Matérias mais acessadas da história do Consultoria do Rock: Dezembro de 2011

7 de Fevereiro, 2013 | por micaelmachado
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Durante os meses de janeiro e fevereiro, o blog estará de férias, por isto estaremos publicando novamente as matérias mais acessadas a cada mês nestes dois anos de Consultoria do Rock, sempre às terças, quintas e sábados. Chegamos ao mês de dezembro de 2011.
Em dezembro de 2011 foram publicadas trinta e duas matérias, sendo a mais acessada até o final de 2012 esta, por Amancio Paladino:
Por que Iron Maiden? Parte 3: Escravo do Poder



Por Amancio Paladino

Capítulo de hoje: Powerslave, o Escravo do Poder

Certamente, amigos leitores, chegamos a um dos pontos mais altos da série “Por que Iron Maiden”. Convido-os a ler este texto que revela de forma explícita muito sobre o Iron Maiden. Para as mentes curiosas e inteligentes será um deleite, para os fãs, leitura obrigatória e para os não tão fãs, um vigoroso exercício de criatividade. 
Por mais incrível que possa parecer, muitos fãs creem que o Maiden não é somente uma banda de metal, atribuindo ao conjunto um caráter transcendental e muitas vezes religioso. De onde viria essa ideia que associa a música do Maiden com religião? Chamar o grupo de religião é tão forte que causou espanto ao velho e bom Nicko, quando o mesmo se deparou com faixas afirmando “Iron Maiden is my religion” nas últimas turnês. Mas seria isso realmente um motivo de espanto (confesso que também fiquei muito surpreso!) ou seria a consequência do modo com o qual o Maiden se apresenta ao seu fiel público?
Talvez a análise a seguir permita ao leitor elucidar o sentido de tal associação e por onde ela começou. 
Powerslave: O Escravo do Poder
Capa de Powerslave e as possíveis semelhanças com símbolos existentes nas notas de dólar
Certamente Powerslave (lançado em 03/09/1984) é o álbum mais emblemático dentre todos os já lançados pelo Maiden. Todas as músicas referem-se a pessoas que, por um motivo ou outro, ficaram à mercê de fatos, situações e problemas muito maiores que o próprio poder de solucioná-los. Porém, este artigo não é sobre todo o disco em si, mas sim sobre a música que lhe dá o título: “Powerslave”. 
Confesso que, enquanto escrevo, estou escutando-a e curtindo o famoso riff em estilo árabe/egípicio acompanhado pela voz do mestre Dickinson. “Powerslave” retrata os momentos finais da existência de um faraó no Egito antigo. Naqueles tempos, a teocracia era o regime da região e os faraós eram a peça central nesse teatro de poder. Não eram somente os reis do Egito, mas, antes de tudo, eram reverenciados como representantes do deus supremo, Osíris. Eram tidos como deuses vivos pelo seu povo. 
Sua letra traz para o ouvinte o paradoxo gerado pela situação do faraó: como um deus vivo pode morrer? Ao chegar aos seus momentos finais, o homem que ao longo da vida foi tratado de forma divina entende que o destino de sua alma é unir-se novamente a Osíris através da morte de seu corpo físico. Ele finalmente percebe que, apesar de seu enorme poder em vida, tudo que ele fez e conquistou foi na verdade uma obra do Deus supremo que lhe deu a vida. Seu futuro, portanto, é inexorável, restando-lhe apenas passar seu trono para seu sucessor. 
O faraó se vê como apenas um joguete nas mãos de um poder muito maior que o seu: o poder da Morte, o poder de Osíris, governante supremo do submundo (qualquer semelhança deste conceito com a capa do disco The Number of the Beast não é mera coincidência). Ele foi e sempre será um “escravo do poder”.
Capa de The Number of the Beast, mostrando os diversos níveis de um joguete
Dada esta explicação (mais destinada aos iniciantes), convido-os a prosseguir na análise detalhada da letra da música e dos conceitos por trás de cada trecho. 
Anúbis
Mas, antes disso, é muito importante, mas muito importante mesmo, que o leitor deste artigo saiba que a música tem a letra assinada pelo mestre Bruce Dickinson. É também importante relembrar que, além de aviador profissional, esgrimista, roteirista, escritor, ator, apresentador e frontman do Iron Maiden (ufa!), ele é um historiador (uau!), tendo cursado faculdade de História na Queen Mary’s College de Londres. Não espere simplicidade na letra… Ela é profunda, e contém conceitos encontrados nos escritos religiosos do Livro da Morte Egípcio e nos escritos achados em sarcófagos e tumbas faraônicas. 
O INÍCIO DA MÚSICA
Primeiro, ouve-se o vento, coiotes uivando ao longe e uma risada gutural anunciando a chegada do deus da Morte, Anúbis, responsável pelos mortos na passagem para o além. 
ANÁLISE DA LETRA 
Into the abyss I’ll fall – the eye of Horus 

(No abismo eu cairei e o Olho de Hórus,) 

Into the eyes of the night – watching me go 

(Entre os olhos da noite, me observando partir)
Olho de Hórus
Comentário: Logo após a morte, a alma do faraó cai em um abismo de escuridão. No raiar do Sol do dia seguinte inicia-se a jornada pelo além. O início da jornada consiste em atravessar o portal de um enorme templo sobre o qual está o Olho de Hórus, símbolo da religião Egípcia e tido até hoje como signo de sorte e proteção. 
Green is the cat’s eye that glows – in this temple 

(Verde é o olho do gato que brilha neste templo) 

Enter the risen Osiris-risen again. 

(Entra Osiris, o ressuscitado duas vezes)
Bastet (esquerda) e Osíris (direita)
Comentário: Ao passar pela entrada do templo, a alma depara-se com a imagem de um gato de olhos verdes, animal representativo da deusa Bastet, que no Egito antigo era utilizado como amuleto para proteger casas e templos. Adentrando o templo, a alma depara-se com a imagem de Osíris, deus supremo do antigo Egito. É neste momento que a revelação final surge para o faraó: como homem-deus, filho do Sol e apadrinhado de Hórus, ele deveria se juntar a Osíris e voltar a ser parte da divindade, deixando de existir para todo o sempre como humano, sendo apenas lembrado como um nome. 
Tell me why I had to be a powerslave 

(Me diga por que devo ser um escravo do poder) 

I don’t wanna die, I’m a god, why can’t I live on? 

(Eu não quero morrer, eu sou um Deus, por que não posso continuar vivo?) 

When the Life Giver dies, all around is laid waste. 

(Quando o provedor morre, tudo se perde) 

And in my last hour, 

(E no meu momento final) 

I’m a slave to the power of death. 

(Eu sou um escravo do poder da morte) 
Comentário: Esta é a ladainha do faraó que sofre por não querer retornar a Osíris, abdicando de seu poder terreno. Porém, a recusa frente ao fato é fútil, e o poder da morte vencerá. 
When I was living this lie – fear was my game 

(Enquanto eu vivia essa mentira, o medo era meu jogo) 

People would worship and fall – drop to their knees 

(O povo me louvava e caía de joelhos) 

So bring me the blood and red wine for the one to succeed me 

(Então tragam o sangue e o vinho tinto para aquele que me suceder) 

For he is a man and a god – and he will die too. 

(Pois ele é um humano e um Deus – e também morrerá) 
Comentário: Dado que o destino final é certo, só lhe resta passar o poder divino a seu sucessor, que na tradição egípcia deveria beber uma pequena parcela do sangue do faraó moribundo para adquirir as características de Deus-Homem. 
Now I am cold but a ghost lives in my veins, 

(Agora estou frio mas um espírito vive em minhas veias) 

Silent the terror that reigned – marbled in stone. 

(Silencioso o terror que reinou, esculpido na pedra) 

A shell of a man God preserved – a thousand ages, 

(Uma casca de homem-deus preservada por milhares de anos) 

But open the gates of my Hell – I will strike from the grave. 

(Mas que se abram os portões de meu inferno, pois eu retornarei da tumba) 
Comentário: Fica clara a separação entre corpo físico e alma, para os egípcios Ka e Ba. O corpo morto e mumificado do faraó será preservado, colocado num sarcófago de pedra com sua história esculpida e sua alma poderá seguir para juntar-se a Osíris e… 
… quem sabe um dia retornar da tumba. 
COMENTÁRIOS FINAIS 
Esta música de Dickinson, que abusa da simbologia e do conhecimento da religião Egípcia, iniciou uma nova era no Iron Maiden. Uma era marcada pelo uso do símbolo máximo da religião do antigo Egito em praticamente todas as aparições da banda. A World Slavery Tour obviamente utilizou de toda a simbologia Egipcia, mas o olho de Hórus ficou como sendo praticamente mais uma marca registrada da banda. O olho que tudo vê, o olho do Deus Falcão, filho de Osíris e Ísis, se repete até os tempos atuais nas capas, palcos e materiais de divulgação da banda.
Trata-se de um símbolo milenar,conhecido também como Wadjet. Se dividido em partes, podia ser utilizado como hieróglifos para frações e para os sentidos humanos: ao somar-se as frações, chega-se próximo da unidade; ao somar-se os sentidos, chega-se nas percepções do ser humano… Muitas eram as interpretações e muitos os sentidos para esta figura, não sendo de todo estranho, apesar de espantoso, que alguns chamem o Maiden de religião.



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