Por Davi Pascale

No último domingo (03/12) fomos surpreendidos por uma notícia extremamente triste. Cherry Taketani, figura importante da cena underground brasileira, veio a falecer. A notícia é um tanto quanto confusa. Cherry descobriu recentemente um câncer e logo em seguida veio a óbito. Coisa de poucos dias. Certamente, descobriu a doença tarde demais. O que é uma pena. Ninguém sabe sua idade ao certo, já que ela não falava, mas não precisa ser um gênio para saber que ela ainda tinha bastante tempo pela frente. Ninguém sabe também em que região do organismo se manifestou a doença. Como disse, tudo um pouco confuso. Mas vamos falar de música, que é mais bacana…

O primeiro LP do Okotô foi lançado em 1990 e deixava claro já na capa que André Fonseca e a japonesa Cherry lideravam o conjunto. Lançado pelo selo Eldorado, o disco explorava elementos da cultura oriental e trazia um som mais soft, flertando com a eletrônica. Tudo mudaria três anos depois com o segundo álbum do conjunto, o cultuado Monstro. As letras passaram a focar o inglês, o volume das guitarras subiu, a agressividade tomou conta da voz de Cherry, o visual ficou mais rocker. Começava uma nova fase na carreira do Okotô.

Dessa vez, a produção do álbum não ficou mais a cargo da dupla e, sim, do irreverente Carlos Eduardo Miranda. Quem conhece seus trabalhos no estúdio (seja ao lado do Raimundos ou do Volkana) sabe que ele não é de super produções. O que temos aqui é um som nu e cru. Não conheço profundamente a história da gravação do disco, mas não me surpreenderia saber que esse material foi gravado ao vivo. O lado bom? Não havia nenhum tipo de controle no volume das guitarras. O lado ruim? A falta de grave.

O LP abre com “Give Me Your Money”, uma das mais lembradas do álbum graças à seu videoclipe que era exibido à época na MTV brasileira. Em especial, no programa de Gastão Moreira, Fúria Metal. O ponto alto da música são os riffs de guitarra. Em “How Should I Know” se sobressaem os vocais quase epilépticos de Cherry, além dos solos fritados. No arranjo cadenciado é perceptível a influência do thrash metal. “Mente Suja” se destacava pelos efeitos de voz, enquanto “No Way Out” já deixava claro a influencia da cena punk/hardcore.

No encarte, temos uma foto preto e branca com os músicos com os rostos meio distorcidos. Curioso que vários artistas estavam fazendo imagens com essas características nessa época. Tanto em videoclipes, como em fotos promocionais. Até mesmo na capa dos discos. A ideia da capa de Músicas Calmas Para Pessoas Nervosas do Ira! é meio por aí. Inclusive, ambas as imagens foram produzidas pela mesma mente, o fotógrafo Rui Mendes.

O disco é rápido. Oito músicas distribuídas em menos de 20 minutos de porradaria. “Heart Attack” é a mais agressiva do álbum. Uma faixa que poderia facilmente ter sido gravado pelo Sepultura na época. O grande destaque, contudo, não apenas do lado B, mas do disco como um todo é a excelente versão de “Whole Lotta Rosie”. Clássico do AC/DC que conseguiu chamar a atenção na ocasião, inclusive sendo escolhida para embalar a (cultuada) coletânea Teen Spirit que trazia os grandes nomes do selo. A voz de Cherry combinou bem com a canção.

Nos anos 80, tivemos o heavy metal chegando com força no Brasil e nos brindando com nomes como Viper, Korzus e Sepultura. Nos anos 90, tivemos o alternativo com nomes como Pin Ups, Yo-Ho-Delic e Killing Chainsaw se destacando. Mas e aí? Onde entra o Okotô? Metal ou alternativo? Difícil definir em uma palavra o som que faziam aqui. Já vi gente definindo como rock alternativo, gente definindo como heavy metal e gente definindo como punk. Na verdade, pego elementos dos três gêneros. Diria que é uma mistura, muito bem feita, por sinal, desses 3 universos.

Algo é indiscutível, contudo. Monstro colocava Cherry dentro da cena metálica de vez, de onde nunca mais sairia. Além de continuar mantendo a pegada mais agressiva na volta do grupo em 2000 (que originou o bom CD Cobaia), a japonesa nervosa continuaria a chacoalhar sua cabeleira em grupos como Hellsakura e Nervochaos. Acredito que a melhor forma de homenageá-la seja resgatando seus discos e ouvindo no último volume. E aí? Vamos nessa?

Tracklist:

  1. Give Me Your Money
  2. How Should I Know
  3. No Way Out
  4. Mente Suja
  5. Godzilla
  6. Heart Attack
  7. Stormy Night
  8. Whole Lotta Rosie

2 comentários

  1. Mairon

    Belíssima matéria, e um disco fundamental na música nacional. Linda homenagem Davi, parabéns!

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