foi proibido durante o período de 64 e 66 e os Beatles foram taxados de agentes do imperialismo. O personagem mais pop dessa revolução, Che Guevara, pessoalmente fez-se proibir que os bailes “burgueses” continuassem a acontecer. A estranha associação que o rock tem com o comunismo não passa de fruto da imaginação e de admiração de quem não vive/viveu a realidade desses países. Porém o assunto não é política. A ideia é apresentar aos leitores uma alternativa de rock oriunda do solo cubano, sem que seja a banda citada acima. Quando conheci o Sintesis não sabia que eles vinham lá da Ilha de Fidel, achei que eram de algum outro país da América Latina – existe um Sintesis na Argentina, também de rock progressivo, portanto quem for procurar não se confunda. Quando soube que eram cubanos acabei ficando curioso em saber se existiam muitas bandas do estilo lá e acabei descobrindo que não só existem, como o rock progressivo pode se dizer que é a preferência dos habitantes do país.

O Sintesis foi formado a partir de uma colaboração do casal Carlos Alfonso (guitarra) e Ave Valdes (sintetizador) com o pianista Jose Maria Vitier e o guitarrista Miguel Porcel tendo a intenção de explorar novos sons além da mistura de jazz com ritmos latinos que eles faziam antes do Sintesis em um grupo chamado Tema IV. Completavam o line up nesse disco de estréia Silvia Acea (voz e órgão), Eliseo Pino (voz e guitarra), Fernando Calveiro (guitarra), Enrique Lafuente (baixo) e Frank Padilla (bateria).

En Busca de Uma Nueva Flor inicia de uma maneira que logo nos faz remeter à alguma banda do rock progressivo italiano com “Nueve Ejemplares… No Tan Raros”. Tanto o instrumental, quando o trabalho de voz em coro, com alternâncias de vozes muito bem construída, nos faz relacionar com o que era feito no país da bota. Os mais atentos também vão notar logo no início um pequeno defeito que ocorre ao longo do álbum todo – uma variação do volume dos instrumentos entre si em algumas passagens. Acredito que a gravação, compreensivelmente sem tantos recursos, tenha sido prejudicada de alguma forma. Portanto não é algo que desabone o disco. O que também é bastante marcante na primeira faixa é o uso de sintetizadores. O timbre utilizado no moog é parecido com o que o Le Orme usa e abusa em seu álbum Elementi lançado já dos anos 2000, para ser mais exato em 2001.

O destaque em “Ven a Encontramos” novamente são as vozes. Inicialmente cantada apenas por Ave Valdes, mas com a adição das outras vozes ao longo da faixa. Dos oito integrantes do Sintesis, cinco cantam nas músicas, porém não consegui identificar cada uma das vozes e me parece que Eliseo Pino seria o principal cantor por não ser creditado como um instrumentista em todas as faixas – apenas uma faixa aparece ele como o guitarrista e já não estava presente a partir do segundo disco. Entretanto o líder da banda Carlos Alfonso, seria o vocalista principal de fato, relegando Eliseu a um membro secundário do grupo. “Primera Noche” inicia com a habitual grandiosidade que o chamado progressivo sinfônico requer. Mas o clima fica mais ameno ao longo da canção mais sentimental do disco. Quando ouvi pela primeira vez o disco a faixa “Somos La Flor” me remeteu na hora o Mutantes e depois, nas audições posteriores percebi que essa impressão não é real, mas toda vez que ouço de novo fico tentando encontrar a relação que talvez esteja no modo que eles cantam. Na verdade, a real influência, até óbvia, é o Yes mesmo.

O coral em “Poema” lembra aquelas músicas sacras. A linda melodia apenas com as vozes dos músicos levanta o astral da faixa mesmo com as diversas alternâncias ao longo da música. A faixa título inicia com uma bela levada do piano clássico de Jose Maria Vitier. Certamente o grande destaque do disco fazendo com que a escolha do nome do álbum seja mais do que justa. Poderiam ter lançado mão de uma característica do progressivo e estendê-la por mais alguns minutos que ninguém reclamaria.

A seis faixas citadas fazem parte do lançamento original, em LP, e foram gravadas em 1978. Quem procurar por En Busca de Una Nueva Flor provavelmente vai encontrar uma edição em CD que saiu em 1997, a única nesse formato, com duas músicas bônus que teriam sido gravadas em 1981. Como a banda seguiu uma carreira com um número até razoável de lançamentos até o ano de 2004 é estranho que um material gravado 3 anos depois tenha sido incluído no relançamento do CD já que no mesmo ano saiu um outro álbum do conjunto, Grupo Síntesis. Apesar de ter sido gravadas quase três anos depois das outras há uma grande unidade no material dessas faixas bônus com o material original do álbum. Como não consegui ouvir muita coisa da carreira posterior do Sintesis acredito que a inclusão dessas faixas com o material do primeiro disco seja por conta dessa unidade entre o tipo de som, o que sugere que eles tenham mudado um pouco a sonoridade no decorrer da carreira. Outra curiosidade é aparecer no encarte a tradução para o inglês do nome das músicas fazendo o inverso do que é feito na Argentina, por exemplo.

A banda nos dias atuais

En Busca de Una Nueva Flor surge de um lugar que em um primeiro momento não identificaríamos como um berço musical roqueiro, o que Cuba realmente não o é. Basta fazer o exercício que sugeri lá no primeiro parágrafo para saber disso. Porém, se pesquisarmos um pouquinho encontraremos alguns outros exemplos como os mais recentes Anima Mundi mais na linha do metal progressivo e o Voltaire, com algo que poderia ser chamado de art rock. Esses grupos podem ser fruto de um movimento que surgiu no começo dos anos 2000 chamado UJC (União de Jovens Comunistas) de bandas de rock que passaram a dar novas opções ao público cubano. Achei que o show dos Rolling Stones há alguns anos atrás iria abrir as portas de outro grupo para a ilha, mas parece que foi algo pontual. Vamos ver o que acontece no futuro.

3 comentários

  1. Anônimo

    Daqui a pouco surgem bolsominions coxinhas falando sobre a tal “ditadura” cubana dos Castro. Esses nazi coxas são uma piada de mal gosto!

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  2. leandro

    Só vocês pra ouvirem isso….
    Vou dar uma buscada e ver se acho por aí
    🙂
    De Cuba só conheço o chess

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