Por Davi Pascale

Comemorando três décadas de rock n roll, o grupo paulista Golpe de Estado solta novo álbum ao vivo. Repleto de convidados, CD aposta na fase clássica, apresenta nova voz da banda e demonstra uma sonoridade ainda mais próxima do heavy metal.

O Golpe de Estado teve sua fase de ouro na década de 80. Contando com a pegada àla Ian Paice de Paulo Zinner, as guitarras cortantes de Helcio Aguirra, o baixo afiado de Nelson Brito e o enorme carisma de Catalau, os caras formavam o time perfeito. Com um pé no underground e outro no mainstream, o grupo se destacava não apenas por sua habilidade técnica, mas também por suas composições fortes. Nem Polícia, Nem Bandido é, certamente, um dos grandes álbuns do rock brasileiro.

Infelizmente, nem tudo são flores em sua trajetória. Tentando largar o vício das drogas, Catalau se converteu e se afastou do mundo de estrela do rock. Depois de idas e vindas, Paulo Zinner saiu em 2010 para não mais voltar. A situação fica ainda mais delicada com a morte de Helcio Aguirra. Nelson Brito teve que carregar a tocha sozinho…

O show apresentado aqui abre com “Na Vida”, faixa do citado LP de 1989. E, de cara, temos uma demonstração do que irá se seguir. Uma banda afiada, com uma pegada alto astral, e uma dose extra de peso. A entrada de Marcello Schevano trouxe mais sujeira para o som do Golpe. O estilo do rapaz casou como uma luva no som do grupo, que soa empolgante. “Underground”, de seu LP de estreia, surge mantendo o ar rock n roll e abrindo espaço para o hino “Noite de Balada”, onde colocam o público para cantar junto.

Catalau e Rogerio Fernandes celebram a história da banda.

A situação do baixista não foi nada fácil. Boa parte dos fãs não aceitava o Golpe sem o Helcio e o músico chegou a encerrar as atividades por alguns meses, desiludido com o baixo publico nas apresentações. Depois de uma certa insistência de Rogério Fernandes, a banda voltou a cair na estrada. Aos poucos, o publico foi retornando e os músicos parecem, finalmente, terem estabilizado uma nova formação.

O setlist privilegia a fase clássica. Ou seja, os 5 primeiros álbuns. Mesmo assim,  não deixaram de trazer um som de seu mais recente álbum, Direto do Fronte, (a boa) “Feira do Rato”. Esse foi o único disco gravado com o atual baterista Roby Pontes. O estilo do Paulo Zinner era bem característico, ajudava a criar a identidade sonora do Golpe, contudo Roby vem fazendo um bom trabalho. Com menos quebrada de tempo, mais peso e um pouco mais de bumbo duplo, a entrada do músico deu uma nova cara à banda.

Os clássicos “Paixão” e “Filho de Deus” vêm na sequencia, levando o público ao delírio. Sério, para quem é fã, o set apresentado aqui é perfeito. O ar de festa retorna com tudo, com a participação do ex-vocalista Rogério Fernandes. Ao lado de João Luiz, relembra o clássico “Quantas Vão”, do álbum Zumbi. E, na sequencia, interpreta sozinho “Todo Mundo Tem Um Lado Bicho”. Uma das 2 únicas músicas que gravou ao lado do grupo.  Rogério sempre foi um excelente cantor e demonstra estar com a voz em dia. O dueto com João Luiz funcionou bem, já que possuem estilos similares.

Para quem está por fora, Rogério Fernandes vem se destacando na cena ao lado do (ótimo) Carro Bomba e decidiu focar no seu trabalho com a banda. João Luiz chegou a cantar em uma das reformulações do lendário Casa das Máquinas, mas ganhou destaque mesmo ao lado do (excelente) King Bird. Os 2 vocalistas cantam com voz rasgada, remetendo um pouco ao saudoso Ronnie James Dio nas partes altas. A escola musical é a mesma. Não tinha como dar errado. O primeiro CD se encerra com “Forçando a Barra” e “Cobra Criada”, dois sons extraídos de seu segundo LP.

 

Rogério Fernandes em ação.

Quando Catalau se afastou do Golpe pela segunda vez, no final dos anos 90, parecia que não havia mais chances de vê-lo no palco com esses caras. Seu primeiro álbum solo, auto-intitulado, trazia o musico com uma linguagem mais próxima da MPB. Mais ou menos na mesma época, o rapaz se tornou pastor evangélico. Seu segundo disco, Jesus Está Voltando, trazia as letras apostando no cenário gospel. Estando vivendo uma realidade tão distante, ninguém o imaginava no palco relembrando seus dias de Golpe de Estado, mas o impossível aconteceu.

O cantor tem aparecido em algumas apresentações recentes do conjunto (tive a oportunidade de assistir uma delas em São Caetano) e, é claro, deu as caras na noite de gravação. “Olhos de Guerra”, traz Catalau na voz e violão, além de contar com a participação especialíssima de Luis Carlini, um dos grandes guitarristas do rock brasileiro. Solo, como sempre, inspiradíssimo. Catalau ainda se mantém no palco para relembrar a balada “Caso Sério”, um de seus maiores sucessos, além de realizar um dueto ao lado do atual cantor  na porrada “Terra de Ninguém”.

O som da banda é bem honesto. O disco não soa repleto de overdubs (é até possível pegar um ou outro deslize em uma audição atenta) e o único musico adicional é o tecladista Mateus Schonaki, que entra e sai do set. Sem nenhum tipo de maquiagem, o grupo impressiona. Os músicos quebram tudo em “Mal Social”, antes de trazerem Catalau de volta ao palco para mais um set de 3 músicas: “Velha Mistura” ao lado de Rogério Fernandes, o lado B “Ignoro” e o  clássico “Real Valor”. Para quem acompanhou seu trabalho na época, ouvi-lo cantando esses sons novamente é, no mínimo, emocionante.

João Luiz: a nova voz da banda.

Os vocalistas Dino Linardi e Kiko Muller ficaram de fora da festa. Seria bacana ter uma reunião de todos os vocalistas que passaram pela banda, mesmo assim não dá para reclamar. A apresentação é fantástica. No set, faltaram pouquíssimas músicas. De cabeça, lembro apenas de “Dias de Glória”, “Pra Conferir” e “Sem Ser Vulgar”. O restante está tudo aqui. O resultado final, inclusive, soa mais forte do que o material apresentado em 10 Anos Ao Vivo.

A parte final do show fica com “Não é Hora”, “Onde Há Fumaça, Há Fogo”, “Nem Polícia, Nem Bandido” e “Libertação Feminina”. Essas 2 últimas, com a participação especialíssima de Andreas Kisser  (Sepultura). Final apoteótico.

O Golpe de Estado entregou aos seus fãs o disco que todos estavam esperando: o registro de uma apresentação completa, resgatando seus clássicos. A nova formação está entrosadíssima e o material está super bem gravado. Existe a promessa de um DVD com o registro dessa noite, o que seria super bem vindo, já que seria o primeiro registro em vídeo do grupo. O que temos aqui é uma aula de rock n roll, simples assim. Recomendado aos velhos e novos fãs.

Faixas:

CD 01:

  • Na Vida
  • Underground
  • Noite de Balada
  • Feira do Rato
  • Zumbi
  • Paixão
  • Filho de Deus
  • Quantas Vão
  • Todo Mundo Tem Um Lado Bicho
  • Forçando a Barra
  • Cobra Criada

CD 02:

  • Olhos de Guerra
  • Caso Sério
  • Terra de Ninguém
  • Mal Social
  • Velha Mistura
  • Ignoro
  • Real Valor
  • Não É Hora
  • Solo de Bateria
  • Onde Há Fumaça, Há Fogo
  • Nem Polícia, Nem Bandido
  • Libertação Feminina

4 comentários

  1. Alysson Fernandes

    Excelente resenha. Bem completa, percebe-se que o autor conhece à fundo a trajetória do Golpe. Achei o álbum muito bom. É bem superior ao “10 Anos ao Vivo” que apesar de conter a formação clássica parece que foi feito em estúdio, cheio de overdubs, a banda já desgastada, tanto q a parte ao vivo é com o Catalau e na época do lançamento o vocalista já era o Rogério Fernandes. “10 Anos ao Vivo” é o pior lançamento da banda à meu ver. Já esse novo honra o legado desta grande banda.

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    • Davi Pascale

      Obrigado! O 10 Anos Ao Vivo também me deu uma frustrada na época. Dizem que as 2 de estudio eram para terem sido gravadas pelo Catalau, mas que ele saiu fora antes das gravações. Pelo menos, serviu para ter um registro com o Rogério. O cara manda bem. Seria uma pena não ter nenhum registro dele com o Golpe.

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  2. Tiago Bittencourt França

    Muito bom. Sou fã das antigas do Golpe e esse ao vivo impressiona pelo setlist e pela qualidade da gravação. Realmente dá um pau no 10 anos. Segundo informações da página oficial da banda no Facebook, a versão em DVD está em processo de finalização e deve sair muito em breve. Não vejo a hora.

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